Em Samos, com refugiados (5) – A lavandaria, que não explica nada, mas explica todas as esperas

| 3 Jan 20

Após pouco mais de um mês em Samos, Luísa Lopes dos Santos confessa não ter aprendido como explicar a uma mulher que só pode lavar a sua roupa daí a quatro meses ou como explicar a uma criança que só pode comer meia banana porque, senão, não há para todos. Pelo contrário, a lavandaria é um sinal de como os refugiados aprendem, no campo de Samos, a esperar por tudo.

Última crónica de Luísa Lopes dos Santos que, entre 20 de Novembro e o final de Dezembro, esteve no campo de refugiados da ilha grega de Samos, como voluntária da Samos Volunteers. Nas crónicas anteriores, a autora descreveu o campo, referindo o dia de Natal que ali se viveu; falou das crianças, que constituem 28 por cento das pessoas que chegam e vivem no campo; descreveu o Alpha, espaço gerido pela organização não-governamental, que se transformou em espaço de formação em várias matérias e saberes; e falou das mulheres, que carregam histórias pesadas e que o mundo insiste em não ver, não ouvir e não tratar.

Campo de refugiados de Samos (Grécia) – organização de roupas na lavandaria. Foto © Valentin Herdeg, cedida pelo autor

 

À ilha grega de Samos chegam barcos todos os dias. Números não oficiais do campo contam já 10 000 pessoas, apenas menos 3000 que em Lesbos, num campo duas vezes mais pequeno. Fogem da guerra em direção à Turquia e, de lá, pagam para entrarem clandestinamente num barco com a esperança de uma vida melhor. Trazem apenas o que têm no corpo.

Com o tamanho do campo a aumentar, a Samos Volunteers sentiu a necessidade de criar uma lavandaria. São seis máquinas que funcionam 12 horas por dia, seis dias por semana desde há dois anos. O trabalho é muito logístico, muito mecânico. De manhã, duas pessoas da equipa vão ao campo entregar bilhetes para a roupa ser lavada. Quando os sacos chegam à lavandaria, o trabalho divide-se entre etiquetas com os nomes dos beneficiários, roupa dentro de máquinas e organização de prateleiras. É quase fácil esquecer o propósito do que fazemos.

Neste ano de 2019, a lavandaria lavou mais de cem mil sacos de roupa, mas ainda assim, cada habitante do campo só consegue ver a sua roupa lavada três vezes por ano. Para lavar a roupa, aqui espera-se.

Meia de criança na lavandaria do campo de refugiados de Samos. Foto © Luísa Lopes dos Santos, cedida pela autora.

 

Esperar parece ser a palavra de ordem: esperam pela primeira consulta médica obrigatória, esperam pela primeira entrevista, esperam pelos papéis oficiais, esperam. Esperam pela segunda entrevista, esperam pelo open card, esperam pela transferência, esperam. Esperam no campo, em contentores ou em tendas. Com ratos, baratas e doenças.

É uma espera desesperante que toda a gente espera que seja feita em silêncio. A polícia, violentamente, garante que as manifestações não existem, que o silêncio se mantém. E o silêncio que vai berrando na Europa sobre esta crise, vai matando. Ninguém parece ter culpa, ninguém parece assumir responsabilidade pelo desespero humanitário que aqui se vive, mas quando ninguém tem culpa, a culpa é de todos, a culpa é da Europa que vai falhando.

Trabalhar aqui em Samos foi um privilégio amargo que vem do des-privilégio de outros. Dar rosto à palavra refugiado é pesado, triste e torna tudo mais real. Há coisas que não aprendi, que não ficaram mais fáceis. Não aprendi a explicar a uma mulher que só pode lavar a sua roupa daqui a quatro meses, não aprendi a explicar a uma criança que só pode comer meia banana porque, senão, não há para todos, não aprendi a explicar-lhes porque é que eles vão para o campo e eu para casa. Não aprendi a explicar-lhes porque é que não são bem-vindos, porque é que a Europa não os quer, porque é que o mundo não lhes é casa.

(28-12-2019)

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