Eduardo Lourenço, pensar livre…

| 3 Jan 21

“Quando hoje lemos os seus textos luminosos, apercebemo-nos de que soube sempre distinguir o essencial”. Eduardo Lourenço, Quadro de Botello, reproduzido da Wikimedia Commons.

 

Muito se tem dito sobre o pensador e o ensaísta, mas persiste a tentação do lugar comum e da simplificação. Em França, há poucos dias, a revista “Esprit” salientou a importância da reflexão do autor em torno do humanismo universalista – e, recordando o título da antologia publicada pela Gallimard, lembra uma “vida escrita”, na senda de Montaigne (a que a cultura portuguesa se mostrou pouco atenta), em que o pensador da cultura portuguesa surge como um intérprete intuitivo sobre a projeção em Portugal da evolução da cultura europeia.

Eduardo Lourenço é uma das grandes referências das culturas de língua portuguesa. O ensaísmo que cultivou, na senda de Montaigne e em diálogo com António Sérgio e Sílvio Lima, mas também com Unamuno e Ortega, é uma marca indelével que ficará como um sinal marcante da democracia portuguesa. No seu percurso riquíssimo – desde S. Pedro de Rio Seco a Nice, passando pelo Colégio Militar, pela Universidade de Coimbra, pela criação da revista Vértice, pelo exílio cultural de Heidelberg e da Bahia até Vence –, sempre teve uma participação marcante em fértil ligação com a literatura portuguesa, sobre que refletiu exaustivamente.

Foi um heterodoxo, significando essa atitude política e cívica um desalinhamento que expressou o culto da liberdade de espírito. A sua escrita é única e inconfundível, revelando com linguagem poética uma extraordinária intuição nas análises dos principais autores do século XX. Não houve autor ou corrente relevantes que lhe tenham passado despercebidos. Na geração de O Tempo e o Modo pôde fazer análise crítica com inteira independência, descobrindo a melhor qualidade dos autores, independentemente de escolas, e distinguindo-a do “espírito do tempo”.

Quando hoje lemos os seus textos luminosos, apercebemo-nos de que soube sempre distinguir o essencial. Nesse ponto, foi um devoto seguidor de Antero de Quental e da sua geração, que nunca considerou como vencida, mas como renovadora e audaciosamente crítica. Pode dizer-se, assim, que na linha de Garrett e Herculano considerou a cultura portuguesa como rica mercê do diálogo entre tradição e inovação, entre identidade e diversidade, mas sempre estimulada pelos desafios da exigência e da modernidade, ciente das suas limitações e nunca condenada de antemão por qualquer fatalismo…

Uma das visitas mais fascinantes que fiz ao Museu do Prado foi na companhia de Eduardo Lourenço. Não me lembro de quanto tempo estivemos juntos, percorrendo as salas de um modo totalmente desprendido, esquecidos das horas e do tempo. Aconteceu como nos velhos contos medievais em que um minuto se torna mil anos, como com o monge que se distraiu a ver a paisagem e ao voltar já não conhecia os companheiros do convento, pois tinha passado um ror de tempo naquele minuto esquecido. Acho que estivemos duas ou três horas, pouco importa, a verdade é que Eduardo movia-se avidamente, com o prazer supremo de interrogador incessante, entre aquelas pinturas como se estivéssemos num labirinto.

Começámos, ao acaso, por Velásquez, e depressa fomos transpostos para o espírito espanhol, para Quixote e Unamuno, um e o outro encontravam-se e desencontravam-se nesse discurso incessante, como se trocassem de personalidades, e como se a realidade se tornasse ficção e a ficção passasse para o lado de cá do espelho. Camões, Cervantes eram postos em confronto. A realidade peninsular, tão próxima e tão distante. Há sempre na reflexão de Eduardo Lourenço qualquer coisa de onírico. No concreto da pintura de Velásquez o que importava era ver o que não estava lá. Junto das Meninas interrogava-se sobre o fantástico. Tudo ali era real e misterioso, natural e forçado. Era a corte e a sua metáfora. E foi como que, de súbito, se estivesse diante de um romance, com o lado biográfico e o lado imaginoso, num momento em que a História pega asas e começa a sonhar com o que poderia ter acontecido.

Em frente de cada tela, Eduardo parava e dissertava ora sobre o que tinha acabado de ver na sala anterior ou sobre o quadro ali do lado, ora sobre o momento político que então se vivia (caíra o muro de Berlim e estávamos a debater o futuro do mundo e da América Latina na Casa da América, ali a dois passos em Cibeles). A política é um estranho ópio. E falou-se ainda de Fernando Pessoa, interrogação permanente sobre os nossos mitos. Eduardo Lourenço era um filómita e cultivava os mitos como modos de realizar a grande psicanálise mítica do destino português. A cultura é, para o ensaísta (discípulo de Montaigne e da sua pergunta sacramental “Que Sais-je?”), a vida, a encruzilhada entre a memória e o desejo, a recordação e a esperança, entre Garrett e Herculano, entre o Orpheu e a Presença.

Mas, de súbito, estávamos diante das telas mais dramáticas de Goya. Por um momento, todos os outros temas se calavam e vinha à ribalta a crueza desumana, o mistério e o absurdo da existência, o ser e o tempo, os grandes acontecimentos, que chocavam com o quotidiano mais comum – e Goya dividido entre o amor à terra e ao povo e o sonho da liberdade chegada com as tropas de Napoleão. O homem moderno vive na contradição e no paradoxo. Eduardo Lourenço, inesgotável, continuou naquele labirinto à procura da complementaridade entre a razão e o sentimento, entre o espírito e o corpo, entre o eu e o mundo todo dos outros.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian

 

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