Elogio de um submarino

| 3 Jan 20

António Fournier. Foto: Direitos reservados

 

O mundo está cheio de torrentes. Algumas de água limpa. Outras muito turvas, com lama e detritos. Há mesmo extensões que, de tão largas, não deixam ver as margens se nos colocarmos no meio do leito. O afastamento é demasiado largo, profundo. E quem assim se vê afastado não se conhece, torna-se hostil ao outro, pensa em combates, competições, rivalidades. “A minha margem é melhor do que a tua. Não posso consentir que passes para este lado. Não quero saber do que pensas, do que sentes, da tua visão do mundo…”

O mundo está cheio de torrentes. Existindo redes que nos põem em contacto, parecem apenas enredar-nos e estimular o nascimento e o crescimento das tribos. E as torrentes tornam-se lamaçais perigosos. Levam tudo pela frente. Afogam até os inocentes. Derrubam as suas moradas. São por isso muito importantes as pontes. E, com elas, os veículos que contra tempestades e enxurradas, conseguem pôr-nos em contacto, vencendo a indiferença, o desconhecimento e a hostilidade. Podem ser jangadas, barcos, submarinos até. Nunca serão demasiados os elogios que lhes possamos dirigir. Bem-aventurados aqueles que vencem as torrentes e põem em contacto as margens indiferentes ou desavindas.

António Fournier (1966 – 2019), nascido numa ilha, foi um desses instrumentos pontifícios que ainda nos fazem crer na humanidade, com esperança contra toda a esperança. Conheci-o, quase por acaso, numa rua da Baixa de Lisboa e logo me apercebi disso. Professor da Universidade de Turim, aproveitou essa condição de emigrante para se transformar num veículo de comunicação entre a cultura portuguesa e a cultura italiana, entre as suas literaturas. Quase não se dava pelo facto de, também ele, ser um escritor e investigador com imenso mérito. A sua preocupação era, sempre, a do transporte, pondo gente desconhecida em contacto, entrelaçando o que parecia inconciliável. Não quis ser ponte. Percebendo que uma ponte é por vezes muito vulnerável, quis ser submarino. Assim intitulou a revista de que era director, sabendo que o submarino é muito mais eficaz no transporte e na comunicação em tempos de conflito e de brutalidade como os nossos. Não um submarino de guerra, mas um submarino de paz que via nas palavras transformadas pela poesia um campo de entendimento e de resistência.

Lembrei-me de tudo isto quando soube da sua morte, em pleno dia de Natal, exactamente quando completava 53 anos. Recordei a forma calorosa como sempre contactámos, o modo como me recebeu no aeroporto de Turim e me guiou, passava da meia-noite, pelas ruas belíssimas da cidade, as palavras com que me apresentou o território do “nosso” Cesare Pavese, a gentileza com que me irmanou com Albano Martins ou Maria João Reynaud, o modo como me introduziu naquele meio e nele sempre me acarinhou, as palavras com que acolheu os poemas que a urbe me ofereceu.

Nesses três dias na capital do Piemonte muito mudou em mim. A ele o devo. Encontrámo-nos mais algumas vezes, em Lisboa. Sem sermos propriamente amigos, cultivávamos aquela espécie de amizade que não precisa de muitas palavras nem de grandes patuscadas para saber reconhecer-se como admiração mútua e atenta. Incitou-me a escrever sobre Herberto Helder um ensaio que ainda permanece inédito. A ele devo – e muitos deverão, como eu – a gentil atenção e fortes leituras dotadas de rara profundidade.

Ruy Ventura é poeta, ensaísta e investigador, autor de Sob os braços da azinheira – leituras de Fátima e organizador da Antologia Poética, de Frei Agostinho da Cruz.

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