Em Samos, com refugiados (1) – O campo, sítio onde chove e dói

| 28 Dez 19

Luísa Lopes dos Santos, licenciada em Medicina, está desde 20 de novembro em Samos, uma das várias ilhas gregas onde há um campo de refugiados. Voluntária da Samos Volunteers, escreveu ao longo destas semanas alguns textos em jeito de diário, que aceitou partilhar com os leitores do 7MARGENS.

É essa publicação que hoje iniciamos, com um texto onde a autora começa por evocar o que foi o dia de Natal no campo de refugiados, a que se segue a descrição do campo, escrita no início da sua estadia.

Luísa Lopes dos Santos (ao centro, com a guitarra), no dia de Natal, no campo de refugiados de Samos (Grécia). Foto Valentin Herdeg, cedida pelo autor

 

Hoje é Natal! Abrimos o Alpha [centro gerido pela Samos Volunteers] para música, cinema e chocolate quente! Hoje é Natal e as atividades são diferentes, o espírito é diferente. E foi um dia tão bonito, tão cheio do calor do Natal! Mas no final de um dia tão completo e feliz, a casa para onde voltam é o campo.

Em Samos, no campo, vivem agora perto de 8000 refugiados. O campo é um sítio frio! Um sítio sem luz, sem água, sem amor, sem Natal. É um sítio onde falta comida e escola, segurança e paz. É um sítio onde chove e onde dói. Onde há maridos sem esposas e filhos sem pais.

Hoje, no campo, não é Natal.

(25/12)

Campo de refugiados de Samos (Grécia). A “selva”, fora do campo oficial. Foto Valentin Herdeg, cedida pelo autor

 

Ontem choveu a noite toda e o sol não fez parar a chuva, e não estivesse eu aqui este seria um facto completamente irrelevante; mas aqui o mau tempo não é só mau, é péssimo, é terrível!

Fui visitar pela primeira vez o campo e o que nos disseram foi que, se fosse preciso parar, parávamos!

O campo foi construído no início da crise, em 2015, para 600 pessoas que ficariam na ilha um ou dois dias antes de serem transferidas para o continente.

Mas a crise aumentou muito rapidamente e os dias passaram a semanas, as semanas a meses e os meses a anos. Hoje, a cidade onde vivem 7000 pessoas é também o sítio onde estão 6500 refugiados em busca de exílio.

Dentro do campo vivem atualmente 2000 refugiados e fora do campo, na jungle, 4500.

Chegam pessoas todos os dias e desde que cá estou, desde o dia 20 [de novembro], chegaram à ilha mais 433 pessoas (216 homens, 91 mulheres, 126 crianças menores).

Desde há cerca de ano e meio que as ONG’s não estão autorizadas a entrar no campo – apenas e só por motivos extraordinários. O campo está entregue ao exército para a distribuição de comida três vezes por dia (com filas que demoram até três horas e sem garantia de comida), ao único médico que serve os 6500 refugiados da ilha (só até às 14h) e ao ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), que quase nada consegue fazer).

Fora do campo, onde se (sobre)vive em tendas e contentores improvisados, vão atuando outras ONG’s, como a Movement on the Ground e Médicos Sem Fronteiras, que tentam humanizar um pouco as condições em que todos vivem, e ONG’s que, não trabalhando na jungle, dão apoio psicossocial, legal e médico aos refugiados, aqui na cidade.

A chuva parece que fez tudo pior! Aqui não se podem tirar fotografias, mas as imagens são tal e qual o que já conhecemos com o campo branco e cinzento, com roupas penduradas no arame farpado que vai à sua volta, com as tendas no meio das árvores, com lama no meio da estrada.

É tão mau quanto parece e pior: é desumano, é humilhante, é triste e dói muito de ver, de sentir, de viver.

As tendas estavam molhadas, os cobertores estavam molhados, as mulheres estavam molhadas, as crianças estavam molhadas e os documentos de pedido de exílio também estavam molhados.

Houve uma mulher que se aproximou de nós para pedir um tradutor e também ela estava molhada, com a cara molhada, que ajuda a disfarçar as lágrimas; lágrimas de desespero, de medo, de dor.

Eu queria parar e chorar com ela, parar e abraçá-la, parar e dizer-lhe que vai ficar tudo bem, mas não vai ficar tudo bem!

Só cerca de 20% dos refugiados que chegam à ilha é que conseguem começar o processo de pedido de exílio e só 51% dos que se candidatam a exílio é que o conseguem.

Em nome da vida fogem e perdem vida, são torturados e perdem vida, são abusados e perdem vida, metem os filhos no meio do mar e perdem vida. E, quando aqui chegam, não havendo muito mais vida para perder, perdem vida.

(23/11)

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