A cerca de 60 km de Barcelona ergue-se um maciço rochoso que por parecer um monte que foi serrado lhe valeu o nome de Montserrat.
Montserrat é um parque natural e, desde 1025, ali se encontra um mosteiro beneditino. É também um santuário mariano onde se venera a imagem da Moreneta, assim chamada devido à sua cor escura.
Sempre que chego a Montserrat sinto que estou de volta a casa. Sinto-o desde a primeira vez que fui, ainda sem fazer ideia do que ia encontrar. Foi mesmo um lugar revelado!

Montserrat é um parque natural e, desde 1025, ali se encontra um mosteiro beneditino.
“Não sei o que há em vós que me faz amar-vos tanto, montanhas” escreveu Maragall, poeta catalão (1860 – 1911)
E estas são algumas coisas de que gosto:
Gosto quando ao longe se começa a ver o recorte das montanhas.
Gosto do ar que se respira à chegada e de uma sensação de Liberdade e de Paz.
Gosto da natureza e espiritualidade tão bem ligadas entre si.
Gosto de me sentir parte da multidão que há mil anos sobe até lá.
Gosto dos cheiros, dos sons, das cores, da beleza que se vai encontrando nos múltiplos caminhos e trilhos.
Gosto de saber que se me perder terei sempre indicações discretas mostrando a direção certa.
Gosto da preocupação e cuidado com a proteção da natureza, procurando sempre como melhorar através de projetos e iniciativas diversas.
Gosto de ver os escaladores com as suas cordas e ferros subirem aquelas paredes rochosas. Gosto dos grupos que chegam cheios de entusiasmo.
Gosto dos dias de nevoeiro que subitamente dão lugar ao céu azul.
Gosto de ouvir os sinos que marcam o ritmo do dia.
Gosto da música que há séculos, ali é composta, cantada, tocada. Gosto de ouvir os meninos da Escolania cantarem cheios de seriedade e, depois, de os ver brincar em grande algazarra nos campos de jogos.
Gosto das celebrações litúrgicas, longas, preparadas com todo o cuidado, sendo ao mesmo tempo solenes e simples e onde os problemas do mundo e da atualidade estão sempre presentes.
Gosto de, no início da manhã, participar no ofício de Laudes e da beleza do Pai Nosso de Rachmaninov.
Gosto das vésperas, ao fim da tarde, com o Cântico de Maria e a Salve Regina.
Gosto quando no final dos ofícios pedem a bênção para todos os ausentes.

“Gosto quando no final dos ofícios pedem a bênção para todos os ausentes.” Foto © site Virgen de Montserrat
Gosto de subir à Moreneta, sozinha de manhã cedo, ou em longas filas durante o dia.

“Gosto de subir à Moreneta, sozinha de manhã cedo, ou em longas filas durante o dia.” Foto: Nossa Senhora de Montserrat (Moreneta). © Enrique López-Tamayo Biosca / Wikimedia Commons
Gosto de ver as multidões que chegam pela manhã enchendo todos os recantos de línguas e cores diversas e que partem à tarde deixando atrás de si calma e silêncio.
Gosto do museu e de toda a arte que se vai encontrando também no exterior.
Gosto de ver dançar sardanes, dos castells e de todas as manifestações da cultura catalã que enchem de vida e alegria as praças do mosteiro.
Por ser atual e revelar o espírito da comunidade que ali vive, refiro uma situação ocorrida há poucas semanas:
No âmbito das celebrações do Milenário de Montserrat foi programada uma jornada sobre o Abade Oliba, fundador do Mosteiro, como exemplo na promoção da Paz e dos valores beneditinos durante os conflitos existentes em 1025, e como fazer a sua aplicação a casos geopolíticos da atualidade.
O rei Filipe e a rainha Letizia quiseram estar presentes o que provocou uma grande contestação por parte de muitos que consideram o rei como inimigo do povo catalão… Mesmo grupos muito próximos do mosteiro pediram aos monges que não os recebessem. Houve momentos de grande tensão. Mas os monges afirmaram que a regra de São Bento tem como ponto forte a hospitalidade e o receber todos e de se estabelecer diálogo e procura de paz com os que os visitam.
A visita realizou-se com respeito e tranquilidade, mas tendo ficado bem explicito que o mosteiro está inserido na Catalunha e defende e promove a Língua e a Cultura catalãs.
Mas esse aspeto de pertença a um local não impede a abertura ao mundo. Assim o exemplifica a ida de um monge para o Uganda depois de uma visita que fez com um grupo da Escolania. Ficou tão impressionado com a miséria extrema encontrada que sentiu não poder deixar de fazer alguma coisa. Há cinco anos que lá vive desenvolvendo projetos de ajuda social, sempre em colaboração com as pessoas locais, e que já apresentam resultados positivos. Neste momento inicia uma pequena comunidade num dos bairros de lata mais pobre de Kampala com a ajuda financeira do mosteiro de Montserrat. Chama-se comunidade do Bom Samaritano.
Goethe escreveu “Para encontrar a alegria e a paz cada um deve procurar o seu próprio Montserrat“
No outro dia ouvi alguém dizer “Em Montserrat é sempre festa!”
Lucy Wainewright










