Foi com surpresa, alegria e expetativa que recebi a notícia em 3 de outubro. Na história longa de 1400 anos do arcebispado de Cantuária, e depois de 105 arcebispos-homens, Sarah Mullally foi escolhida para liderar a Church of England. Uma mulher, pela primeira vez. Pelo que fui lendo, sabia que o caminho não tinha sido fácil, a partir do momento em que, no Sínodo Geral, a possibilidade da ordenação das mulheres foi aprovada (à justa), em 1992. E continua a não ser fácil, dentro e fora de Inglaterra. Mas esta escolha corajosa pode constituir um detonador de mudanças na estrutura eclesial anglicana e, quem sabe, atuar também como desestabilizador da estrutura clerical e patriarcal católica.
Na sua apresentação pública depois da nomeação, nada parecia distinguir Sarah Mullally – apesar do uso da camisa clerical roxa e da cruz ao peito – de uma mulher inglesa comum. Com quem nos cruzamos nas ruas de Londres, a cidade onde foi bispa nos últimos anos. Imaginei-a a apanhar o metro de manhã cedo para ir trabalhar, a encher um carrinho de compras no Sainsbury’s, a caminhar com o marido num parque ao fim do dia, a folhear livros novos numa livraria do bairro ou a vender rifas para uma charity numa feira de fim de semana. O primeiro sentimento que tive foi, pois, o de uma imensa proximidade com aquela mulher tão despojada e tão igual a tantas outras. Não tinha nem procurava “pose” de arcebispa, pensei, e que saudável isso era para nos sentirmos com vontade de a conhecer.

“Na sua apresentação pública depois da nomeação, nada parecia distinguir Sarah Mullally – apesar do uso da camisa clerical roxa e da cruz ao peito – de uma mulher inglesa comum. Com quem nos cruzamos nas ruas de Londres, a cidade onde foi bispa nos últimos anos.” Foto The Archbishop of Canterbury
Foi o que procurei fazer. Ouvi o discurso de tomada de posse – profundo, simples e pragmático. Começa com uma oração (…”one God, now and forever”). E depois estende-se por uma breve e incisiva abordagem de vários temas. O que a levou a aceitar o convite: responder ao chamamento de Deus e trazer Jesus Cristo para a nova missão, o que aliás esteve também na origem da sua primeira escolha (tornar-se enfermeira). Conhecer Cristo e levar esse conhecimento a outras pessoas no mundo. A experiência junto dos doentes, nos hospitais, prepararam-na para o novo papel. “Washing feet has shaped my Christian vocation: as a nurse, then a priest and then a bishop” (“Lavar os pés moldou a minha vocação cristã: como enfermeira, depois como presbítera e, por fim, como bispa.”)
Ouvir profundamente

“Num mundo tão desigual e turbulento, ameaçado na sua própria existência, enumera os sinais de Esperança que encontra no seu dia a dia em pessoas e comunidades que cuidam dos outros, daqueles mais vulneráveis, mais frágeis, mais marginalizados, ou daqueles que não têm voz.” Vincent van Gogh (1853–1890), O Bom Samaritano.
Num mundo tão desigual e turbulento, ameaçado na sua própria existência, enumera os sinais de Esperança que encontra no seu dia a dia em pessoas e comunidades que cuidam dos outros, daqueles mais vulneráveis, mais frágeis, mais marginalizados, ou daqueles que não têm voz. As quais, através dos seus gestos, difundem e partilham a mensagem do Evangelho. É Jesus Cristo, aquele que nos ensina a amar Deus, a amar os nossos vizinhos como a nós próprios, que constitui, afinal, a Esperança que muda a vida. A esperança é feita do amor infinito de um Deus que está connosco, no seio das nossas comunidades fraturadas. Pensei na importância de uma mensagem que centra a sua matriz nas escrituras e em Cristo, que é amor e esperança – pois significa voltar ao sítio e ao momento seminal em que tudo começou para nós.
Detém-se ainda cuidadosamente na questão sensível dos abusos de poder, de vária ordem, cometidos no seio da Igreja Anglicana e na sua incapacidade sistémica para os resolver (quando reportados) ou prevenir. A crise dos abusos é de uma enorme gravidade, considera, pois abalou devastadoramente a confiança de muitos crentes na instituição. Assegurou assim o seu compromisso inabalável para continuar a ouvir os sobreviventes e para criar uma cultura de segurança e de bem-estar para todos, lembrando de resto que este é um assunto que envolve a comunidade (e não apenas a hierarquia de uma organização).
Ser arcebispo/a é uma tarefa difícil e complexa, admite. Mas há na base uma coisa muito simples e que Sarah Mullally traduz na sua vontade em espalhar, partilhar a esperança que encontrou em Jesus Cristo e o que isso significa para nós, como indivíduos e como sociedade. E acrescenta, com firmeza: “Em cada etapa dessa jornada, através da minha carreira de enfermagem e do ministério cristão, aprendi a ouvir profundamente – os indivíduos e a suave inspiração de Deus – para procurar unir as pessoas e com elas encontrar esperança e cura”. E cita um tradicional provérbio africano, para ilustrar o seu empenho em trabalhar sempre em equipa: “”If you want to go fast, go alone; if you want to go far, go together.” (“Se queres ir rápido, vai sozinho. Se quiseres ir longe, vai acompanhado”).
E o que significa, para si, ser uma mulher a liderar a Igreja de Inglaterra e a Comunhão Anglicana? “Tenciono ser um pastor que permite que o ministério e a vocação de todos floresçam, seja qual for a tradição”, responde assertiva.
A importância de Jesus Cristo e dos Evangelhos

“Como enfermeira no hospital, aprendeu a estar com as pessoas mais frágeis, nos seus momentos mais difíceis, a ouvi-las com profundidade, sentindo-se por vezes uma espécie de “mãos de Cristo” que oferecem compaixão, cuidado e muitas vezes cura.” Foto © Stephen Andrews / Unsplash
Houve dois aspetos que me impressionaram nesta intervenção. Um relativo à forma, ou seja, a clareza, suavidade e firmeza com que é feita, sem qualquer tique autoritário ou clerical. O outro, relativo ao conteúdo, mais concretamente a importância de Jesus Cristo e dos Evangelhos na sua formação e no modo como encara a sua missão. Conta, em outras entrevistas que entretanto fui ouvir, que a sua vocação religiosa surge por volta dos 16 anos, quando decide duas coisas: seguir Jesus e trazê-lo para a sua vida. Nessa vocação única enraízam-se as suas duas carreiras, dentro e fora da Igreja. Como enfermeira no hospital, aprendeu a estar com as pessoas mais frágeis, nos seus momentos mais difíceis, a ouvi-las com profundidade, sentindo-se por vezes uma espécie de “mãos de Cristo” que oferecem compaixão, cuidado e muitas vezes cura. Mais tarde, já no topo da hierarquia, como diretora de Enfermagem do Governo de Inglaterra, aprendeu a lidar com uma grande e complexa organização, ganhou competências para criar equipas e ambientes de trabalho saudáveis. Num pano de fundo espiritual, são estas micro e macro competências, humanas e organizacionais, que pretende levar para a Igreja de Inglaterra. Entre os anglicanos não existe, de facto (como entre os católicos), uma socialização em circuito fechado para o ministério pastoral e essa experiência de terreno, adquirida em outros contextos e profissionais, constitui uma poderosa mais-valia para a compreensão empática das comunidades de crentes, sem a qual é tão difícil ler “os sinais do tempo”.
O facto de ser mulher, reconhece, é um problema para muitos. Como o é, também, a sua posição inclusiva sobre a bênção a casais do mesmo sexo. Mas a ordenação de mulheres desde há 30 anos na Igreja de Inglaterra é, a seu ver, um sinal muito importante que aquela Igreja dá ao mundo (no sentido de combater a discriminação e a misoginia) e às próprias mulheres (porque sentem que “ali está alguém como eu!”). Ter sido bispa, nos últimos anos, numa cidade teologicamente tão diversificada como Londres, dá-lhe pistas para lidar com os seus colegas mais conservadores. A experiência comprovou que “consegue trabalhar com quem discorda”. Mais, num mundo tão tribalizado como o nosso, é um “presente” (gift) mostrar como se pode trabalhar em equipa, em conjunto, quando se tem um desacordo sobre um assunto tão fundamental”.
Um efeito colateral

Mulheres participantes no Sínodo sobre a sinodalidade, 7 Outubro 2023, à saída de uma das sessões da assembleia. Foto © António Marujo/7MARGENS
A escolha de Sarah Mullally tem um efeito colateral que nos diz respeito a nós, os primos católicos… É uma seta que aponta para o que é evidente e intolerável na nossa Igreja: a negação às mulheres dos mesmos direitos dos homens. Que atraso, que desperdício. É quase hilariante ouvirmos sistematicamente dizer que o assunto necessita de mais discernimento e ponderação, sob pena de introduzir fraturas na Igreja Católica. Caso para perguntarmos: mas mais discernimento de quem? e a Igreja Católica não está já dividida, e não só por conta das mulheres?
Desejo à nova arcebispa as maiores felicidades para o seu mandato. E agradeço-lhe, como mulher e como católica, o desafio permanente que constitui o seu desempenho relativamente a todos aqueles que pensam que, por conta de um atributo biológico diferente, uma mulher está naturalmente excluída de certos domínios de atividade. Não está. São os sacerdotes encaixados no poder que estão diminuídos na sua capacidade de entender o mundo em que vivemos e, não querendo abrir mão dos seus privilégios masculinos “superiores” de acesso ao sagrado, resistem em abrir as portas da fortaleza que – por enquanto – ainda controlam.
Ana Nunes de Almeida é socióloga, ex-membro da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica em Portugal.










