AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Ensaio de um testamento vital

eutanasia mulher acamada foto c motortion (1200 x 612 px)

eutanasia mulher acamada foto c motortion (1200 x 612 px)

 

À luz da Páscoa: que celebra as dores e angústias da nossa última cena no teatro da vida; o silêncio vazio da morte; e finalmente a experiência daquela Luz simbolizável pelas auroras boreais, em que as cores parecem brincar e fazer esquecer o negrume da noite, aquela Luz desejada por todas as noites humanas – dei por mim a pensar nos testamentos vitais. Mais exactamente, como eu desejaria o cenário e actuação de todos os figurantes ligados à minha última cena. Mais ou menos com o guião seguinte.

A janela panorâmica deixa-me ver parte da cidade e lá longe montanhas azuis. Lutarei até ao fim pela beleza da vida humana e da natureza. E a presença delas é estimulante. À minha volta, todos sofrem, a seu jeito, a separação iminente. Mas sem esquecerem como a própria morte reúne os vivos e como todos desejam uma perfeita reunião “sem morte” (como escrevi no texto E juntou-se aos seus antepassados).

Na sala ao lado, alguém recordará quanto eu gostaria de que as reuniões de amigos e de família terminassem com um “e que estejamos sempre juntos”, seja qual for a situação. Deste modo nos tornaríamos mais sensíveis e sábios perante os mais duros acontecimentos, como a morte de filhos, guerras e demais tragédias.

No ambiente geral da sala, sente-se que a união interiorizada, resistente aos conflitos, é a melhor ajuda na cena da morte e em todos os momentos difíceis – para quem vai e para quem fica. E que o carinho verdadeiro é o melhor remédio para quem sofre.

No cenário da hora final, preocupam-se por que eu sinta a meu lado respeito e carinho e que (apesar de tudo!) me amam. E assim, por muito isolado que seja o momento, posso ter a sensação de um bébé que se embala.

Todos testemunham que eu, como crente, veria neste “embalo” o carinho de Deus, pois sempre afirmei que, pela razão e conhecimentos que me eram possíveis, não podia negar (nem compreender plenamente…) a “presença divina” ao longo de toda a história – bem na linha de Nicolau de Cusa: não vejo a Luz, só vejo as coisas iluminadas.

Cai-se na conta de como ambientes frequentes de coragem e alegria aumentam e fortalecem a coragem e alegria nas horas mais difíceis. Toda a pessoa que morre tem um testemunho a dar – cuja energia permanecerá para sempre. E até os erros e “maldades” serão lições do que pode estar bem ou mal.

Provavelmente pela última vez, discutem a importância de saber falar tranquilamente da morte, de como viver com ela e de como desejamos ser tratados nessa hora que sela a vida de cada qual.

Sem eu notar, discutem se é natural e desejável que a seu tempo apenas se preocupem com diminuir a dor e sofrimento (físico e espiritual). De qualquer modo, recordam frases minhas: que não desejo vegetar (“cientificamente” inconsciente sem probabilidades de recuperação), sendo já um corpo morto para a sociedade; embora possa manter o natural desejo de o tempo parar e continuar as horas boas neste mundo que conheço e onde, como se diz, “cada qual se pode amanhar”. Mas muita atenção: não me queiram enganar nem me olhem como um coitadinho – mas sim como companheiros na mesma aventura.

Manifesto ficou o meu mais firme desejo: ser útil para sempre. Ao longo do teatro da vida, na cena final e depois de sair do palco.

Lembram que entreguei o meu corpo à Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. E que, a meu ver, o corpo é uma oferta à Humanidade quando, seja como for, o entregamos à Natureza: pois simboliza a vida com que reforçámos ou pusemos à prova a infinda corrente da Vida cujo mistério cativa todos os seres humanos.

Para terminar, ressaltará esta ideia: na medida em que a sociedade valorizar serenamente estes sentimentos, saberemos “sair da cena” com a elegância e orgulho de bom actor. E o Grande Teatro da Vida continuará cada vez mais aprimorado para um final plenamente feliz.

Como na Páscoa, sempre renovada.

 

Manuel Alte da Veiga é professor aposentado do ensino universitário.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This