Ennio Morricone (1928-2020): As bandas sonoras das nossas vidas

| 12 Jul 20

Na hora da morte de Ennio Morricone, o grande consenso em torno da música deste compositor italiano tomou de assalto meios de comunicação, de títulos tradicionais às instantâneas redes sociais, com as referências cinéfilas a saltarem ao sabor de temas que viveram muito para além das imagens a que emprestaram uma melodia.

Há aquele assobio quase insolente que dialoga com a harmónica nos territórios bravios de O Bom, o Mau e o Vilão, há um oboé que arrepia colado aos sons de flautas de pã que acompanham preces guaranis em A Missão, ou aquelas cordas que se lamentam de uma forma quase feliz no fresco que é Era Uma Vez na América; e há toda uma sequência de beijos de todas as cores e feitios em que a música é também ela um terno beijo em Cinema Paraíso.

E podíamos continuar porque, certamente, alguém elege uma outra banda sonora para a sua vida da longa vida de música de Ennio Morricone: Aconteceu no OestePor Um Punhado de Dólares, e outros westerns spaghetti de Sergio Leone – com quem manteve uma intensa colaboração – ou Os Intocáveis, de Brian de Palma, 1900, de Bernardo Bertollucci, Malèna, de Giuseppe Tornatore, Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, a única nomeação que lhe valeu um Óscar (para além de uma outra estatueta pelo conjunto da sua obra) e, e, e… – e podíamos continuar.

São mais de 500 bandas sonoras para filmes e séries de televisão (como a famosa O PolvoMarco Polo ou episódios de Espaço 1999), desde que, em 1961, compôs a primeira colonna sonora originale para Il federale, filme de Luciano Salce. Na sua lista há ainda filmes de John Carpenter, Barry Levinson, Mike Nichols, Oliver Stone, mas também Pier Paolo Pasolini, Pedro Almodóvar, Roman Polanski ou Terrence Malick.

Nem todas estas bandas sonoras marcaram a memória de cada um, como as referidas, mas o seu nome permanece. Como descreveu, na revista Time, um outro autor, Danny Elfman, que associamos ao universo de Tim Burton, “se perguntarem a uma dúzia de compositores de filmes que nomeiem os seus heróis, terão muitas diferentes respostas, mas apostava que, de certeza, um nome estará em cada lista”. Sim, adivinhámos, o de Ennio Morricone. “O seu trabalho vai para lá dos filmes para que ele compôs e estará profundamente enraizado na arte da música cinematográfica enquanto houver filmes. Ele fará falta, mas a sua música não será esquecida.”

É impossível esquecer. Desde muito cedo, Ennio mostrou gosto pela música. Nascido na Roma de uma Itália fascista, o pai era também músico, um trompetista profissional de orquestras ligeiras que iniciou o filho no mesmo instrumento. O pequeno Ennio entrou na Academia Nacional de Santa Cecília, aos 12 anos, fazendo aí a sua formação musical, em trompete, composição e música coral.

Se há uma forte influência italiana nas suas obras – e Once Upon A Time In America transporta de forma indelével essa marca para o Lower East Side novaiorquino – os coros épicos de On Earth As It Is In Heaven (na abertura de The Mission) ou de Vita Nostra (na mesma banda sonora), como em The Story Of A Soldier (de The Good, The Bad & The Ugly) denunciam essa formação inicial. Ao longo da sua carreira, Morricone dedicaria peças nos concertos ao seu professor Goffredo Petrassi.

Ennio é um homem de referências: o seu professor, como o pai, que o iniciou, mas também ele próprio. A mais bela composição de Once Upon A Time In America, que é Deborah’s Theme, é um tema rejeitado de uma anterior banda sonora e o próprio Leone mostrou-se relutante no seu uso, por lhe soar ao que tinha ouvido em Once Upon a Time in the West. “A música é experiência, não ciência”, disse Ennio. Podia ter sido uma resposta possível para Sergio.

Não admira que, para um compositor e arranjador que se multiplicou em centenas de obras, esta autorreferência seja então constante. Ouve-se a estreia em Il federale e é impossível não reconhecer algumas composições de… The MissionAlone e Guarani, da obra de 1986, parecem acompanhar linhas da pauta de La fine del viaggio, do filme de 1961. Mas o saber acumulado permitiu a Ennio Morricone recriar essas composições, com arranjos e sonoridades que criaram uma outra obra, um espantoso monumento musical que nos faz voar a cada sopro para as florestas indígenas da América do Sul.

Alguns dos temas de The Mission marcaram, precisamente, a apoteose (antes de Cinema Paradiso) do concerto que Morricone deu a 6 de Maio de 2019, em Lisboa, integrado na sua digressão de despedida. A par da “epopeia histórica” evocada por temas de filmes como The Intouchables, 1900 ou Atame, em que pianos e flautas nos conduziam para trechos ora líricos ora intensos; ou da “modernidade do mito no cinema”, com os míticos filmes de Leone; o “cinema social” de um homem que sempre entendeu a estética e a música como formas de compromisso com a beleza e o mundo (Sacco e Vanzetti, The Working Class Goes to Heaven, em que as máquinas e o ruído são o meio de “transporte” musical, ou Casualties of War, que concluía como num coro gospel…), numa viagem prodigiosa.

Entre os mais de 500 filmes musicados encontram-se obras para todos os géneros e gostos: filmes de mafiosos e criminosos, de guerra, dramas e romances, também produções eróticas dos anos 1960 e 70, quando as revoluções libertavam corpos, ou filmes biográficos, incluindo sobre papas – Il Papa buono, sobre João XXIII, e Karol (para uma minissérie em duas partes sobre João Paulo II), às quais acrescentaria uma Missa dedicada ao Papa Francisco

Os filmes foram sobretudo realizados na sua Itália de origem (ou em coproduções europeias), saltando das obras que chegaram a Hollywood para produções menores, muitas hoje esquecidas, ou apenas reconhecidas pela sua música, como L’Assoluto NaturaleMaddalenaOceana ou Giordano Bruno, sobre o filósofo e teólogo condenado pela Inquisição por colocar em causa o poder eclesiástico.

Nascido num ambiente cristão, a “fé nasceu em família”, Ennio dizia com graça. “Ainda me vejo, sonolento, respondendo às avé-marias da minha mãe”, contava ele, que compôs uma extraordinária Ave Maria Guarani (também em The Mission).

O italiano nunca se deixou aprisionar num dogma. Mas tinha uma leitura muito definitiva sobre a sua arte. “A música está seguramente próxima de Deus e é a única verdadeira arte que nos aproxima, de facto, do Pai eterno e da eternidade.”

Não espanta que nesta procura pela proximidade de Deus, o compositor que agora morreu se tenha deixado desafiar por outras margens. Joan Baez emprestou a voz a Here’s To You, composta pelos dois em 1971, para o filme Sacco & Vanzetti (e cuja música seria mesmo adaptada em liturgias católicas, como se contou aqui no 7MARGENS).

Para a fadista Dulce Pontes escreveria Brisa do Coração, para mais uma banda sonora sua, Sostiene Pereira (que adapta o romance de Antonio Tabucchi Afirma Pereira), e voltaria a colaborar com a portuguesa no álbum a meias Focus. E, talvez mais surpreendentemente, compôs com os Pet Shop Boys a pequena delícia que é It Couldn’t Happen Here, do álbum Actually.

Aconteceu mesmo: Ennio escreveu as bandas sonoras das nossas vidas.

 

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