Ensaio de Dimas Almeida (6): Marcos e o efeito perturbador de um prólogo

| 21 Nov 20

O 7MARGENS publica a seguir o sexto capítulo do estudo do exegeta e pastor presbiteriano Dimas de Almeida sobre a nova tradução da Bíblia – Os Quatro Evangelhos e os Salmos – publicada no ano passado pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

A edição experimental desta nova versão da Bíblia em português propunha-se recolher sugestões, críticas e comentários. Dimas de Almeida aceitou para si mesmo o desafio e lançou-se à tarefa. O resultado concretiza-se neste trabalho que temos vindo a publicar cada sexta-feira e se prolongará até 18 de Dezembro.

Com o seu olhar de teólogo, exegeta e autor de várias traduções, Dimas Almeida explicou, na primeira parte deste texto,  o modo como leu esta nova tradução; na segunda parte, abordou o problema da pluralidade de leituras, a partir do facto de haver quatro evangelhos e não apenas um; na terceira, debateu os critérios de tradução e a relação disso com o anúncio do evangelho; o quarto capítulo iniciou a abordagem da tradução do Evangelho segundo Mateus e propôs algumas traduções alternativas – uma delas, a do Pai-Nosso; e, no quinto capítulo, ainda dedicado ao texto de Mateus, Dimas Almeida debateu, entre outros detalhes, a questão do chronos e do kairós a partir da tradução de três excertos, bem como os messianismos judaicos relacionados com os Manuscritos de Qumrân.

Neste sexto capítulo, aborda-se o Evangelho segundo Marcos e o efeito perturbador que o seu prólogo pode ter.

Jacob Jordaens (1593-1678), Os 4 evangelistas: Marcos (de branco), “genial criador do género evangelho – esse genial Marcos”. Museu do Louvre (Inv1404). Foto Marie-Lan Nguyen/Wikimedia Commons.

 

SEGUNDO MARCOS

Introdução

Quando se trata de defender a fidelidade com que Marcos escreveu o seu evangelho – ele que não foi apóstolo nem seguiu Jesus – é fatal: evoca-se logo o bispo de Hierápolis, Pápias (séc. II).

Não é de estranhar, portanto, que nesta introdução a Marcos, a nova tradução católica faça o mesmo. Aqui transcrevo o que nela se escreve e que, palavra a mais palavra a menos, é habitual aparecer:

“Segundo o bispo de Hierápolis, Marcos teria posto por escrito a pregação de Pedro, enquanto secretário e intérprete.”

Esse bispo de Hierápolis (séc. II) é Pápias. Como é que sabemos que ele disse isso? Porque ele o deixou escrito? Não. Dizemos que ele disse isso porque Eusébio de Cesareia – o autor no séc. III de uma História Eclesiástica– diz que um desconhecido Presbítero disse que Pápias disse isso.

Importa, portanto, conhecer esse texto de Eusébio que se encontra nessa sua História Eclesiástica, escrita em grego. Entreguei-me à tarefa de o traduzir. A História Eclesiástica de Eusébio de que traduzo é a editada pela Loeb Classical Library. Tenho-a há já alguns anos na minha biblioteca. (EUSEBIUS, The Ecclesiastical History, Harvard University Press, London, 2 vol. first published 1926, com sucessivas e numerosas reimpressões, de que a última, a que possuo, é de 1992). O texto grego de Eusébio que essa famosa edição nos oferece é, pois, o texto de onde faço a minha tradução. Que é esta:

“E o Presbítero dizia isto: ‘Marcos, efetivamente, tendo-se tornado um hermeneuta de Pedro, escreveu cuidadosamente – contudo não na devida ordem – todas as coisas de que se lembrou, quer as coisas ditas quer as coisas feitas pelo Senhor; porque ele não ouviu o Senhor nem o seguiu, mas mais tarde, como eu disse, seguiu Pedro; este que, face às necessidades, elaborava os ensinos, mas não o fazendo como uma exposição completa dos apotegmas do Senhor. De modo que nada errou Marcos assim tendo escrito algumas coisas como as guardou na memória. Porque nisto se empenhou ele: em não negligenciar nenhuma das coisas que ouviu nem falsear algo nelas.’” (Eusebius, Ecclesiastical History, III, xxxix, 10-15).

 

Algumas notas

Ilustração representando Eusébio de Cesareia: Marcos foi um “hermeneuta” e não “secretário” do apóstolo Pedro.

a) Deste texto de Eusébio tenho encontrado as mais mirabolantes traduções. A impressão com que fico ao lê-las é que, subjacente a elas, há o desejo inconfessado de fazer o texto dizer aquilo que ele não diz, de modo a sublinhar a fidelidade do evangelho. E, assim me parece, inerente a esse desejo talvez haja uma certa piedade do tradutor: ora, quando à piedade de Eusébio (piedoso já de si no nome e piedoso no modo como faz história) se acrescenta a piedade do tradutor, o risco é grande: resultar daí o que talvez pudéssemos chamar uma piedosa fraude.

b) Eusébio, na citação que faz do Presbítero (um ignoto presbítero) não diz que Marcos foi um secretário de Pedro. É muito claro: a palavra que utiliza é ερμηνευτης , hermeneuta. Há que não confundir “hermeneuta” com “secretário” …

c) Como já disse na primeira parte deste meu trabalho, tentativas desta natureza inscrevem-se claramente no universo do fundamentalismo. Não vou repetir aqui o que já disse nessa altura.

O texto do Vaticano que citei então chama a tentativas deste tipo uma forma de o fundamentalismo defender o indefensável. Quando os fundamentalistas protestantes ouvem alguém a dizer que Marcos foi secretário de Pedro na escrita do seu evangelho irrompem em caloroso aplauso! Como eles gostam de ouvir isso… é garantia de que Marcos é fiel no que escreve…

Meu Deus! Já viram o genial criador do género evangelho – esse genial Marcos – transformado num mero amanuense de Pedro?…

Com os fundamentalismos (católico ou protestante) acontece não poucas vezes isso: empolgados por um desejo apologético inconsequente acabam por prejudicar a causa que querem defender.

d) Ignoramos completamente quem foi esse misterioso “Presbítero” em quem Pápias se fundamenta para dizer o que diz acerca de Marcos.

e) Pápias defende Marcos de duas do que julga ser deficiências: por falta de ordem (ταξις) e por ele, Marcos, escrever um evangelho sem ter conhecido pessoalmente Jesus. O que para Pápias era penoso: penoso por o texto de Marcos não estar nimbado, historicamente, da autoridade apostólica.

f) Obviamente, impõe-se a Pápias reagir energicamente: e fá-lo mediante a afirmação de que a obra de Marcos é um texto impregnado da autoridade inerente às exposições doutrinais de Pedro. Emerge daí a intenção funda de Pápias: colocar o evangelho de Marcos sob a autoridade inexpugnável de Pedro. O texto papiano é claramente um texto apologético.

Ícone representando Pápias de Hierapolis: “O texto de Pápias é claramente um texto apologético. Ora, onde há apologética houve antes ataque.”

g) Ora, onde há apologética houve antes ataque. Este surpreendente evangelho devia estar a ser atacado. Sendo assim, quem é, neste caso, o atacante (indivíduo ou comunidade)? Isso gostava eu de saber.

h) Interessante: Pápias confessa que Marcos se “tornou um hermeneuta de Pedro” Ora, ser um hermeneuta não é ser um tradutor. Ser um hermeneuta de Pedro implica um trabalho intelectual que visa reformular e reordenar a pregação de Pedro. O incontido reparo de Pápias expresso nas suas palavras “contudo não na devida ordem” denota um Marcos que ousa repensar as coisas numa outra perspetiva.

O texto de Pápias leva-nos, pois, a admitir que Marcos reorganizou e reformulou um conteúdo proveniente de um tipo padrão de pregação considerado como apostólico.

i) Na pluralidade interpretativa das origens cristãs Marcos desempenha um papel essencial: inova e impregna o seu evangelho do espírito da narrativa: ele constrói narrativas com as quais desafia o ouvinte: entras ou não na narrativa? Marcos é um inovador na liberdade da pluralidade que marca indelevelmente as origens do cristianismo.

E a língua em que ele nos oferece o seu evangelho? É grego, um grego cuja rusticidade está impregnada de uma força surpreendente.

j) Durante pelo menos uns setenta anos os evangelhos circularam anonimamente. Foi só a partir de meados do século II que nos manuscritos começaram a aparecer ΚΑΤΑ ΜΑΘΘΑΙΟΝ (SEGUNDO MATEUS), ΚΑΤΑ ΜΑΡΚΟΝ (SEGUNDO MARCOS), ΚΑΤΑ ΛΟΥΚΑΝ (SEGUNDO LUCAS), ΚΑΤΑ ΙΩΑΝΝΗΝ (SEGUNDO JOÃO).

Historicamente há dúvidas nisto: quem foi o Marcos a quem a tradição pré-papiana atribui a autoria do evangelho. Terá sido João Marcos? Terá sido algum outro Marcos? O texto do evangelho não nos dá nenhum indício que nos ajude a dilucidar esta questão.

k) Entre os biblistas há quem relativize, ou até mesmo rejeite totalmente, a tradição veiculada por Pápias. Pensam esses biblistas – e como eu os compreendo! – que a relação próxima e imediata entre Pedro e Marcos postulada por Pápias é uma relação que levanta, quer historicamente quer exegeticamente, problemas. Por exemplo: não são poucas as palavras e os gestos de Jesus que Marcos introduz no seu evangelho que se configuram como dependentes de Q (essa Fonte fundamental) ou de outras tradições.

Entre esses biblistas está o católico Raymond Brown, falecido há pouco mais de vinte anos, tido como um perito de valor excecional. Para ele uma coisa não se devia perder de vista: nas palavras de Pápias, formuladas de um modo “dramatizado e simplificado” (sic), pode muito bem refletir-se isto que é importante: “Marcos reorganizou e reformulou um conteúdo proveniente de um tipo “standard” de pregação considerado como apostólico.” (sic).

Para ele isso ajudaria a compreender como, uns dez anos depois do seu aparecimento, Mateus e Lucas (escrevendo em zonas diferentes) olhassem para Marcos vendo nele a importância suficiente para o incorporarem nos seus evangelhos. (vd. Raymond Brown, Que sait-on du Nouveau Testament? (Bayard, 1997), pp. 200 e segs.)

São Pedro (c. 1529), de Vasco Fernandes, ou Grão-Vasco (1475-1542), pintura a óleo sobre madeira de castanho, Museu Nacional Grão Vasco (Viseu): “Que queremos dizer quando usamos a expressão ‘teologia petrina’? (Mesmo) a Primeira Carta de Pedro, dificilmente pode ser atribuída a Pedro…”

 

l) As coisas complexificam-se quando se analisa o texto deste evangelho.

Refletir-se-á nele uma teologia petrina? Mas que queremos dizer quando usamos a expressão “teologia petrina”? Ela existe no Novo Testamento? A Primeira Carta de Pedro, segundo a perspetiva exegética de um grande número de exegetas, que tem tido uma aceitação crescente, dificilmente pode ser atribuída a Pedro: respira-se nela um ambiente que, verosimilmente, se poderá situar num contexto que não é propriamente de perseguição aberta mas sim de uma rejeição social com as suas consequências dolorosas, na Ásia Menor (e não em Roma), não antes do ano 80, quando Pedro já não vivia.

Provavelmente, o universo teológico (à falta de melhor chamemos-lhe assim) habitado por Pedro foi o de um judeo-cristianismo onde se poderão inscrever também os nomes de Tiago e João.

Ora, no evangelho de Marcos parece refletir-se muito mais uma teologia paulina do que petrina: possa ser disso um exemplo o modo como nele se configura uma teologia da cruz.

m) Em registo acentuadamente diferente de Mateus e de Lucas, Marcos logo à partida anuncia a sua obra como um evangelho (não é um título, são as primeiras palavras de um prólogo que se estende até ao v. 13).

Transmite, pois, uma mensagem de salvação. Mas, ao invés de uma exposição magistral, ele escolhe o modo da narrativa.

Trata-se de uma opção reveladora de uma profunda intuição pedagógica: melhor, muito melhor do que um qualquer outro género, a narrativa convida o leitor ou auditor a identificar-se com este ou aquele personagem e, por conseguinte, a tornar-se ele também participante do acontecimento que emerge quando a boa-nova (evangelho) é ouvida.

 

Marcos 1:1

texto grego
1 Ἀρχὴ τοῦ εὐαγγελίου Ἰησοῦ Χριστοῦ [υἱοῦ θεοῦ].

tradução católica
1 Princípio do evangelho de Jesus, Cristo, Filho de Deus.

eu traduziria
1 Começo do evangelho de Jesus Cristo filho de Deus,

 

Algumas notas

1) Não é por causa da tradução que convoco este versículo. É por causa de ele ser expressamente designado como “título programático da obra” (vd. a respetiva nota de pé-de-página) e por, tipograficamente, ser assim que ele nos é dado a ler: encabeçado pela palavra TÍTULO.

Mas também é por causa da tradução: eu poria uma vírgula na palavra Deus e não um ponto. No que vou dizer a seguir compreender-se-á porquê. Aos não helenistas convinha que soubessem que o grego antigo era escrito sem pontuação e com as palavras ligadas umas às outras. O que por vezes levanta aspetos delicados na tradução, como é fácil compreender.

2) Vejamos como os primeiros 13 versículos de Marcos nos são dados a ler (não apenas no que tem a ver com a tradução, mas também no que tem a ver com a forma editorial) nesta nova tradução católica:

INTRODUÇÃO

(1,1-13)

Título

(1,1)

1 Princípio do evangelho de Jesus, Cristo, Filho de Deus[1].
Vinda de Jesus
(1,2-13)João, o Batista (Mt 3,1-6.11; Lc 3,3-6.15s) – 2 Tal como está escrito no profeta Isaías –
Eis que envio o meu mensageiro à tua frente[2],
que há de preparar o teu caminho[3].
3Uma voz que clama no deserto:
Preparai o caminho do Senhor,
endireitai as suas veredas[4] –
4apareceu João Batista no deserto a proclamar um batismo de conversão[5] para perdão dos pecados. 5Acorria a ele toda a região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.
6João estava vestido com peles de camelo e com uma correia de couro à volta dos rins e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre[6]7E proclamava, dizendo: “Atrás de mim vem aquele que é mais forte[7] do que eu; eu não sou digno de me inclinar para desatar[8] a correia das suas sandálias. 8Eu batizei-vos na água, mas Ele batizar-vos-á no Espírito Santo”.

Batismo de Jesus (Mt 3,13-17; Lc 3,21s) – 9 E aconteceu que, naqueles dias, veio Jesus de Nazaré da Galileia e foi batizado no rio Jordão por João. 10E imediatamente[9], ao sair da água, viu os céus rasgados e o Espírito, como uma pomba, a descer sobre[10] Ele. 11E uma voz surgiu dos céus: “Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo”[11].

Tentação de Jesus no deserto (Mt 4,1-11; Lc 4,1-13) – 12Imediatamente o Espírito o impeliu para o deserto, 13e no deserto esteve quarenta dias, sendo tentado por Satanás. Estava com os animais selvagens e os anjos serviam-no[12].

Moretto da Brescia, Cristo no deserto, c. 1515-20, Metropolitam Museum, Nova Iorque

 

Algumas notas

1) A forma editorial (não me ocorre expressão melhor) como nos é dado ler esta nova tradução católica do evangelho de Marcos começa com um cabeçalho onde a palavra INTRODUÇÃO abrange os 13 primeiros versículos. A palavra Título, que vem a seguir, abrange unicamente o primeiro versículo. Temos assim as primeiras palavras deste evangelho feitas título de toda a obra.

2) Ora, excisar assim essas palavras do que vem imediatamente a seguir é, aos olhos de alguns biblistas, uma violência exegética: é que elas estão lá, logo à partida, para declarar que o movimento de Jesus não nasceu do nada. Elas estão indissoluvelmente ligadas às palavras que vêm logo a seguir, ao anúncio profético que proclama João como aquele que vem preparar o caminho de Jesus. A figura de João, o Batista, é para Marcos, uma figura essencial.

3) Vejamos como Marcos constrói sintaticamente o seu texto: o advérbio καθως, “tal como”, é a palavra com que, logo no início do v. 2, ele estabelece uma ligação entre o que acaba de ser dito e o que se vai dizer imediatamente a seguir. Eu traduziria, pois:

“Começo do Evangelho de Jesus Cristo, filho de Deus, tal como está escrito no profeta Isaías: […]”

A sintaxe de Marcos tem soado de um modo desagradável aos ouvidos de muita gente: de tradutores, de exegetas (que também devem ser tradutores), de teólogos, de doutrinários. O incómodo que elas provocam leva sempre à costumada excisão, mesmo quando o v. 1 não é entendido como o título da obra de Marcos.

Um tal incómodo resulta de uma rejeição: rejeita-se que o movimento de Jesus tenha tido como precedente o movimento de João, cognominado o Batista.

Ora, o texto de Marcos é muito claro: o movimento de Jesus não nasceu do nada, Jesus começou por ser discípulo de João e foi batizado por ele.

4) João, o Batista, é-nos, com efeito, apresentado por Marcos como o protagonista de uma pregação escatológica que se deve ter como legítima. Ela poderia assim ser vista como um “começo de Evangelho” à qual se deveria prestar uma atenção muito especial: isto sem nada sacrificar de uma entrega total à proclamação de Jesus.

5) O batismo de Jesus por João foi sempre, logo desde as origens, um acontecimento perturbador. Como é que Jesus podia ter recebido um batismo de perdão de pecados?

Ligado à exigência de uma conversão, o batismo de João representava, na Galileia do séc. I, uma inovação religiosa. E assumia os contornos de um gesto revolucionário. Com efeito, João é o primeiro, no seio do judaísmo, a criar um rito batismal único. A fé judaica praticava as abluções rituais que visavam essencialmente a purificação. Prática frequente e repetida. Os monges de Qumrân praticavam-na com profusão. Ora, João rompe com a prática das abluções repetidas e prescreve uma purificação única, suficiente e eficaz. O batismo de João reveste-se de uma dimensão escatológica: não se limita a uma lavagem das máculas do mundo profano, mas atua eficazmente nos fiéis ao apagar os pecados na perspetiva do julgamento.

O movimento de João, nesse sentido, assumia-se de algum modo como concorrente das ofertas sacrificiais no Templo.

Nicolas Poussin, João Baptista baptiza o povo (1632). Museu do Louvre: “O batismo de João reveste-se de uma dimensão escatológica e, nesse sentido, assumia-se de algum modo como concorrente das ofertas sacrificiais no Templo.”

 

6) Penso haver coerência na análise de muitos biblistas para os quais os 13 primeiros versículos de Marcos constituem uma unidade que não pode ser excisada desse modo.

Eu, nesta linha de pensamento, consideraria estes 13 primeiros versículos como um prólogo do evangelho de Marcos. Com características muito diferentes do prólogo de João: cada um deles aponta à sua maneira, e de um modo certeiro, para coisas essenciais do evangelho.

7) O prólogo de Marcos (quando entendido como composto pelos 13 primeiros versículos) introduz-nos no seu evangelho, chamando-nos desde logo a nossa atenção para a historicidade do acontecimento essencial: o movimento de Jesus não nasceu do nada, como se fosse por geração espontânea: Jesus teve um mestre espiritual a quem seguiu e por quem foi batizado: João, cognominado o Batista.

8) Tenhamos presente que ser-se batizado por João não era uma simples formalidade: implicava uma ligação com ele que, como é óbvio, supunha ser-se discípulo.

Ignoramos o que levou Jesus – depois de, talvez, alguns meses de discipulado – a deixar o movimento de João e a criar o seu próprio movimento.

 

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