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Emídio Martins, LOC, JOC, sindicalismo
Emídio Martins no dia da entrevista: "Necessidade de agir, com todos, na melhoria das condições de vida e na dignidade da própria pessoa." Foto © Maria João Martins

Entrevista Rostos e Rumos

Emídio Martins, militante da Acção Católica, sindicalista da CGTP

Fidelidade à classe operária e fidelidade a Jesus Cristo. Nesta dupla dimensão se alimenta a “mística do movimento operário”, na “necessidade de agir, com todos, com outros, na melhoria das condições de vida e na dignidade da própria pessoa”.

“Foi nas reflexões da JOC, Juventude Operária Católica, que ganhei consciência sindical: a de um jovem trabalhador que tinha direito a melhores condições”, diz, em entrevista ao programa Rostos e Rumos, do 7MARGENS e da TSF, Emídio Martins, militante da JOC e da Liga Operária Católica (LOC), que pertenceu também, como sindicalista, à comissão executiva da CGTP, resume deste modo o seu percurso nos movimentos operários católicos e no sindicalismo.

Nascido em Torres Novas, Emídio Martins, 87 anos, amargou a pobreza que, no país, se fazia sentir, em condições agravadas pelo início da Segunda Guerra Mundial. Filho de pais operários, o antigo dirigente sindical recorda que esses “não foram tempos fáceis”: as condições eram das mais pobres, o pai era por vezes perturbado e violento e Emídio fez-se cedo ao trabalho, ainda com o seu corpo de criança: primeiro numa taberna que o pai arranjou (dos 10 aos 13, após ter deixado a escola) e, depois, numa bomba de gasolina, onde conquistou um lugar como empregado de escritório, até aos 18.

Aos 16, Emídio começou a participar nas actividades da JOC, e isso levou a sindicalizar-se – “a questão sindical também passava pelas reuniões da JOC”, recorda. No seu subconsciente, estava já a afirmação do futuro cardeal belga Joseph Cardijn, de que “cada jovem trabalhador vale mais que todo o ouro do mundo”.

Foi isto em 1957, em pleno regime fascista, e sem liberdade. O facto de se sindicalizar deu-lhe direitos: “Passei a exigir à entidade patronal melhor salário, melhores horários de trabalho e outras garantias, e isso acabou por me trazer muita represália.”

Foi retirado do trabalho de escritório e, como castigo, puseram-no de novo a servir na bomba de combustível. O que o levou a procurar e a mudar de emprego, onde ficaria até aos 34 anos. Uma experiência vulgar, nesses tempos de ditadura: os militantes dos movimentos católicos, na reflexão que iam fazendo, percebiam que “era preciso lutar contra o regime”.

No novo trabalho, Emídio Martins foi receber o dobro do que ganhava na gasolineira. Aos 25 anos, isso permitiu-lhe casar com Maria Hermínia, professora primária, que também seguiu os rumos da LOC.

 

As crianças aos saltos

Militante e dirigente católico de corpo inteiro, Emídio Martins destaca o método dos movimentos de Acção Católica onde se integravam a JOC e a LOC: ver a realidade, julgá-la à luz do Evangelho e agir para a transformar.

Nos meios católicos, muitos jovens ingressavam na Acção Católica, que oferecia militância cristã e liderança de grupos organizados. Assim nasceu a JOC (Juventude Operária Católica) e, para os adultos, a LOC (Liga Operária Católica) – onde chegou a ser o máximo responsável a nível nacional, durante vários mandatos. Em paralelo, havia movimentos de Acção Católica para adultos e jovens agricultores (LAC/JARC, sendo o R de “Rural”), estudantes (LEC/JEC) e universitários (LUC/JUC).

O casamento levou-o a trocar a JOC pela LOC, movimento dos adultos operários. E, ao mesmo tempo, levou-o a galgar passos pelo interior do sindicalismo. Permaneceu na LOC, actual Movimento dos Trabalhadores Cristãos, até aos 81 anos. “Tenho a impressão de que ainda estou na LOC”, diz na entrevista.

Na transição do movimento de jovens para o dos adultos, reforçou-se a ideia de ter uma “dinâmica com conteúdo para reflectir a vida operária e a vida dos trabalhadores”. Sempre alimentada com a “influência da doutrina do Concílio” Vaticano II (1962-65), que reformou a estrutura da Igreja Católica.

O Concílio “foi muito importante”, diz. “Veio trazer alterações na forma de organizar os movimentos, a própria Igreja.” Da sua herança, destaca “dois documentos muito importantes: a [constituição pastoral] Gaudium et Spes, e o decreto do Apostolado dos Leigos”. A primeira sobre o “empenhamento” dos católicos na sociedade, o segundo concedendo “aos leigos a autonomia, a escolha e a diversidade dos carismas” para poderem transformar o mundo e promover “a luta pelos direitos humanos”.

Com a chegada do 25 de Abril de 1974, tornou-se mais activa a liderança do movimento operário. Lembra-se de estar em casa, com as três crianças aos saltos. Foi de tal maneira impressiva a Revolução que trouxe a democracia que começou “a sentir o pide que já andava [na sua cabeça] há muitos anos a sair lentamente da cabeça”…

Em 1985, aceitou o convite, que lhe foi feito por Ulisses Garrido, antigo militante da JEC, e Manuel Carvalho da Silva, que tinha passado pela JOC, para integrar a direcção da União de Sindicatos de Lisboa – e, por meio disso, os órgãos directivos da CGTP/Intersindical. Ficou nessas tarefas por dez anos, até 1996.

 

Católicos e comunistas na Intersindical

Luís Martins Ferreira, sindicatos, trabalhadores, trabalho, manifestação,

Manifestação sindical, fotografia na exposição Liberdade. A força que muda tudo, no Barreiro (Outubro de 2024). Foto © António Marujo/7MARGENS

“A Intersindical foi construída pelos militantes cristãos e pelos militantes comunistas”, diz Emídio Martins. E nas estruturas dirigentes da central sindical houve sempre “muitos católicos” na comissão executiva e conselho nacional da CGTP, bem como em vários sindicatos.

“Muitos dirigentes sindicais na comissão nacional da CGTP e nas direcções dos sindicatos tinham sido militantes da JOC.” Depois, alguns saíram e aderiram ao Partido Comunista.

Em 1986, Emídio Martins foi ainda sócio-fundador da Civitas, uma associação para a defesa dos Direitos Humanos, no núcleo de Sintra. Regressou a Torres Novas em 2005.

Olhando para a experiência vivida, Emídio Martins diz que os “movimentos católicos não se distanciaram da Igreja” porque “têm a natureza de realizar evangelização não fazendo exclusão de pessoas”. E não tem dúvidas: “O trabalho é a questão fundamental, como diz o Papa Francisco. As pessoas têm de trabalhar, o ser humano tem de ter possibilidades e condições para trabalhar.”

Questionado sobre uma música que traduza as suas vivências, Emídio Martins não hesita e escolhe Grândola, Vila Morena, de José Afonso, que foi a senha principal para o arranque da Revolução do 25 de Abril de 1974: “É qualquer coisa que expressa a alegria, a vontade. É como um eco extraordinário sobre aquilo que aconteceu no 25 de Abril: o povo é quem mais ordena, o povo é que se liberta”, diz. E numa perspectiva pessoal, acrescenta: “Envolve toda a caminhada que tem vindo a ser feita ao longo da história pelos trabalhadores e pela sociedade que se identifica com este processo libertador, que faz parte do projecto de Jesus Cristo.”

A entrevista de Emídio Martins pode ser ouvida na íntegra na página da TSF: https://www.tsf.pt/programa/rostos-e-rumos?ep=18079592

 

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