Encanto e tristeza

| 13 Mar 20

Escrevo com vontade de pintar. É dessa possibilidade que construo esta crónica.

63 anos

 

Há dias recebi em nossa casa uma amiga que não via há algum tempo.

Encontrámo-nos primeiro no meu ateliê de pintura e quase no início de conversa perguntei-lhe:

“Enquanto esperas que termine o meu trabalho, queres ler uma revista ou pintar?”

A reposta foi pronta:

“Pintar”

Dispus na mesa papéis e aguarelas.

O nosso reencontro começara há poucos minutos. Fazia mais de um ano que não nos abraçávamos. Mas ficámos em silêncio. Cada uma de roda do que tinha entre mãos.

Quando se pinta não se dizem muitas palavras. É assim como um encontro com a nossa intimidade. Apesar do tempo todo que passara desde a última vez que conversáramos, a minha amiga pintou sem pressas, ou destino marcado. Estava a pintar.

Ao terminar ofereceu-me esta pintura.

34 anos

 

Logo me encantou e mais tarde já em nossa casa, e antes de voltar a partir, acrescentou-lhe uma dedicatória que transcrevo em parte:

“Uma casa é feita de pessoas.

Grandes, pequenas, de diferentes cores e gerações.

Uma casa é feita de acolhimento, de encontros e alegrias.

Uma casa é feita de laços e corações.

Mas há um coração que nos une, que se chama família…”

Foi ao saborear aquela mensagem, repetindo-a em silêncio para mim mesma, que construí esta crónica que já “crescia” em mim.

Retomemos o tema da casa.

A casa.

A casa devia ser esse lugar a que todos procuramos chegar, onde nos sentimos seguros, amados e livres.

Mas a minha amiga acrescenta à casa – no que escreve como o seu desejo de uma casa, do que deve ser uma casa – o sentido de família alargada.

É dessa família alargada que me lembro sem cessar quando, junto de nós, pessoas e famílias são despejadas das casas em que moraram durante anos, sem quaisquer medidas de proteção adequadas e respeitadoras da sua humanidade. Vítimas da “modernização” da cidade, desgraçadamente incapazes de pagarem a súbita valorização do chão onde construíram vida. Pior ainda é a tristeza que nos fica no coração com as novas notícias de tantos que fogem das guerras e da fome e vivem atirados de fronteira em fronteira… Família, casa – que significado terá para eles?

Onde estamos nós face a este nosso próximo? Que sinais de esperança damos e construímos nas nossas vidas, casas e famílias?

No meio de tantas dúvidas e tristeza, há uns dias senti-me parte de um abraço maior.

O dia, em Lisboa, tinha nascido carregado de humidade no ar. O frio e vento pareciam que tolhiam os nossos movimentos.

Ele há dias que temos vontade de voltar para casa. Dias em que sentimos que não devíamos ter saído de casa.

No meio de alguma azáfama e ansiedade, o céu carregado de chuva resolveu cair sobre tudo que encontrou. Durou poucos minutos, mas deixou muitos de nós encharcados até aos ossos e espalhou estragos por aqui e por ali. Nada de muita monta.

Foi o caos – dissemos.

Mas após alguns minutos surgiu o Arco-íris enorme e lindo!

6 anos

 

Senti-o como uma bênção do céu. Assim como uma dádiva carregada de promessas para todos.

O arco-íris inspira crianças e adultos na sua pintura e surgiu para mim como a promessa de uma casa/uma família onde caibam todos os homens por igual.

Saibamos construir essa casa.

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