Em cima da hora

| 26 Dez 2023

[Domingo iv do tempo do advento ― b ― 2023]

Presépio

[sim ao meu impossível / a esperança virá ― / oh anjo do sorriso! © haiku e fotografia: Joaquim Félix] Foto: Detalhe do presépio de armário, em estilo nacional, datado de 1819, presente na igreja de Santa Cruz, Braga.

 

1. Estamos ‘em cima da hora’ do nascimento de Jesus!
É verdade, encontramo-nos quase… quase… a chegar à Hora tão aguardada.
Por rara coincidência, neste dia 24 de dezembro,
― aqui, em Fragoso, com o habitual ‘Auto dos Pastores
cantado, em ritmo alternado, por jovens em ambos os púlpitos ―,
celebramos, de manhã, o iv domingo do Advento;
enquanto, de tarde, vai celebrar-se a missa da Vigília do Natal;
e, à noite, em Santa Maria de Tregosa, a ‘Missa do Galo’.
Até parece que, por sugestão não só das crianças,
poderíamos ‘passar à frente’ este último domingo do Advento
e celebrar já o Natal do Senhor.

2. Tal proximidade faz-me recordar uma cena ‘cheia de graça’.
Na da igreja de Santa Cruz, na cidade de Braga,
para valorizar a tradição do presépio neste ano tão significativo
― comemoram-se os 800 anos da recriação do presépio,
por S. Francisco de Assis, em Greccio (Itália)
colocaram à veneração das pessoas um ‘presépio de armário’,
em estilo nacional, datado de 1819, muito belo mesmo,
à frente do qual se pode oferecer a luz de delgadas velas naturais,
que, na areia branca, se consumam até ao fim de si mesmas.
Sucede que, para ocultar o Menino, inseparável das mãos de sua mãe,
durante o tempo de Advento, cobriram-no com um pano de linho.
Um dos magos, porém, ficou com a cabeça espetada contra o pano,
como que a espreitar, através da malha, o Menino.
No fundo, este mago representa-nos bem no dia de hoje:
estamos com os olhos cravados num véu branco e fino,
que, por escassas horas, nos oculta Jesus!

 

3. Desde hoje, os dias passam a ter mais claridade do que escuro.
De facto, ontem, foi o dia mais pequeno do ano.
O Advento, digamos assim, está a terminar a sua gravidez:
um dia nos separa da Luz ser dada à luz.
Se, pela luz solar, os dias terão dado um ‘passo de pardal’,
pela fé, passaremos a viver da Luz que nos visita
para dar a vida ao mundo (cf. Jo 3,17).
Sim, celebraremos «a verdadeira luz,
que, vinda ao mundo, ilumina a todo o Homem» (Jo 1,9).

4. No centro deste tempo e do plano divino de salvação,
está uma mulher, virgem, chamada Maria.
Um nome muito significativo,
como aliás todos os nomes do diálogo do Evangelho.
Maria, nome tão comum, ― até desconsiderado,
embora nestes tempos felizmente retomado ―,
concentra o melhor da humanidade:
a graça com que Deus nos criou e nos salvará.
De facto, ‘Maria’, nome de origem incerta,
mas provavelmente de proveniência hebraica (Myriam),
significa «senhora soberana», «vidente» ou «a pura».
Maria de Nazaré, nossa irmã e nossa mãe, foi escolhida por Deus
para a humanização do seu Filho, figura de Deus humanado.

5. Colocada por Deus no centro do Evangelho,
por ela, se concretizam as profecias messiânicas,
entre as quais a que ouvimos marrada
no Segundo Livro de Samuel (cf. 2 Sam 7,1-5.8b-12.14a.16):
a casa do Senhor foi edificada no seio da Virgem Maria,
aquela que se dignou acolher, nas suas entranhas,
Aquele que o mundo todo não podia conter (cf. o hino e os ícones),
Jesus, filho de David,
cuja realeza permanece agora e por todo o futuro.

6. Gabriel, o mensageiro de Deus,
foi enviado a uma pequena cidade da Galileia, Nazaré.
A esperança está onde menos se espera;
isso mesmo, a recordar o título do filme realizado por Joaquim Leitão
mas também este ‘impossível’ da nossa história da salvação:
Jesus nasce numa casa simples, na terra menor, da virgem desconhecida.
Deus surpreende no quotidiano e,
se de portas abertas, entra onde nos encontramos.
A saudação a Maria, nos termos das saudações da Filha de Sião,
é-nos também dirigida, porque encontramos graça diante de Deus.
O Senhor está connosco, Ele que é o Emanuel.
Talvez estas palavras nos perturbem e nos deixem a pensar.

 

7. Como estaremos a imaginar os rostos do Anjo e de Maria?
Todos nós conhecemos Anunciações famosas:
a do Tesouro Museu da Sé de Braga, logo à porta de entrada;
a de Fra Angelico, no Mosteiro de S. Marcos, em Florença;
e, seguramente, muitas outras, pois há pessoas que até as colecionam.
Há, todavia, uma Anunciação que muito me impressiona:
encontra-se por cima do grande portal da catedral de Reims.
Nesta figuração o Anjo dirige-se a Maria a sorrir,
de tal forma que é conhecido como o ‘Anjo do sorriso’.
Gosto de o ver assim: sorrindo para Maria.
E, como ela, também nós necessitamos de sorrisos,
neste tempo conturbado pela violência das guerras e do desespero,
que nem as crianças poupa, na Faixa de Gaza e em tantos outros lugares.
Como Maria, precisamos de anúncios de alegria, de evangelhos,
cuja graça de Deus resplandece no rosto das pessoas.
Sorrisos verdadeiros, capazes de nos resgatarem do escondimento,
do desespero e da barbárie que invade o coração humano.
Porque «o ser humano não é só ódio, é essencialmente amor»,
como bem no-lo recorda Frei Bento Domingues

 

8. «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo» (Lc 1,28).
Maria, a Imaculada, foi escolhida por Deus,
para conceber, à sombra do Espírito Santo, o Filho de Deus: Jesus.
Ela, a ‘Senhora do Ó’, ou ‘da Expectação’, encontra-se grávida.
Está quase a dar à luz, com a sua barriga amplamente dilatada,
como, por exemplo, em belíssimas esculturas do Museu de Lamego.
Ou como vós, mães, tantas que aqui estais, que bem o recordareis!
Sobre Maria sobrevoou o Espírito Santo, como no início do Génesis;
por Ela, Deus inaugura uma nova criação.
«Jesus», nome que significa «o Senhor salva», e Maria dará ao seu Filho,
recria a história da humanidade, ferida na queda de Eva e Adão.
Não esqueçamos: Deus enviou o seu Filho ao mundo,
única e exclusivamente para salvar;
para dar futuro: luz aos abismos e gerações aos úteros inférteis.

Virgem do Ó

Virgem do Ó, do século XIV, atribuída à oficina coimbrã de Mestre Pero, de Aragão, no Museu de Lamego. Foto © Joaquim Félix

 

9. Pelo concurso de Maria e pela sua generosa disponibilidade,
― a ponto de se tornar, de livre vontade, toda obediente (escrava) ao seu Senhor ―,
Deus transforma a nossa esterilidade, a nossa desonra.
Eis porque S. Boaventura, numa das suas homilias,
em diálogo com a Virgem, lhe suplica insistentemente:
«Abre, ó Virgem santa, o coração à fé,
os lábios ao consentimento, as entranhas ao Criador.
Eis que o desejado de todas as nações está à tua porta e chama.
Se te demoras e Ele passa adiante,
terás então de recomeçar dolorosamente a procurar o amado da tua alma.
Levanta-te, corre, abre.
Levanta-te pela fé, corre pela devoção, abre pelo consentimento».
Que estas insistências sejam também para nós.
Procuremos, na fé que vamos professar,
dizer o nosso sim ao anúncio que nos foi dirigido.
«Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Hom. 4, 8-9).

10. Deus destrói os nossos impossíveis.
Façamos por isso o que pede (e pode) o nosso coração,
porque Ele está connosco, como esteve com David e Maria.
Abra-se o coração, templo da sua glória, e germine o Salvador.
Acolhamo-Lo na Eucaristia, para que, grávidos da sua presença,
O possamos dar à luz em obras de caridade,
cheias da sua claridade e sabedoria.
Sejamos a ‘carne’ da Palavra que ouvimos.
Sim, por ela, a Palavra, estejamos sempre prontos a renascer;
a ser um reflexo da sua luz que, na nossa vida, brilha para o mundo.
Isto é, pelo mistério da sua Incarnação,
que também brilha na nossa carne habitada.
E, reconhecidos pela sua grande bondade,
cantemos eternamente a suas misericórdias:
«A Deus, o único sábio, por Jesus Cristo,
seja dada glória pelos séculos dos séculos» (Rom 16,27).

Presépio

Presépio, construído junto ao altar de Nossa Senhora do Livramento, na igreja paroquial de Fragoso. Foto © Joaquim Félix

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais VERNA. Este texto corresponde à homilia do passado domingo – Domingo IV do tempo do advento ― b ― 2023, do calendário litúrgico católico,  proferida na comunidade paroquial de Fragoso, concelho de Barcelos.

 

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