Encontra um trabalho que não amas, não perderás um minuto da tua vida

| 2 Dez 21

“O que posso fazer para que, além do trabalho, eu tenha energia para as coisas e pessoas que me trazem alegria?” Ilustração: Mural The Teamster Power, de Mike Alewitz, 1998. Fotografia reproduzida de Mad About the Mural

 

Ainda antes de acabar o curso fui à minha primeira entrevista de trabalho “a sério”, numa produtora de filmes num bairro trendy de Lisboa. Roubei um dia à escrita da tese de mestrado, apanhei o comboio e lá fui eu, tão nervosa quanto entusiasmada.

O dono começou por me perguntar se fazer cinema era o meu sonho. Fiquei logo sem chão. Sofri, desde muito cedo, de um mal que me acompanha até hoje: sonhava demais e muitos sonhos diferentes. E, portanto, nunca soube muito bem qual era o verdadeiro.

“É que para trabalhar para mim, e na minha produtora, tens que estar disponível 24h/dia, 7 dias/semana. E eu não te vou pagar. Portanto é bom que gostes e queiras mesmo muito fazer isto.” Em estado de choque, mãos cerradas dentro dos bolsos do casaco que não tinha nem tido tempo de tirar, respondi que não podia trabalhar nessas condições, sobretudo fora da minha cidade, já que teria que ter como me sustentar fora de casa dos meus pais. E saí, não sem antes ouvir a estocada final: “Leva um recado aos teus colegas: nós, produtores, estamos fartos de pessoas como tu, que nos fazem perder o nosso tempo.”

Nas horas seguintes, chorei lágrimas confusas, de fúria, arrependimento e humilhação. Até hoje, continuo sem conseguir entender como é possível alguém fazer da exploração um modo de vida, de uma forma tão assumida, tão arrogante e tão sem escrúpulos. Muitos anos depois ainda me puno interiormente por me ter encolhido e não ter respondido à letra e, até há pouco tempo, martirizava-me por “fazer coisas” e não “ser uma coisa”. Naquele momento, por umas horas, culpei-me por não ter um sonho concreto como se, tendo-o, tivesse podido responder que sim e seguir o rumo normal de quem acaba um curso de artes: ser explorada.

Seja como for, a verdade é que não demorei muito a assumir interiormente esta ideia de que, para sermos felizes, é preciso encontrar uma coisa que gostamos mesmo muito de fazer. De que “se encontrarmos um trabalho que amamos, não trabalharemos um dia da nossa vida.” Mais um embuste capitalista que me custou anos de vida, várias mudanças de emprego e muitas frustrações.

A pressão de trabalhar no que amo foi tomando conta de todo o meu tempo e, aos poucos, deixei de ter disponibilidade para tudo o que eu verdadeiramente amava fazer. A procura de trabalhar sem trabalhar um dia da minha vida foi sugando todo o espaço físico, mental e temporal para ler, escrever, para rezar, para pensar, para militar, para passear, para descansar… até mesmo para gozar os frutos do trabalho que, contrariamente ao objetivo inicial, passou a ser o fardo mais pesado de todos os meus dias.

Em pleno confinamento, decidi partir para outra mudança. Desta vez, não procuraria um lugar onde pudesse continuar a tentar amar o que faço, mas um trabalho que me permitisse assumir que não faço o que amo (o que não significa que o faça pior). Decidi procurar uma organização que não assentasse a sua cultura laboral no espectro negro da sobre-dedicação, da precariedade, nem disfarçasse num contrato de trabalho uma procuração que lhe dá plenos poderes sobre o meu tempo, a minha energia, a minha motivação e a minha disponibilidade.

Na primeira conversa com os meus (agora) novos patrões, assumi três coisas: não amo o que faço, mas faço-o bem; quero trabalhar menos, mas melhor e, ainda assim, não receber uma miséria; sou uma mulher de fé, de compromissos, de ideais e de sensibilidades que não se desenvolvem entre quatro paredes de um escritório e precisam urgentemente de voltar ao serviço.

Ao contrário do que algumas pessoas à minha volta temiam, “deu match”! Dois meses volvidos, todos os dias sorrio ao espelho, qual guru do coaching online, e digo: “se encontrares um trabalho que não amas, não perderás um minuto da tua vida”. Voltei a tocar piano, participo num laboratório de teatro e política, passo sete horas do meu dia num escritório com um ambiente saudável e criativo, começo a ter tempo para escrever outra vez e as dores de cabeça, que eram constantes, estão a desaparecer.

Erin Cech, uma professora de Sociologia da Universidade de Michigan, diz no seu trabalho The Trouble with Passion – How Searching for Fulfillment at Work Fosters Inequality (“O problema da paixão – como a procura da realização no trabalho promove a desigualdade”) que “a questão mais pertinente não é ‘Como posso mudar minha carreira para fazer o trabalho que amo’, mas sim ‘O que posso fazer para que, além do trabalho, eu tenha energia para as coisas e pessoas que me trazem alegria’?” Basicamente, ela defende que a fórmula para a felicidade laboral não está em amar o trabalho, mas sim em lutar por trabalhos dignos, que deixem espaço para encontrar alegria noutros campos da nossa vida.

Ah, 2022 que me aguarde!… Sinto-me mais pronta do que nunca.

 

P.S. – A Sofia Rocha e Silva, vulgo Luscofia assina uma newsletter mensal sobre este e outros temas relacionados com o trabalho, a vida “por conta própria” e outras inspirações. Em Outubro, escreveu sobre como “o trabalho é um falso ídolo e que ficar deitado, parado, é sinónimo de resistência à máquina capitalista.” Eu senti-me menos sozinha e confirmei o meu caminho. A quem se debate com as mesmas questões, recomendo vivamente que a siga.

 

Ana Vasquez trabalha em Comunicação e Marketing.

 

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