Ensaio de Dimas Almeida (2): Evangelho e evangelhos

| 24 Out 2020

Uma cruz feita com Bíblias. Foto © Timóteo Cavaco

 

O 7MARGENS publica a seguir a segunda parte do estudo do pastor presbiteriano Dimas de Almeida sobre a nova tradução da Bíblia – Os Quatro Evangelhos e os Salmos, promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e publicada no ano passado.

A edição experimental desta nova versão da Bíblia em português propunha-se recolher sugestões, críticas e comentários. Dimas de Almeida aceitou para si mesmo o desafio e lançou-se à tarefa. O resultado é o que aqui fica, concretizado com o seu olhar de teólogo, exegeta e autor de várias traduções, como ficou dito na primeira parte deste texto, publicada na semana passada, na qual o autor explicava o modo como leu esta nova tradução.

Nesta segunda parte, Dimas Almeida aborda, entre outras questões, o problema da pluralidade de leituras, a partir do facto de haver quatro evangelhos e não apenas um. Com o risco, que transparece de algumas expressões da introdução à edição em análise, de “fazer da uniformidade exigida à nova tradução uma espécie de altar onde se imola a pluralidade”.

Este trabalho continuará a ser publicado semanalmente, cada sexta-feira, até 18 de Dezembro, poucos dias antes do Natal. 

 

Evangelho e evangelhos

Passo à minha leitura das pp. 13-17 (da edição de Bíblia – Os Quatro Evangelhos e os Salmos)

1. Pedagogicamente teria sido importante, assim julgo, que na introdução que é feita a esta problemática se tivesse esclarecido uma coisa importante mas de que o conhecimento é, no domínio público, limitado a muito poucos leitores do Novo Testamento: não é com os evangelhos que o Novo Testamento começa, mas sim com as epístolas paulinas, historicamente situadas entre o ano 50 e o ano 60, a grande década da produção epistolar paulina. Os evangelhos só começaram a aparecer a partir dos anos 70.

Pois não é verdade que a tendência natural das pessoas é tomar os evangelhos como os primeiros livros do Novo Testamento a terem sido escritos? Tocar nesse ponto permitiria abordar, em estilo introdutório, tanta coisa importante, como por exemplo esta: quando Paulo escreve as suas cartas ainda nenhum dos nossos evangelhos canónicos existia. Ele não os conheceu (perdoem-me esta lapalissada). Ou, por exemplo, esta: o processo da definição de um cânone do Novo Testamento (tão lento que vai prolongar-se por mais de duzentos anos) começa com o reconhecimento das cartas do Apóstolo como uma coletânea dotada de autoridade. Era, portanto, dar a conhecer à quase totalidade dos leitores algumas questões importantes relacionadas com a problemática inerente ao modo como o cânone dos 27 livros se foi constituindo, sem esquecer uma confissão, a confissão que consiste em reconhecer, a esse respeito, as zonas da nossa ignorância histórica.

São Paulo. Bíblia. Arte. Pintura. Valentin de Boulogne.

“Quando Paulo escreve as suas cartas ainda nenhum dos nossos evangelhos canónicos existia.” São Paulo Escrevendo as Epístolas, obra atribuída a Valentin de Boulogne. Museum of Fine Arts, Houston. Direitos reservados.

 

2. Na pág. 13, no segundo parágrafo, emerge logo uma preocupação: a defesa de que os evangelhos são fiéis ao relatarem aquilo que relatam. E defende-se essa fidelidade afirmando-se sem sombra de hesitação: “A fidelidade a esta mensagem estava garantida pela memorização, característica essencial do sistema educativo judaico, ao ponto de S. Jerónimo se admirar com a capacidade dos judeus de reproduzir de memória não só as listas dos nomes do livro das Crónicas, como a Torá e os Profetas.”

 

Claro, pode-se problematizar esta maneira –  que me parece inconsistente – de resolver o problema complexo da transmissão dos evangelhos, começando por formular singelas perguntas: como é que essa prodigiosa memória deixou passar
– duas versões diferentes do Pai-nosso
– duas ou três versões diferentes da assim chamada “instituição da eucaristia”
– duas versões diferentes do “sermão da montanha”
– duas datas diferentes para a última ceia durante a qual Jesus instituiu a eucaristia
Coisas outras, e muitas, podiam ser evocadas. Fiquemo-nos por aqui.

 

a) Com efeito, temos duas versões acentuadamente diferentes do Pai-nosso: a de Mt 6:9-13 e a de Lc 11:2-4. E, como facilmente se compreende, trata-se de um texto de fundamental importância para o cristianismo nascente.

Como explicar a existência desses dois textos diferentes?

Desde logo, tendo em conta o estado atual dos nossos conhecimentos históricos e dos avanços exegéticos registados nos últimos 30 ou 40 anos, há que rejeitar a tese, que tem cada vez menos defensores, de que o Pai-nosso em grego é uma tradução do aramaico falado por Jesus. Lembro-me bem, há uns quarenta ou cinquenta anos, da febre do aramaico que atingiu um certo número de exegetas (havia-os católicos e protestantes): os evangelhos tinham, subjacente ao texto grego, um substrato aramaico. Isto é, era um grego que não era verdadeiramente grego: era um grego resultante de uma tradução do aramaico. As duas versões do Pai-nosso resultavam, pois, do facto de o Pai-nosso aramaico ter sido maltratado por aqueles o traduziram para grego: os dois evangelistas Mateus e Lucas. Ora, hoje em dia uma tal perspetiva exegética não tem pés para andar. E é difícil, portanto, compreender aqueles que continuam a defender aquilo que, historicamente, é indefensável.

Deixem-me alinhavar aqui alguns pontos sobre isto.

Manusscrito P52 do Novo Testamento. Bíblia

O P52, um manuscrito em grego, o mais antigo conhecido do Novo Testamento (Biblioteca John Rylands, em Manchester). Foto: Direitos reservados.

– Não temos nenhum manuscrito em aramaico. Os mais de cinco mil manuscritos que temos do Novo Testamento são todos em grego. Quando se defende a existência de um Mateus aramaico, o que é que o historiador pode dizer? Duas coisas. Primeiro: se alguma vez um tal Mateus existiu, perdeu-se. Nunca lhe pusemos a vista em cima. Segundo: o Mateus que temos – reconhecem-no cada vez mais exegetas – está escrito num grego que não é grego de tradução. É um grego que cheira a grego, não a aramaico. E o Pai-nosso faz parte desse grego. O consenso, entre exegetas, aumenta a esse respeito. Por exemplo, tenho aqui na minha frente um mastodôntico trabalho de investigação histórica e exegética (a probidade intelectual do investigador, autor da obra, emerge em cada uma das setecentas páginas que escreve) do Sermão do Monte e do Pai-nosso, onde se pode ler, como uma das conclusões: “In regard to its composition, the Lord’s Prayer in Greek is a literary masterpiece.” (Hans Dieter Betz, The Sermon on the Mount, Fortress Press, 1995, p. 375).

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