O constitucionalista Pedro Bacelar de Vasconcelos, que ajudou a redigir a Constituição de Timor, esteve recentemente naquele país, onde visitou o padre João Felgueiras, jesuíta e missionário em Timor-Leste desde 1971. Neste texto, relata ao 7MARGENS como foi esse reencontro.

Pedro Bacelar de Vasconcelos e padre João Felgueiras, fotografados no Centro Juvenil Padre António Vieira, nos arredores de Díli, onde o missionário reside atualmente. Foto: Direitos reservados
Foi por uma tarde de sábado. Conforme as preciosas indicações oferecidas pelo padre Domingos Maubere e pela dra. Rosalina, rumei em direção a Taibessi, na periferia de Díli, e depois de contornar o Cemitério de Santa Cruz, virei à esquerda e cheguei por fim ao Centro Juvenil Padre António Vieira.
Bati à porta e perguntei pelo padre João Felgueiras. Não tive que esperar muito até que chegasse junto a mim aquela figura frágil e imponente do alto dos seus 103 anos completos que não desmerecem os inúmeros jovens que animam o Centro onde se acolhe. Ou melhor, é enternecedor observar a atenção e os cuidados de que toda aquela gente rodeia o velho missionário jesuíta. Não fosse ele encarnação da história trágica que construiu a identidade de todo um povo. Sim, uma identidade construída no martírio e na resistência heroica contra um invasor que até conseguiu, pela opressão e brutalidade exercidas ao longo de mais de duas décadas, indulgenciar as responsabilidades próprias do ancestral colonizador europeu.
É impressionante a energia que mantém este homem de pé. Inquieto, procura refazer os antecedentes do nosso reencontro. Afável, partilha as dores de familiares perdidos, as memórias de amigos comuns e de lugares distantes. E de uma estante repleta de carinhosas recordações, reclama a foto de um sobrinho que precocemente nos deixou para se fazer fotografar com ela, comigo e com os seus cuidadores, num gesto metafísico de sublimação da ausência, dessa fronteira transcendente que une a vida e a morte. Mas foi da vida que falámos, serenamente. Das carências, da resignação, dos projetos, da esperança. E não me deixou sair sem eu lhe garantir que iria visitar a obra educativa mais recente, onde acolhem mais de um milhar de crianças e jovens timorenses, construída com teimosa determinação e a ajuda de inúmeros beneméritos: a Escola Amigos de Jesus. E lá fui, logo a seguir, confortado no calor do seu abraço.

Escola Amigos de Jesus, a obra educativa mais recente, que acolhe mais de um milhar de crianças e jovens timorenses, construída com teimosa determinação e a ajuda de inúmeros beneméritos. Foto: Direitos reservados
Díli, 24 de fevereiro de 2024










