Ensaio de Dimas Almeida (5): Mateus – chronos e kairós, messianismos e dúvidas

| 14 Nov 20

O 7MARGENS publica a seguir o quinto capítulo do estudo do pastor presbiteriano Dimas de Almeida sobre a nova tradução da Bíblia – Os Quatro Evangelhos e os Salmos – publicada no ano passado pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

A edição experimental desta nova versão da Bíblia em português propunha-se recolher sugestões, críticas e comentários. Dimas de Almeida aceitou para si mesmo o desafio e lançou-se à tarefa. O resultado concretiza-se neste trabalho que temos vindo a publicar cada sexta-feira e se prolongará até 18 de Dezembro.

Com o seu olhar de teólogo, exegeta e autor de várias traduções, Dimas Almeida explicou, na primeira parte deste texto,  o modo como leu esta nova tradução; na segunda parte, abordou o problema da pluralidade de leituras, a partir do facto de haver quatro evangelhos e não apenas um; na terceira, debateu os critérios de tradução e a relação disso com o anúncio do evangelho; na quarta, iniciou a abordagem da tradução do evangelho segundo Mateus e propôs algumas traduções alternativas – uma delas, a do Pai-Nosso.

Neste quinto capítulo, ainda dedicado ao texto do Evangelho de Mateus, Dimas Almeida debate, entre outros detalhes, a questão do chronos e do kairós a partir da tradução de três excertos, bem como os messianismos judaicos relacionados com os Manuscritos de Qumrân.

 

[Continuação da segunda parte:
Mateus: chronos e kairós, messianismos e Qumrân, e as dúvidas dos discípulos]
Árvore. Almeida, 2003

“É a partir do fruto que a árvore se dá a conhecer.” Almeida, 2003. Foto © António José Paulino

 

Mateus 12:33
Texto grego
33 Ἢ ποιήσατε τὸ δένδρον καλὸν καὶ τὸν καρπὸν αὐτοῦ καλόν, ἢ ποιήσατε τὸ δένδρον σαπρὸν καὶ τὸν καρπὸν αὐτοῦ σαπρόν· ἐκ γὰρ τοῦ καρποῦ τὸ δένδρον γινώσκεται.

tradução católica
33 Ou considerais[12] a árvore boa, e o seu fruto bom, ou considerais que a árvore não presta e o seu fruto não presta. É pelo fruto que se conhece a árvore.

eu traduziria
33 Ou: fazei a árvore bela e o seu fruto será belo!
Ou: fazei a árvore podre e o seu fruto será podre!
Porque é a partir do fruto que a árvore se dá a conhecer.

Há que problematizar, assim me parece, esta nova tradução católica por ser feita de coisas que me parecem inaceitáveis:

a) submete o verbo ποιεω (fazer) a uma inadequada tradução ao traduzi-lo por “considerar”; impõe-se manter aqui o seu significado fundamental e forte de “fazer”;

b) vê na forma verbal de ποιεω um presente do indicativo quando se trata de um aoristo do imperativo: sim, temos aqui um imperativo;

c) adocica o dito de Jesus ao traduzir σαπρος por “não presta”: é que σαπρος implica a ideia de uma coisa podre, putrefacta;

d) desvirtua o dito de Jesus ao não ter em conta o que há de estruturante no imperativo (sim, é de um imperativo e não de um indicativo que se trata!) que sai da boca de Jesus: a árvore “bela” (καλον), ou o homem “bom” (αγαθος), não o são pelas suas qualidades intrínsecas (inatas), mas sim pela orientação fundamental que assumem diante de Deus;

e) põe na boca de Jesus palavras que podem levar-nos a pensar ser ele um proclamador de uma antropologia de que as características são inatas (“Ou considerais […] ou considerais”). Ora, no dito de Jesus não há o reconhecimento de qualidades intrínsecas, mas um forte imperativo: fazei-vos!

f) não traduz a partícula γαρ, porque. Ora, o γαρ é uma daquelas partículas que nunca devem ser ostracizadas. Importantíssima, estabelece aqui uma ligação entre a primeira parte do versículo e a segunda: impõe-se ser traduzida por um “porque”.

Meu Deus! Com este dito de Jesus estamos a pisar um terreno antropológico/ético de uma importância enorme. Não façamos de um imperativo que nos atinge eticamente no mais profundo do nosso ser – não façamos desse imperativo um bloco de palavras descosidas que inverte os papéis ao fazer de nós juízes, quando somos nós os julgados.

 

N.B. – Os três excertos seguintes suscitam uma mesma problemática. Por isso serão anotados em conjunto.

“Com a palavra χρονος (chronos) os gregos exprimiam o tempo (o tempo cronológico, o tempo do calendário); com a segunda, καιρος (kairós), as coisas fiam mais fino.” Foto © Ozias Filho

 

Mateus 11:25
texto grego
25 Ἐν ἐκείνῳ τῷ καιρῷ ἀποκριθεὶς ὁ Ἰησοῦς εἶπεν· ἐξομολογοῦμαί σοι, πάτερ, κύριε τοῦ οὐρανοῦ καὶ τῆς γῆς, ὅτι ἔκρυψας ταῦτα ἀπὸ σοφῶν καὶ συνετῶν καὶ ἀπεκάλυψας αὐτὰ νηπίοις·

tradução católica
25 Naquele tempo, em resposta[8], Jesus disse: “Louvo-te, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.”

eu traduziria
25 Nesse momento Jesus, reagindo, disse:
“Louvo-te, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas a sábios e sagazes e as revelaste aos pequenos.”

Mateus 12:1
Texto grego
1 Ἐν ἐκείνῳ τῷ καιρῷ ἐπορεύθη ὁ Ἰησοῦς τοῖς σάββασιν διὰ τῶν σπορίμων· οἱ δὲ μαθηταὶ αὐτοῦ ἐπείνασαν καὶ ἤρξαντο τίλλειν στάχυας καὶ ἐσθίειν.

tradução católica
1 Naquele tempo, caminhava Jesus num sábado pelas searas. Os seus discípulos sentiram fome e começaram a arrancar espigas e a comê-las.

eu traduziria
1 Nessa ocasião – era o shabbat – Jesus caminhava pelos campos de trigo. Ora, os discípulos dele tiveram fome e puseram-se a arrancar espigas e a comê-las.

Mateus 14:1-2
texto grego
1 Ἐν ἐκείνῳ τῷ καιρῷ ἤκουσεν Ἡρῴδης ὁ τετραάρχης τὴν ἀκοὴν Ἰησοῦ,
2 καὶ εἶπεν τοῖς παισὶν αὐτοῦ· οὗτός ἐστιν Ἰωάννης ὁ βαπτιστής· αὐτὸς ἠγέρθη ἀπὸ τῶν νεκρῶν καὶ διὰ τοῦτο αἱ δυνάμεις ἐνεργοῦσιν ἐν αὐτῷ.

tradução católica
1 Naquele tempo, o tetrarca Herodes[1] ouviu falar da fama de Jesus 2e disse aos seus servos: “Este é João Batista! Ele ressuscitou dos mortos, e, por isso, os poderes atuam nele”.

eu traduziria
1 Nessa conjuntura Herodes, o tetrarca, ouviu o que se dizia de Jesus.
2 E disse aos seus servos: “Este tipo é João, o Batista, ressuscitado dos mortos, motivo pelo qual os poderes estão ativos nele!”

Algumas notas sobre os três excertos anteriores

1) Consultem-se dúzia e meia de traduções. É fatal: lá vamos encontrar o tradicional “Naquele tempo…”.

Ora, eu queria aqui reagir perante esta quase (digo quase porque talvez alguém encontre um desgarrado tradutor que eu abraçaria com gosto!) unanimidade nas traduções.

É que estão aqui em jogo algumas coisas importantes, entre as quais uma das grandes palavras gregas: a palavra καιρος, sobre a qual vou tentar dizer o que tenho aprendido.

 

2) Está vivamente presente nesta questão o enigma do tempo e o modo como ele se pode dizer em grego.

Mas partamos de Santo Agostinho, ele que, no livro XI das Confissões, como é sabido, se desdobra numa multiplicidade de interrogações arrancadas à vida, envereda por uma racionalidade existencial desafiante, diz coisas que nos interpelam no mais profundo do nosso ser – porque nós somos tempo – e, numa determinada altura (XIV, 17), formula a pergunta: “O que é, pois, o tempo? Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei.”

A língua grega, essa, na sua genialidade, criou duas palavras para falar do tempo. Uma delas a palavra χρονος (chronos, de onde vem cronologia), a outra a palavra καιρος (kairós).

Com a primeira, χρονος (chronos) os gregos exprimiam o tempo (o tempo cronológico, o tempo do calendário); com a segunda, καιρος (kairós), as coisas fiam mais fino.

Moinho de areia. Tempo.

Günther Uecker, Sandmühle (Moinho de areia), 1970, Städel Museum, Frankfurt am Main, Alemanha: “O καιρος (kairós) aponta, com toda a força da sua dignidade, para o movimento único, para a ocasião privilegiada, para o momento do acontecimento.” Foto © António Marujo

 

O χρονος (chronos) designa, de certo modo, o tempo na sua fluidez (ai! aqueles antigos “relógios de areia” dos exames orais…); o καιρος (kairós) esse, evoca uma perspetiva diferente e faz questão em apontar (defendendo assim a sua aristocracia…) para um significante momento do tempo.

 

Enquanto o χρονος (chronos) se preocupa com os movimentos regulares das estrelas – especialmente o movimento da terra em torno do sol – o καιρος (kairós) aponta, com toda a força da sua dignidade, para o movimento único, para a ocasião privilegiada, para o momento do acontecimento: aquele momento, aquela circunstância, aquela conjuntura, uma ocasião bafejada pela emergência de alguma coisa que pode ser nova (não tem obrigatoriamente de o ser).

 

Enquanto o χρονος (chronos) supõe a natureza, a linearidade da história, o καιρος (kairós) supõe a história no momento, na sua dimensão existencial, numa determinada conjuntura e, nessa perspetiva, pode acontecer ele, καιρος (kairós), atingir-nos nas entranhas.

 

No Novo Testamento o καιρος (kairós) aponta para o tempo cumprido, para um momento muito especial, para uma circunstância particular. Sublinhemos isto: no grego do Novo Testamento o καιρος (kairós) emerge como que libertado da banalização que já o tinha atingido. Quando os livros do Novo Testamento estavam a ser escritos, os evangelhos fazem-no emergir de um modo particular: o foco é posto nesse acontecimento único (kairós) ocorrido no χρονος (chronos) – o Jesus da história confessado como Messias!

O apóstolo Paulo, num passo soberbo da Carta aos Gálatas, evoca de um modo exemplar o que é esse καιρος (kairós). Evoca-o sem usar a palavra καιρος: a expressão paulina é το πληρωμα του χρονου: a plenitude do tempo! Esse πληρωμα (pleroma) é o καιρος.

Escreve Paulo:

“Mas quando a plenitude do tempo veio, Deus enviou o seu Filho,
nascido de uma mulher, nascido debaixo do poder da Lei.” (Gal 4:4)
(tradução minha)

É óbvio: é um καιρος precedido por pequenos καιροι ocorridos no tempo da história, no χρονος. Esses pequenos καιροι são prolépticos do grande καιρος !

“Não o reconheceram”, de © Bernadette Lopez (Berna)/Évangile et Peinture: O καιρος inscreve-se na construção levada a cabo por Mateus de um evangelho surpreendente.” 

 

Perdoem-me esta digressão, mas ela é-me ditada pela constatação, que dura há já anos e anos, de que, na generalidade das traduções do Novo Testamento não se tem em conta esta problemática, como se no Novo Testamento tivesse continuado a banalização do καιρος (kairós) e este pudesse ser sempre traduzido como χρονος (chronos). Não pode.

São exemplos disso os excertos de Mateus apresentados acima: nos três excertos é a palavra καιρος que lá está, sempre traduzida por “tempo”. E não o devia ser.

3) No concernente só aos evangelhos, a palavra καιρος aparece: 9 vezes em Mateus; 5 vezes em Marcos; 12 vezes em Lucas; 3 vezes em João.

Penso que inscrevermos no horizonte exegético com que se trabalha uma tal estatística é importante. Isso não significa que não haja por vezes a necessidade de traduzir καιρος por “tempo”. Pode muito bem havê-la. Mas só depois de apurada análise do seu contexto.

Ora, quando estão em causa os nossos três excertos de Mateus, constata-se o seguinte:

– a tradução católica repetidamente traduz “Naquele tempo”, embora a palavra grega que lá está em cada excerto seja um καιρος (kairós) e não um χρονος (chronos);

– em nenhum desses excertos a referência é a um tempo cronológico, mas sim a um determinado momento, ou circunstância, ou conjuntura;

a) em Mt 11:25 há uma ligação clara ao que se diz nos versículos anteriores; se Cafarnaum (v. 23) o rejeita, então “os pequenos” (não forçosamente na idade) aliam-se aos não-judeus (Tiro, Sídon, v.21) para o receber. Aquelas cidades, sede de escolas rabínicas e da cultura religiosa, desprezam aquele que “os simples” acolhem. O verbo αποκρινεσθαι (responder, reagir) assume aqui (como é frequente nos sinópticos) um aspeto polémico.

A conjuntura, ou circunstância, é a mesma. Ela envolve a perícope que termina no v. 24 e a que começa no v. 25.

Como é que se pode traduzir o v. 25 pondo-o a cavar uma distância temporal (inexistente) em relação ao que vem antes?

b) em Mt 12:1 também não há uma cronologia que nos leve ao “Naquele tempo”. A perícope que começa em 12:1 liga-se à que termina em 11:30;

– a ocasião continua a ser a mesma.

c) em Mt 14:1-2 também não emerge um contraste entre o que foi outrora e o que é agora. Mateus, pedagogicamente, com o seu καιρος introduz esta sua narrativa.

 

Tenha-se em conta isto: o plano de Mateus na construção do seu evangelho é coerente.

As parábolas do cap. 13 acabam de sublinhar a dura realidade da significação do insucesso da Palavra no mundo;

a seguir é o insucesso de Jesus na sua própria pátria, Nazaré (13:53-58);

e agora uma narrativa dupla faz emergir a incompreensão total da autoridade oficial galileia – na pessoa de Herodes Antipas – a respeito de Jesus e do Precursor (João, o Baptista).

Assim, as palavras iniciais do cap. 14 não evocam um tempo distante. O καιρος que lá se encontra inscreve-se na construção levada a cabo por Mateus de um evangelho surpreendente. Isso leva-o a inscrever numa mesma conjuntura uma narrativa dos acontecimentos.

 

Mateus 19:27-30

Caravaggio (1571-1610), Chamamento de Pedro e André. Royal Collection, Londres: “Muitos serão: primeiros, últimos e últimos, primeiros!”

 

texto grego
27 Τότε ἀποκριθεὶς ὁ Πέτρος εἶπεν αὐτῷ· ἰδοὺ ἡμεῖς ἀφήκαμεν πάντα καὶ ἠκολουθήσαμέν σοι· τί ἄρα ἔσται ἡμῖν;
28 ὁ δὲ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς· ἀμὴν λέγω ὑμῖν ὅτι ὑμεῖς οἱ ἀκολουθήσαντές μοι ἐν τῇ παλιγγενεσίᾳ, ὅταν καθίσῃ ὁ υἱὸς τοῦ ἀνθρώπου ἐπὶ θρόνου δόξης αὐτοῦ, καθήσεσθε καὶ ὑμεῖς ἐπὶ δώδεκα θρόνους κρίνοντες τὰς δώδεκα φυλὰς τοῦ Ἰσραήλ.
29 καὶ πᾶς ὅστις ἀφῆκεν οἰκίας ἢ ἀδελφοὺς ἢ ἀδελφὰς ἢ πατέρα ἢ μητέρα ἢ τέκνα ἢ ἀγροὺς ἕνεκεν τοῦ ὀνόματός μου, ἑκατονταπλασίονα λήμψεται καὶ ζωὴν αἰώνιον κληρονομήσει.
30 πολλοὶ δὲ ἔσονται πρῶτοι ἔσχατοι καὶ ἔσχατοι πρῶτοι.

tradução católica
27 Então, em resposta, Pedro disse-lhe: “Eis que nós deixámos tudo e seguimos-te. Que recompensa teremos?”. 28 Jesus disse-lhes: “Amen vos digo: no tempo da renovação, quando o Filho do Homem se sentar no trono da sua glória, vós, que me seguistes, sentar-vos-eis também em doze tronos a julgar as doze tribos de Israel. 29 E todo aquele que tenha deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos, ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna. 30 Porém, muitos primeiros serão últimos, e muitos últimos primeiros”.

eu traduziria
27 Então Pedro, como resposta, disse:
“Pois bem: nós renunciámos a tudo e pusemo-nos a seguir-te!
Qual será, pois, o nosso quinhão?”
28 E Jesus disse-lhes: “Amen vo-lo digo:
no mundo novo, quando o Filho do homem se sentar no trono da sua glória,
também vós que me seguistes vos sentareis em doze tronos
para julgar as doze tribos de Israel.
29 E todo aquele que deixou casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou filhos,
ou campos, por causa do meu nome, receberá o cêntuplo e herdará uma vida eterna.
29 Mas muitos serão:
primeiros, últimos
e
últimos, primeiros!

Algumas notas
1) – v. 28 : temos neste versículo uma palavra, παλιγγενεσια, que em todo o Novo Testamento aparece unicamente duas vezes: aqui e em Tito 3:5.

Pela importância de que se reveste, penso valer a pena chamar para ela a nossa atenção.

Desafiante palavra: é o mundo inteiro que está aqui presente, prenhe como está de uma forte dimensão escatológica de que o horizonte é, com efeito, o mundo. Daí a minha tradução.

 

Há quem a traduza por “renovação”, outros por “vida renovada”, outros por “regeneração”, outros ainda de outro modo. E tudo isso é possível e defensável.

Eu, por mim, também julgo ser defensável a minha preferência, “mundo novo”, por me parecer exprimir uma ressonância escatológica de uma maior amplitude.

 

2) – O horizonte de esperança em que Jesus se situa ao falar deste modo aos discípulos é particularmente importante e arrasta consigo a questão messiânica.

Ora, num judaísmo plural como era o de Jesus, a questão messiânica emergia também numa pluralidade de interpretações. Por outras palavras: o judaísmo que Jesus habitou albergava em si não um messianismo mas sim messianismos.

Qumran. Manuscritos

A gruta em Qumrân, onde forma descobertos os Manuscritos do Mar Morto: “O conhecimento do judaísmo do tempo de Jesus aumentou de modo surpreendente.” Foto © Effi Schweizer/Wikimedia Commons

 

Graças à arqueologia que a partir de 1947 começou a trazer à luz do dia as ruínas de Qumrân e a sua surpreendente biblioteca (os famosos Manuscritos do Mar Morto) o nosso conhecimento desse judaísmo aumentou de um modo surpreendente.

 

Desde então e à medida que esses milhares e milhares de manuscritos e de fragmentos de manuscritos têm vindo a ser decifrados, com efeito, uma nova luz tem vindo a ser lançada sobre esse judaísmo, mas não só sobre ele: sendo ele o berço em que o cristianismo nasceu, também este tem sido pensado de um modo mais amplo e fecundo. É pena que nesta nova tradução católica dos evangelhos não se tenha tido isso em conta: se o tivesse sido, talvez a introdução, e particularmente algumas notas de pé-de-página, tivessem saído enriquecidas, e alguma luz lançada sobre alguns aspetos históricos da formação dos evangelhos.

 

Com efeito, os Manuscritos do Mar Morto são uma extraordinária biblioteca que terá começado a ser produzida por volta do ano 150 antes de Cristo e que continuou até ao ano 70 depois de Cristo (o ano da destruição de Jerusalém pelos romanos). É uma biblioteca inteiramente judaica: nenhum manuscrito cristão foi nela encontrado. Mas alargou de um modo muito importante o nosso conhecimento do contexto histórico e teológico em que as origens cristãs ocorreram, o que nos tem permitido pensá-las a partir de novas perspetivas.

Calcorreava Jesus a Galileia e a Judeia e estavam os monges de Qumrân a produzir os seus preciosos manuscritos.

 

Qumrân lançou, de facto, uma nova luz sobre, entre outras coisas, estas duas:

– uma tomada de consciência dos investigadores (judeus, católicos, protestantes, sem filiação religiosa) da surpreendente pluralidade do judaísmo do tempo de Jesus;

– o anacronismo que seria hoje o nosso se continuássemos a falar de um messianismo judeu naquele tempo. É que não há um messianismo judeu: há messianismos judeus.

 

Sobretudo a partir de 1980 a investigação tem-nos permitido compreender, muito melhor do que antes, que a vinda de um mashiah (“Ungido”) era concebida de um modo multiforme. Com efeito, a decifração dos textos de Qumrân tem-nos ajudado a compreender melhor que, no judaísmo plural de então, a noção de um mashiah, ungido, encontrou lá, entre os monges, uma caixa de ressonância particularmente importante: o horizonte escatológico que era o deles comportava três Messias: o Messias-sacerdote, o Messias-rei e o Messias-profeta.

Para eles, a figura messiânica que mais se impunha era a figura do Messias-sacerdote. Ora, sabermos isso ajuda-nos a compreender melhor o quanto eles se viam a eles mesmos como uma comunidade de sacerdotes: sacerdotes santos.

Entre o povo a expectativa messiânica tomava forma também em três Messias: o Messias-rei, o Messias-nacionalista, o Messias-guerreiro.

 

E Jesus? Os textos dos evangelhos falam-nos de um Jesus que se comporta fugindo à declaração de Messias (cf. Mc 8:27-30).

Quão escorregadio não era um tal terreno! As raras infrações a esse comportamento são tidas como narrativas pós-pascais (como é o caso de Mt 16:13-20) e não lhe serão imputadas.

A pergunta de João, o Batista, “És tu aquele que deve vir ou devemos esperar um outro?” não teria sentido algum se Jesus se tivesse claramente declarado Messias.

A relutância de Jesus em ser declarado Messias é enorme.

É só eventualmente que consente na declaração messiânica: é no fim, no momento em que os dados estão já lançados, e quando a situação contradiz cruamente o que, segundo a tradição, se esperava do Messias: um Messias glorioso e não vituperado.

É quando está a ser julgado no processo do sinédrio. À pergunta do sumo sacerdote “És tu o Messias?” a reação dele só surge clara em Marcos (14:62) com um sim, enquanto tanto em Mateus como em Lucas há alguma ambiguidade na resposta (Mt 26:64; Lc 22:67).

“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”: “À pergunta do sumo sacerdote ‘És tu o Messias?’, a reação de Jesus só surge clara em Marcos, com um sim, enquanto tanto em Mateus como em Lucas há alguma ambiguidade na resposta.”

 

3) – Voltemos à palavra παλλιγγενεσια e ao motivo que me leva a traduzi-la por “mundo novo”.

Como já disse, trata-se de uma palavra que aparece só duas vezes em todo o Novo Testamento: aqui e em Tito 3:5.

Desafiante palavra: é o mundo inteiro que está aqui presente ao revestir-se, como se reveste, de uma forte dimensão escatológica de que o horizonte é o tempo do Messias, o mundo novo.

 

Enquanto em Tito tem a ver com a regeneração – o novo nascimento – de uma pessoa pelo batismo, aqui tem a ver com o mundo novo messiânico. Trata-se, pois, aqui não apenas da criação nova da Palestina, mas do mundo inteiro, num contexto que é o da esperança judaica.

Uma esperança que é vista agora à luz do papel que Jesus desempenha nele como Filho do homem, juiz e triunfador dos últimos dias.

 

Alguns textos essénios também falam em termos escatológicos sobre o mesmo tema. Pode-se constatar, contudo, uma essencial diferença: enquanto esses textos essénios falam de uma vingança escatológica, o Jesus de Mateus caracteriza-se por uma notória sobriedade.

Tendo em conta o horizonte escatológico subjacente à noção de παλιγγενεσια quando se trata do mundo (como é o caso aqui) e não de pessoas individuais (como seria o caso se se tratasse de Tito), a tradução que eu faria “mundo novo” parece-me revestir-se de um maior rigor e clareza.

4) – v. 30: penso que as palavras de Jesus presentes neste versículo – transmitidas por Marcos e Mateus – se inscrevem entre as mais misteriosas por Jesus pronunciadas.

Como elas revelam/ocultam esse seu mistério quando confrontadas com o que se diz três versículos antes, no v. 27!

Foi só à custa de gaguejar que as traduzi.

Traduzi-as assim mesmo, palavra a palavra, na força desconcertante da sua literalidade.

 

Mateus 18:15-17
texto grego
15 Ἐὰν δὲ ἁμαρτήσῃ [εἰς σὲ] ὁ ἀδελφός σου, ὕπαγε ἔλεγξον αὐτὸν μεταξὺ σοῦ καὶ αὐτοῦ μόνου. ἐάν σου ἀκούσῃ, ἐκέρδησας τὸν ἀδελφόν σου·
16 ἐὰν δὲ μὴ ἀκούσῃ, παράλαβε μετὰ σοῦ ἔτι ἕνα ἢ δύο, ἵνα

  • ἐπὶ στόματος*
  • δύο μαρτύρων ἢ τριῶν*
  • σταθῇ πᾶν ῥῆμα·*

17 ἐὰν δὲ παρακούσῃ αὐτῶν, εἰπὲ τῇ ἐκκλησίᾳ· ἐὰν δὲ καὶ τῆς ἐκκλησίας παρακούσῃ, ἔστω σοι ὥσπερ ὁ ἐθνικὸς καὶ ὁ τελώνης.

nova tradução católica
15 ”Se o teu irmão pecar contra ti, vai ter com ele e repreende-o, e que o assunto seja só entre ti e ele[4]. Se te ouvir, ganhaste o teu irmão. 16Mas, se não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão seja confirmada pela boca de duas ou três testemunhas[5]17Mas, se não os quiser escutar, di-lo à Igreja. Mas, se também não escutar a Igreja, que ele seja para ti como um pagão ou um publicano

eu traduziria
15 Caso o teu irmão peque contra ti, vai, interpela-o entre ti e ele, a sós. Caso ele te ouça, ganhaste o teu irmão.
16 Mas caso ele não te ouça, leva contigo, ainda, um ou dois, para que, pela boca de duas testemunhas – ou três – seja estabelecido tudo aquilo que foi dito.
17 Mas caso ele se recuse a ouvi-los, di-lo à igreja. Mas caso ele também se recuse a ouvir a igreja, que ele seja para ti como o não-judeu e o cobrador de impostos!

algumas notas:
1) – Há nestes três versículos 6 conjuntivos aoristos. Mantive-os conjuntivos (aoristos só na medida em que consentem sê-lo…)

2) – v. 17: nos evangelhos é unicamente em Mateus que a palavra εθνικος (traduzida habitualmente por “gentio” ou “pagão”) aparece: uma vez no singular (aqui) e duas vezes no plural (5:47 e 6:7). Fora dos evangelhos uma única vez (na III Ep. de João, v. 7).

 

Nesta nova tradução católica aparece vertida por “pagão”. É a tradução habitual. Há-as também onde é traduzida por “gentio”, talvez um termo preferível.

Ora, tem havido ultimamente exegetas que propõem uma outra tradução que me parece corresponder melhor ao universo do judaísmo contemporâneo de Jesus. Quem eram οι εθνικοι ? Eram os não-judeus. Daí que me pareça preferível essa tradução. E por isso a adotei na minha tradução. No Templo do tempo de Jesus, o pátio a que chamamos dos “gentios” era o pátio dos “não-judeus”.

 

A outra palavra que gostaria de realçar é a que é sempre traduzida (é uma exceção não o ser) por “publicano” – e cá a temos assim traduzida nesta nova tradução católica.

É a palavra τελωνης (9 vezes em Mateus; 4 vezes em Marcos; 11 vezes em Lucas).

Julgo que seria importante traduzi-la em consonância com aquilo que o termo grego implica: “cobrador de impostos”.

A palavra “publicano”, de origem latina, quase desconhecida hoje, não exprime a importante dimensão social de que a palavra se reveste: os publicanos eram, como se sabe, os subalternos dos funcionários ao serviço de Roma, a quem a autoridade civil tinha confiado a receção dos direitos de alfândega. Eram reputados não só de pecadores como também de traidores, ao serviço do Império. Encontravam-se, por vezes, entre aqueles que se reclinavam com Jesus à mesa de uma refeição. Jesus mantém com eles uma relação significativa. Uma das coisas que diziam de Jesus – acusando-o disso – é que ele era “amigo de cobradores de impostos e de pecadores” (Mt 11:19). Vd. Também Mt 9:10-11; 21:31-32, bem como textos paralelos nos outros evangelhos.

A tradução “cobrador de impostos”, assim me parece, é importante na medida em que nos dá a ver com uma maior clareza o estatuto social do personagem. O que é relevante nestes casos.

Caravaggio, Vocação de São Mateus: “A tradução cobrador de impostos é importante na medida em que nos dá a ver com uma maior clareza o estatuto social do personagem. O que é relevante nestes casos.”

 

Mateus 28:16-20
texto grego

16 Οἱ δὲ ἕνδεκα μαθηταὶ ἐπορεύθησαν εἰς τὴν Γαλιλαίαν εἰς τὸ ὄρος οὗ ἐτάξατο αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς,
17 καὶ ἰδόντες αὐτὸν προσεκύνησαν, οἱ δὲ ἐδίστασαν.
18 καὶ προσελθὼν ὁ Ἰησοῦς ἐλάλησεν αὐτοῖς λέγων· ἐδόθη μοι πᾶσα ἐξουσία ἐν οὐρανῷ καὶ ἐπὶ [τῆς] γῆς.
19 πορευθέντες οὖν μαθητεύσατε πάντα τὰ ἔθνη, βαπτίζοντες αὐτοὺς εἰς τὸ ὄνομα τοῦ πατρὸς καὶ τοῦ υἱοῦ καὶ τοῦ ἁγίου πνεύματος,
20 διδάσκοντες αὐτοὺς τηρεῖν πάντα ὅσα ἐνετειλάμην ὑμῖν· καὶ ἰδοὺ ἐγὼ μεθ’ ὑμῶν εἰμι πάσας τὰς ἡμέρας ἕως τῆς συντελείας τοῦ αἰῶνος.

tradução católica
16 Os onze discípulos foram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha designado. 17 Quando o viram, ajoelharam-se, mas duvidaram. 18 Jesus, ao aproximar-se, falou-lhes dizendo: “Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. 19 Ide, fazei discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20 ensinando-os a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que Eu estou convosco[3] todos os dias, até à consumação dos tempos”.

eu traduziria
16 Mas os onze discípulos foram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha designado.
17 E vendo-o prostraram-se, mas duvidaram.
18 E Jesus, tendo-se aproximado, falou-lhes dizendo:
“Foi-me dado todo o poder no céu e sobre a terra.
19 Portanto ide fazendo discípulos de todas as nações, batizando-os no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
20 Ensinando-os a observar todas as coisas, tantas quantas vos ordenei. E eis que eu convosco estou todos os dias até à consumação da presente era”.

algumas notas
1) – v. 16 – a partícula δε, assim me parece, assume aqui um papel de oposição ao universo dos cinco versículos anteriores: daí eu tê-la traduzido por um “mas”;

2) – v. 17 – este versículo tem dado lugar a traduções do tipo “alguns hesitam”, ou “eles que tinham duvidado”. Traduzi-lo desse modo é não só um mau tratamento infligido ao texto grego, mas também um mau serviço prestado à defesa das implicações históricas da ressurreição de Jesus. Note-se que eu não estou a dizer um mau serviço prestado à historicidade da ressurreição de Jesus, pois ela é um acontecimento que transcende a história; estou a dizer “um mau serviço prestado à defesa das implicações históricas da ressurreição de Jesus”, entre as quais se situa essa passagem dos discípulos da incredulidade à fé. Mas não quero estar a repetir aqui o que já disse a esse respeito na primeira parte deste meu texto. Todos os evangelistas falam dessa incredulidade! Ela é fundamental! Quando ela, nas traduções habituais, aparece diluída, isso será revelador do quê? De um excesso de piedade do tradutor (o que seria uma piedade enganosa)? Não sei.

Felicito vivamente esta nova tradução católica por não ter seguido um tal caminho!

Giovanni Francesco Barbieri (Guercino), Incredulidade de São Tomé (Galeria da Residência, Salzburgo): A incredulidade dos apóstolos após a ressurreição “é fundamental!”

 

3) – v. 19 – mas infelizmente aqui ela seguiu um caminho que é o de quase todos. É raríssimo, raríssimo, encontrarmos uma tradução, mesmo em outras línguas, que não navegue nestas águas. E, contudo, são traduções feridas de inexatidão.

Permitam-me tentar dar a ver essa inexatidão começando por recorrer a uma nota de carácter pessoal.

Ou, dito de outro modo, qual é a bibliografia de que eu me sirvo (desde já lá vão não menos de cinquenta anos) quando se me impõe traduzir textos em grego antigo. E não apenas o grego em que se podem ler os livros canónicos da Bíblia. Para mim é problemática a fronteira que frequentemente emerge quando se fala em termos de “grego bíblico” e “grego não bíblico”, como se o grego bíblico não fosse grego ático. Por isso defendo o rigor que tento encontrar quando falo do modo que falo: “E não apenas o grego em que se podem ler os livros canónicos da Bíblia”. Porque, o que é isso do “grego bíblico” tornado um chavão com que se etiqueta os 27 livros canónicos do Novo Testamento? Esses 27 livros que como literatura também transporta consigo as marcas da pluralidade! Meu Deus! Há muitos passos nessa literatura que são, no helenismo, clássicos!

Limito-me, como é óbvio, a léxicos e gramáticas.
Léxicos:
Henry George Liddell and Robert Scott, A Greek-English Lexicon (With a revised supplement 1996), Clarendon Press, Oxford, 1996
A. Bailly, Dictionnaire Grec Français, Librairie Hachette, Paris, 1950
Walter Bauer, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature, The University of Chicago Press, 1957

Gramáticas:
William W. Goodwin, A Greek Grammar, St Martin’s Press, reprinted 1989
F. Blass and A. Debrunner, A Greek Grammar of the New Testament and Other Early Christian Literature, The University of Chicago Press, 1962
James Hope Moulton, A Grammar of the New Testament Greek, (vol III, Sintax by Nigel Turner), T. & T. Clark, Edinburgh, 1963

Quando se trata dos textos gregos do Novo Testamento há particularmente um léxico e uma gramática que privilegio no meu trabalho: o léxico é o de Walter Bauer; a gramática é a de F. Blass and A. Debrunner. Tenho-os como instrumentos de trabalho incontornáveis!

Pois bem: o que é que me leva a dizer que são inexatas as traduções generalizadas deste versículo?

Duas coisas fundamentais que tenho aprendido ao longo de muitos anos com o meu manuseio quer do Walter Bauer (com o seu léxico) quer do Blass / Debrunner (com a sua gramática).

a) o verbo μαθητευω pode assumir uma tripla função: ou intransitiva, ou passiva depoente, ou transitiva. No caso presente ele desempenha a função transitiva, função de que a generalidade dos tradutores não tem em conta. Ora, quando isso acontece impõe-se-nos traduzi-lo por “fazer um discípulo de”.

Aos tradutores que se dão ao trabalho, o Blass/Debrunner dá-lhes a saber isto:

“The Hellenistic transformation of intransitive actives into causatives is represented in μαθητευειν: it meant first ‘to be a disciple’ (Plut., Mt 27:57 v.l.), and from this there developed a new active ‘to make a disciple of’ (Mt 28:19; A 14:21), Blass/Debrunner, 148 (3);

e a esses mesmos tradutores o Bauer informa-os disto: “μαθητευω […] 3. trans. make a disciple of, Mt 28:19”;

 

b) mas há ainda a ter em conta a sintaxe grega do versículo: βαπτιζοντες αυτους, batizando os discípulos: então não é verdade que αυθους, os discípulos, está no masculino e que τα εθνη, as nações, está no neutro? O texto grego fala claro: Jesus não está a dizer para batizar τα εθνη, as nações (que é um neutro), mas sim αυτους, os que se tornam discípulos (que é um masculino).

Admito como possível que no passado, naqueles tempos entusiastas da missionação, a tradução inexata deste versículo tenha contribuído para a legitimação generosa dos batismos em massa.

 

c) começo a minha tradução deste versículo 19 com um “portanto”. Significa que tenho em conta a partícula ουν, pois ela estabelece uma significativa relação com o que Jesus declara no versículo anterior: “Foi-me dado todo o poder no céu e sobre a terra. Portanto ide […]”. Quão importante é o papel dessa partícula! Por isso lamento que a nova tradução católica não a tenha traduzido.

O ουν é uma partícula que só nos evangelhos aparece não menos de duzentas vezes. Ora, nesta nova tradução católica não são poucas as vezes em que, ao longo dos quatro evangelhos, lhe fazem vista grossa. E quando é tida em conta, geralmente, é-o por um “então”. Claro, um “então”, por vezes, pode servir. Mas não são poucas as vezes que se revela um pouco fraco para exprimir a força do tipo de relação com o que se acaba de dizer, e que se poderia exprimir muito melhor com um “por conseguinte”, um “portanto”, um “daí que”, um “por essa razão”, um “motivo pelo qual”.

Geralmente, nesta nova tradução católica, é um “então” usado: o que às vezes, em determinados contextos é um “então” que pode ser entendido por um “nessa altura”, quando pode não ser nada disso que está em jogo. Pode estar em jogo uma coisa completamente diferente! E são tantas as vezes que o está que seria fastidioso chamar aqui a atenção para cada caso.

Não façamos da forte partícula ουν uma partícula anémica. Ou então, como é o caso aqui em Mt 28:19, não lhe façamos vista grossa substituindo-a por um ponto final.

 

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