Ensaio de Dimas Almeida: Os quatro evangelhos na nova tradução católica – A minha leitura

| 17 Out 20

O 7MARGENS orgulha-se de publicar a partir de hoje, e durante dez semanas, um estudo exaustivo do pastor presbiteriano Dimas de Almeida sobre a nova tradução dos Quatro Evangelhos e Salmos, promovida pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). Esta edição experimental, publicada no ano passado, propunha-se recolher sugestões, críticas e comentários. Dimas de Almeida aceitou para si mesmo o desafio e lançou-se à tarefa, concretizada com o seu olhar de teólogo e exegeta, ele próprio autor de várias traduções, como se verá adiante. Este texto foi enviado ao então bispo de Viana do Castelo, Anacleto Oliveira, que coordenava a comissão de tradutores, pouco tempo antes da morte de D. Anacleto, faz agora um mês, na sequência de um acidente de automóvel. O autor do comentário ignora, por isso, como reagiu o bispo ao documento e se se prepararia para responder.

Durante as próximas dez semanas, a cada sexta-feira ou sábado, o 7MARGENS publicará um capítulo deste ensaio. À medida que essas partes forem sendo publicadas, as já publicadas serão depois reunidas num novo texto, que permitirá assim, a quem o entenda, ir tendo a versão completa – que ficará integral com a publicação do último capítulo no fim-de-semana de 18/19 de Dezembro, poucos dias antes do Natal. 

 

Será que podemos ler com outros olhos que não os nossos?
Karl Barth,

Saint Anselme – Fides quaerens intellectum, p. 7

 

Algumas palavras introdutórias

Apareceu há um ano (em 2019) a nova tradução católica dos EVANGELHOS. Publicada em conjunto com os SALMOS, (também estes numa nova versão), aparece promovida e aprovada pela Conferência Episcopal Portuguesa.

Aí temos, pois, dados à leitura, em versão renovada, os quatro evangelhos canónicos: Mateus, Marcos, Lucas, João. Quatro narrativas diferentes que resultam da pergunta seminal do Jesus da história: «E vós, quem dizeis vós que eu sou?» (Mt 16:15). Quatro narrativas que tiveram como língua de origem o grego, prenhes – cada uma delas à sua maneira e em registo próprio – de um incontido desejo: compreender o alcance interpelante dessa pergunta formulada por Jesus algumas dezenas de anos antes.

Pergunta apaixonante que desencadeou, logo nos dois séculos seguintes, o aparecimento de uma esfuziante literatura: além dos quatro canónicos, outros evangelhos apareceram, outras epístolas, outros livros de atos. E apocalipses. Que um crucificado (morto de morte de escravo) esteja na origem de uma tão pujante literatura dá que pensar. Deu que pensar aos nossos quatro evangelistas. Tudo resultante de um Jesus da história que nunca dava respostas pré-fabricadas às mais variadas perguntas que lhe faziam: respondia habitualmente com outras perguntas. O que parecia importante para ele era levar os interlocutores a reorientarem-se no seu próprio pensamento. Abria assim o caminho da liberdade para pensar.

É por isso que as origens cristãs estão marcadas, logo na sua génese, por uma rejeição do pensamento totalitário. A pluralidade é a marca do seu código genético. Se os quatro evangelhos dissessem todos o mesmo para que eram precisos os quatro? Bastava um! Ora a Igreja nascente, palco de um conflito de interpretações, soube aguentar e viver fecundamente um tal conflito e disse logo um não (séc. II) a tentativas como a de Taciano para fazer dos quatro evangelhos um único. O nosso Ocidente deve muito a muita e diversa gente: ora entre essa gente está o cristianismo que bebeu em Jesus o sopro da liberdade.

Quanto não me congratulo, pois, com os Bispos portugueses por este projeto de oferecer ao público uma nova tradução da Bíblia, iniciada agora com a publicação deste primeiro volume! Com esta nova tradução dos EVANGELHOS (que aos meus olhos marca um avanço em relação às outras traduções católicas em Portugal), dá-se uma contribuição importante para o alargamento do espaço textual em que os evangelhos têm sido traduzidos e podem ser lidos. Na pessoa de Dom Anacleto Oliveira, Bispo de Viana do Castelo e Presidente da Comissão Coordenadora, saúdo todos os Bispos por este projeto em que estão empenhados.

Traduzir a Bíblia é sempre uma tarefa inacabada: não existe a tradução perfeita. E não é só a tradução perfeita que não existe: não existe também o critério absoluto que nos permita definir de um modo absoluto o que é a boa tradução (seja da Bíblia seja de Platão!). Quando se trata de traduzir (seja a Bíblia seja Platão) há um luto a fazer: o luto que resulta da morte da perfeição. O que não significa que a tradução seja uma tarefa impossível. Não obstante a heterogeneidade dos idiomas, sempre tem havido bilingues, poliglotas, tradutores. E há sempre a possibilidade de se fazerem novas traduções quando se é movido pelo desejo de se atingir um maior rigor. Ou o que se julga ser um maior rigor. Quantas vezes o mesmo tradutor não revê traduções saídas de si mesmo! É que traduzir grego antigo é permanentemente um desafio de cada manhã. Que nos valham todos os deuses do Olimpo!

 

Primeira parte

Passo à minha leitura das primeiras quatro páginas introdutórias subscritas por Dom Anacleto.

O bispo Anacleto Oliveira, que era o coordenador da comissão de tradutores: “Num espírito de abertura louvável, ele agradece todas as correções e sugestões”. Foto Agência Ecclesia.

 

Num espírito de abertura louvável, escreve ele: «Decidimos, por isso [por ser uma tradução ad experimentum], não aprovar e publicar a edição definitiva, sem antes sujeitarmos a presente versão à apreciação dos leitores de língua portuguesa, cristãos ou não. […] Agradecemos, por isso e desde já, todas as correções e sugestões que nos forem feitas».

Aqui vou deixar, pois, a minha leitura dos EVANGELHOS que nos são dados a ler nesta nova versão católica. Sou um protestante que, como pastor e como professor, sempre me deixei seduzir pela exegese do Novo Testamento. É, pois, o campo da exegese em que aqui me situo. Campo esse que não deve ser entendido – é minha funda convicção – como uma pátria confessional a defender. Os excertos da nova tradução dos evangelhos que comentarei não passam de uma amostragem. Falece-me o tempo (sim, falece-me o tempo) para uma amostragem mais ampla. Mais do que eu andar à procura desses excertos, foram eles que me procuraram a mim. Vieram-me cair sob os olhos ao ler estes EVANGELHOS tal qual eles nos são dados a ler agora nesta nova versão. Que possam servir como amostragem significativa. É esse o meu desejo.

É a minha contribuição, com a qual procuro ir ao encontro do que pede Dom Anacleto. Que fique bem claro isto: eu preciso da Igreja católica (tal como ela é, como instituição e como acontecimento) para viver a Igreja que é também a minha (tal como ela é, como instituição e como acontecimento). A unidade da Igreja (é minha funda convicção) não temos de a conquistar: ela é já Una, na unidade que nos é dada em Jesus. Foi ele o grande conquistador dessa unidade: nós só temos de o seguir! A Igreja nascente proclamou essa unidade: na pluralidade fecunda que viveu. E quantos conflitos de interpretação não viveu ela!

A Reforma protestante do século XVI, de que sou herdeiro, não criou uma nova Igreja. Temos os mesmos grandes Credos históricos. Temos o mesmo batismo. Temos a mesma eucaristia interpretada de um modo diferente (mas não é verdade que também na Igreja católica, na reflexão bíblico-teológica, a eucaristia é suficientemente rica para suscitar mais do que um discurso?).

Martinho Lutero

Martinho Lutero: “A Reforma protestante do século XVI, de que sou herdeiro, não criou uma nova Igreja.”

 

Em tempos passados viveu-se entre o catolicismo e o protestantismo o tempo do anátema recíproco. Com o movimento ecuménico de origem protestante (princípios do séc. XX), e particularmente, cinquenta anos depois, com o Concílio Vaticano II, passou-se desse anátema ao diálogo. É minha convicção de que são chegados os tempos de se passar do diálogo ao reconhecimento mútuo. Quanto mais não seja porque no palco do diálogo talvez já não haja dialogantes. Talvez tenhamos já um palco vazio. É que os dialogantes, como humanos que são, também podem ser invadidos pelo cansaço. E os espectadores podem desertar.

É preciso dizê-lo sempre e de novo: não há religiões cristãs. Há uma religião cristã que subsiste na forma de igrejas cristãs.

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E vêm-me à cabeça as palavras «um combate amoroso» escritas por um filósofo (Karl Jaspers) numa determinada circunstância filosófica por ele vivida. Faço minhas aqui essas palavras do filósofo. Que esta minha resposta bíblico-teológica ao convite de Dom Anacleto possa ser entendida como aquilo que procura ser: um combate amoroso na Igreja e pela Igreja! É óbvio: neste meu singular a Igreja há um plural as Igrejas.

E sabemo-lo todos muito bem: uns e outros, católicos e protestantes, somos de uma Igreja (um singular plural) cuja história milenar se tem desenrolado não à margem, não fora, mas como parte integrante de uma História do mundo, que é permanentemente uma História com as suas grandezas, mas também com as suas misérias. Como podia ser de outra maneira se miséria e grandeza nos marcam enquanto humanidade? Vejo assim um combate na Igreja e pela Igreja como um combate humano fundamental. Um combate onde os Evangelhos de Jesus, há já dois mil anos, têm tido uma importância fundamental. Sem esses Evangelhos, ao nosso Ocidente faltariam algumas coisas das coisas boas que tem transportado consigo.

+ + +

Os evangelhos estão grávidos de uma paixão: a paixão de dizer Jesus! E dizem-no-lo no concernente à língua, num grego original (isto é, não traduzido) marcado, profundamente marcado, por uma singeleza aristocrática. Neles o singelo é aristocrático porque nobre e belo. E quanta força não há naquela singeleza!

Eu próprio já tenho traduzido do grego antigo algumas coisas. De Aristóteles traduzi a Ética a Nicómaco (em edição bilingue, Edições Lusófonas). Da área cristã traduzi a Carta de Tiago, in ex aequo, nº 12, Edições Afrontamento; a Epístola a Diogneto, in Frei Bento Domingues e o Incómodo da Coerência, Paulinas; a Filocalia (oitocentas páginas, Edições Paulinas); de Gregório Palamas a homilia Sobre a Sagrada Transfiguração do nosso Senhor e Deus e Salvador Jesus Cristo (in Religiões. História. Textos. Tradições, Ed. Paulinas).

E por isso mesmo sinto nos ossos as agruras do traduzir. Mas também as suas alegrias (e quão grandes são elas)! Ora, queria afirmar aqui aos tradutores destes Evangelhos o quanto me sinto solidário com eles no trabalho por eles realizado. Solidário na medida em que se pode viver a fraternidade na vulnerabilidade. A vulnerabilidade do tradutor.

Meu Deus! Trata-se de traduzir grego!

São Jerónimo, o primeiro tradutor da Bíblia para latim: “Sinto nos ossos as agruras do traduzir.”

+ + +

E, para continuar, algumas notas relativas às quatro páginas episcopais (pp. 5-8).

1. Parece-me resultar de um lapso a expressão «uso oficial da Bíblia» (p 5). É que a Bíblia, em si-mesma, não pode ser oficializada por nenhuma Igreja, porque de nenhuma delas ela é propriedade. A imensa biblioteca que ela é (mais de 40 livros no que chamamos Antigo Testamento, e 27 no Novo Testamento) resulta da atividade literária de anónimos. Sim, à exceção de Paulo, não sabemos quem foram as outras dezenas de autores que escreveram sem saberem que estavam a escrever uma Bíblia. Há nela textos produzidos ao longo de uns mil anos, desde os mais antigos até aos mais recentes, resultando daí esta espantosa biblioteca escrita em três línguas diferentes, numa pluralidade de teologias, expressiva de um conflito de interpretações que nos libertam de um pensamento único.

É que esta biblioteca liberta-nos da esterilidade resultante do que é uniforme e introduz-nos no espaço libertador de uma pluralidade não-totalitária! A Bíblia não é um livro totalitário! Acabei de empregar o termo uniforme: uma palavra utilizada por Dom Anacleto de um modo algo problemático na pág. 6 ao falar da «exigência» de «uma tradução integral e uniforme». Que se pretende com essa «uniformidade»? Abortar a rica conflitualidade – rica porque fecunda – de que os textos bíblicos estão grávidos? Reduzir a Bíblia à uni-dimensionalidade de um texto de que se extirpou todo o tipo de dissonância?

Aproximadamente dois terços da Bíblia (o chamado Antigo Testamento) é judeu. Isto é, quando os padres católicos e os pastores protestantes sobem ao púlpito para pregar (permita-se-me falar assim imageticamente) a Bíblia que levam consigo está logo, à partida, marcada por uma extraordinária riqueza interpretativa. E de um modo muito particular pela sua judeidade.

O que uma Igreja pode fazer é reconhecer como oficial uma determinada tradução da Bíblia, não a Bíblia-em-si. E Dom Anacleto até sabe isto melhor do que eu: não tenho dúvida alguma de que se trata de um mero lapso a forma como se exprimiu. O que pretendia dizer era, sem dúvida, o uso oficial de uma tradução da Bíblia.

Além desse aspeto da questão (o que tem a ver com uma determinada tradução da Bíblia que é declarada oficial) há um outro aspeto que, de certo modo, corre paralelamente a esse: a questão do cânone bíblico. E aí também, penso que o podemos dizer, não há um critério que nos permita afirmar, de um modo absoluto, que tem de haver um único cânone.

Sabemos que ao longo da história quer do judaísmo quer do cristianismo não há um absoluto a esse respeito. O judaísmo não tinha um cânone oficialmente definido no tempo de Jesus. Os Manuscritos do Mar Morto (Qumran) descobertos em 1947 lançam muita luz, como é sabido, sobre o judaísmo contemporâneo de Jesus.

Ora, o judaísmo plural de então não tinha um cânone definido. O cristianismo, esse, como é sabido, é só com Trento (séc. XVI) que chega à fixação oficial de um cânone, o da Igreja católica, pois o protestantismo, acabado de nascer, faz seu o cânone do judaísmo no concernente ao Antigo Testamento e reconhece, em relação ao Novo Testamento, o cânone dos 27 livros vigente já embora não oficialmente reconhecido, pois só o foi pelo Concílio de Trento.

Penso, porém, que a definição de um cânone tem a sua importância: institucionalmente estabelece um universo literário, particularmente no concernente à leitura pública, relevante para a confissão de fé. Mas isso tem a ver com cada Igreja como instituição. Na minha maneira de ver um cânone tem aí a sua importância. E sou defensor de um cânone institucional.

O Concílio de Trento, no século XVI, quando se chegou à fixação oficial de um cânone.

+ + +

Na pág. 5 é-nos dito quais são as duas exigências que o processo de tradução em curso deve ter em conta:

– «que a tradução seja literal, isto é, que transmita, tanto quanto possível, tudo o que os textos exprimem nas línguas originais […]»

– «a tradução tem de ser compreensível para leitores e sobretudo ouvintes de hoje […]».

Na pág. 6 diz-se-nos «que o processo de tradução em curso corresponda a tais exigências, designadamente nos seguintes pontos». E toca-se a seguir nesses pontos. Que são cinco.

Ora, desses cinco pontos (são, de facto em número de cinco) os quatro primeiros não me parecem contribuir em nada para a dilucidação do que está em jogo. Limitam-se apenas, num total de doze linhas, a dizer: a Conferência Episcopal Portuguesa, a Comissão Episcopal da Liturgia e Espiritualidade e a Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé estão a conduzir o processo; a maior parte dos tradutores pertencem à Associação Bíblica Portuguesa; há outros colaboradores de vários Países Lusófonos; há uma Comissão Coordenadora e duas Subcomissões Científicas «para a revisão e unificação de critérios dos diferentes textos traduzidos, respetivamente, do hebraico e aramaico, por um lado, e do grego por outro.» Julgo que seria importante dar-se a conhecer no que é que consiste essa «unificação de critérios dos diferentes textos traduzidos».

O quinto ponto só em parte contribui para isso. De facto, seria importante dar uma achega para esclarecer o que se entende pela «harmonização» de textos que foram traduzidos «literalmente» tal como nos é dito: «que a tradução seja literal». Para uma tal «harmonização» quem é que paga a fatura: é o português da tradução, é o grego de onde se traduz, ou é a liturgia no seu desejo de harmonizar textos que à partida se caracterizam, entre outras coisas, por serem fecundamente plurais e diversos mesmo quando falam do mesmo? Sim: que tipo de harmonia se pretende impor a textos dessa natureza? Já que se pretende uma «tradução literal» (e como eu aplaudo esse desejo!) não seria melhor deixá-los falar à vontade deles? E pergunto de outro modo: com esta tradução pretende-se pôr a liturgia ao serviço da Bíblia, ou a Bíblia ao serviço da liturgia? Ou será esta uma falsa questão?

Mas mais à frente, no capítulo Introdução Geral aos Evangelhos, voltarei a este tema.

 

Um breve primeiro excurso autobiográfico

Que me sejam permitidas aqui algumas palavras de teor autobiográfico.

Corria o ano de 1965.

O Vaticano II já tinha encontrado em Portugal católicos (e não só católicos) conscientes da importância do Concílio para uma renovação da Igreja. Eram também os tempos em que se começou a falar, entre alguns grupos cristãos, de Teilhard de Chardin. Como me lembro disso!

Concílio Vaticano II. Bispos

“O Vaticano II já tinha encontrado em Portugal católicos (e não só católicos) conscientes da importância do Concílio para uma renovação da Igreja.” Foto: Direitos reservados

Um dia recebo um telefonema. Era uma leiga católica, Teresa Martins de Carvalho, desconhecida para mim. Senhora de uma excecional cultura religiosa. Vim a aperceber-me disso mais tarde. Manifestou desejo de se encontrar um dia comigo para falarmos sobre a Igreja em Portugal e o Vaticano II. Combinámos um encontro em minha casa.

E quanta alegria não foi a minha, dias mais tarde, nesse encontro! Falou-me da iniciativa que a animava de criar em Portugal um grupo ecuménico inter-eclesial católico-protestante. Já havia falado desse seu desejo com o Cardeal de então, o Cardeal Cerejeira, que lhe prometeu apoio.

Tinha sido nomeado como representante oficial da Igreja Católica o Cónego Gregório Neves, professor de Sagrada Escritura no Seminário dos Olivais. Eram os tempos áureos desse Seminário. A Igreja Anglicana em Portugal (naqueles tempos tinha o nome de Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica) era representada pelo Bispo Luís Rodrigues Pereira. Da Igreja Presbiteriana era eu. Tinha sido ordenado pastor recentemente.

Teresa Martins de Carvalho era a figura essencial desse grupo ecuménico. Que o seu nome seja recordado como o de uma pessoa excecional. Era ainda nova e é a ela – sobretudo a ela – que os incipientes sinais dos gestos ecuménicos entre católicos e protestantes se devem.

Hoje, estas coisas fazem parte do reino da banalidade. Há cinquenta e cinco anos era um deslumbramento. Orarmos juntos, lermos e discutirmos a Bíblia juntos, convivermos em encontros dialogados e livres era uma experiência radicalmente nova para todos nós.

Era um princípio modesto mas importante de uma passagem: a passagem do anátema recíproco ao diálogo incipiente. Que encontros se viveram então! Ou numa paróquia católica; ou numa paróquia anglicana; ou numa paróquia presbiteriana.

Evoco tudo isto por várias coisas que facilmente se compreenderão. Uma delas é o Cónego Gregório Neves, com quem vivi uma salutar fraternidade. Ficámos amigos. Em cada encontro lá estava ele com o seu Novo Testamento bilingue (grego/latino) de Merk, e eu com o meu Novo Testamento só em grego, de Eberhard Nestle.

Quanta coisa não aprendi naqueles encontros. Quanta coisa não foi para mim importante. Pouco mais de um ano depois da formação do grupo fui enviado pela minha Igreja para S. Miguel (Açores), e lá fiquei quase quatro como pastor de três paróquias. Quando regressei o grupo continuava.

Na evocação de tudo isto pesa também uma coisa diretamente ligada a esta nova tradução católica dos evangelhos: é de louvar que o texto grego do Novo Testamento de onde se traduz não seja o de Merk mas sim o de E. Nestle-K. Aland (em substância o texto do meu Novo Testamento Grego de então revisto por Kurt Aland). É, de facto, do texto estabelecido por Nestle-Aland (um trabalho de três gerações de protestantes ao longo do séc. XX) que as traduções hoje se fazem. Vd a p. 19 da introdução: «O texto grego seguido foi o da edição de referência de Nestle-Aland.»  A história é assim.

 

(Na próxima semana: Evangelho e Evangelhos)

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