
Havia tantos procedimentos para a Missa do Papa, que também duvidaríamos se quereriam que o Estádio Rei Balduíno enchesse, ou que as pessoas comuns se entusiasmassem a ir. Foto © Vatican Media
Bruxelas não é Lisboa e a Bélgica não é Portugal. Apesar de a maioria dos belgas se declarar católica (entre 45% e 75%), notou-se a estatística de que apenas 10% são praticantes. E praticantes privados.
Não houve cartazes, bandeirinhas nas avenidas e tempos de antena discutindo a vinda do Papa. Nas paróquias não houve sequer folhetos dizendo o roteiro da visita, nem organizações para idas a Lovaina e à missa em Bruxelas. Tudo se processou com tanto recato que duvidaríamos se, de facto, haveria visita.
Ficou assim exposto o secularismo belga, entendido (e mal) como neutralidade do espaço público, quando o espaço público não tem de ser neutro, tem de ser o que os seus habitantes quiserem que seja, para bem da tolerância. O secularismo entendido como neutralidade é apenas uma espada de Dâmocles como outra qualquer, impositiva e sufocante, como se uma autoridade esvoaçasse as nossas cabeças com vontade própria, maior e mais esclarecida do que a nossa. Foi assim que vi ser vivido o secularismo belga nesta visita do Papa Francisco.
Depois, a organização. Os belgas batem aos pontos os portugueses em matéria de complexidade burocrática, o que nos faz sentir felizes por sermos portugueses e totalmente fora de nós por estarmos enredados em teias completamente incompreensíveis. Havia tantos procedimentos para a missa do Santo Padre (tudo feito sem contacto pessoal, apenas digital), que também duvidaríamos se quereriam que o Estádio Rei Balduíno enchesse, ou que as pessoas comuns se entusiasmassem a ir.
Era o susto da hora de entrada no estádio, o susto do que (não) se podia levar, o susto da revista à entrada, dos torniquetes do século XIII, o susto das horas que lá teríamos de estar retidos, o susto dos transportes cheios de gente…
No final, claro, abriram-se as portas sem nenhuma revista, passadas horas ali fora à espera sem que nada acontecesse. A vantagem foram as conversas magníficas que se tiveram com as muitas pessoas que esperavam como nós, cheias de paciência e alegria por irem ver Pedro, o primaz dos Apóstolos.
Esse foi um momento de profunda catolicidade, porque estávamos ali de todo o lado, aparentemente sem predominância de nenhuma nacionalidade, juntos pelo amor a Cristo e à Igreja Católica, Apostólica, Romana. Flamengos, franceses, alemães, belgas, holandeses, espanhóis, mas tantos de outros continentes, América Latina, África, Ásia. Todos irmãos, todos próximos.
Essa catolicidade tão sentida na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa reproduzida ali da mesma forma, “um só corpo, um só espírito, um só batismo”.
Chegou o Papa e com ele a apoteose, embora bem diferente da apoteose do sul da Europa, com mais decoro, mais compostura, menos ruído. Não fossem os grupos de espanhóis (benditos espanhóis) não teríamos ouvido os magníficos gritos “Esta es la juventud del Papa” e “Viva el Papa!”
E o Papa veio e, levado pelas leituras do dia, falou de abertura, de comunhão, de testemunho. No tema da abertura, sublinhou a premente necessidade de comunidade, da doação ao outro. Não há cristão sem comunidade. No tema da comunhão voltou a falar dos abusos, essa “vergonha”, esse “flagelo”. E pediu paz para cada uma das regiões do mundo que está imersa em guerras. Todas e cada uma. No tema do testemunho, aprofundou o legado da nova beata Ana de Jesus, carmelita discípula da Teresa, cujo rasto de boas obras era “como um íman”.
Estarmos juntos com o Papa mostra-nos sempre a alegria da fé que levamos, a alegria de sermos família e a gratidão pelos dons que recebemos. Que os saibamos levar com simplicidade, e com o fogo do amor, como diria a poetisa:
“E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!”
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.










