[O supérfluo e o ambiente]

Elucubração a partir de uma improvável fisionomia de galinha

| 2 Nov 21

“Não apresenta nenhum problema de saúde que uma operação dispendiosa não possa prolongar”
(Monty Python’s Flying Circus)

“Ele não resulta de nenhum aperfeiçoamento genético da fisionomia das galinhas mas sim dum “valor acrescentado” ao produto natural produzido por um “gadget” de cozinha de plástico e ‘fancy’ “

 

Sim, isto é um ovo cozido quadrado!
E para que serve? Provavelmente para comer e provavelmente o sabor é o mesmo que o do ovo tradicional. Ele não resulta de nenhum aperfeiçoamento genético da fisionomia das galinhas mas sim dum “valor acrescentado” ao produto natural produzido por um “gadget” de cozinha de plástico e “fancy”. O sabor, esse é o mesmo!

Num mundo cada vez mais “verde” e “amigo do ambiente” é curioso analisar o desperdício de recursos com que se vive nas sociedades ditas desenvolvidas imersas numa enorme quantidade de artigos e serviços supérfluos. Entenda-se por supérfluo algo desnecessário, inútil que em nada contribui para o bem-estar.

Na verdade, não é preciso procurar muito para descobrir uns “tesourinhos”. Se estivermos atentos, eles andam aí.

Não ousaremos abordar questões associadas à estética – as unhas de gel ou as operações plásticas, por exemplo – pois elas parecem tão instaladas no “normal” social que exigem uma reflexão mais profunda.

O consumo inútil de recursos é inclusive um argumento de venda para a Amazon que tem um site dedicado a estes produtos.

Neste site encontramos uma lata vazia de água desidratada, ou uma caixa vazia “para alguém que tem tudo”.

A Amazon diz estar a “trabalhar na invenção de embalagens que deliciem os clientes, eliminem resíduos e assegurem que os produtos são entregues intactos”. Não será contraditório venderem-se embalagens inúteis e ao mesmo tempo evidenciar-se preocupação com o impacte das mesmas?  Fica também a dúvida do que será uma “embalagem que encante o cliente”. Se calhar está na altura de começar a sensibilizar o cliente para se encantar com o que realmente interessa, mas parece que o marketing continua muito virado para vender o que não tem valor. O que é, de facto, uma arte!

Podemos imaginar um slogan deste género: “este Natal ofereça um presente inútil e contribua para o consumo de recursos que não temos”.

Dan Ariely num artigo publicado na Harvard Business Review defende que o marketing de produtos inúteis pode acrescentar valor à sociedade pois motivará as pessoas a trabalharem mais para consumir mais, mesmo que não precisem. “Ao continuarmos a redefinir o capitalismo, não esqueçamos o papel da aspiração e do desejo de luxos incrementais (coisas que queremos, mas de que não precisamos forçosamente). Estes são o combustível da produtividade e, consequentemente, têm uma função relevante na nossa economia.” Dan Ariely não parece estar preocupado com a felicidade ou bem-estar do indivíduo, mas sim com a subsistência de um sistema económico mesmo que este não seja objetivamente útil. O objetivo torna-se então produzir mais e, para isso, o indivíduo precisa de trabalhar mais. Ou seja, nós não somos relevantes: o centro de tudo é o sistema. Este artigo é de 2011 mas o exemplo do marketing atual da Amazon parece estar em linha com este pensamento.

E ainda acerca do culto do supérfluo, a indústria de artigos para animais não deixa de surpreender. Que tal uma mansão para o Boby por uns parcos 10 000 dólares?

“Que tal uma mansão para o Boby por uns parcos 10 000 dólares?”

 

Hoje concebemos o bem-estar como um direito que é devido aos animais. Interessa, contudo, contextualizar o que é bem-estar animal. Certamente que os cães não têm aspirações… E os gatos? É que existe literatura acerca de como “saciar o seu felino até ao limite”: Luxury for Cats de Patrice Farameh.

Um mundo em que a aparência duma galinha é valorizada não é uma anedota dos Monty Python, ora veja-se os braços de T-Rex para galináceos vendidos por 15 dólares pela uselessthingstobuy.

Estes exemplos não são só brincadeiras de mau gosto, existem num mundo mais “mainstream”. Neste capítulo, um dos produtos mais fascinantes são os urinóis com pequeno ecrã que já se encontram em algumas estações de serviço em Portugal. Além da invasão da privacidade num dos momentos mais relaxantes de um homem, os recursos envolvidos para a produção de produtos eletrónicos deste tipo é muito relevante. Na campanha Rethink-IT, a Greenpeace reconhece a relevância desta indústria para as vidas do século XXI, mas ressalva que “por detrás dela estão práticas do século XIX em matéria de fontes de energia, processos extrativos e desenho de produtos dirigidos ao consumo de recursos”.

Muitos dirão que este tipo de análise depende dos pontos de vista que variam consoante as posições políticas. Mas não será que nos exemplos aqui apresentados aquilo que está em causa não é o simples bom senso? Serão só os ecologistas que percecionam estes produtos como inúteis?

Em 2010, Janez Potočnik, Comissário europeu para o ambiente já dizia: “Temos de mudar o comportamento dos consumidores europeus”.

E em 2012 o relatório “Consumption and the environment” da Agência Europeia do Ambiente referia:
“O consumo de bens e serviços na EU é um fator muito relevante no consumo de recursos associado a impactes ambientais… O consumo depende de uma rede de fatores interrelacionados: demografia, salários, preços, tecnologia, comércio, políticas e infraestruturas a fatores sociais, culturais e psicológicos. Na Europa tem-se desenvolvido uma cultura de crescimento constante de consumo associado a bem-estar e sucesso.” “É necessário desenvolver produtos com menos impacte, mas também mudanças no estilo de vida…Isto não será fácil. Os padrões de vida danosos do ambiente estão institucionalizados, económica, política, técnica e socialmente e consequentemente vistos como normais e inevitáveis… É relevante notar que o bem-estar não está relacionado com a riqueza material quando as necessidades básicas estão asseguradas.”

As políticas atuais apostam na inovação e no desenvolvimento tecnológico para reduzir a pressão da economia sobre o ambiente e favorecer a mudança comportamental, mas esta última é bem mais difícil de conseguir. Há valores instalados que nos levam a situações absurdas e até cómicas, se não tivessem a gravidade que têm na nossa sobrevivência.

É este o direito ao consumo que se adquiriu com a democratização do consumo que tanto se apregoa? Veja-se o caso dos omnipresentes plásticos: “O seu (dos plásticos) baixo custo de produção e transporte, permitem a democratização do consumo. As suas características garantem a segurança alimentar… Não consigo conceber um mundo sem eles… com o mesmo padrão de vida.  O problema da poluição …(são) os comportamentos… associados a uma lógica de consumo linear e descartável.” (Pedro São Simão, 20 Jul 2021).

Será assim tão difícil conceber um mundo sem ovos quadrados!? Reciclar ou reutilizar continua a ter impactes muito positivos ao nível ambiental, por isso vale a pena perguntar: conseguiremos evitar de forma significativa o impacte da nossa atividade sem reduzir, sem evitar o supérfluo? Precisamos mesmo de separadores de plástico entre as fatias de presunto embaladas? Por que razão os pepinos precisam de estar embalados individualmente?

E, já agora, por que razão existem tantas plantas de plástico? Não é por serem verdes que não têm impacte, que são “amigas do ambiente”. Se a cor fizesse a diferença os daltónicos poluiriam mais que os outros!

Parede de plantas plásticas, imagem de marca da Go Natural

 

Aparentemente em japonês existe o termo Karotousen (夏炉冬扇) – (lareira no verão e leque no inverno) que faz alusão a algo inútil. Esta expressão pode já não ser assim tão óbvia, pois é corrente as grandes superfícies terem o ar condicionado ligado no inverno, apesar do setor da climatização apresentar uma das maiores ameaças para as alterações climáticas. As situações estão instaladas! O absurdo tornou-se quotidiano.

Em 2008, o Ricardo Garcia, um jornalista que desde há muito escreve sobre questões ambientais, editou no jornal Público um artigo acerca dos resíduos de flores naturais nos cemitérios com a seguinte expressão “É difícil acreditar, mas… as flores também são lixo”. As flores naturais são biomassa, ou seja, matéria-prima para gerar vida, o que é referido no artigo. O que não é referido no artigo é a quantidade de plástico que a indústria das flores naturais e artificiais produz. Verdadeiramente, o que é difícil de acreditar é que não se encontre um artigo acerca das toneladas de flores de plástico com que “honramos” a memória dos nossos mortos.

Tudo indica que estamos perante a quadratura do ovo! Mas ao contrário do círculo, este podemos simplesmente comê-lo, seguindo a lógica aplicada por Alexandre Magno ao nó de górdio. Bom apetite!

 

Rui Loureiro é consultor em desenvolvimento sustentável.

 

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