AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Ennio Morricone na liturgia católica em Portugal

Ennio Morricone na liturgia católica em Portugal

| 12 Jul 20

Embora músico semi-profissional – pertencia então à Equipa Diocesana de Música do Porto, presidida pelo padre doutor Ferreira dos Santos – desconhecia por completo, em 1971, quem era Ennio Morricone: sabia apenas que era o autor de uma balada cantada por Joan Baez, que ele compusera para o filme Sacco e Vanzetti (1971). Não me lembro como me chegou às mãos um vinil com essa música. Também não tinha visto o filme e não sabia nada dos seus protagonistas que hoje sei tratar-se de dois anarquistas de origem italiana condenados à cadeira eléctrica nos Estados Unidos, em 1927, por alegadamente terem assassinado dois homens…

O texto da balada final do filme não me dizia nada de especial: Here’s to you, Nicolas and Bart/ Rest for ever here in our hearts/ The last and final moment is yours/ That agony is your triumph. (“Isto é para vocês, Nicolas e Bart, permaneceis para sempre aqui, nos nossos corações, o último e derradeiro momento é vosso, essa agonia é o vosso triunfo”).

A música, sim, acabou por me cativar. Trata-se de uma melodia muito simples, composta de quatro frases: AA’BA’’, baseada num baixo contínuo (ostinato) que lhe faculta a harmonia de Mi menor com uma ligeira modulação a Sol Maior na terceira frase. Mas o que mais me interessou foi a orquestração: iniciado o ostinato nos graves do piano, logo seguido pelo mesmo em terceiras paralelas, a que se junta um órgão em contraponto igualmente simples, mas cativante, depois do qual se apresenta a voz do solista. Esta é depressa dobrada por um pequeno grupo, que por sua vez vai engrossando de volume até constituir um verdadeiro clímax coral, agora com o apoio de toda uma orquestra ligeira e sempre sobre a base do tal ostinato, agora nos baixos da mesma.

 

Diante de tanta simplicidade “complexa”, sem pensar na origem da composição, veio-me à ideia aproveitar aquela música para as minhas celebrações sacras e litúrgicas: parecia-me que aquela melodia entrava facilmente no ouvido, era rica em harmonia e podia servir de comunhão a grupos de fé. Pedi então ao Manuel Neto, o poeta exímio daquela equipa diocesana de música, que me fizesse uma letra interventiva à sua maneira, que ficasse bem com aquela melodia, mas ele demorou a responder-me.

Com a música a encher-me a cabeça, numa noite decidi-me a ensaiar um rascunho que encaixasse na dita melodia e saiu-me, com certa facilidade, um texto que primava por algum dinamismo, com verbos activos (faz, escolhe, vai, constrói, abraça…), o que eu pretendia dos meus grupos de intervenção pastoral e litúrgica. Foi assim que surgiu o “Faz a paz, escolhe o amor. Vai, constrói um mundo melhor. Abraça os homens: são teus irmãos. Serás feliz na união.”

Transcrevi, então, de ouvido a música cantada por Joan Baez, com as harmonias e a possível orquestração que adaptei com alguma facilidade ao meu conjunto instrumental utilizado nas liturgias de que era responsável.

Ensaiada ao meu Grupo Coral de Cristo Rei (Gaia), com agrado geral, serviu de inúmeras maneiras e nas mais diversas celebrações: desde as Gospel Night (espécie de Liturgia da Palavra), que eu tinha importado de França, como a Vers l’Homme (que traduzi e adaptei com o título Ao encontro do homem e que a RTP transmitiu após o 25 de Abril de 1974) e que apresentei diversas vezes em várias igrejas da diocese do Porto, até à sua utilização nas missas. Naquelas Gospel Night, o “Faz a Paz, escolhe o amor…” constituiu grande apoteose final: com os instrumentos a apresentarem suavemente os ostinatos originais, seguindo-se a declamação do texto por uma solista, que logo o entoava, a que se seguia uma parte do coro e por fim todo o coro, com a intervenção da assembleia presente convidada a participar com entusiasmo crescente, constituindo o clímax que Morricone previra na balada final do filme.

 

Eis aí a história do meu encontro com a melodia singela, popular, de Ennio Morricone. A sua divulgação por todo o país cristão, mesmo no abraço eucarístico da paz, em cancioneiros litúrgicos quase sempre anónimos, só comprova a validade da aposta inicial numa “paródia” (termo perfeitamente justificado pela Musicologia através dos séculos, mesmo na Igreja) que bateu certo e comoveu tanta gente em Portugal. Comoveu e comove, como se comprova pela minha intervenção de há dois anos num encontro da Fraternitas em Alfragide, quando vários ex-padres, diante da presença autorizada do pastor Dimas de Almeida, se envolveram em discussão de lana caprina, eu proclamei bem alto “Faz a paz, escolhe o amor…” entoando a melodia de Morricone, logo seguida pela assembleia assumidamente vencida pela força daquela mensagem musical.

Sirva o presente testemunho como homenagem que um musicólogo português presta à memória de um autor inesquecível de grande música de filmes, não sei se também de música sacra, que foi Ennio Morricone. Fico apenas com pena de não ter comunicado com o compositor quando, o ano passado, juntou multidões no concerto em Lisboa, na sua última passagem por Portugal, propondo para o grande coro a balada do mesmo para o filme Sacco e Vanzetti, travestida de envolvimento cristão.

 

 

José Maria Pedrosa Cardoso é musicólogo, autor de vários livros de Musicologia e professor aposentado da Universidade de Coimbra.

 

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Cadeia de jejuns para levar o Papa a Gaza

À espera de resposta do Vaticano

Cadeia de jejuns para levar o Papa a Gaza novidade

Uma cristã dirigente de uma organização civil da Palestina desafiou o Papa Leão XIV a passar três dias em Gaza e a mobilizar a Igreja Católica universal para dar proteção a um povo cuja existência se vê dia a dia mais ameaçada e, com ele, também os cristãos na terra em que Cristo nasceu.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Apelo ao Governo

Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública

Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

De Braga a Tavira, portugueses vão sair à rua para caminhar pela paz

Entre 19 de setembro e 4 de outubro

De Braga a Tavira, portugueses vão sair à rua para caminhar pela paz

Entre 19 de setembro e 4 de outubro, várias organizações religiosas e não só promovem caminhadas pela paz nas ruas, parques e avenidas em múltiplos pontos do país e em diversos formatos: mais meditativas, mais silenciosas, ou procurando ganhar visibilidade junto dos transeuntes.

É notícia

Entre margens

Profecias Apocalípticas e a Esperança Cristã

[Entre Margens]

Profecias Apocalípticas e a Esperança Cristã novidade

Com o alarme dos últimos dias, vindo dos grandes promotores da IA de fabrico americano, todos nos demos conta de que, tal como Ícaro, que queimou as asas por voar demasiado perto do sol, a mais recente criação da Humanidade, tanto poderá fazê-la voar mais alto, como poderá ser a sua perdição. [Texto de Joana Rigato].

A caminho de novas “demandas”

A caminho de novas “demandas”

No Movimento do Graal, tanto em Portugal como no âmbito internacional, a palavra “demanda” é estruturante para estarmos sintonizadas numa busca espiritual contínua e ativa “dos mistérios insondáveis de Deus”. Mesmo estando longe das pessoas com quem partilhei mais vivências nesta procura, sobretudo em Portugal, a dinâmica sobrevive e encontra sentido em novos contextos. [Texto de Marijke de Koning]

Cultura e artes

Sérgio Godinho tocou-nos no ombro e a marca ficou lá

Cantautor faz 81 anos

Sérgio Godinho tocou-nos no ombro e a marca ficou lá

São raros aqueles que sabem traduzir em palavras e de forma tão sublime os vários estágios da vida pelos quais invariavelmente todos passamos. O Sérgio Godinho é para mim essa inexplicável exceção, a quem a palavra é profundamente fiel às regras do jogo da existência, encontrando em cada compasso musical o ritmo que se faz sopro, dando-lhe assim o sentido necessário para chegar até nós. [Texto de Filipe Moisés].

O Clube dos Poetas Mortos

Teatro

O Clube dos Poetas Mortos

O Teatro da Trindade, em Lisboa, tem em cena (até 20 de dezembro) uma peça que retoma, com o mesmo nome e um sucesso maior que o esperado, o filme O Clube dos Poetas Mortos, de Peter Weir (1989). Foi com alguma, ou antes, muita indignação que assisti ao êxito pouco refletido do filme na década de 90. [Texto de José Alves Jana].

Sete Partidas

Vinte e cinco anos depois

7Partidas

Vinte e cinco anos depois

Em 2001, vivíamos em San Francisco. Naquela segunda-feira, dia 11 de Setembro, fomos acordados pelo meu sogro, que nos ligava da Alemanha para avisar que os EUA estavam a ser atacados. Em San Francisco era ainda madrugada; em Nova Iorque passava das nove da manhã, e as duas torres já estavam a arder. [Texto de Helena Araújo].

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Profecias Apocalípticas e a Esperança Cristã

[Entre Margens]

Profecias Apocalípticas e a Esperança Cristã novidade

Com o alarme dos últimos dias, vindo dos grandes promotores da IA de fabrico americano, todos nos demos conta de que, tal como Ícaro, que queimou as asas por voar demasiado perto do sol, a mais recente criação da Humanidade, tanto poderá fazê-la voar mais alto, como poderá ser a sua perdição. [Texto de Joana Rigato].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This