Em Samos, com refugiados (4) – As mulheres que o mundo não vê têm cicatrizes no coração

| 2 Jan 20

São mulheres que carregam histórias pesadas e a maioria das cicatrizes que têm estão no coração. O mundo insiste em não as ver, em não as ouvir, em não as tratar. O mundo insiste em negligenciá-las e em silenciar a violência a que foram e são sujeitas. Quarta crónica de Luísa Lopes dos Santos que, entre 20 de Novembro e o final de Dezembro, esteve no campo de refugiados da ilha grega de Samos, como voluntária da Samos Volunteers.

Nas crónicas anteriores, a autora descreveu o campo, referindo o dia de Natal que ali se viveu; no segundo falou das crianças, que constituem 28 por cento das pessoas que chegam e vivem no campo; no terceiro descreveu o Alpha, espaço gerido pela organização não-governamental, que se transformou em espaço de formação em várias matérias e saberes.

Campo de refugiados de Samos (Grécia). Foto Valentin Herdeg, cedida pelo autor

 

O campo é dos homens e são três os motivos: há mais homens solteiros que arriscam a viagem, homens com família vêm sozinhos na esperança de depois pedir a reunificação familiar e as mulheres são mais transferidas para Atenas. Isto faz com que, no campo, onde agora vivem 8000 pessoas, 50% sejam homens, 30% crianças e apenas 20% mulheres.

No campo, as casas de banho e os chuveiros não funcionam, os postos de água corrente são poucos e recentes, mas as mulheres continuam a ser mulheres, continuam a ter a menstruação uma vez por mês em condições indescritíveis. Para tentar colmatar um pouco esta situação, estamos a começar no Alpha um projeto de criação de pensos higiénicos reutilizáveis, de modo a que sejam as próprias mulheres a fazer os seus pensos higiénicos e assim poder ter controlo sobre uma parte das suas vidas.

Aqui, muitas vezes a comunicação tem género e, para que as mulheres se sintam ouvidas, para que não se sintam negligenciadas, tornou-se necessário abrir espaços só para elas. Espaços onde elas se sentem seguras e ondem podem baixar a guarda. No Alpha, a cave e o sábado são só para mulheres! Elas entram, tiram o hijab e relaxam! Muitas usam as máquinas de costura para fazer roupas, para elas, para os filhos, porque gostam, porque precisam. Outras pintam, bebem chá, descansam! Todas as semanas temos uma atividade diferente. Maquilhagem, máscaras faciais, decoração de bolachas… atividades pensadas para que elas se sintam mulheres.

E há também as massagens! As massagens são um momento de calma e paz onde vemos mulheres que vamos reconhecendo pela cor do hijab a tirarem-no, a deitarem-se na maca e, durante meia hora, a esquecerem todos os problemas que carregam nas costas! É um momento muito pessoal, que tive o privilégio de partilhar com mais de quinze mulheres nas últimas semanas. À medida que a massagem avança, elas vão-nos contando as histórias sobre as marcas que têm no corpo. Esta foi no barco. Esta foi numa explosão, na Síria. Esta foi quando estive presa na Turquia. No olhar há uma normalidade anormal enquanto falam. Estão tristes, mas conformadas, habituadas à brutalidade com que a vida as tem tratado.

Estas mulheres carregam histórias pesadas e a maioria das cicatrizes que têm estão no coração. O mundo insiste em não as ver, em não as ouvir, em não as tratar. O mundo insiste em negligenciá-las e em silenciar a violência a que foram e são sujeitas.

(22-12-2019)

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