Eduardo Lourenço (1923-2020): O pensador levantou-se mais cedo para tentar apanhar Deus

| 2 Dez 2020

Ficou por entregar pessoalmente o Prémio Árvore da Vida, que lhe foi atribuído pela sua busca de uma sabedoria trágica da vida porventura conciliável com a vivência eclesial da Fé” e a “incomensurável Transcendência divina”. O pensador, ensaísta e professor Eduardo Lourenço morreu na madrugada de dia 1, em Lisboa. O funeral é nesta quarta-feira. Portugal, a Europa, a literatura e a poesia, a música e o cinema foram objectos da sua atenção fina e crítica. Como também o cristianismo, experiência e matriz da qual nunca de desligou e que considerava a “grande revolução humana que se operou na história” cujos efeitos ainda “nem sequer começaram.”

Eduardo Lourenço. Quadro de Botello, reproduzido da Wikimedia Commons.

 

A frase escrita por Eduardo Lourenço é citada por José Carlos Seabra Pereira, director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC): “Há dias em que madrugamos e julgamos que vamos apanhar Deus. Em vão: Deus levanta-se sempre mais cedo!…”. Diz o director do SNPC que esta afirmação traduz “aquele inconfundível matiz de humor que por vezes punha nos mais fundos confrontos com a gravidade da vida”. E que “hoje [terça, dia 1], bem cedo, partiu, pôs-se a caminho da reintegração na plenitude ontológica, para ser acolhido anterianamente “Na mão de Deus, na Sua mão direita…

Eduardo Lourenço morreu na madrugada desta terça-feira, 1 de Dezembro, em Lisboa. O funeral realiza-se nesta quarta-feira, dia 2, às 12h, com eucaristia no Mosteiro dos Jerónimos presidida pelos cardeais Manuel Clemente, patriarca de Lisboa, e Tolentino Mendonça, bibliotecário do Vaticano.

Depois de ter sido Prémio Camões (1996) e Prémio Pessoa (2011), entre muitas outras distinções e galardões, o SNPC foi o último organismo a decidir entregar um prémio ao ensaísta, pensador, filósofo e professor: o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, decidido em Abril por unanimidade do júri, pouco mais de um mês antes de completar 97 anos. Ficaram por entregar pessoalmente a escultura de Alberto Carneiro e os 2500 euros em dinheiro que assinalam o prémio, criado para reconhecer o percurso de personalidades que se distingam pelo nível de conhecimento ou criatividade estética da sua obra e que reflictam o humanismo e a experiência cristã.

 

Obras (in)completas

Tempo e Poesia, um dos volumes já publicados das Obras Completas.

Na altura, numa reacção escrita à Rádio Renascença – Lourenço já se encontrava doente – manifestava “grande surpresa”, mas também “grande satisfação e honra” e ironizava: “Já não estou em idade para receber prémios”. Essa satisfação e honra, explicava, eram não tanto por si “mas pela grande admiração” que tinha pelo Padre Manuel Antunes, de quem dizia ser “velho amigo” e “que sempre cultivou a exigência crítica e deixou uma obra notável”, a que Lourenço diz “voltar sempre com grande proveito”.

Num texto sobre Manuel Antunes (1918-1985), publicado no volume Requiem Para Alguns Vivos das Obras Completas, escreve Lourenço que o pensamento filosófico do padre jesuíta traduzia ao mesmo tempo as expressões históricas e a “paixão do Absoluto que se nos define como Verdade e aceitação do relativo que impede a Verdade de se transformar numa realidade que ofusca mas não salva”.

A proximidade entre ambos pode notar-se, também, pelas suas características de pensadores globais e holísticos. Lourenço, como Antunes, não deixou nada de fora nos seus percursos literários, ensaísticos, reflexivos: Portugal, a Europa, o Brasil; Eça de Queiroz e Fernando Pessoa; Jorge de Sena e Vitorino Nemésio; Camões e Antero; o neo-realismo e o cinema; a poesia e a literatura; a música e as artes; a política e a cultura; a educação e a sociedade…

Em 2011, a Fundação Calouste Gulbenkian iniciou a publicação das Obras Completas – se é possível falar disso relativamente a alguém a quem tudo “servia de pretexto para longas e admiráveis falas (uma expressão envolvente, a que não faltava nem o achado de linguagem nem a inesperada/inspirada ‘saída’ fora dos cânones), nas quais a sua excepcional cultura era sempre um cais de partida mas nunca um ponto de chegada. O que significa que boa parte da sua obra ficará inédita…”, como notava o Jornal de Notícias num texto sobre Lourenço, com o título “Uma vida de livros e solidão de afectos”.

Até ao momento, foram já publicados nove volumes, de uma colecção que prevê pelo menos duas dezenas deles, e que está a ser organizada a partir do Acervo Eduardo Lourenço, depositado na Biblioteca Nacional. “Como conversador – com os amigos, em conferências, lições e intervenções (que, em geral não preparava muito, limitando-se a umas notas manuscritas), ouvi-lo era deslumbrante”, recorda o texto citado.

 

“Nunca mais se arranca esta matriz”

Eduardo Lourenço em 2015: “A minha família era organicamente catolicíssima, tive uma mãe piedosa, até mais do que isso.” Foto: Manuelvbotelho/Wikimedia Commons.

O mais velho de cinco rapazes e duas raparigas, Eduardo Lourenço de Faria nasceu em S. Pedro do Rio Seco, pequena freguesia em Almeida, a 23 de Maio de 1923. Num tempo em que não havia água nem luz e a escola para lá do ensino primário era improvável. O pai, Abílio de Faria, foi militar e uma referência mais ausente, enquanto a mãe, Maria de Jesus Lourenço, o educou num ambiente de “profunda religiosidade”, dizia ele, citado por Luís Miguel Queirós no Público (texto só para assinantes).

“Quando se teve esse tipo de formação, ela fica sempre no fundo de nós. E a minha família era organicamente catolicíssima, tive uma mãe piedosa, até mais do que isso. Uma pessoa nunca mais arranca desta matriz.” Uma das irmãs, aliás, seguiria a vida religiosa, tornando-se carmelita, num mosteiro em Belém do Pará (Brasil).

O nascimento de Eduardo foi registado seis dias depois. Um facto que o levaria a dizer, como acontece no início do filme O Labirinto da Saudade, de Miguel Gonçalves Mendes (2018): “De modo que estive seis dias fora do tempo, e assim fiquei sempre…

Da aldeia Natal para a Guarda, dali para o Colégio Militar em Lisboa e depois para a Universidade de Coimbra e, finalmente, para França, o Brasil, de novo França, onde viveu grande parte da sua vida, ensinando em universidades – nomeadamente em Nice, depois de casar em 1953 com Annie Salomon, francesa da Bretanha que morreu em 2013 – a sua vida foi um desassossego e um desalinho permanente.

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