Ensaio de Dimas Almeida (4): Mateus – a origem de Jesus, a oração e o Pai-nosso

| 7 Nov 20

O 7MARGENS publica a seguir o quarto capítulo do estudo do pastor presbiteriano Dimas de Almeida sobre a nova tradução da Bíblia – Os Quatro Evangelhos e os Salmos – publicada no ano passado pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

A edição experimental desta nova versão da Bíblia em português propunha-se recolher sugestões, críticas e comentários. Dimas de Almeida aceitou para si mesmo o desafio e lançou-se à tarefa.

O resultado é o que aqui fica, concretizado com o seu olhar de teólogo, exegeta e autor de várias traduções, como ficou dito na primeira parte deste texto, na qual o autor explicava o modo como leu esta nova tradução; na segunda parte, Dimas Almeida abordou o problema da pluralidade de leituras, a partir do facto de haver quatro evangelhos e não apenas um; na terceira, debateu os critérios de tradução e a sua relação com o anúncio do evangelho. Neste quarto capítulo, Dimas Almeida inicia a abordagem da tradução do evangelho segundo Mateus e propõe traduções alternativas – uma delas, a do Pai-Nosso.

Este trabalho continuará a ser publicado semanalmente, cada sexta-feira, até 18 de Dezembro, poucos dias antes do Natal. 

 

SEGUNDA PARTE 

símbolos dos 4 evangelistas

Símbolos dos quatro evangelistas: “É nesse universo plural que me esforço por estar, onde há uma Tradição de que não podemos prescindir e que nos liberta para novas leituras. Sem essa liberdade não há leitura que valha.”

 

Nesta segunda parte do meu trabalho vou tentar inscrever-me exegeticamente no concreto de alguns excertos dos quatro evangelhos que nos são dados a ler nesta nova tradução católica. Inscrevendo-me aí, o meu desejo é prolongar a minha leitura já refletida até aqui na primeira parte. Procurando assim, agora no concreto de alguns textos, continuar a responder ao convite dos Bispos feito à multiplicidade dos leitores.

Já o disse: traduzir (particularmente quando se trata do grego antigo ou do latim) é sempre uma tarefa inacabada. Quantas vezes não tenho eu revisto traduções feitas por mim em anos passados! Queria, pois, reafirmar aqui que é vivendo esta experiência de uma fraternidade na vulnerabilidade comum que vou deixar aqui a minha leitura de uma vintena (serão uma trintena?) de passos respigados dos evangelhos tal como eles são dados a ler nesta nova tradução católica. Nem sei bem quantos são esses passos: não os contei. O tempo falece-me para mais. Sim, literalmente, o tempo falece-me.

Respiguei esses passos sem a preocupação de andar à procura deles. Provavelmente foram eles que me procuraram a mim. É possível que, em vez de ter sido eu o vindimador, tenha sido eu o vindimado. E que é que uma pessoa faz nessas circunstâncias? Lê. E o meu desejo é que esse meu ler possa ser uma contribuição para mim mesmo e para aqueles que se interessam por estas coisas.

Sou protestante e assumo jubilosamente essa dimensão da minha condição humana. Assumo-a jubilosamente porque assumo jubilosamente a catolicidade da Igreja. Como é que se pode ser cristão sem se ser católico, isto é, sem se estar aí nesse espaço do universal, que é o espaço do καθ ολον? É aí que eu me esforço por estar, nesse universo plural. Nesse universo onde há uma Tradição de que não podemos prescindir quando se trata de muitas coisas, entre as quais interpretar a Bíblia. Uma Tradição que nos liberta para novas leituras. Sem essa liberdade não há leitura que valha.

Fazer exegese supõe isso, pois supõe que na perspetiva dessa Tradição (que não é uma tradição congelada) o exegeta é desafiado a habitar um espaço de leitura onde a pergunta balbuciada é: o que é que o texto diz?

A dimensão hermenêutica (com a sua vertente existencial: o que é que o texto me diz a mim?) não se confunde com a exegese mas acompanha-a de perto. Ai! Esse campo fascinante da hermenêutica! Quanto medo não tem dela tanto o fundamentalismo católico como o fundamentalismo protestante!

Passo, pois, aos respigos que fiz de cada um dos evangelhos traduzidos, mas não o faço sem sublinhar ainda uma coisa importante:

– a tradução por mim feita de cada um dos respigos é uma tradução que procura ser tão literal quanto possível – pelo menos tão literal quanto me foi possível a mim. Por vezes cruamente literal (para não dizer impiedosamente literal). É que admito a hipótese de haver uma certa piedade religiosa (uma piedade enganosa) que é uma muito má conselheira para o tradutor. Ser-se impiedoso pode funcionar como um dos ingredientes daquilo a que Nietzsche chamava “probidade intelectual”.

 

Segundo Mateus
1:18

Mestre Pero (1340-1360), Nossa Senhora do Ó. Escultura de pedra calcária policromada, dourada e estofada; Museu de Lamego. Peça exposta na mostra “Vestida de Branco, no Santuário de Fátima, patente até Outubro de 2020. Foto © António Marujo/7M

 

Texto grego
18Τοῦ δὲ Ἰησοῦ Χριστοῦ ἡ γένεσις οὕτως ἦν. μνηστευθείσης τῆς μητρὸς αὐτοῦ Μαρίας τῷ Ἰωσήφ, πρὶν ἢ συνελθεῖν αὐτοὺς εὑρέθη ἐν γαστρὶ ἔχουσα ἐκ πνεύματος ἁγίου.

Tradução católica
18Jesus Cristo foi gerado deste modo: Maria, sua mãe, tendo sido desposada por José, antes de viverem juntos[5], descobriu-se grávida[6] por obra do Espírito Santo.

Eu traduziria
18 Mas de Jesus Cristo a origem foi esta: tendo sido Maria, sua mãe, prometida em casamento a José, antes de eles coabitarem ela achou-se tendo-o nas entranhas oriundo de um Espírito santo.

a) A minha tradução, como salta à vista, é impiedosamente literal. Não encontro, porém, outro modo de dizer o que o texto grego, aos meus olhos, diz. Procuro respeitar, na medida do possível, a ordem das palavras em grego, a sua sintaxe, o ritmo da frase, o campo lexical e, com a tradução da partícula δε (mas), evidenciar o contraste com o que se diz nos 17 versículos anteriores. A origem, γενεσις, de Jesus é radicalmente diferente.

Surpreendente versículo este, num grego singelamente nobre, ao serviço de um milagre que não é para ser explicado mas sim proclamado. Um milagre que se oculta revelando-se e se revela ocultando-se.

É um milagre filho do paradoxo! Ai, meu Deus, o PARADOXO, essa palavra que fala grego, de quanto não está ela grávida!

b) Não conheço nenhuma tradução em que a partícula δε do v. 18 apareça traduzida por um “mas”. Geralmente nem sequer é traduzida, como acontece nesta nova tradução católica. Às vezes é-o por um “ora”, que não tem a força adversativa de um “mas”.

Nesta nova tradução católica é pura e simplesmente ignorada. No seu lugar põe-se um ponto final, talvez em obediência ao chavão, defendido na p. 19, de que algumas partículas não passam de “pontuação escrita”. Obediência que por vezes é funesta, como me parece ser o caso aqui.

O problema é que não é só aqui: essa coisa da “pontuação escrita”, propalada por muito professor de grego, encontra um acolhimento fácil, parece-me, em muito tradutor. É, de facto, mais cómodo pôr um sinal de pontuação onde está uma partícula incómoda (mas importante) do que lutar por uma tradução justa da partícula incómoda.

c) A minha tradução supõe, pois, o quanto cada palavra do v. 18 pesa no surpreendente laconismo e na nobre sobriedade do texto grego de Mateus. O contraste entre os primeiros 17 versículos e o que agora se vai proclamar é evidente.

Da origem de todos os outros personagens evocados anteriormente fala-se utilizando o verbo γενναω (gerar): de Jesus vai falar-se utilizando o substantivo γενεσις (origem); em relação a Jesus o v. 18 vai proclamar, não como foi a sua geração, mas a sua origem. É significativo que o substantivo γενεσις (origem) seja utilizado unicamente duas vezes em todo o evangelho de Mateus. E é-o só aqui, e só em relação a Jesus: a primeira vez no v. 1, a segunda vez no v. 18. Dá que pensar.

Daí eu ter traduzido γενεσις não por nascimento (o que também seria possível!) mas por origem.

Possa esta minha tradução ajudar em dois sentidos:

– a compreender como Mateus, genialmente, proclama de um modo particular a origem de Jesus: é radicalmente diferente do modo como o helenismo representava o nascimento dos “homens divinos”, obra dos deuses. O texto de Mateus é de uma inimaginável nobreza sóbria: que não se confunda o nascimento de Jesus com o de um homem divino resultado da relação do deus com um ser humano.

E, num grego que se caracteriza pela economia das palavras a sublinhar a profundidade do mistério, em três palavras, diz tudo: εκ πνευματος αγιου, “oriundo de um espírito Santo”. A preposição εκ (de onde alguma coisa vem) é aqui fundamental. Bendita preposição! Que queremos mais? Não nos chega a singeleza do texto grego?

Que não se macule a sobriedade digna do texto com excrescências palavrosas que a ninguém aproveitam (como, por exemplo, “por obra de”: essa expressão tem a ver com o nascimento dos “homens divinos” no helenismo, como já disse: não tem nada a ver com o milagre do Natal!). No texto grego não há um dativo instrumental, há sim um genitivo de origem εκ πνευματος αγιου oriundo de um espírito Santo.

– e possa também ajudar os não helenistas a tomar consciência da desenvoltura a que não poucos tradutores se entregam ao traduzir este versículo.

O risco é grande com essa desenvoltura: macular palavrosamente a singeleza nobre de um texto grávido de sobriedade.

d) Εκ πνευματος αγιου, oriundo de um espírito Santo: estamos aqui no centro do milagre/mistério do Natal. Três palavras gregas que revelam ocultando e ocultam revelando. Aquele que vai nascer daí é o Homem novo, radicalmente novo, Jesus de Nazaré. Nele se dá a ver a humanidade de Deus. Nele a história de Deus faz-se a nossa história, para que a nossa história seja feita a dele.

 

Segundo Mateus
6:6

Mulher em oração | Vincent Van Gogh | 1883

Mulher em oração, de Vincent Van Gogh (1883). Museu Kröller-Müller, Otterlo, Holanda: “Sempre que ores, entra no teu quarto interior…”

Texto grego
6σὺ δὲ ὅταν προσεύχῃ, εἴσελθε εἰς τὸ ταμεῖόν σου καὶ κλείσας τὴν θύραν σου πρόσευξαι τῷ πατρί σου τῷ ἐν τῷ κρυπτῷ· καὶ ὁ πατήρ σου ὁ βλέπων ἐν τῷ κρυπτῷ ἀποδώσει σοι.

Tradução católica
6 Tu, porém, quando rezares, entra no teu quarto e, fechando a tua porta, reza ao teu Pai, que está no segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará.

Eu traduziria
6 Mas tu, sempre que ores, entra no teu quarto interior e, fechada a tua porta, ora ao teu Pai que está no oculto. E o teu Pai, que está vendo no oculto, te retribuirá.

a) Nesta nova tradução católica o verbo προσευχομαι é vertido por “rezar”; e o substantivo προσευχη por “oração”. Parece-me haver nisto uma inconsequência quando se tem em conta o estipulado na p. 19: “Procurou-se limitar a tradução de cada lexema, quando possível, a uma só opção no português.” E dão-se exemplos disso.

Em obediência a um tal princípio, parece-me que, se o verbo é vertido por “rezar”, o substantivo devia sê-lo por “reza”. Ou então, se se traduz o substantivo por “oração”, o verbo devia ser “orar”. O caso é flagrante em Lc 6:12, que é vertido assim: “E aconteceu que, naqueles dias, Ele saiu para o monte para rezar e passou a noite em oração a Deus.” Um só versículo basta para se ver como se está a ser inconsequente com o que se promete na p. 19. Promete-se respeitar a integridade de um lexema e depois, inconsequentemente, não se hesita em cindi-lo em dois gritantemente diferentes. Para defender o quê?

b) Claro, a ladainha sempre repetida de que “orar” é sinónimo de “rezar”, e “oração” é sinónimo de “reza”, é uma ladainha bem conhecida. Eu permito-me duvidar da consistência de uma tal ladainha. É que também se sabe que não há palavras inteiramente sinónimas. Cada palavra é única.

Por que motivo o enfático lexema grego, que é íntegro, aparece assim esquartejado em dois nesta nova tradução católica?

c) No século XVIII, o padre oratoriano António Pereira de Figueiredo, latinista exímio, fez uma tradução da Bíblia em português, servindo-se da Vulgata latina (o texto latino da Bíblia) como texto a traduzir.

Evoco isto para fazer mais uma confissão pessoal. Que me seja permitido fazê-la. Foi por volta dos dezasseis, dezassete anos, que, assaltado pelo desejo de saber coisas (quão inquieto eu vivi esse tempo) e sem nenhuma religião (nem batizado era, pois os meus pais só depois da minha conversão é que também se converteram) comecei à procura de alguma coisa dentro das minhas inquietações quer espirituais quer intelectuais (só depois comecei a compreender que eram duas coisas inseparáveis).

Ao Padre Pólvora – António Gomes Pólvora – pároco no Montijo (uma vila de uns trinta mil habitantes quando eu nasci em 1937, e onde toda a gente se conhecia) conhecia-o de passar por ele na rua ou de o ver sentado no café. E invejava-o secretamente (sim, com os meus dezassete anos como eu o invejava secretamente por o saber frequentador do latim e, segundo se dizia, não só do latim da missa!).

E um domingo de manhã fui à missa, animado por muita curiosidade. O que era uma missa? Lá estive e nada compreendi. Nem do latim nem dos gestos litúrgicos. Foi nessa altura, com essa idade, que aderi a uma comunidade protestante (provinda da Reforma do século XVI) onde havia um grupo de estudo semanal da Bíblia, e aos domingos se celebrava o culto com pregação do Evangelho e celebração eucarística.

Fui tomando consciência de que estava no caminho que procurava. E fui batizado com 18 anos. Se evoco tudo isto é por causa da Bíblia traduzida pelo Padre António Pereira de Figueiredo. É que, juntamente com a Bíblia traduzida por João Ferreira de Almeida (um pastor da Igreja Reformada nas Índias Orientais Holandesas que no século XVII fez a sua notável tradução da Bíblia a partir do hebraico e do grego), a Bíblia traduzida pelo Padre Figueiredo era também lida, no grupo de estudo bíblico. Comecei a conhecê-la desde essa altura.

Que português aquele! A Bíblia traduzida por ele é, a meus olhos, e aos de muita gente, um monumento na língua portuguesa.

Encanta-me continuar a ler lá “orar” e “oração”. Esteticamente, linguisticamente, vibro nesse comprimento de onda. O “rezar” e a “reza” bloqueia-me interiormente.

Que hei de eu fazer?…

E aos domingos, em minha casa, ao integrar-me liturgicamente, eucaristicamente, na missa transmitida pela televisão, aquele “Oremos…” litúrgico do início encanta-me!

Por que motivo esta nova tradução católica da Bíblia optou pelo rezar? Por que motivo não lê o Padre António Pereira de Figueiredo na tradução que ele fez da Bíblia?

O Evangelho segundo João, traduzido pelo Padre Figueiredo e dito pela voz do artista Luís Miguel Cintra, edifica-nos. Punhamo-nos todos a ouvi-lo. Eu tenho-o em DVD desde há uma meia dúzia de anos (O Novo Testamento de Jesu Christo segundo João, com Luís Miguel Cintra).

d) A palavra ταμειον, que traduzo por “quarto interior”, não é um quarto qualquer. Pode até evocar a ideia de entrar dentro de si mesmo como o entendeu a gnose.

e) Há um deslize grave na tradução católica: usar a palavra “segredo” em vez de “secreto” (ou, como eu traduzo, “oculto”). Veja-se o resultado: “[…] reza ao teu Pai, que está no segredo; e o teu Pai, que vê no segredo, te recompensará.”

É que, em bom português, quando se diz de alguém que “está no segredo” estamos com isso a exprimir a ideia de que se trata de um prisioneiro incomunicável.

 

Segundo Mateus
6:9-13 – O Pai-nosso

Angelus, Jean-François Millet

Jean-François Millet, Angelus (1857-59), óleo sobre tela. Museu d’Orsay, Paris.

 

Texto grego
9 Οὕτως οὖν προσεύχεσθε ὑμεῖς·
Πάτερ ἡμῶν ὁ ἐν τοῖς οὐρανοῖς·
ἁγιασθήτω τὸ ὄνομά σου·
10 ἐλθέτω ἡ βασιλεία σου·
γενηθήτω τὸ θέλημά σου,
ὡς ἐν οὐρανῷ καὶ ἐπὶ γῆς·
11τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον δὸς ἡμῖν σήμερον·
12καὶ ἄφες ἡμῖν τὰ ὀφειλήματα ἡμῶν,
ὡς καὶ ἡμεῖς ἀφήκαμεν τοῖς ὀφειλέταις ἡμῶν·
13καὶ μὴ εἰσενέγκῃς ἡμᾶς εἰς πειρασμόν,
ἀλλὰ ῥῦσαι ἡμᾶς ἀπὸ τοῦ πονηροῦ.

tradução católica
9 Vós, pois, rezai assim:
Pai nosso, que estás nos céus,
santificado seja o teu nome,
10 venha o teu reino,
seja feita a tua vontade,
como no céu, assim também na terra.
11 O pão nosso de cada dia dá-nos hoje[3].
12 Perdoa-nos as nossas ofensas,
como também nós perdoamos a quem nos tem ofendido,
13 e não nos leves até à provação,
mas livra-nos do Maligno[4].

eu traduziria
9 Pai nosso nos céus
10 seja santificado o teu nome
venha o teu reino
seja feita a tua vontade como no céu assim também na terra
11 O nosso pão essencial dá-no-lo hoje
12 e perdoa-nos as nossas dívidas como também nós perdoámos aos nossos devedores
13 e não nos induzas em tentação mas livra-nos do mal.

a) Felicito vivamente esta nova tradução católica do Pai-nosso. A meus olhos, ela marca um avanço substancial em relação às outras católicas que conheço. Muito bem!

b) Quando Jesus criou esta oração – criador não no sentido de ter sido o autor do texto mas no sentido em que o Pai-nosso respira o ar do universo da relação orante que ele manteve com o Pai – criou-a dentro de uma tradição: aquela em que ele viveu como judeu. Eu diria: o que há de novo, radicalmente novo, no Pai-nosso é o orante Jesus: ele o Homem novo, primogénito de uma nova humanidade.

Subjacente ao Pai-nosso há uma teologia: aquela que Jesus encarnou e que os discípulos acolheram na composição genial desta oração única.

c) Como é sabido, o Pai-nosso chegou até nós em dois textos com algumas diferenças entre si.

Já me referi a isto anteriormente (na primeira parte deste meu trabalho): toco neste ponto de novo só para refrescar um pouco o que já disse.

Tem interesse compará-los um com o outro (o texto de Lucas encontra-se em Lc 11:2-4).

Tendo em conta os avanços que no campo da exegese se têm registado (e a investigação histórica é sempre um apoio precioso) que podemos dizer como verosímil para explicar a existência de dois textos diferentes do Pai-nosso? Dois nãos e um verosímil sim.

Um não à evocação de traduções gregas diferentes do aramaico usado por Jesus. Já abordei atrás este ponto. Na investigação exegética tem-se intensificado o consenso entre aqueles que defendem o grego como língua de origem do Pai-nosso.

Um outro não aos que, em perspetiva fundamentalista, defendem duas fórmulas diferentes de oração ensinadas por Jesus: num certo dia Jesus deu uma fórmula; num outro dia deu a fórmula diferente. São as habituais evasões fundamentalistas quando se é confrontado com um mesmo acontecimento narrado de modos diferentes, com a mesma parábola narrada com um conteúdo diferente, com o mesmo milagre transmitido com um teor diferente (é porque foram dois acontecimentos, é porque foram duas parábolas, é porque foram dois milagres, é sempre a resposta habitual).

Um sim plausível. Tendo em conta o que se conhece hoje das regras da literatura oral e da hagiografia, impõe-se-nos evocar os variados usos que se pode fazer de um episódio isolado. É-se assim levado a atribuir às comunidades cristãs, durante o período da tradição oral – ou mesmo aos evangelistas Mateus e Lucas – a elaboração de textos diferentes para responder apropriadamente às necessidades de meios eclesiais diferentes. Historicamente é aí que se situa o que é plausível. Pese embora aos fundamentalismos, tanto o protestante como o católico.

jesus, apóstolos

Jesus e os seus apóstolos: “É fácil imaginar a particular importância da ‘Oração do Senhor’ para a igreja nascente.”

 

d) É fácil imaginar a particular importância da “Oração do Senhor” para a igreja nascente: Mateus transmite-a; Lucas transmite-a; a Didaquê (anos 90-100) transmite-a.

Dos primeiros séculos chegaram até nós centenas de manuscritos. Ora, nenhum desses manuscritos no-la transmite em aramaico. Todos esses manuscritos têm como língua o grego. Se tivesse havido um original aramaico, como é que se explica que dele não tivessem ficado traços em nenhum manuscrito? É que todos os manuscritos falam grego.

Com efeito, não há nenhuma evidência de que o Pai-nosso tenha tido como língua de origem o aramaico. A Oração do Senhor está atestada exclusivamente em grego: nenhuma fonte aramaica chegou até nós.

Não andemos à procura de um fantasma – um Pai-nosso num aramaico original – para, indevidamente a meus olhos, corrigirmos o grego dos evangelhos.

O Pai-nosso fala grego na sua admirável e genial concisão. Uma concisão que nos liberta do blá-blá-blá daquelas orações das quais, dois versículos antes, Jesus nos diz para fugir. A Oração do Senhor é uma admirável obra prima literária. Um modelo no universo literário das formas usuais dos antigos hinos e orações.

Respeitemo-lo na única língua em que foi preservado pelos primeiros cristãos: o grego.

Que queremos mais? Está lá tudo, numa grandeza única!

e) A invocação (v. 9b), επικλησις, é dirigida a um Deus Pai que dá lugar a duas pluralidades: a pluralidade do “nós” e a pluralidade do “céus”.

A secção principal (v. 9c-13) consiste em dois conjuntos de três petições cada um. O primeiro conjunto (“seja santificado o teu nome”; “venha o teu reino”; “seja feita a tua vontade”) é uma interpelação dirigida a Deus com os três verbos no imperativo (dois deles assim chamados na exegese “passivos divinos”): que Ele cumpra a sua promessa santificando o seu nome, promovendo a vinda do seu reino, fazendo a sua vontade. É Ele que pode fazer tudo isso.

O segundo conjunto (“o nosso pão essencial”, o “perdão das dívidas”, o “não nos induzas”) supõe as necessidades específicas dos seres humanos.

Pão e água

“A primeira dessas necessidades é a do pão. E aí um nós irrompe. De que pão se trata?”

 

f) A primeira dessas necessidades é a do pão, v. 11. E aí um ημεις, nós, irrompe.

De que pão se trata? O adjectivo επιουσιος, que lhe é aposto, tem levantado hesitações, e isso desde a antiguidade. Trata-se de um απαξ λεγομενον (uma palavra que aparece uma única vez na literatura de que se dispõe).

Do ponto de vista filológico (talvez a perspetiva mais interessante) podemos entendê-lo como derivado do verbo επιεναι (o que vai vir), revestindo assim o sentido de η επιουσα ημερα (o dia que vem, o dia de amanhã), isto é, o “pão” como uma referência ao banquete messiânico esperado, ou então, simplesmente, como o pão de que precisamos para o dia seguinte.

Mas podemos também entendê-lo numa outra ótica (também a não perder de vista): como uma palavra composta de επι e ουσια e interpretá-lo como “o que é necessário para a existência”, isto é, “o pão essencial”. Tateando, inclino-me para aqui, consciente de que o επιουσιος continua revestido da sua intriga. E talvez seja bom preservar a intriga e acolhê-la na nossa vida de orantes. Ai, a intriga do “pão”…

g) O v. 13 indicia o final do Pai-nosso. Algumas notas:

– de um modo claro, este versículo é em si o clímax de todas as seis petições, e a última palavra, πονηρος (o mal) transporta consigo a vertigem do nada: a santificação do Nome desfigurada na desfiguração do humano; o reino de Deus feito reino do injusto; a vontade de Deus metamorfoseada no ignóbil do iníquo; o pão essencial reduzido às dimensões do supérfluo; o perdão que vivifica anestesiado no rito do egoísmo;

– desde o princípio do Pai-nosso que se trava a luta contra o πονηρος (o mal), a última palavra do Pai-nosso. Eu diria até que o αλλα, esse “mas” enfaticamente contrastante (“mas livra-nos do mal” indicia essa luta abrangendo tudo o que já foi dito;

– a formulação do v. 13a parece sugerir que Deus é o único que nos “induz em tentação”: há aqui um monoteísmo estrito, pois Deus é o único, não há outro. Agonicamente, em luta consigo mesmo e com Deus, uns quatrocentos anos antes do Pai-nosso, o que se tornou conhecido como Deutero-Isaías, um grande desconhecido, põe na boca de Deus a coisa mais ousada que um profeta poderia pôr. Cito em francês o texto de Isaías 45:7:

“Le formateur de la lumière, le créateur de la ténèbre, le faiseur de la paix, le créateur du mal. Moi, Adonai, IHVH, l’auteur de tout cela.” (trad. André Chouraqui)

“C’est moi qui suis le Seigneur, il n’y en a pas d’autre; je forme la lumière et je crée les ténébres, je fais le bonheur et je crée le malheur: c’est moi, le Seigneur, qui fait tout cela.” (trad. TOB – Traduction Oecumenique de la Bible)

– sim, o texto grego, e não há outro, do Pai-nosso, é muito forte: é tarefa impossível pedir aos tradutores que traduzam o Και μη εισενεγκηις ημας εις πειρασμον (“e não nos induzas em tentação”) de um modo que dê satisfação àqueles que pensam que o Deus do Pai-nosso tem de ser aquilo que eles pensam que Deus tem de ser;

– as traduções do tipo “e não nos deixes cair na tentação” que, no caso do Pai-nosso, é a tradução que mais agrada à generalidade dos cristãos, tanto católicos como protestantes, são insustentáveis perante o que o texto diz.

Mas não está em jogo apenas isso: os defensores das traduções desse tipo incomodam-se com a tradução do texto grego tomado a sério mas ficam tranquilos perante a imagem de um Deus que, perante um poder que não é o dele, pode deixar-nos cair na tentação. Qual é a diferença?

“Que pai humano haverá que pode deixar cair um filho na tentação?”: sou eu agora que faço a pergunta…

Marc Roault - Ecce Homo

Marc Roault, Ecce Homo (Museus do Vaticano): “Deus não pode deixar que caiamos na tentação de um poder, seu concorrente, que lhe é hostil.”

 

– aqueles que defendem uma tradução “doce” do texto, ao fazerem uma tal defesa também parece não se aperceberem de que, ao defenderem uma tradução adulterada, estão com esse seu desejo a roçar o espaço ocupado por uma forma de diteísmo: um espaço ocupado por dois poderes, o de Deus e o de um outro, também poderoso, que nos tenta, e do qual só Deus nos pode libertar;

– eu diria, a partir do que já procurei dizer: as traduções “doces” ficam desamparadas fora de um diteísmo necessário para se justificarem. Ora como, sem dúvida, os defensores dessas traduções rejeitam um diteísmo, e defendem um monoteísmo, eu diria: dentro de um estrito monoteísmo as traduções “doces” veiculam uma petição inútil. Repito a pergunta que forjei acima para imitar do avesso os defensores do “doce”: “Que pai humano haverá que pode deixar cair um filho na tentação?”

É que se se parte do princípio (que não é outro senão o da projeção em Deus do que pensamos ser a nossa bondade), se se parte desse princípio, então temos de aceitar igualmente que Deus também não pode deixar que caiamos na tentação de um poder, seu concorrente, que lhe é hostil.

E ficaríamos, assim, no campo do que se poderia chamar uma petição estéril. Uma petição ferida de inutilidade.

Meu Deus! Teríamos assim um Pai-nosso desfigurado: é que a última petição com que ele termina (a sua sexta petição, que tem sido tão incómoda para tanta gente) é uma petição estruturante de toda a oração. Por isso o Pai-nosso não termina sequer com um Amen. As palavras “Porque teu é o reino, o poder e a glória” que ainda não há muitos anos as traduções protestantes acolhiam, são palavras muito tardias que não se encontram nos melhores e mais antigos manuscritos. Foram copistas piedosos que as introduziram (no séc. IV, no séc. V ?), certamente já eles também descontentes com a forma como a Oração do Senhor termina.

A piedade vem já de muito longe… Não estou a pôr em causa a piedade. Todos nós precisamos dela para viver. O que estou a pôr em causa é uma piedade que se pode revelar enganosa…

– e uma vez mais ressurge a questão aramaica.

Em desespero de causa, os defensores de um Pai-nosso aramaico original apresentam como motivo do problema da teodiceia que emerge da sexta e última petição (“e não nos induzas em tentação, mas livra-nos do mal”) uma infelicidade filológica quando a fonte aramaica foi traduzida em grego: os autores dos evangelhos traduziram mal o aramaico original e são eles os responsáveis pelo facto de nos terem introduzido nesta trapalhada. Houve, por consequência, um falhanço teológico de que os evangelistas Mateus e Lucas são os responsáveis.

Daí que, perante um texto que os incomoda, os defensores de um aramaico original lancem aos tradutores um curioso desafio: que estes traduzam esse texto não a partir do grego que temos mas sim a partir do aramaico que não temos. Curioso…

– lancemos um olhar ao Antigo Testamento, que foi a Bíblia de Jesus, dos doze apóstolos, de Paulo, da igreja nascente.

Seria fastidioso estar aqui a citar as dezenas de vezes em que, no Antigo Testamento, Deus aparece a tentar os humanos, os mais diversos humanos. Sim, na Bíblia de Jesus diz-se de Deus que ele tenta, e até por vezes se diz que a tentação pode funcionar como uma estratégia de educação, mesmo quando as coisas podiam correr mal.

Outros textos há, porém, nessa mesma Bíblia, que defendem que Deus não pode ser assim visto como injusto. E várias estratégias foram apresentadas para ilibar Deus… Satan é o tentador… e Deus é visto como aquele que mantém Satan preso a uma trela… ou as más inclinações de um coração corrompido… ou os espíritos maus dos textos de Qumrân.

Marc Chagall, Job

Marc Chagall, Job: ““Acaso não é a vida de um homem na terra uma provação, e a duração da existência dele como a da jorna de um jornaleiro?”

 

O testemunho mais importante de um tal desenvolvimento argumentativo é Job. Particularmente a versão grega dos LXX (Septuaginta) dá mostras de uma muito grande determinação em desenvolver um conceito de provação na perspetiva do pensamento helenista (cf. Job 7:1):

ποτερον ουχι πειρατηριον εστιν ο βιος ανθρωπου επι της γης
και ωσπερ μισθιου αυθημερινου η ζωη αυτου;

“Acaso não é a vida de um homem na terra uma provação, e a duração da existência dele como a da jorna de um jornaleiro?” (do texto grego estabelecido por Alfred Rahlfs, Septuaginta, o traduzi).

– temos assim em torno deste tema de que a palavra grega na Septuaginta é πειρασμος (tentação) teologias em conflito na Bíblia de Jesus.

Afinal de contas, quem tenta? E até que ponto tenta? E como se resiste à tentação?

Os textos bíblicos, essa extraordinária biblioteca que se foi formando ao longo de uns mil anos, na sua diversidade sincrónica e diacrónica, parecem ser uma fecunda caixa de ressonância dos ecos dessa polémica secular.

E quando entramos na biblioteca do assim chamado Novo Testamento (esses 27 livros canónicos onde há evangelhos, atos, epístolas, apocalipse), também aí a interpretação desta questão não é monolítica.

Peguemos, por exemplo, na Carta de Tiago. Emergem nela, clara e enfaticamente, os sinais de uma polémica na qual o autor desta importante carta toma posição: energicamente defende a posição daqueles para os quais Deus não pode nunca tentar. Impõe-se ter em conta Tiago 1:13, pois a forma como está redigido é um reflexo de uma polémica já instalada:

“Que ninguém, quando está a ser tentado, diga:
“Estou a ser tentado por Deus,
porque Deus é incólume à tentação dos males e ele mesmo não tenta ninguém.”
(minha tradução)

Toda esta carta (atribuída a um Tiago desconhecido) se revela de um valor inestimável:
provavelmente dos anos 80 ou 90, reflete-se nela muita coisa caracterizante do princípio de um processo de institucionalização da Igreja.

É plausível, historicamente, ecoarem nela os ecos de uma polémica em torno do problema da tentação. O Pai-nosso, com aquele provocante v. 13 “não nos induzas em tentação, mas livra-nos do mal”, faria parte desse conflito de interpretações.

A investigação histórico-exegética no concernente ao Novo Testamento tem chamado a atenção para a riqueza da diversidade de pensamentos nas origens cristãs: nós somos, hoje em dia, herdeiros dessa riqueza que nos liberta do totalitarismo do pensamento único.

E ajuda-nos a avançar.

É significativo que a última palavra do Pai-nosso, πονηρου, (do mal), um genitivo neutro, nos confronte com um mistério: o problema do mal. Quem é que pode dar uma resposta inteiramente satisfatória e definitiva a esse problema? Um discurso único sobre isso seria, a meus olhos, um discurso obsceno. Os textos bíblicos, na diversidade que os caracteriza, libertam-nos dessa obscenidade.

É que Deus – o Deus dos profetas e dos apóstolos – não é cómodo para ninguém: não o é nem para os que creem nem para os que não creem. Um Deus cómodo, criado à nossa imagem e semelhança, não seria o Deus de Jesus. E o Pai-nosso liberta-nos desse Deus.

Nós, ao dizermos o Pai-nosso, estamos a dizer palavras que nos transcendem, e entre elas está sobretudo esta última. Nós não sabemos, mas Deus sabe. E é isso que conta. Isso basta-nos. Que queremos mais?

II Morazzone Cristo e a samaritana

II Morazzone, Cristo e a samaritana junto ao poço (c. 1620-26). Pinacoteca de Brera, Milão: “Ao dizermos o Pai-nosso, estamos a dizer palavras que nos transcendem. Nós não sabemos, mas Deus sabe…”

Uma nota marginal

Há já uns trinta anos animei um seminário de três horas semanais, durante dois meses, para estudantes que manejavam um pouco de grego. O assunto que nos ocupou foi exatamente uma exegese do Pai-nosso. A minha tradução que acima dou a ler resulta, substancialmente, do trabalho que então fiz com os estudantes. Longe de mim tê-la como definitiva.

 

(Na próxima semana: Excertos de tradução do evangelho de São Mateus – 2ª parte)

 

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As intervenções de um Papa na Assembleia Geral das Nações Unidas (AGONU) aconteceram em cinco momentos da História e resultaram de um estatuto jurídico reconhecido internacionalmente ao líder máximo da Igreja Católica, incomparável quer relativamente aos líderes das outras religiões, quer aos das nações. Isto, por si só, é relevante a nível da política e das relações internacionais.

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