Embriaguez sem vinho

| 14 Abr 21

A juventude é a embriaguez sem vinho, dizia Goethe, mas quando o vinho está azedo a embriaguez passa a doença. A recorrência das crises, os surtos pandémicos e a falta de horizontes podem estar a criar uma geração perdida. Mas não terá sido quase sempre assim?

Jovens. Solidão.

“As perturbações mentais estão presentes nas populações em geral e nos jovens em particular.” Foto © Eric Ward / Unsplash

 

As perturbações mentais estão presentes nas populações em geral e nos jovens em particular. As razões deste quadro devem-se a uma multiplicidade de factores, desde influências genéticas e famílias disfuncionais ao abuso de álcool e substâncias químicas, passando pela falta de horizontes profissionais e factores resultantes do tipo de vida, indutores do desequilíbrio emocional.

Em Inglaterra, aproximadamente um em cada sete adolescentes apresenta um transtorno de saúde mental. Essa problemática de saúde pública é normalmente combatida através do aconselhamento escolar, visto que a cultura anglo-saxónica tem uma tradição de counselling aplicado a diversos contextos de vida, em particular desde o final da II Guerra Mundial, ocasião em que se tornou premente a necessidade de dar apoio psicológico às populações, às famílias atingidas pela desgraça e aos combatentes regressados dos teatros de guerra, cuja existência tinha sido abalada por anos de um conflito avassalador que deixou atrás de si legiões de mortos, feridos, devastação e destruição económica.

A revista científica The Lancet dá conta de um estudo recente, financiado pelo Economic and Social Research Council, que procura encontrar formas eficazes de lidar com o problema da saúde mental dos adolescentes, a qual continua a ser uma prioridade política. A ideia era determinar a eficácia e o custo-eficácia do aconselhamento humanístico baseado na escola para o tratamento do sofrimento psicológico dos jovens. Foram estudadas dezoito escolas do ensino secundário financiadas pelo Estado em toda a área metropolitana de Londres, e revelavam níveis relativamente altos de privação social e diversidade étnica.

Os participantes foram alunos com idades na faixa 13-16 anos, que tinham níveis moderados a graves de sintomas emocionais, mas excluíram-se do estudo os alunos que não frequentavam regularmente a escola, assim como jovens em risco de provocarem danos graves a terceiros ou auto-infligidos e também os que já estavam a receber intervenção psicológica, circunstância que não permite uma leitura generalizada do estudo a adolescentes com os problemas de saúde mental mais graves.

O estudo sugere algumas pistas na condução das políticas de saúde mental neste contexto, concluindo que o aconselhamento humanístico funciona mas não é inteiramente eficaz, e adianta que quando é acompanhado pelo aconselhamento pastoral potencia a eficácia do tratamento. Em estudos anteriores definiu-se que as escolas representam um ambiente excelente para pesquisas de alta qualidade em saúde mental, pelo que os investigadores sugerem uma avaliação rigorosa dos modelos alternativos no contexto das escolas no Reino Unido, a fim de apoiar as decisões mais adequadas sobre a combinação de serviços no atendimento a crianças e jovens no âmbito da saúde mental.

A nível internacional 85% dos pais identificaram alterações no estado emocional e comportamental dos seus filhos durante as quarentenas a que a pandemia obrigou, em especial dificuldades de concentração, irritabilidade, agitação, nervosismo e sentimentos de solidão. Entretanto um outro estudo da revista científica The Lancet Psychiatry, com 230 mil indivíduos, avança que a pandemia pode causar uma onda de problemas mentais e neurológicos sérios, uma vez que foi diagnosticada, a uma em cada três pessoas que recuperaram da covid-19, doença neurológica ou psiquiátrica até seis meses depois de terem contraído a infeção.

Um estudo dedicado aos efeitos da pandemia na população adolescente em Portugal, que se encontra em vias de publicação, adianta que, na faixa dos 16-17 anos de idade, 47,1% dos inquiridos relataram algum impacto psicológico da pandemia e 25,6% relataram que o impacto psicológico foi grave. Os níveis de depressão, ansiedade e stresse, assim como o impacto psicológico foi significativamente maior nas raparigas, tendo os rapazes apresentado mais dificuldades nos níveis de ansiedade mais elevados. Todavia não parece existirem estudos actualizados sobre os resultados do trabalho desenvolvido pelos psicólogos nas escolas públicas portuguesas.

Espera-se que surjam novos estudos sobre o impacto emocional e comportamental da covid-19 nas crianças, adolescentes e jovens portugueses, que permitam identificar os indivíduos em risco, desenvolver estratégias adequadas com vista à promoção da saúde mental das novas gerações e a prevenir patologias.

Goethe dizia que a juventude é a embriaguez sem vinho, mas quando o vinho está azedo passa a ser doença.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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