“Tenho pena que não tenha andado tudo mais depressa”, lamenta a pintora que tem patente, até 21 de Março, no Museu Frei Manuel do Cenáculo, em Évora, a exposição Emília Nadal: Espaço, Tempo e Transcendência – uma retrospectiva. Depressa como Francisco de Assis, que “foi um daqueles que deram” um “salto gigantesco de humanidade e de espiritualidade”, nota, na entrevista ao programa Rostos e Rumos, parceria entre o 7MARGENS e a TSF, que passa neste domingo, às 10h (repete terça, dia 17, às 23h e poderá ser ouvido depois em podcast na página da TSF.)
“De certa maneira estamos a recuar nesse sentido das coisas.” Há fluxos e refluxos, mas há quem apanhe “pancada” apesar de estar certo, acrescenta a autora de Skop, uma das obras marcantes do seu já longo trajecto, crítica aos mecanismos de manipulação presentes na publicidade e noutros campos de actividade.
Filha de pai catalão, Emília Nadal nasceu em Lisboa em 1938 – tem 88 anos completos, mantendo a jovialidade e a vivacidade que se lhe conhecem desde há muito. Teve uma infância “muito feliz” com uma família enorme e muitos primos, segundo as suas palavras, e com pais que a deixaram sempre assumir a sua liberdade e as suas opções.
Nem sempre quis ser pintora, conta – na verdade, pensava na música. E por isso diz que a música da sua vida “é a música”. E são “tantas” as enormes maravilhas que a música, que o ser humano tem produzido”. Mas escolhe, desde Bach ao estoniano contemporâneo Arvo Pärt, também Schubert, Brahms, Mozart, Beethoven… “E também coisas de música ligeira, algumas que são belíssimas”, bem como “fados que são muito belos”.
Essa grande música “é realmente transcendente”, porque nela o espírito humano “leva o som ao máximo da sua beleza, da sua harmonia, da sua harmonia”.
A vocação da pintura foi nascendo com o tempo e seria nessa arte que acabaria por se tornar um nome significativo em Portugal. Na infância, os pais arranjaram-lhe uma secretária com múltiplas gavetas, que o pai enchia de papel, lápis e livros. Depois, veio a Escola de Artes Decorativas António Arroio e, em 1960, a conclusão do curso de pintura da Escola de Belas Artes de Lisboa.
Emília Nadal expôs colectivamente, pela primeira vez, em 1957, mantendo meio século de exposições individuais. A última, no Museu Frei Manuel do Cenáculo, em Évora, está patente até 21 de Março, com o título Espaço Tempo e Transcendência – uma retrospectiva.
A transcendência que ali está “são as várias transcendências”, diz na entrevista. “Cada coisa, cada época, transcende-se a si própria. E a transcendência, a certa altura, é uma transcendência de salvação. Há a transcendência da paisagem, nos horizontes, nas transparências, na beleza circundante, na atmosfera.”
Arte devocional e sentimento

Emília Nadal durante a entrevista: o Apocalipse “recapitula toda a história da salvação”. Foto © António Marujo/7MARGENS
Dando importância à espiritualidade, a artista não aprecia, no entanto, boa parte da arte devocional: “Toda aquela arte religiosa, muito afectiva (…) reduz a fé a sentimentos. E eu [distingo] entre o sentimento e o conhecimento íntimo das coisas.”
Quando frequentou a faculdade, Emília Nadal teve uma colega e amiga protestante, com quem conversava sobre a Bíblia – e acabou por ser essa relação que a despertou para o valor do texto bíblico. “Conheci a Sagrada Escritura para discutir com uma amiga protestante (…). Apaixonámo-nos pela Escritura, descobrimos antes o Cristo das Escrituras e, portanto, tornei-me uma católica” que acabou por se envolver em vários grupos católicos, além de ter participado em iniciativas da Igreja de diálogo com artistas: esteve, por exemplo, no jubileu dos artistas em Roma, no ano 2000.
A sua adesão ao cristianismo traduz-se também na pintura que faz, com séries de obras sobre a Via Sacra, o Calvário, a Páscoa e a Ressurreição, procurando traduzir a inquietação humana, o sofrimento, a criação ou a salvação. Ou a revelação sugerida pelo Apocalipse, que considera uma “coda musical” que “recapitula toda a história da salvação”: “Revelar que há um fio condutor de criação e salvação. No fundo é a mesma coisa, criação e salvação. E eu gosto imenso de ler o Apocalipse, porque às vezes, [traduz] a época que nós estamos a viver: (…) basta olhar o que está a acontecer no mundo e vemos que é exactamente esse dragão das não sei quantas cabeças a deitar fogo por todo o lado.” Mas não falamos de Apocalipse como fim ou destruição: “Não, nós estamos num estádio do Apocalipse porque, de uma maneira ou de outra, as coisas vão-se transformando e vai sempre havendo uma melhoria.”
“Desde que o mundo foi criado houve uma evolução constante. Até no conhecimento. Em tudo, na humanidade, há coisas horríveis; mas vai havendo cada vez coisas melhores do que havia, não é? Até ao momento final, porque o Apocalipse o que diz é que depois, naquele momento, vem aquele e então é a vitória final, que não sabemos o que é, mas é isso que diz.”
Crítica à guerra colonial

Na sua obra, Emília Nadal não esquece questões como a condição das mulheres, a pobreza que atinge tantas pessoas ou a guerra. Foto © António Marujo/7MARGENS
Na sua obra, Emília Nadal não esquece também outras questões como a condição das mulheres ou a pobreza que atinge tantas pessoas, como não esqueceu a crítica à guerra colonial, o que lhe valeu o azedume da ditadura do Estado Novo.
Na sua militância católica teve sempre uma atitude crítica: escreveu cartas a bispos sobre a energia nuclear, ou sobre os abusos sexuais do clero e a violência doméstica, quando ainda não se falava desses temas. Nos anos 60 e 70, ligou-se ao Movimento por um Mundo Melhor, liderado pelo bispo Vieira Pinto. Desde 1977, integrou a equipa coordenadora de Lisboa do Renovamento Carismático Católico. Conheceu e foi amiga da economista Manuela Silva, investigadora do fenómeno da pobreza em Portugal, e dos padres Honorato Rosa, iniciador do Instituto de Serviço Social, e Manuel Antunes, o jesuíta da Faculdade de Letras que enchia auditórios de alunos.
Mantém, hoje, o espírito crítico, defendendo que os seminários deveriam ser todos reformados, ao mesmo tempo que considera que muitos padres novos são impreparados.
Representada em múltiplas colecções – incluindo a Colecção de Arte do Estado, Serralves, Gulbenkian e vários museus – Emília Nadal foi também membro do Conselho Nacional de Educação, e esteve em várias direcções da Academia Nacional de Belas Artes, que continua a integrar. Recebeu múltiplos prémios e, além das exposições no país e no estrangeiro, criou cenários e figurinos para o Ballet Gulbenkian e Teatro Nacional D. Maria II, projectou cartazes, espaços e alfaias litúrgicas, desenhou o novo altar da Sé de Faro. Na Católica, em Lisboa, realizou os painéis “Os Livros” e Instalações sacras para o átrio da basílica da Santíssima Trindade, em Fátima. E participou ainda na pintura colectiva dos dois painéis celebrativos do 25 de Abril: em 10 de Junho de 1974 e em 10 de Junho de 2022.
A entrevista está disponível na íntegra na página da TSF.










