Em Nome da Mãe é um pequeno e belíssimo livro, particularmente apropriado para acompanhar estes escassos dias que antecedem o Natal. Esgotada há anos a edição da Quetzal de 2007, regressou agora, publicado pelo Apostolado da Oração. Estes são os dias de Maria e José. Erri de Luca narra-os pela voz de Maria, Míriam em hebraico. O escritor apresenta a Mãe de Jesus de um modo admirável. É sempre ela que, com extrema delicadeza, conta a História, relatando o que sentiu, pensou e fez entre a Anunciação e a Natividade. É também frequentemente através de Míriam/Maria que vamos sabendo de José e de como também ele vive estes momentos que iriam mudar a humanidade.
Este livro assaz singular deu origem a diversos monólogos teatrais. Hoje mesmo, em Roma, no Teatro OFF/OFF, a actriz italiana Margherita Remotti, dirigida por Pierpaolo Sepe e Riccardo Festa, estará em palco para, como ela escreve no Instagram, interpretar “uma mulher que diz ‘sim’ e muda o destino da humanidade”, contando “a história de Míriam/Maria que, entre o medo e o espanto, escolhe o amor”. Outra actriz italiana, Galatea Ranzi, esteve em Lisboa, no Teatro do Bairro, no passado mês de Junho, a dar igualmente voz à protagonista de Em Nome da Mãe, com encenação de Gianluca Barbadori e produção do Teatro Biondo di Palermo.
Em Nome da Mãe é escrito, como Erri de Luca revela no prefácio, a partir do que os Evangelhos de Mateus e Lucas dizem sobre Maria, ampliando “um pormenor por eles mencionado: a ascendência da natividade no corpo feminino, o mais perfeito mistério natural”.
Como se escreve no texto de divulgação do Teatro OFF/OFF, o monólogo conta “a história de uma mulher que por amor desafia o mundo com o seu corpo”; uma história “vivida pela mulher mais célebre de todas as mulheres (‘a mais abençoada de todas as mulheres’)”. Da “força sobre-humana que Míriam incorpora, nasce o mistério da Graça, o escândalo do Amor de que este nosso mundo agora precisa mais do que nunca: um sim dito contra tudo e todos, contra as leis, contra a moralidade, contra todo o preconceito, contra todas as barreiras físicas e fronteiras geográficas”.
A graça, diz José a Maria, “não é um andar sedutor, não é o porte elegante de algumas das nossas mulheres bem-postas. É a força sobre-humana para enfrentar o mundo sozinha”. Afirma ainda José que a graça é um dom e que Maria o possui. “Quem o recebeu está livre de todo o medo”.
O autor de Em Nome da Mãe, Erri De Luca, é um dos mais conhecidos escritores italianos contemporâneos. Entre 1968 e os anos 80, militou na Lotta Continua, uma organização de extrema-esquerda, e, na última década do século passado, foi motorista de camiões que levaram ajuda humanitária para a Bósnia no tempo da guerra na ex-Jugoslávia, tendo-se deixado ficar em Belgrado durante os meses em que a NATO bombardeou a cidade.
A extraordinária admiração por Maria, tão bem patente nesta obra, não ofusca uma enorme simpatia por José. Erri de Luca fala com entusiasmo sobre ele numa entrevista concedida ao jornalista António Marujo: “O seu nome vem do verbo hebraico yasaf, que quer dizer acrescentar. Yosef, à letra, é aquele que acrescenta. E o que acrescenta ele? Para já, a sua fé. Ele acredita na versão da sua noiva, grávida, mas não dele. Acrescenta a sua fé à fé da rapariga que tinha acolhido aquela notícia” [1].
Afirma ainda Erri de Luca que “José acrescenta-se ainda como esposo daquela rapariga, impedindo assim a condenação à morte, porque ela, perante a lei, era adúltera. E acrescenta-se enquanto segundo pai daquela estranha criatura aparecida no meio deles, Jesus, Yeshu em hebraico. Ele contribui e muito para esta história. No evangelho não é tido em conta, mas nesses nove meses deu um contributo enorme”.
Estes são os dias de Maria e José; os dias que antecedem “a plenitude dos tempos” [2].
Bom Natal.
NOTAS
[1] António Marujo, “Erri de Luca a mastigar um caroço de azeitona e a falar da felicidade”. Público, 5 de Novembro de 2009
[2] Gálatas 4:4-5










