Foi uma multidão eufórica que, neste sábado ao princípio da tarde, saudou o Papa Leão XIV, mal o papamóvel desembocou na rotunda do Arco do Triunfo, contornou o monumento e seguiu por uns Campos Elísios repletos de pessoas a agitar bandeirinhas. Demorou mais de meia hora até chegar à Praça da Concórdia, onde decorreu a celebração da Eucaristia.
Este foi um dos pontos mais altos da visita papal, um acontecimento que já não se verificava desde o pontificado de Bento XVI, em 2008. Centenas de milhares de pessoas, entre as quais muitos jovens que já haviam estado no dia anterior no Estádio da França, participaram na celebração, concelebrada por cerca de 2000 sacerdotes e acompanhada por um coro de múltiplas paróquias francesas, que se aproximava também das duas mil vozes. E ainda 12 mil voluntários. Numa França que faz jus à secularização, uma tal manifestação de entusiasmo e de fé é digna de registo.

“A homilia do Papa tomou a água viva, de que falava o Evangelho, e a sede, como mote. “Qual é a nossa sede mais profunda? O que procuramos realmente na vida?”, interrogou Leão XIV. ” Foto: Missa na Praça da Concórdia. © Vatican News
A homilia do Papa tomou a água viva, de que falava o Evangelho, e a sede, como mote. “Qual é a nossa sede mais profunda? O que procuramos realmente na vida?”, interrogou Leão XIV. E desenvolveu: “Todos aspiramos à felicidade, ao amor, à realização. Mas em que fonte procuramos saciar a nossa sede? Contentamo-nos com os bens materiais, com satisfações imediatas, com tantos pequenos ídolos que prometem mundos e fundos, deixando o nosso coração vazio? Com o Batismo, recebemos a água viva de que fala o Evangelho, mas será que na verdade encontrámos pessoalmente Cristo? Na sua essência, o ser humano é um ser que ‘deseja’ e só Deus pode preencher este vazio interior”.
O Papa lembrou que Jesus Cristo, “o Bom Pastor, conhece pelo nome cada um e cada uma; (…) carrega aos ombros as ovelhas cansadas ou feridas e, com delicadeza, traz de volta as que se perderam”. “Para Ele, acrescentou o Pontífice, nenhum de nós é um simples número no cartão de cidadão ou um código de identificação, mas uma pessoa, única e insubstituível”.
A partir da Praça da Concórdia, o bispo de Roma disse rezar para que “a água viva do Espírito Santo se espalhe em toda a França”, pensando particularmente nas famílias, nos jovens, que disse serem “a Igreja de hoje”, e nos catecúmenos e neófitos, que empreendem “o caminho da fé, da conversão e da iniciação cristã”.

Leão XIV na Maison Bakhita escutando o testemunho de um jovem imigrante. Foto retirada de vídeo © Vatican News
Neste sábado, logo de manhã, Leão XIV visitou, na capital francesa, o projeto Maison Bakhita, de acolhimento e integração social de migrantes. De acordo com o Vatican News, «o projeto, inaugurado em 2021, nasceu como resposta a um apelo do Papa Francisco feito em 2017, por ocasião do Dia Mundial do Migrante, quando propôs os famosos quatro verbos para as sociedades contemporâneas em matéria de migração: acolher, proteger, promover e integrar.
No local, o Papa fez uma intervenção em resposta a testemunhos e perguntas de alguns utentes. A dado passo, o visitante salientou que “a história da Igreja e da humanidade, se bem observada, não é escrita por quem parece vencer, impondo-se e ocupando o espaço, mas por quem ‘abre espaço’, inicia processos de paz, gera confiança e encoraja à vida”.
“Não se trata, acrescentou, de meros sentimentos, mas de decisões e investimentos contra a corrente, cuja importância pública e promessa de futuro compreendemos cada vez melhor. Santa Bakhita.
Refira-se que Santa Josefina Bakhita (1869-1947), que dá nome ao projeto, foi uma religiosa católica sudanesa-italiana que se tornou um símbolo mundial de superação da escravidão, sendo a padroeira das vítimas do tráfico humano. Tomando o seu exemplo, Leão XIV afirmou que Santa Bakhita “compromete-nos a ver quem não é visto, a resgatar quem hoje a economia e a cultura fazem escravo, a honrar a dignidade infinita de cada irmão e irmã, nos quais o próprio Jesus bate à nossa porta”.
Por isso mesmo, observou o Papa, citando a exortação apostólica Dilexit Te, para os cristãos, os pobres “não são uma categoria sociológica, mas a própria carne de Cristo”; pelo que “não basta enunciar de modo genérico a doutrina da encarnação de Deus”. “Para entrar verdadeiramente neste mistério, é preciso – acentuou -especificar que o Senhor se faz carne que tem fome e sede, que está doente e na prisão”. “O Cristo pobre e crucificado deixa-se encontrar e amar nos homens e nas mulheres que nos chamam a sair de nós mesmos e a ousar a caridade”.
Por fim, referindo-se ao empenho dos que dão corpo ao projeto de acolhimento e integração que estava a visitar, o Papa chamou a atenção para “a troca de dons que se renova em cada encontro”, desenvolvendo deste modo: “ninguém é tão pobre que não tenha algo para oferecer; e ninguém é tão rico que não tenha algo a receber. Há vida em abundância ali onde os limites de cada um se abrem à presença misteriosa dos outros, nos quais Outro por excelência, o Deus da vida, se faz próximo”.

Leão XIV no Instituto Católico de Paris “onde se encontrou com os membros da Assembleia Sinodal Provincial.” Foto © Vatican News
No programa da visita papal estava ainda uma deslocação ao Instituto Católico de Paris, onde se encontrou com os membros da Assembleia Sinodal Provincial, começando por manifestar a sua surpresa com o número de pessoas que retomam o caminho da fé e com a quantidade de adultos que solicitam os sacramentos da iniciação cristã. Eis como analisou o fenómeno:
“Pode parecer paradoxal que este fenómeno, em que tantas pessoas redescobrem o Evangelho e abraçam a fé, aconteça no contexto de uma sociedade como a francesa, marcada por uma cultura fortemente secularizada. A vossa experiência e testemunho, queridos catecúmenos e neófitos, são o sinal tangível da ação da graça de Deus, que vai além das análises estatísticas e sociológicas. Este fenómeno, que contradiz qualquer atitude derrotista e aquilo que Papa Francisco chamava ‘pessimismo estéril’, deve ser acolhido com espírito de responsabilidade”.
“Com ternura pastoral e caridade fraterna, devemos reconhecer, acolher e guardar a pequena chama que o Espírito Santo acendeu na escuridão da noite, a pequena semente que aspira a crescer, mesmo no meio dos espinhos”, observou Leão XIV, alertando, ao mesmo tempo, para que “o espanto perante o que está a acontecer a muitos dos nossos irmãos e irmãs não deve fechar-nos numa alegre ingenuidade; pelo contrário, devemos comprometer-nos, procurar, questionar e empreender ações pastorais concretas”.










