
O grupo de padres afirma-se disposto a continuar a “acompanhar a vida dos bairros, contribuindo para a organização da comunidade, dialogando com quem quer que seja” para procurar “o bem comum”. Foto reproduzida a partir do perfil de Facebook dos Curas Villeros.
Os “curas villeros” (em português, “padres das favelas”) – grupo de presbíteros argentinos comprometidos com o trabalho pastoral nas periferias – partilharam, numa carta aberta divulgada na semana passada, a sua “grande preocupação pela atual situação social” da Argentina e pela “pouca perspetiva de um Estado que cuide dos mais fracos”. O novo Presidente do país, Javier Milei, tem sido alvo de críticas por parte deste movimento, que considera que a sua conceção minimalista do papel do Governo na sociedade está a contribuir para agravar a crise.
“O aumento excessivo dos preços, a angústia pelo desemprego crescente e pela insegurança laboral, a droga que continua a agarrar muitos jovens (…) causam desespero”, escreveu o grupo constituído atualmente por entre 40 a 50 padres.
Referindo-se à emergência alimentar vivida no país, aos elevados valores das rendas e dos medicamentos, e a “tantos aumentos descontrolados”, que não são acompanhados por aumentos de salários e outros rendimentos, os “padres das favelas” consideram que “é necessária uma política alimentar e de habitação forte”, especialmente nos “mais de cinco mil bairros populares” onde trabalham diariamente.
“Conhecendo o drama da insegurança, repudiamos que, diante dos atos criminosos dos nossos adolescentes, a principal resposta seja a redução da idade da imputabilidade”, assinalam. “O fácil acesso às armas nos nossos bairros é preocupante, assim como a falta de vagas nas escolas dos setores vulneráveis e a falta de capacidade que temos como sociedade para manter os jovens nas escolas”, acrescentam.
Reconhecendo que “estes problemas perduram há anos”, os “padres das favelas” consideram que “só podem ser melhorados com políticas de Estado que procurem a justiça, a paz e a harmonia, num clima de unidade e sensibilidade para com aqueles que ficam de fora da mesa da vida”, e lamentam que isso não esteja a acontecer.
Pelo contrário, “continuamos a ver muitos líderes de diversas áreas distantes do que acontece com as pessoas comuns”, denunciam na sua carta.
O grupo de padres afirma-se disposto a continuar a “acompanhar a vida dos bairros, contribuindo para a organização da comunidade, dialogando com quer que seja” para procurar “o bem comum”.
“Nestes tempos, estamos a abrir várias cantinas de emergência que se somam às já existentes, porque para muitos é muito difícil o acesso ao pão de cada dia. Queremos viver de acordo com o que nossos vizinhos precisam”, adiantam os “curas villeros”.
Antes das eleições que conduziram Javier Milei à presidência do país, este mesmo grupo emitiu duas notas de posicionamento pedindo aos então pré-candidatos que tivessem atenção aos mais frágeis e denunciando o modo como “foi crescendo o ódio” ao Papa manifestado por Milei, depois de este ter criticado publicamente Francisco, apelidando-o de “comunista” e “representante do maligno na Terra” [ver 7MARGENS].
Papa quer visitar o país ainda este ano
A postura do novo presidente da Argentina em relação ao Papa parece, no entanto, ter mudado radicalmente. Já este mês, foi tornada pública uma carta assinada por Milei e dirigida ao “Santo Padre”, na qual convida Francisco a visitar o país assim que possível, pois considera que a sua presença “trará frutos de pacificação e de fraternidade entre todos os argentinos”.
“Você bem sabe que não precisa de convite para vir à Argentina. Correndo o risco de dizer o desnecessário, eu convido-o a visitar a nossa querida pátria, de acordo com as datas e locais que nos indique, tendo presente o desejo geral das nossas cidades, províncias e vilas de contar com a sua presença e transmitir o nosso afeto filial”, pode ler-se no texto assinado por Milei.
"Usted bien sabe que no necesita invitación para venir a la Argentina. A riesgo de decir lo innecesario, le invito a visitar nuestra amada Patria, conforme a las fechas y los lugares que nos sean indicados, teniendo presente el deseo generalizado de nuestras ciudades, provincias… pic.twitter.com/MPjjpIZ3eL
— Oficina del Presidente (@OPRArgentina) January 11, 2024
Na mesma carta, divulgada através da conta oficial da Presidência da República argentina na rede social X, Milei assegura que “a prioridade máxima” do Governo é “proteger os nossos compatriotas vulneráveis”, e agradece “a colaboração da Igreja Católica, cuja ação no campo social é incomensurável”.
O Papa, por sua vez, mostrou-se aberto a visitar a Argentina, numa entrevista ao apresentador de televisão italiano Fabio Fazio, durante o talk show “Che Tempo Che Fa” do passado dia 13.
“As pessoas estão a sofrer muito lá. É um momento difícil para o país. A possibilidade de uma viagem no segundo semestre do ano está a ser planeada, porque agora há uma mudança de governo, há coisas novas… Em agosto devo fazer a viagem à Polinésia, que é bem longe, e depois faríamos a viagem à Argentina, se for possível. Eu quero ir lá.”, afirmou Francisco.









