Energias limpas: solução ou ilusão?

| 10 Ago 2021

“Exploração de mão-de-obra infantil, à qual as grandes tecnológicas têm fechado os olhos”. Foto: Criança nas minas de cobalto. © Afrewatch

 

O deserto chileno de Atacama é considerado uma das regiões mais áridas do planeta, havendo locais que nunca sentiram um pingo de chuva. Chuquicamata é nome conhecido por aí se situar a maior mina de cobre a céu aberto. Mas Chuquicamata também foi, até fevereiro de 2008, uma pequena cidade que cresceu à sombra da mina e na qual viviam cerca de 25.000 pessoas que dependiam direta ou indiretamente da mina. Face a níveis de poluição insuportáveis, um ar irrespirável (grandes concentrações de óxido de enxofre) que provocava doenças respiratórias, a população teve que ser deslocada para outra cidade a cerca de 10 quilómetros (Calama) dando lugar a uma cidade-fantasma. Esta deslocação da população permitirá, dizem os ambientalistas, a expansão da mina de forma a responder às crescentes pressões e necessidades dos clientes, sobretudo da China (para onde vão 80% das exportações), em aumentar a extração.

Também no deserto de Atacama estão as salinas de S. Pedro (três mil quilómetros quadrados na região mais seca do planeta, no norte do Chile), onde se encontra uma das maiores explorações de lítio. Aliás, o Chile possui uma das maiores reservas de lítio do mundo (52%). Neste local, milhares de flamingos andinos, ou parinas, como são conhecidos pelas populações locais, podiam ser vistos. Hoje são raros, porque também as lagoas foram desaparecendo. Onde antes existia verde e eram criadas lhamas (lamas), hoje há aridez e terra gretada.

As indústrias extrativas no geral requerem grandes quantidades de água, mas no Atacama o esgotamento dos lençóis freáticos é ainda mais preocupante, uma vez que nesta terra árida as reservas são limitadas. A exploração do lítio tem reduzido a água doce dos aquíferos – camadas de rochas porosas abaixo do solo que atuam como reservatórios de água. Para que se tenha uma ideia, na exploração do lítio, uma das empresas (operam duas na zona) é responsável pelo bombeamento de 442 L/segundo de salmoura e 23,5 L/segundo de água. O que parecia ser um bom negócio para o Chile, a exploração do cobre e do lítio, tornou-se um pesadelo de abandono para os povos de Atacama.

 

Perguntas sem resposta

A República Popular do Congo é um dos grandes extratores de cobalto, essencial para alguns componentes das baterias, desde os telemóveis aos carros elétricos (ver texto no 7MARGENS).

Este país possui uma das maiores reservas de cobalto do mundo (cerca de 75% das reservas mundiais, calcula-se). A exploração de mão-de-obra infantil, à qual as grandes tecnológicas têm fechado os olhos, é um dos grandes problemas relatados pelas ONG’s. Em junho de 2017 a UNICEF estimava que cerca de 40 mil crianças trabalhavam nas minas de cobalto na República Democrática do Congo. Algumas zonas de exploração mineira tornaram-se autênticos desertos artificiais, por exemplo próximo da cidade de Kipushi, onde até à década de 1990 funcionava uma mina. Vários quilómetros quadrados de solo estão contaminados, o rio também está poluído e há casos frequentes de malformações congénitas em recém-nascidos.

A exploração do silício, fundamental para a construção das células fotovoltaicas dos painéis solares, requer no tratamento o uso de produtos químicos altamente tóxicos que libertam compostos de enxofre e cloro. Acresce ainda que o processo de extração, além dos impactos na fauna e na flora e degradação visual da paisagem, é responsável pela poluição das reservas freáticas.

Estes são apenas alguns exemplos dos “bastidores” do discurso da descarbonização e do seu suporte: as energias ditas limpas. É a verdade tantas vezes omitida no discurso sobre a descarbonização. Não existem energias totalmente limpas, ou seja, cujo impacto seja zero. As torres de energia eólica, além de adulterarem a beleza da paisagem, necessitam de toneladas de alumínio e aço; os carros elétricos, solução tão ao gosto das novas modas, necessitam de muito mais cobre do que um carro convencional, além do problema das baterias; no fabrico de painéis solares, as células fotovoltaicas necessitam de silício, para além de elevado consumo de energia no seu fabrico; a digitalização, tão cara aos novos processos de produção e necessária ao aumento de eficiência, pode acabar por aumentar de forma exponencial a pegada ecológica.

Até hoje, por exemplo, ninguém sabe ao certo se a pegada ecológica de um carro elétrico é menor do que a de um carro convencional. O que se sabe é que a indústria vai pressionar as indústrias extrativas do cobre que, segundo estimativas, aumentará cerca de oito vezes. O mesmo acontecerá com o lítio. Isso significa que por maiores que sejam as reservas elas se esgotarão rapidamente. E poderíamos continuar…

 

É preciso ousar a utopia
Cobre. Chile. Mina de Chuquicamata (Chile).

“Chuquicamata também foi, até fevereiro de 2008, uma pequena cidade que cresceu à sombra da mina e na qual viviam cerca de 25.000 pessoas”. Foto: Mina de Chuquicamata (Chile). © Diego Delso / Wikimedia Commons

 

Acossados pelas calamidades e pelos desvarios cada vez mais frequentes da natureza, receosos de sermos conduzidos para um beco sem saída ou, pior ainda, para um abismo sem retorno, despertamos de uma já longa e conveniente letargia. Ainda meio estremunhados e a passos algo cambaleantes, descobrimos a solução mágica de um futuro ainda possivelmente risonho e condizente com a humanidade que ainda nos resta. A descarbonização, à boleia das energias ditas limpas, aparece assim como a palavra mágica, solução para todos os males devidos a um progresso em tempos bem do agrado de todos e que tão bem serviu o nosso desejo de um futuro confortável de vida boa. Mas esta é uma transição que nos coloca muitas interrogações e dúvidas. Não é que o tema não seja pertinente, nem tão pouco que a descarbonização deva ser adiada, mas apostar nela todas as fichas parece-me sinal de desespero, o que, lá mais para o fim da noite, dará por certo em bolsos vazios. O desespero e a pressa nunca terão resultado em bom casamento.

A globalização, além dos seus efeitos conhecidos, teve, em cada um de nós, um ainda mais devastador na forma como olhamos o mundo: destruiu a perspetiva universal, esse horizonte de utopia que nos desafiava a procurar soluções em nome do bem comum, independentemente do lugar ou condição. Talvez por nos fazerem acreditar que com a globalização todos teriam a sua oportunidade. Era só uma questão de saber esperar e aproveitá-la. Puro engano!

Não existe qualquer varinha mágica que num gracioso gesto de fada mude o que em décadas construímos e que julgávamos ser o caminho. Este período de transição acelerada requer certamente que diminuamos gazes de efeito de estufa, os efeitos do consumo energético e que apostemos na descarbonização. É sensato que assim seja. Contudo, será menos sensato, mesmo arriscado e perigoso, apostar tudo na descarbonização via energias limpas, quando o caminho não resolve o verdadeiro problema.

Importa, por outro lado, ter cuidados redobrados e não esquecer as lições da globalização: esta fase de transição pode ser geradora de fortes desigualdades, seja localmente, seja entre regiões; gerando exclusão, pode conduzir a grandes distúrbios sociais. A taxa fronteiriça de compensação do carbono, forma de evitar a entrada de produtos competitivos que não respeitem as regras da descarbonização, pode ser um logro a nível ambiental ao haver países que desenvolvam sistemas produtivos paralelos. Aliás a China tem investido na descarbonização com vista à produção de produtos para exportação sem deixar de ter centrais a carvão para a produção de produtos para o mercado interno.

O verdadeiro problema não será tanto o de alterar as fontes de energia, mas sim o nosso modo de vida e a forma como nos organizamos, que exige consumos sempre crescentes de energia, seja qual for a fonte. Há que ousar ir mais longe, mesmo que o caminho possa ser bem mais longo e não sem obstáculos. Nesta Casa Comum não podemos contentar-nos em varrer o lixo do quarto para o tapete da sala ou para o quarto do nosso vizinho. Há que manter a casa limpa e habitável em todas as suas divisões. A universalidade implica que percebamos e tenhamos consciência do que significa viver nesta nossa “casa comum” onde, como nunca antes, a comunidade é bem mais importante do que qualquer interesse individual, por mais justo e louvável que seja.

 

O que fazer?

“Onde antes existia verde e eram criadas lhamas (lamas), hoje há aridez e terra gretada”. Fonto: Salinas de Atacama. © Conselho dos Povos Atacameños

 

Como bem lembra o Papa Francisco na encíclica Laudato Si’, quando nos fala em ecologia integral, não podemos separar o ambiente e as pessoas. Somos parte integrante da natureza, inseparáveis. O primeiro passo, e talvez o mais importante, é o de termos consciência de que, quaisquer que sejam as nossas escolhas, elas têm impacto. As nossas opções não são neutras. A simples escolha de um produto no supermercado implica privilegiar determinado modelo em detrimento de outro. Por outro lado, “há que reencontrar o prazer do empenho e da participação”, envolver-nos, juntamente com outros, nas decisões que determinam o futuro.

Entre os muitos caminhos a trilhar haverá uns que implicam maior exigência e pressão sobre as grandes indústrias e outros que dependerão mais dos decisores locais, sem prejuízo de que se pensem políticas mais globais e concertadas.

Alguns dos caminhos possíveis:

  • Introduzir no licenciamento de produtos a análise do custo real introduzindo variáveis tais como: utilização de recursos, custos ambientais de produção e de reciclagem ou fim de vida, grau de utilidade e benefício. Existem muitos produtos no mercado com reduzido grau de utilidade e a um preço muito inferior ao verdadeiro custo, se tivermos em conta todas as variáveis.
  • Exigir das empresas tecnológicas, nomeadamente de smartphones, que privilegiem a reparação e aumentem o tempo de vida dos aparelhos, bem como os tornem mais flexíveis com vista a atualizações simples e competitivas de hardware. Espaçar o tempo de introdução no mercado de novos aparelhos. Nas garantias, privilegiar as reparações. Obrigatoriedade de nas suas lojas implementarem o mercado de recondicionados. Há empresas que já o fazem, mas importa ir muito mais longe.
  • Repensar o espaço urbano, as nossas cidades, habitando-as, dando-lhes vida e não as tornar centros de lazer e de burocratas “chiques” ou uma espécie de hub de passageiros em trânsito.
  • Incentivar o comércio de proximidade e o comércio que privilegie os circuitos curtos. Neste aspeto, todas as cantinas escolares deviam ser obrigadas, tanto quanto possível, a privilegiar os circuitos curtos na compra de produtos.
  • Desenvolver os transportes coletivos de forma harmoniosa, diversificando-os de acordo com as necessidades.
  • Repensar a organização dos espaços de produção e de serviços, locais de instalação, novos modelos, descentralizando-os e procurando provê-los a partir da zona onde se encontram com vista a evitar grandes deslocações.
  • Repensar a organização das empresas no sentido de providenciarem aos seus colaboradores condições que evitem deslocações, procurando, com outras empresas, serviços partilhados de transporte, de serviços ou de espaços descentralizados.
  • A organização do teletrabalho, agora tanto na berra, pode incluir modelos híbridos de espaços partilhados por diversas empresas numa determinada área.
  • Reorganização descentralizada dos serviços do Estado. Fará sentido, por exemplo, que alguém que habita fora de um grande centro se desloque diariamente para trabalhar em determinado serviço, quando essa entidade possui o mesmo serviço ou similar onde a pessoa habita? Isso acontece nomeadamente com os serviços do Estado. A revitalização das cidades do interior também passa pela implementação de serviços que ajudem à sedentarização das famílias.

 

Não existem soluções de chave na mão, apenas caminhos que urge começar a trilhar. Nesta caminhada, mais importante do que a meta a atingir é o processo que a ela conduz, os pequenos passos que vão sendo dados, pois é aí que se criam as oportunidades para que todos se possam sentir atores, que todos se sintam parte do jogo, e não espetadores passivos à espera de que as coisas aconteçam. Cuidar da Casa Comum implica uma grande solidariedade entre todos e a consciência de que cuidar significa, em primeiro lugar, aceitarmos sermos interdependentes, ou seja, obrigarmo-nos a cuidar uns dos outros. Só assim podemos esperar salvar-nos e, na passada, salvarmos esta nossa casa comum, salvaguardando a nossa humanidade. A urgência não é a de salvar o planeta, pois esse continuará de uma ou de outra forma, mas de nos salvarmos a nós. E para que nos salvemos temos que salvar, em primeiro lugar, a nossa humanidade.

 

José Centeio é membro do Cesis (Centro de Estudos para a Intervenção Social) e da equipa editorial do 7MARGENS.

 

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