Uma música instrumental. Ou sem música nenhuma. Talvez apenas uma parte de música que só toca dentro de mim. Deitada a olhar para o teto. Deitada a olhar para a copa de enormes árvores, melhor. Sentada numa sala à espera, sem janelas. Pode ser. Dá. Mais saboroso é a olhar uma vista bonita, parada. Talvez uns pássaros, talvez umas pessoas lá ao fundo. Não fazer nada. Quase sem pensar. Sem organizar, sem programar. Só existir.
Gosto da palavra “feito”. Em alemão digo “erledigt”. Palavras para cumprido, executado, resolvido, solucionado. Riscado da lista mental. Respiro. Feito. Mais leve.
Gosto de soluções. De preferência, rápidas. Uma vez ouvi numa entrevista à Alexandra Lencastre qualquer coisa como “Gosto de pessoas que, para um problema, encontram 10 soluções. Chateiam-me as que, para uma solução, arranjam 10 problemas.” Revi-me. Não será a maneira mais inteligente de se viver. De pessoas como eu não se faz o avanço do mundo. A ciência, a filosofia, não se fazem de pessoas assim. Para isso é preciso mais tempo, mais paciência, mais espera, mais questões.
Cumprido, executado, resolvido, solucionado. Riscado da lista mental. Respiro. Feito. Mais leve. Próximo.
O problema está no próximo. É difícil a pausa. Pausa. Nada. Agora não vou fazer nada. É um esforço. Requer disciplina. É uma decisão. Parece um disparate, porque, na verdade o ser humano seria muito apropriado para vaguear. Andar vagando, sem destino ou rumo certo. A errar. A passear ociosamente, entregando-se à vadiagem.
O Gregório Duvivier disse, numa entrevista, que a tecnologia na palma da mão, nos tirou o pouco tempo de ócio que já tínhamos. É-nos quase insuportável estar sem fazer nada, por preguiça. Preguiça, é uma palavra maravilhosa. Pasmar, é um verbo muito bom.
Depois de ouvir essa conversa falei com duas mulheres alemãs, em diferentes situações. Uma é atriz e a minha professora de alemão, uma amiga. A outra é uma psiquiatra que trabalha no mesmo hospital. Ambas ficaram espantadas com o tempo que já tinha passado desde a última vez que tinham ouvido “Muβe” (=ócio). E como é uma palavra extraordinária! Curiosamente em alemão é feminino, mais estranho ainda (1). Sorriram as duas, com gosto. Concordaram, é uma palavra a lembrar, “die Muβe”.
Observar as formas das sombras. Sentir o vento. Fechar os olhos ao sol. Abrir os olhos à noite. Que se lixe a eficiência, pelo menos agora.
(1) Só para evitar comentários tristes, a palavra trabalho, “Arbeit” em alemão também é feminina.
Inês Patrício é médica, vive em Berlim com o marido de olhos de mar e uma filha solar.










