Em Samos, com refugiados (1) – O campo, sítio onde chove e dói
É essa publicação que hoje iniciamos, com um texto onde a autora começa por evocar o que foi o dia de Natal no campo de refugiados, a que se segue a descrição do campo, escrita no início da sua estadia.

Luísa Lopes dos Santos (ao centro, com a guitarra), no dia de Natal, no campo de refugiados de Samos (Grécia). Foto Valentin Herdeg, cedida pelo autor
Hoje é Natal! Abrimos o Alpha [centro gerido pela Samos Volunteers] para música, cinema e chocolate quente! Hoje é Natal e as atividades são diferentes, o espírito é diferente. E foi um dia tão bonito, tão cheio do calor do Natal! Mas no final de um dia tão completo e feliz, a casa para onde voltam é o campo.
Em Samos, no campo, vivem agora perto de 8000 refugiados. O campo é um sítio frio! Um sítio sem luz, sem água, sem amor, sem Natal. É um sítio onde falta comida e escola, segurança e paz. É um sítio onde chove e onde dói. Onde há maridos sem esposas e filhos sem pais.
Hoje, no campo, não é Natal.
(25/12)

Campo de refugiados de Samos (Grécia). A “selva”, fora do campo oficial. Foto Valentin Herdeg, cedida pelo autor
Ontem choveu a noite toda e o sol não fez parar a chuva, e não estivesse eu aqui este seria um facto completamente irrelevante; mas aqui o mau tempo não é só mau, é péssimo, é terrível!
Fui visitar pela primeira vez o campo e o que nos disseram foi que, se fosse preciso parar, parávamos!
O campo foi construído no início da crise, em 2015, para 600 pessoas que ficariam na ilha um ou dois dias antes de serem transferidas para o continente.
Mas a crise aumentou muito rapidamente e os dias passaram a semanas, as semanas a meses e os meses a anos. Hoje, a cidade onde vivem 7000 pessoas é também o sítio onde estão 6500 refugiados em busca de exílio.
Dentro do campo vivem atualmente 2000 refugiados e fora do campo, na jungle, 4500.
Chegam pessoas todos os dias e desde que cá estou, desde o dia 20 [de novembro], chegaram à ilha mais 433 pessoas (216 homens, 91 mulheres, 126 crianças menores).
Desde há cerca de ano e meio que as ONG’s não estão autorizadas a entrar no campo – apenas e só por motivos extraordinários. O campo está entregue ao exército para a distribuição de comida três vezes por dia (com filas que demoram até três horas e sem garantia de comida), ao único médico que serve os 6500 refugiados da ilha (só até às 14h) e ao ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), que quase nada consegue fazer).
Fora do campo, onde se (sobre)vive em tendas e contentores improvisados, vão atuando outras ONG’s, como a Movement on the Ground e Médicos Sem Fronteiras, que tentam humanizar um pouco as condições em que todos vivem, e ONG’s que, não trabalhando na jungle, dão apoio psicossocial, legal e médico aos refugiados, aqui na cidade.
A chuva parece que fez tudo pior! Aqui não se podem tirar fotografias, mas as imagens são tal e qual o que já conhecemos com o campo branco e cinzento, com roupas penduradas no arame farpado que vai à sua volta, com as tendas no meio das árvores, com lama no meio da estrada.
É tão mau quanto parece e pior: é desumano, é humilhante, é triste e dói muito de ver, de sentir, de viver.
As tendas estavam molhadas, os cobertores estavam molhados, as mulheres estavam molhadas, as crianças estavam molhadas e os documentos de pedido de exílio também estavam molhados.
Houve uma mulher que se aproximou de nós para pedir um tradutor e também ela estava molhada, com a cara molhada, que ajuda a disfarçar as lágrimas; lágrimas de desespero, de medo, de dor.
Eu queria parar e chorar com ela, parar e abraçá-la, parar e dizer-lhe que vai ficar tudo bem, mas não vai ficar tudo bem!
Só cerca de 20% dos refugiados que chegam à ilha é que conseguem começar o processo de pedido de exílio e só 51% dos que se candidatam a exílio é que o conseguem.
Em nome da vida fogem e perdem vida, são torturados e perdem vida, são abusados e perdem vida, metem os filhos no meio do mar e perdem vida. E, quando aqui chegam, não havendo muito mais vida para perder, perdem vida.
(23/11)
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