Ensaio

O capitalismo não gosta da calma (nem da contemplação religiosa)

A editora Relógio d’Água prossegue a publicação em Portugal dos ensaios de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha. O tom direto e incisivo da sua escrita aponta, num registo realista, as múltiplas enfermidades de que padece a sociedade contemporânea, que o autor designa como sociedade pós-industrial ou sociedade da comunicação e do digital, do excesso de produção e de comunicação. A perda dos referentes rituais – análise que o autor refere como isenta de nostalgia, mas apontando o futuro – é uma dessas enfermidades, com as quais a vivência religiosa está intimamente relacionada.

Uma obra que fazia falta

Dois anos após a sua publicação, a exortação Amoris laetitia permanece como um dos documentos mais significativos do magistério de Papa Francisco. A “redução” da mensagem da exortação à questão sobre o acesso de católicos divorciados à comunhão eucarística (ainda que uma questão profundamente vital) contribuiu de certo modo para a criação de um ambiente de polémica em torno ao documento, distraindo o público daquele que seria o seu contributo mais fundamental.

Alegria e Misericórdia: as revoluções de Francisco

Inflexão na doutrina e mudança nas práticas pastorais são os dois temas mais polémicos associados à exortação apostólica Amoris Laetitia que o Papa Francisco publicou há quatro anos e meio. Mas os especialistas reunidos por Miguel Almeida, sj, no livro Alegria e Misericórdia – A teologia do Papa Francisco para as famílias mostram que as revoluções operadas por Francisco na exortação não se limitam àqueles dois aspetos. E estas são para a Igreja desafios tão grandes ou maiores do que aqueles.

Um sentido para a vida das pessoas (2)

O que podemos então esperar? Talvez não aquilo que virá, mas aquilo que já cá está. O Reino, escreveu São Lucas, “não vem de modo ostensivo. Ninguém poderá afirmar ‘Ei-lo aqui ou ali’, pois o reino de Deus está dentro de vós.” (Lc 18 20-21). O Reino – a plenitude ilimitada da liberdade, do amor, do conhecimento, da justiça, da verdade, da beleza. A expressão do infinito na finitude.

Do prazer da leitura como exercício espiritual – as comunidades de leitores como um outro modo de ser crente? (ensaio)

Por todo o lado se constituem comunidades de leitores de literatura universal, de pessoas que encontram nos livros o motivo para a hospitalidade da alteridade. Como é sabido, a prática da leitura comunitária e pública da Torah era fundamental para o judaísmo rabínico em torno do Talmude. A chamada lectio divina (meditação orante da Palavra), praticada primordialmente nos mosteiros, assume essa linha da tradição hebraica e amplia-a como modo de ser fundamental da experiência cristã do evento originário crístico.

Theodor W. Adorno contra o radicalismo

Um dos mais influentes pensadores do século XX, o alemão Theodor W. Adorno, que durante a II Guerra Mundial se tinha refugiado nos Estados Unidos da América para escapar ao nazismo, analisou numa palestra, que decorreu no dia 6 de Abril de 1967, na Universidade de Viena, os “aspectos do novo radicalismo de direita”. Publicada em Portugal no início deste ano pelas Edições 70, com tradução de Marian Toldy e Teresa Toldy, a intervenção, como recorda Volker Weiß no posfácio, reflecte sobre a ascensão, na República Federal da Alemanha, do Partido Nacional-Democrático da Alemanha (NPD), fundado em 1964.

Infinito

Ser crente é acreditar que duas linhas paralelas se cruzam necessariamente no Infinito, e que esse ponto onde se cruzam é Deus. É acreditar que no fim, como no princípio de Tudo, há um ponto sem extensão nem duração, que é Deus. E que esse ponto está em toda a parte, inteiramente, absolutamente, sem estar todavia em parte nenhuma, pois ele não pode estar num sítio em detrimento de outro.

A carne, a história e a vida: uma viagem fascinante

A tradição espiritual cristã, radicada na Boa-notícia gerada pelo Novo Testamento, permanece ainda um continente a explorar para muitos dos discípulos de Jesus. A expressão mística contém uma carga associada que não ajuda a visitar o seu espaço: associamo-la a uma elite privilegiada, a fenómenos extraordinários, a vidas desligadas dos ritmos e horários modernos.

Afinal, Jesus era branco, negro ou assim-assim? – entre a influência semita e a indo-europeia (ensaio)

Tem-se falado muito da cor da pele de Jesus. Vai-se formando um consenso entre clérigos e leigos de que Jesus não seria branco, mas algo mais aparentado com o mestiço típico de um semita do Médio Oriente. Não que a questão seja minimamente relevante do ponto de vista teológico ou espiritual. De facto, não o é, embora possa ter a sua importância social e política, admito.

Um exercício lento e sólido de teologia bíblica

No deserto pleno de ruídos em que vivemos – de notícias e conferências, de estradas engarrafadas e redes sociais saturadas –, é possível ver surgirem vozes de pensamento, de sabedoria sobre o que nos rodeia e nos habita. As páginas deste livro constituem uma dessas vozes. Cabe-nos escutá-la.

Teologia bela, à escuta do Humano

Pensar a fé, a vivência e o exercício do espírito evangélico nos dias comuns, é a tarefa da teologia, mais do que enunciar e provar fórmulas doutrinárias. Tal exercício pede atenção, humildade e escuta dos rumores divinos na vida humana, no que de mais belo e também de mais dramático acontece na comunidade dos crentes e de toda a humanidade.

Yves Congar, uma viva fonte de inspiração

O dominicano Yves Congar foi um dos maiores teólogos do século XX e continua a ser o eclesiólogo incontornável pela grande viragem que provocou nas abordagens da história e da vida da Igreja. Muito lutou e sofreu por publicar as suas investigações que punham em causa tabus, doutrinas e apologéticas que sufocavam a revisão teológica da sua história e impediam as reformas de que precisava para se abrir às outras Igrejas cristãs, ao universo das outras religiões e ao mundo contemporâneo.

Diálogos com Paulo Freire

Trata-se de dois livros inspirados na filosofia de Pauloreire, a quem de há largos anos chamo meu “Mestre”: o primeiro, de Christopher Damien Auretta, Diz-me TU quem EU sou: Diálogo com Paulo Freire. O segundo, do mesmo autor com João Rodrigo Simões: Autobiografia de uma Sala de Aula: Entre Ítaca e Babel com Paulo Freire (Epistolografia).

Muhammad Yunus: “Começar do zero” e aproveitar os “horizontes ilimitados” que a pandemia abriu

O economista Muhammad Yunus, fundador do Grameen Bank (“banco de aldeia”) no Bangladesh, impulsionador do conceito de microcrédito e dos negócios sociais e Prémio Nobel da Paz em 2006, chama a atenção para “os horizontes ilimitados” que a crise da covid-19 abriu. Esta é a oportunidade para “começarmos do zero”, diz, num texto publicado esta terça-feira, 5 de maio, na página digital do jornal francês Le Monde.

As igrejas vazias podem esconder o vazio de algumas respostas cristãs, diz Tomáš Halík

Os cristãos têm de fazer “uma séria tentativa de mostrar ao mundo um rosto do cristianismo completamente diferente”, se não quiserem que este tempo de igrejas vazias coloque “simbolicamente em evidência o vazio escondido nas igrejas e o seu possível futuro”, escreve o padre e teólogo checo Tomáš Halík, num texto a propósito da pandemia, que as edições Paulinas divulgaram em formato de livro electrónico, que pode ser descarregado gratuitamente.

Iconografia cristã primitiva, nascida no confinamento

A edição em português de Os Primeiros Cristãos – as histórias, os monumentos, as figuras, da autoria do historiador italiano Fabrizio Bisconti, constitui um acontecimento muito significativo. Magnificamente apetrechada de imagens ilustrativas, a obra conduz o leitor na descoberta da arte cristã primitiva, presente em catacumbas, monumentos e vestígios arqueológicos.

O desejo de ir além dos confins

A cidade dos desejos ardentes é fruto das meditações orientadas pelo monge italiano Bernardo Gianni no retiro de 2019 da Cúria Romana, no qual participou o Papa Francisco. Este acontecimento é o cenário que permite agora, ao público português, aceder a uma proposta de aprofundamento espiritual densa de sentido e de beleza.

Editora francesa oferece “panfletos” sobre a crise

Sendo certo que as doações essenciais neste período de pandemia dizem respeito a tudo o que nos pode tratar da saúde física, não há razão para negligenciar outras dádivas. É o caso de uma das mais famosas editoras francesas, a Gallimard, que diariamente oferece textos que pretendem ser uma terceira via entre a solenidade da escrita de um livro e o anódino da informação de um ecrã.

Uma história do universalismo cristão

The Devil’s Redemption: A New History and Interpretation of Christian Universalism (Baker Academic, 2018) foi classificado em 2018 pelo The Gospel Coalition, uma organização de Igrejas Evangélicas de tendência Reformada, como o Livro de Teologia do ano.

José Veiga Torres – um rio de águas profundas

José Veiga Torres (JVT), professor catedrático jubilado da Universidade de Coimbra, editou, em Abril de 2013, o livro Ser cristão? Porquê? Para quê? Que discurso, que projecto? (ed. Lápis de Memórias), obra com mais de quatrocentas páginas, em formato de bolso. Trata-se de um exaustivo “tratado de teologia e história” que esmiúça pormenorizadamente somente isto: todos os documentos do Novo Testamento, vários testemunhos pós-apostólicos e toda a História da Igreja desde o século I até ao século XXI (Bento XVI). Merece a expressão: “É obra!” É, de facto, uma obra única, ímpar em língua portuguesa de Portugal, vademécum para catecúmenos e cristãos curiosos.

Livro sobre “o facto” Simão Pedro apresentado em Lisboa

Um livro que pretende ser “um testemunho, fruto de uma meditação” sobre a vida do apóstolo Pedro, será apresentado nesta segunda-feira, 2 de Dezembro, em Lisboa (Igreja paroquial de Nossa Senhora de Fátima, Av. Berna, 18h30). Da autoria do padre Arnaldo Pinto Cardoso, Simão Pedro – Testemunho e Memória do Discípulo de Jesus Cristo pretende analisar o “facto de Pedro” que se impôs ao autor, fruto de longos anos de estadia em Roma, a partir de diferentes manifestações.

“Aquele que vive – uma releitura do Evangelho”, de Juan Masiá

Esta jovem mulher iraniana, frente ao Tribunal que a ia julgar, deu, autoimolando-se, a sua própria vida, pelas mulheres submetidas ao poder político-religioso. Mas não só pelas mulheres do seu país. Pelas mulheres de todo o planeta, vítimas da opressão, de maus tratos, de assassinatos, de escravatura sexual. Era, também, assim, há 2000 anos, no tempo de Jesus. Ele, através da sua mensagem do Reino, libertou-as da opressão e fez delas discípulas. Activas e participantes na Boa Nova do Reino de Deus.

Livro: Papa Francisco Debaixo de Fogo

O arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos da América, protagonizou em Agosto do ano passado um invulgar caso com um fortíssimo impacto mediático, político e eclesial ao acusar o Papa Francisco de conhecer situações de assédio sexual cometidas pelo então cardeal Theodore McCarrick e de não ter agido contra o prelado com o vigor que a gravidade da situação requeria.

O armário de Frédéric Martel

A tese central do livro, desdobrada em 14 regras, é a de que a Igreja Católica está a ser destruída pela doutrina moral que impõe o celibato e a castidade, ao mesmo tempo que abomina a homossexualidade, mas convive com uma enorme tolerância disciplinar perante práticas homossexuais, incluindo o encobrimento de abusos sexuais.


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