Precisamos de nos ouvir (9) – Sara Jona Laísse: Em tudo, os nossos rituais…

| 19 Fev 21

(…apenas para minimizar a dor, porque Charles Darwin tinha razão)
Istambul, Amor, festa, Margarida Paulino

“Após a devastação nas nossas vidas, devemos ser purificados, exorcizar a dor e retomar a vida.” Foto: Istambul, Fevereiro 2015. © Margarida Gonçalves Paulino.

 

Apetece-me sair pelas ruas e gritar: usem máscaras, a uns; sejam mais humanos, às entidades patronais que ignoram as normas impostas contra a covid-19; sejam gente, a todos os que se aproveitam de regras impostas, para não cumprirem com o que devem, nos seus locais de trabalho; chega de mortes, ao universo, que continua a conspirar em nosso desfavor.

Escrevi, neste jornal, em tempos, textos nos quais designava a covid-19 de pfùkwá; momomo (bicho papão), xitukulo mukumba, zuzu, cão tinhoso, por nos deixar com medo de viver e por nos atormentar a vida. Hoje vejo-a como um xipoco (fantasma) ou a treva, no fim da qual os sobreviventes terão que exorcizar os seus males. Cruzes!!!

Na minha cultura, após a morte de alguém, no oitavo dia é realizado o “ritual do mapete”. São utilizadas folhas e água para purificar o ambiente da família chegada do finado, especialmente de quem tenha cuidado e velado o corpo. Depois disso, é preparada uma massa à base de farinha de milho, misturada com carnes de galinha – tem de ser carne de um macho e de uma fêmea – que deve ser comida, por todos, no local do acontecimento. Para a restante família, a que não tenha participado, é levado um bocado de massa que lhes é servida mais tarde.

Caso a massa esteja ainda fresca, os ausentes no evento, devem comer um bocadinho que seja e dizerem a quem lha tiver levado (que é quem presenciou o ritual): himamane ou seja, entendi/recebo e aceito a purificação. Caso a massa já não esteja fresca, é colocada num lenço e os seus familiares devem tocá-la e dizerem a mesma coisa a quem tiver trazido o lenço, himamane. Outros casos há em que, não estando toda a família em casa, a massa é esfregada nas portas da casa ou numa das árvores, com intuito de que a sua atmosfera conserve a purificação, que será feita a quem entrar pela casa à dentro.

Para além de casos de purificação por morte, também os regressados, combatentes de guerras ou presos regressados de prisões devem ser purificados, para o recomeço de uma vida nova. Quando alguém tem maus sonhos, nos dias a seguir ao facto, pode, se o sonho for muito incómodo, limpar a negatividade da casa, colocando sal à volta desta. O mesmo sucede se alguém vir um xipoco ou tiver um presságio. Deve purificar a casa. A purificação é um ritual sempre presente na minha tradição.

A ideia que quero deixar é a de que após a devastação nas nossas vidas, devemos ser purificados, exorcizar a dor e retomar a vida. É o que julgo tenham que fazer os que sobreviverem à covid-19. Após tanta coisa inadequada e desumana, será necessário um ritual de purificação.

Inquieta-me que a ciência não tenha progredido, cem anos depois de uma pandemia similar. Alegra-me que o povo moçambicano, do qual sou filha, sobreviva à custa de saberes milenares. Aprendi alguns. Sabe-se que nos nossos meios de transporte, as pessoas andam às cavalitas umas das outras, nas carrinhas de caixa aberta, os chamados my love. Muitas das pessoas que não se têm contaminado nos trajectos realizados desse jeito ou as que vivem em casinhas que nem ao diabo lembram, dadas as mínimas dimensões que têm, dizem que se valem do tratamento à base de vapor de água quente, à mistura com folhas de eucalipto e ao chá de folhas de goiabeira ou de limoeiro, que fazem e tomam todos os dias. Alegra-me a conservação desse saber e o poder curador e apaziguador que ele tem.

Afinal, qual é a definitiva explicação sobre as imunizações, nos países onde as vacinas já estão a ser administradas? Há vacinas para uns, não haverá ou tardarão para outros… algumas razões, entre as quais, os modos de conservação. Além disso, que temperaturas abaixo do zero existem em grande parte do continente africano? Seremos, mais uma vez, sujeitos a não sobreviver, porque lutámos pela independência política e por aí parámos e investimos pouco na formação das pessoas… ou teremos mesmo de nos fazer valer do eucalipto e das folhas da goiabeira e de limoeiro, quando alguns de nós vivem acumulando riqueza apenas para benefício próprio? Irá sobrar-nos a “lei da selecção natural das espécies”… afinal Darwin tinha razão…

As únicas dúvidas que não tenho são as de que os nossos heróis, o pessoal dos serviços de saúde, precisará de um ritual de purificação e os restantes sobreviventes, do “ritual do mapete”. No final disto, a política de distribuição de renda básica dos seres humanos sobreviventes deverá ser refeita…. É urgente que a coisa mais importante na qual investir no mundo seja a formação. E que não faltem rituais de partilha de saberes ou de quadros, porque as pandemias e os vírus não fazem escolha de classe, numa sociedade na qual todos precisamos de todos. A dor da falta de um abraço tem-no provado, há cerca de um ano…

Lago Tiberíades, Israel. Purificação dos Pés. António José Paulino

“Que não faltem rituais…”. Foto: Lago Tiberíades, Israel. © António José Paulino.

 

Sara Jona Laisse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica, em Maputo e participante do movimento Graal, em Moçambique. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br

 

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