Em Samos, com refugiados (3) – O Alpha, onde as pessoas são tratadas como pessoas

| 29 Dez 19

Licenciada em Medicina, Luísa Lopes dos Santos está desde 20 de novembro em Samos, uma ilha grega onde há um campo de refugiados. Voluntária da Samos Volunteers, escreveu ao longo destas semanas alguns textos em jeito de diário, que aceitou partilhar com os leitores do 7MARGENS. O primeiro texto descrevia o campo e referia o dia de Natal que ali se viveu, enquanto no segundo falava das crianças, que constituem 28 por cento das pessoas que chegam e vivem no campo.

Neste terceiro capítulo do diário fala do Alpha, o espaço gerido pela Samos Volunteers, que começou por se destinar a distribuir chá ou poder jogar enquanto carregavam os telemóveis e se transformou em…

O Alpha, no campo de refugiados de Samos (Grécia), tornou-se num centro formativo com aulas de línguas, de música e de computadores, e espaço para pintura e costura e uma sala só para mulheres (na foto). Foto © Valentin Herdeg, cedida pelo autor

 

Deixem-me falar-vos um pouco do Alpha!

O Alpha está localizado no fundo da montanha do campo e é um centro gerido pela Samos Volunteers com os refugiados. É um espaço seguro onde todos são bem-vindos para um copo de chá, de água ou de limonada e para um jogo de xadrez ou damas, enquanto deixam o seu telefone a carregar numa das charging stations. Esta era a ideia inicial do Alpha, mas com o processo de asilo a ficar mais e mais longo, o Alpha tornou-se também num centro formativo onde há aulas de inglês, grego, francês e alemão, de música e de computadores. Há ainda espaço para pintura, costura e toda uma sala só para mulheres.

Durante um turno no Alpha é preciso manter as coisas a acontecer: o chá quente, os copos limpos, o chão seco, a casa de banho lavada… Mas mais que isso é preciso manter o Alpha um espaço seguro e acolhedor onde as pessoas são tratadas pelo nome e onde se tenta humanizar um pouco toda esta situação.

Manter o Alpha um espaço seguro nem sempre é possível. No campo vivem 7500 pessoas em condições indescritíveis, sem acesso a água, eletricidade ou médico. Infelizmente, esta semana houve uma situação (chamemos-lhe situação) com um dos nossos beneficiários e parte do Alpha ficou destruído. Ao início é assustador ver tudo a cair à nossa frente. A seguir é revoltante. Depois ficamos a saber que esta pessoa tem historial de doença mental, que já foi várias vezes ao hospital e ao médico do campo e nada foi feito e a revolta transforma-se em frustração para com um sistema que não funciona e atinge pessoas, uma a uma de formas dolorosas e quase sempre sem retorno.

Não podendo mudar o sistema, podemos renovar o Alpha. Então, na sexta-feira [dia 6] fechámos e pintámos paredes, redecorámos espaços e matámos baratas para conseguirmos manter o Alpha um espaço seguro para todos!

Luísa Lopes dos Santos, a autora dos textos (esqª) e Anna, ambas da Samos Volunteers, a fazer pequenas reparações no Alpha. Foto © Valentin Herdeg, cedida pelo autor

 

No mês de Novembro, chegaram a Samos 1698 pessoas. É difícil pensar em números tão grandes, é difícil humanizar estatísticas, é difícil reconhecer que estas 1698 pessoas têm nomes, famílias, quereres, dores. E parece ainda mais difícil reconhecer que estas 1698 pessoas têm direitos que lhes estão a ser negados.

O Alpha não consegue mudar leis, não consegue fazer os processos mais rápidos, não consegue mudar as condições do campo. Mas no Alpha as pessoas são vistas, as pessoas não são estatísticas, as pessoas são tratadas como pessoas.

(11-12-2019)

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