
O encontro de domingo teve como modelo o de 5 de julho de 1924, também organizado durante os Jogos Olímpicos na capital francesa. Foto © Yannick Boschat / Diocèse de Paris
Enquanto os líderes políticos um pouco por todo o mundo parecem ignorar o apelo a uma trégua olímpica, em Paris os representantes de cinco religiões – cristãos (ortodoxos, protestantes e católicos), judeus, muçulmanos, budistas e hindus – reuniram-se em frente à catedral de Notre-Dame para celebrar a fraternidade e rezar pela paz, que ainda acreditam ser possível. O encontro – expressamente solicitado pelo Comité Olímpico Internacional – aconteceu este domingo, 4 de agosto, e fez memória de uma cerimónia inter-religiosa que aconteceu nos Jogos de Paris, há precisamente cem anos.
A celebração contou com a presença de Thomas Bach, presidente do Comité, que já havia estado presente na missa pelo início da trégua olímpica, no passado dia 19 de julho, e de cerca de 100 capelães do centro multirreligioso da aldeia olímpica de Paris. “Neste verdadeiro espírito olímpico, lanço um apelo a todos vós, independentemente da vossa fé. Juntemo-nos aos atletas no seu apelo à paz. Por favor, partilhem este apelo à paz com todas as vossas comunidades religiosas. Desta forma, as nossas muitas vozes tornar-se-ão uma só”, pediu Bach, lembrando que o objetivo dos Jogos Olímpicos “é unir o mundo numa competição pacífica” entre “esperança e solidariedade”.
Houve vários discursos livres, orações, exortações e leituras da parte dos diferentes líderes religiosos, mas Emmanuel Gobilliard, delegado para os Jogos Olímpicos da Conferência Episcopal Francesa, destacou, em declarações ao Vatican News, a beleza e a força do momento de silêncio que ocorreu: “acho que é a maneira mais bonita de expressar uma oração comum”.
O bispo, que também tem estado na aldeia olímpica a prestar apoio espiritual aos atletas, partilhou o que leva a maioria dos atletas a procurá-lo: “Os atletas que me procuram são, antes de tudo, muito sensíveis à questão da paz. Eles simplesmente querem rezar, confessar-se, partilhar os seus pensamentos e receber uma bênção: não para ganhar uma medalha de ouro, mas para poder viver plenamente essa experiência tão humana e avassaladora que é o desporto olímpico”.
O encontro de domingo teve como modelo o de 5 de julho de 1924, também organizado durante os Jogos Olímpicos na capital francesa. Foi levantada a questão de considerá-lo “uma celebração religiosa ou um encontro fraterno”, explicou Gobilliard. Conforme declarado na nota do Comité Olímpico e Desportivo Nacional da França, em 1924, Pierre de Coubertin especificou que a cerimónia não incluiria “nem missa, nem bênção, nem padres no altar, absolutamente nada que caracterize uma cerimónia católica, nada mais do que belas canções, num belo cenário, e algumas palavras de boas-vindas muito seculares…”. Na época, o evento, que reuniu quase todos os atletas, foi elogiado pela imprensa. O Paris Soir escreveu, por exemplo: “esta manhã Deus realizou um milagre. Ele reuniu protestantes, budistas, semitas e cristãos ortodoxos no seu santuário”.
Passados cem anos, este encontro decorreu depois de vários líderes religiosos de todo o mundo terem protestado contra o momento da cerimónia de abertura dos Jogos que aparentava ser uma paródia do quadro A Última Ceia, de Leonardo da Vinci. Já este sábado, 3 de agosto, foi a vez de o Vaticano reagir: “A Santa Sé está triste com algumas cenas da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris e não pode deixar de se juntar às vozes que se levantaram nos últimos dias para deplorar a ofensa feita a muitos cristãos e fiéis de outras religiões”, pode ler-se numa breve declaração.
“Num evento de prestígio, onde o mundo inteiro se reúne em torno de valores comuns, não deve haver alusões que ridicularizem as convicções religiosas de muitas pessoas”, assinala o comunicado. “A liberdade de expressão, que obviamente não é posta em causa, encontra o seu limite no respeito pelos outros”, conclui.









