Maiorias ainda por decidir

Eleições americanas: democratas salvos pelo aborto

| 10 Nov 2022

Marcha pela Vida, em 24 de Janeiro de 2005, em Washington: os designados grupos pró-vida ficaram contentes com a decisão do Supremo. Foto © Elvert Barnes Protest Photography/Wikimedia Commons, via https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Abortion.MFL32.WDC.24January2005_(89084976).jpg

Marcha pela Vida, em 2005, em Washington: o aborto pode ter levado muitos eleitores a votar democrata, apesar do mau desempenho da economia. Foto © Elvert Barnes Protest Photography/Wikimedia Commons

 

Ainda sem se saber com exatidão qual a paisagem política saída das eleições de 8 de novembro nos Estados Unidos, a generalidade dos analistas reconhece que o receio de medidas restritivas ou proibitivas do recurso ao aborto tenha levado os eleitores americanos a esquecer por momentos o seu descontentamento com o estado da economia e poupar os democratas ao anunciado desastre eleitoral.

“Se houve um vencedor claro nas eleições de novembro, foi o direito ao aborto” escrevem no Religion News Service os jornalistas Yonat Shimron e Jack Jenkins recordando a vitória dos referendos que na Califórnia, no Vermont e no Michigan vão consagrar o direito ao aborto nas constituições daqueles Estados, bem como a derrota nos Estados tradicionalmente republicanos de Montana e do Kentucky dos referendos a favor de medidas restritivas de acesso ao aborto. Em várias disputas para os cargos de senador, de membro da Câmara dos Representantes ou de governador, os mesmos jornalistas apontam o direito ao aborto como tendo tido uma influência decisiva na orientação de voto dos eleitores.

Desde que o Supremo Tribunal dos EUA revogou no final de junho a sua anterior decisão de considerar o direito ao aborto como um direito constitucional, deixando a decisão ao Congresso de cada Estado, que o Partido Democrata se apresenta como o campeão desse direito contra um Partido Republicano totalmente antiaborto. Como sempre acontece nos países ocidentais, a questão do aborto mobiliza (e divide) também as igrejas e as religiões. As correntes evangélicas dominantes juntam a sua voz ao Partido Republicano, no que são acompanhados por muitos católicos, embora o católico Presidente Biden (democrata) seja pró-escolha, isto é, favorável a legislação que garanta à mulher, dentro de certas condições, o direito a abortar.

Nesta questão, Biden está com a maioria (57%) dos 61 milhões de católicos americanos que também são a favor do direito ao aborto, contra o que os seus bispos e a doutrina da sua Igreja ensinam.

As sondagens feitas durante a última semana de campanha e à boca das urnas mostraram também que quase um terço (31%) dos eleitores reconhecia a preocupação com o mau estado da economia como o que mais pesava na escolha de em quem votar, mas 27 por cento colocavam em primeiro lugar o direito ao aborto. A baixa performance da economia americana é vista pelo eleitorado como consequência da má gestão da Administração Biden pelo que o seu voto tenderia a cair para os republicanos, mas por outro lado 60 por cento dos americanos são pelo direito ao aborto, o que os levaria a votar democrata. Terá sido esta última ponderação que impediu a “maré vermelha” (cor do Partido Republicano) anunciada por Donald Trump e pela generalidade dos republicanos.

 

A Geórgia decide

Joe Biden

Joe Biden na posse como Presidente dos EUA: dois anos depois, a popularidade está em baixo e a economia é a principal razão. 

 

Dois negros disputam o lugar de senador pelo Estado da Geórgia. Um é pastor da Igreja Batista, democrata e senador. O outro é republicano, foi uma estrela do futebol americano e quer ser senador. Aquele que ganhar vai, quase de certeza, determinar qual é a cor da maioria do Senado dos EUA nos próximos dois anos. Contudo, o vencedor só será conhecido a 7 de dezembro. Aborto, religião e questões raciais serão seguramente temas centrais das próximas semanas, mas também aqui é a economia que mais preocupa os eleitores.

Após as eleições de dia 8 de novembro o Senado conta com 48 senadores democratas eleitos e outros tantos republicanos. O voto por correspondência e outros procedimentos eleitorais próprios de cada Estado mantêm em aberto o resultado no Alasca, Nevada, Arizona e Geórgia. A tradição e os votos já contados levam a maior parte dos analistas a predizer que os dois primeiros Estados enviarão para Washington senadores republicanos que, assim, garantirão metade das cadeiras do Senado. No campo democrata tudo leva a crer que o ex-astronauta Mark Kelly seja reconduzido pelos eleitores do Arizona como seu congressista. Se a Geórgia seguir o exemplo do Arizona, a bancada dos democratas atingirá os 50 assentos, garantindo a maioria através do voto da vice-presidente Kamala Harris. Com um Presidente democrata e uma provável maioria republicana na Câmara dos Representantes, o futuro imediato da Administração Biden e de toda a política americana fica dependente do desfecho da corrida eleitoral na Geórgia.

A lei eleitoral neste Estado do Sudeste dos EUA obriga a que só seja declarado vencedor o candidato a senador que obtiver mais de metade dos votos expressos. No dia 8 de novembro nenhum dos três candidatos atingiu essa fasquia. O senador democrata Raphael Warnock ficou em primeiro lugar (49,4%) seguido de muito perto pelo candidato republicano, Herschel Walker (48,5%), ambos muito distanciados de um terceiro candidato, Chase Oliver, inscrito pelo Partido Libertário (2,1%). Warnock é um campeão das segundas voltas – que agora irá disputar contra Walker – pois já em 2020 não conseguiu ser eleito à primeira volta, tendo vencido o senador republicano de então numa corrida a dois. Apesar dos republicanos terem um maior registo de vitórias nas segundas voltas neste Estado, a vitória de Warnock há dois anos (na verdade a 5 de janeiro de 2021) fez com que a Geórgia levasse pela primeira vez dois senadores democratas para Washington.

Durante a campanha, a equipa do senador democrata recordou que o adversário republicano tinha uma longa história de violência doméstica – razão do pedido de divórcio da sua primeira mulher que depois de o ter obtido se viu obrigada a pedir proteção judicial –, bem como a desconfiança do setor empresarial em contratar a empresa de Walker por causa do comportamento errático deste. O ex-jogador de futebol americano publicou em 2008 um livro em que reconhecia ter sido diagnosticado como sofrendo de “desordem mental” e apesar de se apresentar como um cristão conservador pró-vida, foi acusado por duas mulheres de as ter pressionado e pago para abortarem.

Apesar deste turbulento passado, Herschel Walker tem fortes possibilidades de ganhar a segunda volta, tendo em conta que os eleitores estão mais preocupados com a economia e o emprego do que com a legalização do aborto, a questão racial ou a coerência religiosa de cada um dos candidatos. De acordo com uma sondagem recente da Associated Press, metade dos votantes aponta a preocupação com o aumento dos preços como fator determinante da sua escolha eleitoral e oito em cada dez acha que a situação económica está má.

Com a perspetiva de que o seu voto decida quem manda no Senado é muito provável que os assuntos locais sejam relegados para segundo plano e que os eleitores da Geórgia acabem por se decidir em função dos temas nacionais. E a economia é seguramente uma das razões que tem trazido a popularidade dos democratas, do Presidente Biden e da sua Administração para os níveis mais baixos de sempre, o que pode determinar a derrota de Raphael Warnock e a consequente perda da maioria democrata no Senado.

 

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