Empurremos o Mundo!

| 3 Abr 21

Conceição Moita e Marta Parada em julho 2019, em Lisboa. Foto © Marta Parada.

 

O dia 30 de Março amanheceu inteiro e limpo como há muito não se via.

“…a Xexão voou nas asas da luz para o outro lado das águas.”

Foi com este salmo tão bonito que, ao romper de aurora, soube pelo irmão Luís Moita, que a minha tão querida amiga Xexão tinha partido. E agora? Que sensação de orfandade esta.

Conduzi até ao trabalho com os olhos turvos e rapidamente aquele vazio que me habitava, se preencheu de luz. Porque era isso que a Xexão era. Luz que irradiava daquele olhar sempre atento e interpelador a tudo o que a rodeava.

Nesse dia revisitei mails, mensagens, falei com amigos que partilhávamos e comovi-me profundamente com os textos do Carlos Antunes, e do Jorge Wemans publicados no 7MARGENS e do Miguel Marujo na Cibertúlia.

Tantas histórias. Tantas memórias.

No Verão de 2020 recebi um mail da Xexão, bem-humorado e sereno, a pedir que lesse o resultado de um exame que tinha feito e onde percebi que lhe restaria pouco tempo de vida.

“Não fiques triste. Tu conheces-me. Vai ser uma festa. Eu adoro viver, mas também adoro partir.”

Com as restrições da pandemia, e como vivo na Noruega, decidi que a visitaria.

Sabíamos as duas no nosso íntimo que seria em jeito de despedida.

Três longas sextas-feiras em que revisitámos as memórias que nos colocavam naquele lugar, quase três décadas depois de nos termos conhecido.

A Xexão deitada no sofá e eu deitada no chão ao seu lado, a olhar na mesma direção.

Foi a última vez que estivemos juntas.

Conheci a Xexão quando era ainda pequenina. Foi em 1994, tinha 19 anos, miúda vá.

Tinha acabado de chegar a Lisboa para estudar medicina e, sendo militante do Movimento Católico de Estudantes (MCE), desde os tempos do liceu, desejava continuar esse caminho, agora como universitária.

A Xexão foi-nos trazida pela mão do meu querido amigo Zé Manel Pereira de Almeida, para ser assistente do MCE.

Não nos largámos mais desde então.

Vinha imbuída de frescura, de compromisso com a vida, de esperança na nossa geração, de valores de liberdade pela qual tinha lutado tao ativamente.

Ela era ternura e força.
Profundidade e leveza.
Palavra e ação.
Compromisso e entrega.
Olhar crítico e ouvido pronto.
Abertura e generosidade.
Inspiração.
E como ela disse um dia num encontro no Centro de Reflexão Cristã:
“Alguém que se diz Cristã, ou melhor, que se quer Cristã”.

Ao longo da vida fui levando comigo pequenos objetos que de alguma forma me marcaram.

Deles faz parte um excerto de um livro da Teolinda Gersão que a Xexão me ofereceu há muitos anos e que emoldurei. Diz assim:

“mas se muita gente começar a empurrar o mundo
ele vira-se para o outro lado e
transforma-se
há toda uma transformação subterrânea que sem se dar conta
se opera e de súbito há um outro horizonte possível,
porque o mundo está ainda só muito imperfeitamente inventado.”

Um destes dias, demorando-me mais na leitura deste texto, reparei que na parte de trás havia algo escrito de que não me recordava. Retirei o texto da moldura, pela primeira vez nestes 27 anos, e comovi-me. Na letra inconfundível da Xexão dizia:

“Para a Marta, com quem me sinto tão solidária neste ‘empurrar do mundo’, toda a ternura neste Natal.” Terá sido no ano em que nos conhecemos.

“Ouviste Martó? (– como ela por vezes me chamava) Empurremos o Mundo!”

Sei que é isso que me sussurra agora ao ouvido, através do perfume das flores que renascem nesta que é a Pascoa por que tanto ansiava.

Prometo, Xexão!

 

Marta Parada é médica pediatra e vive em Skien, Noruega

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Fui um dos que, convictamente e pelo amor que tenho à Igreja Católica, subscrevi a carta que 276 católicas e católicos dirigiram ao episcopado português para que, em consonância e decididamente, tomassem “a iniciativa de organizar uma investigação independente sobre os crimes de abuso sexual na Igreja”.

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Por vezes Deus descontrola as nossas continuidades, provoca roturas, para que possamos crescer, destruir em nós uma ideia de Deus que é sempre redutora e substituí-la pela abertura à vida, onde Deus se encontra total e misteriosamente. É Ele, o seu espírito, que nos mostra o nosso nada e é a partir do nosso nada que podemos intuir e abrir-nos à imensidão de Deus, também nas suas criaturas, todas elas.

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