As eleições deste domingo, 12 de abril, poderão representar uma certa libertação ou um prenúncio de ameaça para as principais igrejas cristãs do país, caso se confirme a vitória do principal opositor de Viktor Orbán, como as sondagens prenunciam. Ainda assim, os observadores aconselham prudência, relativamente a um candidato que procura calar quem se lhe opõe e consegue ser o preferido tanto de Trump como de Putin.
Segundo a teóloga húngara Rita Perintfalvi, Orbán terá conseguido o apoio de católicos e protestantes, através das avultadas verbas que para essas igrejas são canalizadas anualmente, quer por verbas do orçamento de Estado quer pelas afetações de uma percentagem do imposto de rendimentos.
“Estariam as igrejas húngaras a vender a sua liberdade?” pergunta a teóloga – que não tem dúvidas a esse respeito, segundo conta o site Katolische.de, da Igreja Católica na Alemanha. “A situação é insustentável”, observa Rita Perintfalvi. “O financiamento das igrejas na Hungria só é concedido se não houver críticas” da parte destas ao Governo, pelo que “perderam completamente a sua liberdade”.
Segundo a mesma fonte, o apoio da Igreja Católica a Viktor Orbán e à coligação Fidesz-KDNP, que ele lidera, tem sido “visível”, mas mais reduzido do que na última eleição, em 2022. Para a teóloga, foram poucos os membros do clero que “realmente reconheceram a natureza extremamente prejudicial e perigosa do regime de Orbán”, pelo que a redução do apoio nestas eleições representa “sobretudo, oportunismo”.
Não foi apenas a questão das verbas que fez algumas igrejas aderirem ao atual mandatário. Já antes dela, Orbán pôs em marcha uma política de devolução – sobretudo à Igreja Católica e à Igreja Reformada Calvinista, esta a maior denominação protestante – de terras e edifícios que tinham sido confiscados e nacionalizados pelo regime comunista, o que lhes permitiu o desenvolvimento de uma importante atividade educativa e social.
Apesar da sua política de combate à imigração e de oposição ao apoio da União Europeia à Ucrânia, o facto de se posicionar como um dos dirigentes europeus que resistem na alegada “defesa da civilização cristã” e que investe no apoio às igrejas cristãs perseguidas, traz-lhe a benevolência e apoio de muitos dirigentes religiosos.
43 por cento dos húngaros declaram filiação religiosa

Cardeal Péter Erdő, arcebispo de Esztergom-Budapeste, numa celebração na catedral de Esztergom em Dezembro de 2023. Foto © Pasztilla aka Atilla Terbócs, via Wikimedia Commons.
A Hungria foi um país maioritariamente católico, tendo também uma forte presença protestante. Segundo o último censo, de 2022, 50 por cento dos cidadãos do país que professavam uma religião diziam-se católicos. Estes dados, porém, escondem o facto de a filiação religiosa ter baixado significativamente: 57 por cento dos húngaros não declarou qualquer filiação religiosa (40 por cento nem se deram ao trabalho de responder a esse ponto, no boletim de recenseamento, e 17 por cento declararam que não seguiam nenhuma religião). Como dizia um trabalho recente da revista America, é a primeira vez que a identidade religiosa cai abaixo de 50 por cento, na Hungria.
A Igreja Católica é das que mais membros tem vindo a perder. Há um quarto de século, depois da queda do regime comunista, mais de metade dos húngaros confessava-se católica; hoje são 28 por cento, tendo a redução sido de 30 por cento (equivalente a mais de um milhão de pessoas, num país de dez milhões) entre o censo de 2011 e o de 2022.
Orbán, que é ele próprio membro da Igreja Reformada na Hungria, ao longo dos 16 anos que leva como primeiro-ministro tem desenvolvido políticas ideologicamente orientadas pelo antiliberalismo e por uma conceção conservadora do cristianismo. O partido que o apoia, o Fidesz, aprovou em 2021, uma lei contra a “propaganda homossexual e transexual” e, no ano passado, proibiu as paradas do “orgulho LGBTQ+”.
Ainda que os ortodoxos sejam minoritários no país, não ultrapassando os 20 mil membros, Viktor Orbán tem sido pródigo na atribuição de fundos do Estado, procurando, ao mesmo tempo, consolidar uma aliança com o Patriarca Cirilo, de Moscovo, com o qual partilha a visão da decadência moral do Ocidente e da necessidade de defender “os valores cristãos”.
Pastor que casou Orbán é hoje perseguido por ele

Iványi Gábor, que casou Viktor Orbán, mas veio a tornar-se seu opositor, aqui numa manifestação promovida em Setembro de 2008 pela Carta Democrática Húngara, ainda antes da chegada de Orbán ao poder. Foto © Derzsi Elekes Andor, via Wikimedia Commons.
Quem está desejoso que termine a era de Orbán nas eleições deste domingo é Gábor Iványi, um antigo companheiro de lutas, no tempo do domínio soviético do país, que viria a ser, já em democracia, o pastor metodista que o casou e batizou os seus dois filhos. Hoje, estão em lados opostos da barricada política e Ivány está a escassas semanas de ser julgado por um processo por agressão que as autoridades colocaram contra a sua Igreja.
Atualmente com 74 anos Gábor Iványi conhece Orbán desde a década de 1980, quando se cruzaram nos círculos de dissidentes anticomunistas. Ainda que de orientações diferentes, une-os uma causa comum. Em democracia, Iványi tornou-se líder de uma igreja que apoia pessoas sem abrigo, comunidades ciganas e refugiados ucranianos. Com o argumento de que a sua organização tinha praticado má gestão e irregularidades no uso de fundos públicos e da Igreja, em 2022, agentes públicos invadiram todas as instalações da instituição. Membros da comunidade criaram cordões humanos para bloquear essa operação, considerada injustificada e persecutória, tendo-se registado alguns focos de tensão. O líder viria a ser acusado de agredir agentes públicos e o julgamento está agendado para 4 de maio próximo.
Setores húngaros da oposição consideraram este processo um caso de perseguição política e a ONG Human Rights Watch declarou a propósito: “O processo contra Iványi e a interferência no trabalho de sua igreja fazem parte de um padrão mais amplo do governo húngaro de perseguição a defensores dos direitos humanos que trabalham com migrantes, requerentes de asilo, refugiados, pessoas em situação de pobreza ou sem-teto, crianças com deficiência e pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgénero (LGBT)”.
A separação dos dois antigos companheiros já tinha acontecido em 2010, quando Orbán fez questão de conseguir uma foto com o pastor, no âmbito de uma campanha eleitoral, ainda que fosse público que Iványi apoiava outro candidato. Segundo a revista Politico, que conta estes factos, haveria por detrás da foto a promessa de um reforço de verba para a igreja do pastor. A recusa marcou os caminhos diferentes que cada qual estava disposto a seguir. “Ninguém imaginava que ele se afastaria tanto para a extrema-direita, ou mesmo para ideias fascistas, e que perderia todos os valores humanos em que acreditava, ou parecia acreditar, naquela época”, disse ele.
Iványi recorda, nas declarações que prestou ao Politico, o dia em que, em 1989, o jovem Orbán discursou na Praça dos Heróis, em Budapeste, exigindo que os soviéticos deixassem a Hungria e permitissem eleições livres. Isso está “em flagrante contraste com os laços estreitos atuais do primeiro-ministro com o presidente russo Vladimir Putin e com as notícias que sugerem que o Kremlin enviou agentes para influenciar o calendário eleitoral de 12 de abril”.
É verdade que o eleitorado húngaro, a quem cabe decidir o seu futuro, é especialmente sensível à incapacidade que o regime de Orbán tem tido de enfrentar a estagnação do crescimento económico e a alta taxa de inflação que afeta o país, assim como aos graves problemas na saúde e na educação. Mas é inquestionável que o resultado do ato eleitoral do próximo domingo se reveste de um significado que vai bem para além das fronteiras da Hungria e mesmo da União Europeia. Terá chegado agora a hora de Peter Magyar – que bem conhece Orbán, pois com ele trabalhou e com ele rompeu – que lidera o Tisza-Respeito e Liberdade e que tem surgido, desde há largos meses, contra ventos e marés, perto de 10 pontos percentuais à cabeça das sondagens?










