A notícia da morte de Maria Teresa Horta fez-me recuar até aos dias em que a contactei por causa de um projeto de criação-investigação que queria desenvolver sobre a sua obra Anunciações: Um romance (D. Quixote, 2016). Enquanto compositor, interessava-me uma poética plena de música na sua matéria verbal. Do ponto de vista dos Estudos de Religião, interessava-me pensar a heterodoxia como um dos lugares de metamorfose do sagrado contemporâneo.
Contactei-a com o intuito de lhe pedir autorização para construir um ciclo de canções corais a partir de alguns excertos daquela obra, recentemente lançada. Acolheu o pedido com muito interesse. Apenas uma condição. Tomarmos juntos um chá ou café, para conversarmos sobre aquele poema. A conversa teve quase um só sentido. Ouvi-la a falar de Maria, mulher entre outras Marias, que ela interrogava na sua aventura humana.
Ficcionando e dilatando o tempo do encontro entre Gabriel e Maria, numa narrativa mística, Maria Teresa Horta compõe um conjunto de quadros, em que as figuras da narrativa cristã ganham espessura humana, numa via de descoberta do feminino. O programa musical que construí recorta seis desses quadros, para os habitar com ressonâncias, que ora se apresentam como uma cenografia imaginária, ora mergulham no alumbramento das palavras. Assim nasceu o ciclo No princípio eram as asas, para vozes e violoncelo. A obra foi estreada, com a presença de Maria Teresa Horta, na temporada da Música em São Roque, na Igreja de São Roque (Lisboa, 19-11-2017), com as vozes do Coro Juvenil do Instituto Gregoriano de Lisboa e com o violoncelo de Pedro Massarrão, sob a direção de Filipa Palhares.
Um excerto do ciclo realizado no Centro Cultural de Belém, a 23-06-2018 (Coro Juvenil do Instituto Gregoriano de Lisboa, com o violoncelista Nelson Ferreira, sob a direção de Filipa Palhares.
Anunciações desvela-se como um romance de amor. Apenas dois actantes são necessários: O Arcanjo Gabriel – com as “plantas brancas e geladas dos pés” de tanto voar – e a jovem Maria – que se encontra inclinada sobre o seu livro – deixam-se levar pelo deslumbramento mútuo. A organização de Anunciações não acontece por acaso. Encontra-se dividida em catorze “estações”, como as da “Via Crucis”, que o filho irá percorrer nas horas que precedem a sua morte por crucificação.
Li este livro sob o signo do paradoxo – continuidades e descontinuidades que se implicam. Continuidade, antes de mais, em relação às causas da autora. A Maria das Anunciações é dona das suas próprias ações, mulher de escolhas e de vontade. É o reverso da figura de uma mulher elegida, para uma história sagrada, pelo próprio Deus, exigindo a suspensão da sua vontade de mulher para que outra vontade se possa acolher (“faça-se”): “Entendendo de súbito/ o que dela se espera/ de pureza absurda/ de cega obediência” (p. 81). Resgatar a mulher que há em Maria, parece ser a causa deste “romance”. Isso mesmo se transcreve na página que sela o livro: “Resguardando/ a mulher/ que de ti se perdia/ se não fechasse/ as palavras/ com a chave da poesia” (p. 320).
Como noutras obras de Maria Teresa Horta, continuamos perante uma poética da sedução, entre o corpo e a palavra, mas o cenário é inesperado. Adotando o léxico de Octavio Paz, a “erótica verbal” parece aproximar-se, mais do que noutros livros, da erótica mística. Sobretudo, na medida em as linguagens do corpo e as figuras do desejo transportam a inquietude tensional do místico. O anjo e Maria pressentem-se, tocam-se – no hálito, no sopro, no rumor, no corpo dançante –, mas não deixa de se encenar um certo hieratismo, próprio da temporalidade ritual. O corpo alumbrado das figuras é o lugar da sacralidade poética, entre a dança e a luta.
Esse diálogo com a memória mística, o programa textual do ciclo de canções faz uso de tropos literários, que embuti no poema de Maria Teresa Horta. Essa intertextualidade traduz-se num registo de heterogeneidade em relação aos materiais musicais – o tropo é uma “outra voz”, que se diz, se canta ou sussurra, ao longe ou ao perto, mas sempre como algo exterior ao poema. É nessa condição de alteridade que se estabelece um diálogo possível entre o “romance” de Maria Teresa Horta e outros universos poéticos: Dande Alighieri, Teresa de Lisieux, Hildegard von Bingen, José Tolentino Mendonça, Teresa de Ávila e João da Cruz (a voz de José Tolentino Mendonça justificava-se ainda mais, depois da sua presença num dos eventos de lançamento do livro).
A poesia inquieta de Maria Teresa Horta é uma dança heterodoxa. Ainda mais do que em livros anteriores. Não só porque este “romance” se confronta com uma narrativa canonizada, mas também porque essa exploração do limite exige um trabalho de iconoclastia, tendo em conta o império imagístico que decorre daquela narrativa cristã. Neste contexto, as vozes de Maria e de Maria Teresa confundem-se na demanda do eu feminino. Por um lado, Maria é feminizada; por outro, o anjo é humanizado. Na sua poesia, a erotização é uma forma de humanização – essa é a epifania que a autora persegue. O “romance” é revelacional: o anjo é corpo de desejo, Maria é mulher.
Neste sentido, a desocultação do eu feminino de Maria, procurada por Maria Teresa Horta, embora num lugar estético de heterodoxia, dialoga com as propostas teológicas que regressam às narrativas cristãs para aí descobrir Maria como uma mulher – uma voz, um corpo – na história do mundo palestinense.
Alfredo Teixeira é teólogo, antropólogo e compositor.
(Foto de destaque: Maria Teresa Horta. Imagem reproduzida a partir da página de Facebook Maria Teresa Horta – Página oficial)










