Pseudorreligião da palavra F: um exemplo da patologia religiosa (um ensaio de Tomáš Halík)

| 27 Dez 20

Os cristãos devem estar presentes entre aqueles que reforçam a imunidade social contra o populismo, as notícias falsas, e as teorias da conspiração. (Infelizmente, são frequentemente os adeptos da “pseudorreligião da palavra F” os mais zelosos apoiantes desta patologia social.), defende o teólogo checo Tomáš Halík, neste ensaio cedido ao 7MARGENS, que há um mês publicara o texto A revolução da misericórdia e um novo ecumenismo. Felizmente, acrescenta, há comunidades ecuménicas abertas em muitos lugares do mundo que podem tornar-se numa fonte de esperança, mesmo que as instituições eclesiásticas estabelecidas entrem em colapso.

Donald Trump. EUA. Racismo.

Trump, acompanhado da mulher, junto ao monumento a João Paulo II, em Washington em Junho de 2020: “Os cristãos que apoiam Donald Trump ignoram o facto de ele ser um político populista imoral cuja vida pessoal, ações e comportamentos contradizem os princípios do cristianismo.” Foto: Direitos reservados

 

O que têm em comum os terroristas que proclamam slogans religiosos, os apoiantes cristãos de Donald Trump, os radicais pró-vida, os adversários do Papa Francisco que lhe enviam “correções filiais”, as bandas de guerrilha que afirmam “defender o homem heterossexual branco”, ou Jarosław Kaczyński e os esforços para transformar a Polónia num Estado católico autoritário?

Vamos explorá-los mais de perto:

1) Os terroristas que falam abertamente da sua lealdade ao islão e proclamam slogans religiosos representam o exemplo mais extremo, conhecido e perigoso de patologia religiosa. São completamente alheios aos princípios éticos do islão, retirando as citações das escrituras sagradas do seu contexto e abusando delas para disseminar o ódio e a violência.

2) Os cristãos que apoiam Donald Trump ignoram completamente o facto de ele ser um político populista imoral cuja vida pessoal, as ações e os comportamentos contradizem os princípios morais do cristianismo. Contentes com a sua retórica anti-aborto, estão dispostos a segui-lo e a apoiá-lo cegamente. Nenhum político é um messias. A tarefa profética da Igreja inclui a crítica construtiva e a “dessacralização” dos políticos que afirmam ser salvadores. A Igreja é chamada a lembrar constantemente que estes são apenas seres humanos com as suas forças e fraquezas.

3) Alguns radicais pró-vida ignoram que a criminalização do aborto não é a única nem a forma mais apropriada de proteger a vida em gestação. Por exemplo, o endurecimento da atual lei sobre o aborto na Polónia levará, provavelmente, ao turismo abortivo de mulheres polacas para países vizinhos, bem como a perigosos abortos domésticos.

A legislação em vigor na maioria dos países europeus não obriga ninguém a fazer um aborto. A coragem dos pais que estão dispostos a aceitar um feto com graves problemas de saúde e a cuidar permanentemente de uma criança com deficiências graves representa um admirável ato de bravura moral. No entanto, ninguém pode ser forçado à bravura, especialmente por moralizadores que atam fardos pesados e insuportáveis, e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar (cf. Mt 23,4). Os defensores da vida por nascer deveriam concentrar-se mais na assistência prática às mães solteiras e às famílias com crianças gravemente incapacitadas.

4) Os adversários do Papa Francisco que lhe enviam “correções filiais” não são, claramente, terroristas ou fanáticos religiosos. Contam-se, frequentemente, entre os cristãos verdadeiramente “bons e justos” que têm preocupações genuínas sobre a identidade da fé católica entendida como um imutável sistema ahistórico de declarações doutrinárias. Este sistema é perfeitamente coerente em si mesmo, mas colapsa como um castelo de cartas quando exposto à realidade da vida. Estas pessoas aderem ao tipo de religião legalista a que Jesus se opôs durante toda a sua vida.

Varsóvia, Polónia, 2014. Foto © Alfredo Cunha/O Tempo das Mulheres, cedida pelo autor: “A tentativa de Kaczyński transformar a Polónia num Estado católico autoritário é um exemplo perigoso da aliança entre religião e política, que contribui para a secularização radical da sociedade e desacredita o cristianismo aos olhos dos jovens e das pessoas com mais formação.”

 

5) Os bandos de guerrilha fascistas que procuram “defender o homem heterossexual branco”, inspiradas na tradição Ku Klux Klan, costumavam concentrar-se em ataques contra negros, judeus e católicos. Hoje em dia, estes grupos acendem o ódio especialmente contra os gays e os migrantes. A sua ideologia é baseada na xenofobia, no medo da diferença cultural. Eles gostam de se ver a si próprios como os defensores do “Ocidente Cristão”. Até agora, a sua atividade tem-se mantido, em geral, ao nível da agressividade verbal (principalmente nas redes sociais, mas também em comícios fanáticos).

No entanto, estas bandas de guerrilha poderiam, facilmente, recorrer à violência e a ações terroristas semelhantes à do extremismo islâmico com que partilham vários traços psicológicos semelhantes. A sua presença é bastante tragicómica nos países pós-comunistas, incluindo a República Checa, onde o “homem heterossexual branco” está acima de tudo ameaçado, como observou um jornalista checo, pela obesidade.

6) A tentativa de Jarosław Kaczyński transformar a Polónia num Estado católico autoritário é um exemplo perigoso da aliança entre religião e política, que contribui para a secularização radical da sociedade polaca e desacredita o cristianismo aos olhos dos jovens e das pessoas com mais formação. Empregando a ficção de “um tsunami de homossexualidade pior que o comunismo” para assombrar as pessoas, alguns bispos acabaram por criar este “demónio”, em que respira a força do seu medo, e libertaram-no para a sociedade. Criar demónios, em vez de fomentar o diálogo e a compreensão, é sempre perigoso.

Os esforços para formar uma “aliança de bispos conservadores dos países de Visegrado”, desencadeados por Steve Bannon, antigo conselheiro de Donald Trump [que agora enfrenta um processo por fraude], desacreditariam a Igreja nesta região, substituindo o cristianismo por uma ideologia política de extrema-direita. Tenta aproveitar-se da afinidade de certos católicos por regimes autoritários (tais como o Estado Eslovaco durante a II Guerra Mundial, ou a Espanha franquista, e muitos outros). Historicamente, a Igreja sempre pagou cara essa cumplicidade.

A Igreja polaca tem agora de enfrentar uma onda de escândalos que vieram a público e a reacção à política de Kaczyński. Embora esta onda possa ser catártica, é e será, no entanto, agonizante. No âmago está a necessidade de “separar” o catolicismo do nacionalismo. Esta aliança tem profundas raízes históricas, e ajudou, sem dúvida, a manter a identidade nacional polaca no passado. Com a mudança de paradigma civilizacional atualmente em curso, contudo, é necessário que a vitalidade do cristianismo polaco de hoje vá mais além dos “ícones do purismo polaco” e redescubra o Evangelho e a fé libertada do nacionalismo e da dependência política.

O Papa Francisco a assinar a encíclica Fratelli Tutti, em Assis, a 3 de Outubro (imagem captada de vídeo): “É inevitável reforçar uma aliança de pessoas que ofereçam uma alternativa positiva da religião para superar o egoísmo e alimentar a solidariedade – nas palavras de Fratelli tutti, uma “nova fraternidade”).

 

Sugiro que todos estes fenómenos possam ser incluídos na categoria a que me refiro como “pseudorreligião da palavra F” (F de fundamentalismo e fanatismo). Apesar de todas as diferenças, estes grupos partilham uma mentalidade semelhante, caracterizada pelo uso seletivo de retórica religiosa que contradiz o núcleo ético destas religiões, pela aversão a uma abordagem histórica e hermenêutica da religião, pela intolerância (de quem se sente “dono da verdade plena”), pela fusão da religião com os interesses de poder de certos círculos políticos, etc. Uma abordagem seletiva das fontes religiosas, a “desaculturação da religião” (a perda de um contexto original), transforma este fenómeno numa “religião civil” secular e política. Embora o conteúdo seja secundário, a carga emocional representa o ponto final de ligação.

Devo salientar que a “pseudorreligião da palavra F” é uma construção teórica semelhante aos “tipos ideais” de Weber. O seu objetivo é ajudar a encontrar características comuns de fenómenos aparentemente incomensuráveis, a fim de os compreender melhor. Isto não significa que todas as características possam ser encontradas em todos os fenómenos, ou que as características sejam todas representadas na mesma intensidade. Apresento esta sugestão como uma hipótese.

O fenómeno da “pseudorreligião da palavra F” deve ser exposto à investigação empírica psicológica, sociológica, teológica, cultural-histórica, que considerará, seriamente, as suas causas e efeitos. A “palavra F da pseudorreligião” parasita as religiões, bloqueando o seu potencial ético e desenvolvendo o veneno que dorme no “lado sombrio da religião”, tal como preservado no que resta do abuso da religião pelos poderosos no passado.

Precisamos de analisar que tipos de religiosidade são particularmente propensos a tais abusos, e onde procurar o potencial de “imunidade moral” dentro das tradições religiosas para contrariar estes tipos patológicos. Por exemplo, um impacto até agora muito fraco dos métodos histórico-críticos às escrituras sagradas na teologia islâmica torna o islão mais facilmente utilizável para a “pseudorreligião da palavra F”. Um caso semelhante pode ser apresentado em relação ao fundamentalismo cristão. Evidentemente, para que o fundamentalismo se torne fanatismo, e o fanatismo se torne terrorismo, são necessárias várias circunstâncias sociais.

Perante a aliança de diferentes fenómenos sob a capa da “pseudorreligião da palavra F”, é inevitável reforçar uma aliança de pessoas através de vários pontos de vista e crenças – aqueles que procuram oferecer uma alternativa positiva da religião como escola para superar o egoísmo, o cultivar de instintos (especialmente o instinto agressivo) para derrotar o medo e alimentar a solidariedade, a justiça e a coexistência pacífica. A encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, traz importantes contributos para este fim. Os teólogos cristãos são confrontados com a tarefa de pensar sobre uma teologia e uma espiritualidade para este “ecumenismo mais amplo” (ou, para usar as palavras de Fratelli tutti, uma “nova fraternidade”).

Igreja da Mãe de Deus frente à Týn, Praga: “Nos países onde uma profunda crise de confiança na Igreja é iminente, é necessário regressar às raízes do Evangelho. Em países fortemente secularizados, como a República Checa, parece que a Igreja não tem nada a perder.” Foto © António Marujo

 

Nos países onde a “pseudorreligião da palavra F” já se apoderou firmemente das estruturas eclesiais tradicionais, e onde uma profunda crise de confiança na Igreja é iminente, é necessário regressar às raízes do Evangelho, iniciando verdadeiramente uma “nova evangelização”. Em países fortemente secularizados, como a República Checa, parece que a Igreja não tem nada a perder.

Na realidade, contudo, é preciso dissociar-se claramente das expressões da “pseudorreligião da palavra F”, que afastam as pessoas com sentido crítico da Igreja. Simultaneamente, atrair e fascinar as pessoas que anseiam por respostas simples a perguntas complicadas e a “certezas inabaláveis”. É necessário destacar exemplos alternativos de grupos cristãos que procuram, verdadeiramente, uma interpretação inteligente e inteligível da fé cristã, fomentam a vida espiritual pessoal (através de uma abordagem contemplativa da realidade), procuram a participação ativa dos cristãos na sociedade civil, em iniciativas culturais, educacionais e ecológicas, e comprometem-se a reforçar o ecumenismo e o diálogo inter-religioso e intercultural.

Os cristãos devem estar presentes entre aqueles que reforçam a imunidade social contra o populismo, as notícias falsas, e as teorias da conspiração. (Infelizmente, são frequentemente os adeptos da “pseudorreligião da palavra F” os mais zelosos apoiantes desta patologia social.) Graças a Deus, existem comunidades ecuménicas abertas na República Checa e noutros lugares do mundo que podem tornar-se numa fonte de esperança, mesmo que as instituições eclesiásticas estabelecidas, tais como o sistema de administração paroquial, entrem em colapso.

O que será decisivo é tanto a abertura e a formação daqueles que têm responsabilidade oficial na Igreja, como a iniciativa e a responsabilidade dos “leigos”. Para procurar respostas adequadas aos “sinais dos tempos”, precisamos de uma discussão completamente livre e aberta nas nossas Igrejas. Um exemplo de tal discussão é o “processo sinodal” na Igreja Católica na Alemanha.

Temos de perceber que o que se passa no ambiente cristão afeta significativamente a vida da sociedade como um todo, porque os cristãos a sua parte insubstituível, independentemente da sua representação percentual. Hoje, encontramo-nos numa encruzilhada.

 

Tomáš Halík (n. 1948) é professor de filosofia e sociologia da religião na Universidade Charles/Carlos, em Praga e presidente da Academia Checa Cristã. Durante a era comunista, depois de ter sido secretamente ordenado padre, passou a trabalhar na chamada “Igreja do silêncio”. Recebeu o prémio Templeton e o doutoramento “honoris causa” das universidades de Oxford e Erfurt. Os seus livros estão traduzidos em vinte línguas, incluindo em Portugal, na Paulinas Editora, que disponibiliza uma edição electrónica deste texto a quem o pretender descarregar.

 

Tradução: JMB
Agradecimento: Antoine Vivant
Edição: 7MARGENS

 

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