Editorial 7M – Marega: o grande golo da dignidade e da coragem

| 19 Fev 20

Francisco Rebolo, Futebol (1936). Óleo sobre tela. Colecção particular. Pintura reproduzida no blogue Arte e Blog – Pinturas de Futebol

O caso do futebolista Moussa Marega foi caso não porque houve insultos de teor racista, mas porque o atleta decidiu não engolir e calar, como tem sido prática. Decidiu subverter as regras do jogo, rompendo a barreira dos que pretenderam impedi-lo e sendo ainda castigado pelo atrevimento de abandonar o campo.

Toda a gente que vai aos estádios sabe que são frequentes os comentários e insultos, incluindo de cunho racista, como os que ele ouviu desde o início do desafio; mas prefere-se fazer de conta que não acontece nada ou que se trata de excessos próprios dos contextos de jogo. Nestes dois dias, aliás, continuámos a ouvir declarações desculpabilizadoras de dirigentes desportivos ou discursos políticos que apenas responsabilizam agentes do desporto por aquilo que se tem passado. Aceita-se, aliás, como normal, que um insulto ensaiado por claques e gritado durante o jogos possa ouvir-se sem que nada suceda.

O futebol, tal como os restantes desportos de competição, podem ser grandes momentos de prazer estético e de trabalho de equipa. Mas há muito que aparece toldado e comprometido por lógicas de poder e de feroz competição, em que o jogar bem cede em toda a linha perante a lógica da vitória a qualquer preço. E esse exemplo de anti-desportivismo, dado por dirigentes e treinadores desportivos, comentadores encartados, gestores de interesses dos jogadores e detentores de direitos de transmissão televisiva acabam por contaminar os associados. As claques e os fãs o que querem é vitórias, mesmo que a poder de dinheiro.

Não se podendo meter tudo no mesmo saco, naturalmente, esta é a lógica dominante num sector cada vez mais hegemonizado pelo mercado. E é neste ambiente e nesta cultura que importa compreender as práticas de muitas claques, onde desaguam, a par de uma clubite híper-estimulada, todo o tipo de frustrações, misérias, promessas e sonhos. Veja-se o que se passou não há muito na Academia de Alcochete.

Convém, assim, ter em conta que o que se passa nos estádios e à volta deles só pode ser compreendido quando colocado na sua relação com a miséria da vida quotidiana de tantos cidadãos, na precariedade do trabalho e do presente, na ausência de perspectivas para o futuro.

Este fenómeno também não pode ser desligado de fenómenos associados a boa parte das praxes universitárias e militares e do ambiente opressivo que predomina em tantas empresas, que exprimem e alimentam ‘culturas’ de prepotência e servilismo e de degradação da condição humana. Nem se pode desligar da violência que cresce em todos os âmbitos da vida social – nas relações interpessoais como na política, nas estruturas laborais e profissionais como religiosas. Ou seja, a violência doméstica, a violência no desporto, a violência no namoro, a violência verbal na política ou nas redes sociais, ou a violência xenófoba são apenas diferentes revelações de uma mesma realidade que tem vindo a crescer nas nossas sociedades.

Não basta, por isso, ser “sempre contra o racismo, em todos os momentos em que ele se revele”, como defendia há dias um clube de futebol, na manifestação de solidariedade com o jogador Marega. Ainda que combater os fogos que aqui e ali se ateiam seja necessário, é preciso ir mais fundo, para evitar as condições que geram os incêndios.

O combate ao racismo e à impunidade com que se espezinha o outro passa muito pela educação (que deve substituir a estratégia da competição pela lógica do trabalho em equipa e do respeito pelo outro) e por medidas que mostrem que a sociedade não pactua com aquilo que a dilacera e fecha sobre si.

É, acima de tudo, crucial cultivar o respeito integral por cada pessoa e pela dignidade intrínseca que tem por ser pessoa (e não por qualquer adereço secundário) o que carece de ser cultivado desde muito cedo. É fundamental conhecer testemunhos da história, daqueles que lutaram e continuam a lutar contra a discriminação e o racismo, como Mandela, Rosa Parks ou Martin Luther King; é fundamental aprender a não pactuar com atos, discursos e gestos que ferem a dignidade humana.

E é por isso que o que Marega fez no domingo foi transcendente. Porque foi um gesto que, se não tivesse existido, tinha deixado tudo no ponto em que estava. Porque nos fez tomar consciência do que somos e do tanto que temos ainda para andar. Nessa medida, foi um gesto redentor. Foi verdadeiramente um golaço, o grande golo da dignidade e da coragem.

Artigos relacionados

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Suécia: Católicos e Luteranos unidos em primeiro retiro ecuménico online novidade

O bispo católico de Estocolmo e a bispa luterana de Uppsala organizaram um retiro espiritual ecuménico onde poderão participar fiéis de ambas as igrejas. O encontro decorrerá online e tem como objetivo que católicos e luteranos “rezem juntos e mergulhem numa dimensão espiritual num momento que é de stress e preocupação”. De acordo com o Vatican News, a iniciativa de Anders Arborelius e Karin Johannesson (referida pelo portal do Vaticano como “episcopisa”) é “inédita”.

Igreja organiza seminários virtuais sobre proteção de menores novidade

“Por uma Igreja mais segura” é o lema de uma série de webinars dedicados à proteção de menores que se inicia esta sexta-feira, 29 de maio, no site da Pontifícia Universidade Gregoriana. Organizados pela Conferência Internacional de Salvaguarda, os encontros virtuais dirigem-se a todos os profissionais da Igreja ou de instituições a ela ligadas e pretendem ser um contributo para o reforço das boas práticas na área da proteção de menores, em todo o mundo.

Este sábado, católicos rezam terço com o Papa para enfrentar a pandemia novidade

O Papa Francisco vai rezar o terço este sábado, 29 de maio, pelas 16h30 (hora de Portugal), a partir da gruta de Lourdes, nos jardins do Vaticano, e a ele estarão unidos santuários marianos de todo o mundo. A oração global, que tem como principal intenção “invocar a intercessão da Virgem para o fim da pandemia”, poderá ser seguida através do Facebook e do Youtube, e contará com comentários em português, anunciou o Vatican News.

Guterres manifesta “profundo reconhecimento” ao Papa Francisco novidade

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, expressou, numa entrevista exclusiva aos meios de comunicação do Vaticano, o seu “profundo reconhecimento ao Papa Francisco” pelo apoio dado ao apelo de cessar-fogo global, mas confessou que, apesar de ter recebido também o apoio de inúmeros governos, instituições, outros líderes religiosos, e até de grupos armados, “a desconfiança continua a ser grande e é difícil traduzir estes compromissos em ações que façam a diferença”.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Inimigos e rivais de longa data unem-se contra um adversário maior

Inimigos e rivais de longa data unem-se contra um adversário maior

Ofertas de material hospitalar ou de protecção, troca de pessoal médico, um judeu e um muçulmano que param ao mesmo tempo para rezar juntos e uma música gravada para apoiar uma organização de voluntários judeus, muçulmanos e cristãos. A pandemia serve também para que rivais, inimigos ou “diferentes” colaborem uns com os outros e esqueçam divergências.

É notícia

Entre margens

A Senhora mais brilhante do que o Sol novidade

Quem é afinal Maria de Nazaré, a escolhida por Deus para encarnar a nossa humanidade? Os Evangelhos referem-na poucas vezes. Esse silêncio dá mais espaço à nossa criatividade e até a um certo empossamento da Mãe de Jesus. Em torno da sua figura construímos aquilo a que poderíamos chamar “questões fraturantes” entre cristãos. Mais importante que dogmas e divergências é atendermos à figura de Maria. Quem é que ela é, ou pode ser, para nós?

Evangélicos e Chega: separar as águas novidade

Em todo o debate público levantou-se novamente a questão da identidade evangélica, cuja percepção é complexa até para os próprios evangélicos e sobretudo para a maioria dos portugueses, cuja cultura religiosa é essencialmente católica-romana. Grande parte da percepção pública dos evangélicos deriva dos soundbites brasileiros e norte-americanos, onde há de facto lobbies evangélicos e ultra-conservadores, como a “Bancada Evangélica” ou o “Tea Party”. A isso, acrescenta-se a difusão dos canais de televisão e rádio neopentecostais, o que colabora para a criação de estereótipos sobre os evangélicos no seu todo.

“Fake religion”

Para que uma falsificação faça sentido e seja bem-sucedida tem que juntar pelo menos duas condições. Antes de mais, o artigo a falsificar tem de estar presente no mercado e em segundo lugar tem que representar valor comercial. Ora, o mercado religioso existe e está bem de saúde, para desespero dos neo-ateístas. E de cada vez que surge uma catástrofe, uma guerra ou uma pandemia mortal a tendência geral dos indivíduos é para recorrerem ao discurso religioso, procurando encontrar aí um sentido para o drama que estão a viver, porque o ser humano necessita de encontrar um sentido no que vê e sente acontecer à sua volta.

Cultura e artes

“Travessia com Primavera”, um exercício criativo diário novidade

O desafio partiu da Casa Velha, associação de Ourém que liga ecologia e espiritualidade: um exercício artístico e criativo diário, a partir da Bíblia. Sandra Bartolomeu, irmã das Servas de Nossa Senhora de Fátima, apaixonada pela pintura, aceitou: “Algo do género, entre a oração e o desenho – rezar desenhando, desenhar rezando ou fazer do desenho fruto maduro da oração – já emergia em mim como um apelo de Deus, convite a fazer do exercício do desenho e da criação plástica meio para contemplar Deus e dar concretude à sua Palavra em mim”, diz a irmã Sandra. O 7MARGENS publica dez aguarelas resultantes desse exercício.

A poesia é a verdade justa

“A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha”, escreve Sophia de Mello Breyner na sua Arte Poética III. Foi destas palavras que me lembrei ao ver o filme Poesia do sul coreano Lee Chang-dong, de 2010

Hinos e canções ortodoxas e balcânicas para a “Theotokos”

Este duplo disco, Hymns and Songs to the Mother of God reúne, como indicado no título, hinos bizantinos (o primeiro) e canções tradicionais (o segundo), dedicados à Mãe de Deus. O projecto levou três anos a concretizar, entre a recolha, estudo e gravação, como conta a própria Nektaria Karantzi na apresentação.

O perdão, a maior alegria de Deus

Há experiências cuja reflexão sobre elas exige humildade e coragem: experiências que marcam a nossa história e o nosso quotidiano, e das quais qualquer pensamento pode pecar pela superficialidade ou pelo idealismo. O perdão é uma dessas experiências. É por isso um ato de coragem a proposta – tão breve como significativa! 112 páginas em formato de bolso – do monge italiano Enzo Bianchi.

Sete Partidas

Retrospectiva

Regresso algures a meados de 2019, vivíamos em Copenhaga, e recupero a sensação de missão cumprida, de alguma forma o fechar de um ciclo ao completarmos 10 anos de vida na Dinamarca e nos encontrarmos em modo de balanço das nossas vidas pessoais, profissionais e também da nossa vida interior. Recordo uma conversa com uma querida amiga, onde expressei desta forma o meu sentimento: “a nossa vida aqui é boa, confortável, organizada, segura, previsível, mas não me sinto feliz.”

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco