A Oxfam estima que seriam necessários 1200 anos para que um trabalhador dos setores social ou da saúde ganhasse o mesmo que um diretor-executivo das maiores empresas ganha, em média, num ano. Foto © Pixelshot
Durante a próxima década, uma pessoa poderá tornar-se o primeiro bilionário de sempre, mas para acabar com a pobreza seriam necessários mais de dois séculos. A conclusão é da Oxfam, num estudo intitulado Inequality Inc. (em português, Desigualdade Lda.), publicado esta segunda-feira, 15, para coincidir com o primeiro dia do Fórum Económico Mundial, a decorrer em Davos, na Suíça, até sexta-feira. A organização humanitária britânica defende intervenção estatal para controlar a concentração de riqueza.
De acordo com o estudo, os cinco homens mais ricos do mundo – Elon Musk, Bernard Arnault, Jeff Bezos, Larry Ellison e Mark Zuckerberg – aumentaram 114% as suas fortunas desde 2020, a um ritmo de cerca de 13 milhões de euros por hora. No mesmo período, os 4,77 mil milhões de pessoas mais pobres do mundo perderam 0,2% em termos reais da sua riqueza. Enquanto a riqueza destes multimilionários cresceu três vezes mais rápido do que a taxa de inflação, quase cinco mil milhões de pessoas ficaram mais pobres.
Paralelamente, 148 empresas geraram lucros de 1,8 biliões de dólares (cerca de 1,64 biliões de euros), mais 52% do que a média dos últimos três anos, e distribuíram prémios aos acionistas ricos, enquanto centenas de milhões de pessoas sofreram cortes nos salários reais.
Segundo o relatório, sete das dez as maiores empresas do mundo têm como diretor-executivo ou principal acionista um multi-milionário. A Oxfam estima que seriam necessários 1200 anos para que um trabalhador dos setores social ou da saúde ganhasse o mesmo que um diretor-executivo das maiores empresas ganha, em média, num ano.
A Oxfam assinala ainda que as pessoas que constituem o 1% mais rico do mundo detêm 43% de todos os ativos financeiros globais e emitem tantas emissões de carbono poluentes, a nível global, como os dois terços mais pobres da Humanidade.
Frisando que as pessoas mais ricas do mundo são todas homens, a Oxfam destaca também que, a nível mundial, os homens possuem mais 95,9 biliões de euros de riqueza do que as mulheres.
“Necessidade urgente de cooperação e ação”

O local do fórum de Davos numa foto de arquivo. Foto © World Economic Forum, via Wikimedia Commons
No documento publicado esta segunda-feira, a Oxfam defende que os Governos à escala mundial devem intervir para reduzir “rápida e radicalmente o fosso entre os super-ricos e o resto da sociedade”, investindo em serviços públicos como os da Saúde e Educação e em participações em setores essenciais como os da Energia e Transportes.
A organização sugere também uma legislação sobre salários dignos, limitar a remuneração de executivos e a criação de novos impostos sobre os super-ricos e os lucros excessivos.
“Embora alguns dos presentes em Davos sejam eles próprios impulsionadores da desigualdade, da injustiça e da divisão, queremos acreditar que muitos outros estão genuinamente empenhados em exercer a sua considerável influência para promover uma maior medida de justiça e paz no mundo”, afirmou por seu lado o secretário-geral do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), Jerry Pillay, numa mensagem divulgada também nesta segunda-feira.
Na perspetiva de Pillay, “dada a constelação sem precedentes de crises globais – especialmente de clima, conflito e desigualdade económica – há uma necessidade urgente de cooperação e ação, em vez de divisão e competição não construtiva”.
Contando a reunião anual do Fórum Económico Mundial com a participação dos principais decisores nas áreas da política, economia e negócios, esta “deve ser aproveitada para reconstruir a confiança e renovar o compromisso com a cooperação multilateral no enfrentamento destas crises, não apenas no interesse a curto prazo de uns poucos privilegiados, mas para o bem a longo prazo de todas as pessoas e da nossa casa comum”, defendeu.









