Foi uma escolha “tranquila”, dizem cardeais portugueses, que recaiu num homem que provém “um pouco de todo o lado” e que tem também origens migrantes. Isto mesmo disseram três dos quatro cardeais portugueses que votaram no conclave, em conversa com os jornalistas portugueses que estão em Roma para acompanhar o acontecimento. E a escolha pode ter-se decidido à hora de almoço, antes da última votação, assegurou ao 7MARGENS uma fonte bem informada do Vaticano, que diz ainda que isso terá permitido ao novo Papa esboçar o discurso da sua saudação à multidão, feito depois das sete da tarde (menos uma hora em Lisboa).
Os três cardeais que foram de Portugal para votar – Manuel Clemente, patriarca emérito de Lisboa; António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima; e Américo Aguiar, bispo de Setúbal – coincidem em dizer que há vários sinais que o novo Papa Leão deixou, no sentido de querer continuar a acção de Francisco. E acrescentam que o novo Papa Leão chega num tempo de “mudança de época, que requer uma actualização” do pensamento social católico.
António Marto, bispo emérito de Leiria-Fátima, sublinhou que “continuar o legado e estilo” era mesmo o mais importante do que os cardeais nas prioridades que os cardeais foram conversando nas reuniões preparatórias. O novo Papa apareceu já apresentando “o rosto de uma Igreja mãe, amorosa e misericordiosa, de uma Igreja hospital de campanha”, como Francisco dizia.
Isso implica, disse ainda o cardeal Marto, reconhecer o que há de positivo “nas diferenças” e ser “transparente” em temas como os abusos sexuais ou questões económico-financeiras. E o Papa Leão tem uma personalidade de “proximidade, de acolhimento e de escuta”, bem como de “compaixão com os sofrimentos da humanidade e de cada pessoa em concreto”.
O patriarca emérito de Lisboa, Manuel Clemente, acrescentou que o Papa Leão provém “um pouco de todo o lado”, referindo-se à sua ascendência franco-italiana e espanhola, e também à sua condição de migrante – entre os 2o anos que passou no Peru e mais alguns na Europa, apenas um terço da sua vida foi vivido nos Estados Unidos. Nesse sentido, pela sua naturalidade, ascendência e experiência em vários países, o novo Papa tem uma grande “propensão para um papel universal”.
A conversa com os jornalistas decorreu sexta-feira ao final da tarde, no Colégio Pontifício Português, onde ficam alojados os padres portugueses que estuda em Roma. Já libertos da interdição de contacto com o exterior, o bispo de Setúbal também sublinhou a importância do percurso migratório do novo Papa: “Americano, é filho de imigrantes, tem uma vivência sugestiva de tudo isto” e “está agora no centro da política mundial”, também para a busca da paz mundial, afirmou o cardeal Américo Aguiar. E esse percurso pode ser “uma mais-valia para todos os problemas que estão em cima da mesa” no mundo. O Papa Leão, acrescentou, dará “uma particular importância” à “urgência da paz”.
Leão Magno e Leão XIII?

Leão XIII, que veio a inspirar a escolha do nome do novo Papa, eleito dia 8. Foto: Direitos reservados
Ainda antes de o próprio justificar a escolha do nome de Leão, o que fez neste sábado, 10 de Maio, o cardeal Marto afirmou que a escolha do nome poderia remeter para o Papa Leão Magno, do século V, que tinha um perfil de grande humildade, e de Leão XIII, Papa entre 1878 e 1903, que inaugurou o moderno magistério social da Igreja. “Hoje estamos a viver uma nova era, uma nova época, com muitas coisas que levantam interpelações profundas à humanidade e à própria Igreja.”
“A questão social é nova por causa dos problemas emergentes, concretamente a inovação tecnológica e o continente digital, que não é uma questão meramente técnica”, acrescentou.
Referindo-se a aspectos concretos desse pensamento social, o cardeal Marto diz que Leão XIV “tem a experiência do que é o capitalismo liberal, sem regras, nos Estados Unidos, e do que é a pobreza extrema no Peru”, facto que considerou “providencial”. E não tem dúvidas de que Leão assegurará a continuidade de Francisco no “respeito pelos imigrantes e contrário à deportação, sem mais, daqueles que procuram uma vida melhor e mais digna”, referindo-se às políticas definidas pelo actual Presidente dos EUA.
As conversas preparatórias do conclave ajudaram a definir o perfil “daquilo que era a realização da expectativa da Igreja”, afirmou por seu turno o cardeal Clemente, salientando que o processo “já estaria facilitado” e por essa razão foi fácil em dois dias conseguir “chegar a uma eleição com mais de dois terços dos presentes”. Dias cansativos, admitiu o cardeal Marto: “Nas congregações ainda havia tempo para um café”, mas o conclave “foi sempre a correr”, pelo tempo exigido para cada votação e escrutínio. Uma experiência, acrescentou Américo Aguiar, muito facilitada pelo “Espírito Santo”, num conclave que “não tem nada a ver com os livros ou com os filmes”.
A imprensa internacional encheu-se de números sobre o que terão sido as votações do conclave. Nos jornais italianos, continua a ser dado o cardeal italiano Pietro Parolin como o nome que esteve em vantagem ao lado de Prevost. Mas o actual secretário de Estado do Vaticano terá percebido que não ultrapassaria os 50 votos – eram necessários 89 para a eleição e terá feito saber que não valeria a pena votar nele. Outras informações garantem que Prevost, nomeado cardeal há apenas um ano e meio, já tinha um apoio substancial desde a primeira votação, tendo contado com vários votos de cardeais oriundos do Sul do mundo e da maioria dos europeus.
Escolha garantida na manhã de quinta

Os cardeais António Marto, Manuel Clemente e Américo Aguiar na conferência de imprensa de sexta-feira, em Roma. Foto © António Marujo/7MARGENS
No final da terceira votação, ao fim da manhã de quinta-feira, 8 de Maio, o cardeal americano e prefeito do Dicastério para os Bispos, já teria, entre os votos que recebera e os que poderia vir a congregar numa nova votação, os 89 necessários, disse ao 7MARGENS a fonte do Vaticano. E na votação final terão sido mais de 100, entre os 133 votantes.
Precisamente ao almoço de quinta-feira, que foi tranquilo, e antecipou a votação decisiva, o cardeal Marto saudou o ainda cardeal Prevost: “Dei-lhe um abraço de conforto, ele ficou assim e disse-lhe: ‘O Espírito Santo nos iluminará’. E ele sorriu”, recordou.
Também no momento da aceitação, Prevost estava “sereno”, mas eventualmente “comovido”, acrescentou o cardeal português. O bispo emérito de Leiria admite: “Haveria outros possíveis, mas a gente tem de escolher uma pessoa, não pode escolher vários ao mesmo tempo.”
O cardeal Marto aproveitaria ainda o momento de felicitação ao novo Papa para lhe dizer: “Trago votos de felicidade, trago o voto de todos dos peregrinos de Fátima” e “num momento oportuno esperamos uma visita sua”. O eleito respondeu apenas, em português, “muito obrigado” – o português é uma das línguas do novo Papa poliglota, além do inglês, espanhol e italiano.
O “mais importante era continuar o legado e o estilo do Papa Francisco na sua concepção do ministério, num anúncio da evangelização e do Papa como rosto de uma Igreja, mãe, amorosa, misericordiosa”, insistiu António Marto, recordando as expressões da Igreja como “hospital de campanha” ou “Igreja em saída”, que “vá ao encontro de todos sem discriminação”, tantas vezes referidas pelo Papa Francisco.
O faco de Prevost ser o segundo Papa oriundo das Américas – e sucedendo imediatamente ao primeiro latino-americano, sugere que “a Igreja hoje não é eurocêntrica, nem o mundo hoje é eurocêntrico”, afirmou ainda o cardeal Marto. Sendo natural de Chicago (Estados Unidos) e tendo vivido duas décadas no Peru, cuja nacionalidade também tem, ele “conjuga dois mundos, duas culturas”.
O cardeal Américo Aguiar recordou ainda que o novo Papa Leão esteve em Portugal integrado na comitiva papal da Jornada Mundial da Juventude 2023, em Lisboa. Destacando o seu perfil “muito discreto, muito afável”, contou que ofereceu a Prevost, logo após a sua eleição, um terço da JMJ. “Ele ficou surpreendido, mas já está habituado da minha parte a coisas dessas”, admitiu.
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