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autores - Marijke de Koning

[Entre Margens]

Entre a Escuridão e a Luz

| 30/03/2026

Estou no fim, e no fim que quero ainda dizer?
Maria de Lourdes Pintasilgo.[i]

O que eu quero realmente é conectar-me com Deus – ser um com Deus.
Fátima Grácio.[ii]

 

Em qualquer fim, queremos, ou devíamos querer, no caso de sermos capazes, dizer qualquer coisa. Pode ser no fim de uma conferência, no fim de uma viagem ou num possível fim da vida à vista.

No dia 16 de março assisti online à oitava sessão do curso “DA ALEGRIA”, que se realiza na Capela do Rato, em que a Teresa Vasconcelos apresentou a obra Bagagem de Adélia Prado. Num dos slides, retive uma resposta que Adélia Prado deu numa entrevista a Augusto Massi em 2025:

Toda a gente sente a noite escura da alma.
É o momento em que escrever não resolve,
cantar não resolve,
varrer a casa não resolve.

Não conseguir escrever, cantar ou varrer, ou seja o que for, é uma vivência de escuridão. Sabe-se que é preciso começar, recomeçar, mas não se consegue. Arrasta-se o dia deslocando-se de uma tarefa à outra sem as realizar.  De um objeto ao outro sem os arrumar. “Há dias”. Felizmente não são todos assim.

Estou num certo fim, a iniciar a fase final da minha estadia em Portugal. Transitando sem pressa, graças ao Graal. (Que privilégio!) “Como vou recomeçar no “meu” país, como viver com sentido o tempo de vida que me resta num contexto tão outro …?”  perguntei a mim própria no artigo “Recomeços. Recomeço?”. [ver 7MARGENS]

O primeiro efeito desta mudança tem a ver com o lugar. Em vez da vista sobre a cidade de Lisboa, terei como paisagem um campo árido, à espera que as túlipas rebentem na primavera. Ao fundo as dunas que não me deixam ver o mar, mas prometem que ele está perto.

Campo árido em Noordwijk

Campo árido em Noordwijk. Foto: Direitos reservados

Cada vez que penso nisto, quando as idas e voltas e mais idas e voltas se vão aproximando, sinto a noite a querer entrar na minha alma. Mesmo sentindo isto, ainda consigo “varrer a casa”. Isto é pegar em livros, fotografias, objetos, documentos guardados. O que levar comigo? Também sinto como é difícil fazer isto neste espaço. Um espaço que foi o contexto de uma realidade que aqui já não existe no mesmo formato. Era uma “comunidade” em que partilhávamos o espaço físico, além de tudo o resto. Foi naquela altura o espaço do Graal em Lisboa, onde vivi quando cheguei pela primeira vez em Portugal. Felizmente entraram muitas “almas” novas nesta nossa “comunidade”, jovens mulheres que trouxeram Luz e que estão a contribuir para que a comunidade seja multigeracional. Num tempo muito outro. Numa sociedade em que o “eu” está mais central, uma realidade que precisa de ser “temperada”.

No debate televisivo que vi no dia 17 de março no Canal Neerlandês BVN, sobre as eleições municipais de 18 de março nos Países Baixos, fiquei tocada por um comentário de um político. Disse: “já não vivemos numa samenleving mas numa ikleving”.[iii]  Samenleving tem um duplo sentido em neerlandês: Sociedade e Comunidade. Samen leven, viver em conjunto. A palavra Ikleving não existe, mas pode significar eu (ik) viver centrado no meu eu, numa dinâmica de valorização do ego. A ideia não é nova. Já Harry Kunneman havia falado no Fat Ego, o Eu Gordo[iv]. Será que os novos governantes municipais vão conseguir combater esta dinâmica dominante?

Quando passo pela vivência da noite escura da alma, pergunto-me como passo da Escuridão à Luz. Com que palavras descrevo o que faço para sair da escuridão? Recorro a Deus? Como? Fico à espera? Faço alguma coisa? Rezo? Medito? Peço ajuda em silêncio? Com que palavras? Sinto que é Deus que me ajuda? Como? Ou será que quando me lembro de uma “possível ajuda” de Deus, consigo começar a agir, a fazer coisas? E assim sou eu que ajudo Deus a existir?  Na minha vida, na vida com outros e outras.

No dia 16 de março, dia em que comecei a escrever este artigo, li a seguinte frase no meu calendário litúrgico, dedicado ao São Gerardo Majella[v]: “Tu não precisas de salvar o mundo: basta estares presente ao teu próximo e ao Criador”. Há pouco saí, encontrei a minha vizinha na rua. Com um saco pesado para ir levar sopa sem sal a uma amiga doente. Ajudei-a a entrar no táxi. Lembrei-me depois desta frase no meu calendário. E lembrei-me de Deus, ajudei-O a existir?

Calendário litúrgico, dedicado a São Gerardo Majella. Foto: Direitos reservados

Estar presente ao próximo. Penso nisto enquanto estou a preparar uma oração de Quaresma para um encontro de oração com a comunidade Graal via zoom no dia 25 de março. Resolvi voltar aos livros de Huub Oosterhuis, teólogo e poeta neerlandês. Oosterhuis é conhecido principalmente pela sua contribuição para a música e a liturgia.

Partilho um dos primeiros poemas dele, inspirado no Salmo 126 (125), musicado e cantado nas igrejas protestantes e católicas há décadas:

Quando Deus nos liberta da escravatura
será um sonho…
Cantaremos e seremos felizes.
E o mundo dirá “o seu Deus faz maravilhas”.
Leva-nos para casa, devolve-nos à  vida
como rios no deserto que voltam a correr quando chove.
Quem semeia com tristeza irá colher com alegria
Seguimos o caminho com lágrimas,
voltaremos a cantar com os nossos feixes.

Os livros dele já estão num monte numa mesa, à espera de viajarem comigo.

Livros de Huub Oosterhuis. Foto: Direitos reservados

Quando li o poema “Duas ou três”, pensei na nossa comunidade Graal, e no como é possível viver sozinha sem estar sozinha:

Sozinha também é possível
mas duas é melhor
duas ou três
ou doze
ou sete vezes sete
coesas
É isto que se sente, estar com
muitas, segurança –
o orvalho desce das montanhas altas
no sol do amanhecer.
Conhecem-se umas às outras
Tu sabes onde pertences. És abençoada.
É assim no mundo novo que há de vir.

In: Wie bestaat (Quem existe), 2008, p. 25

 

E quando li no mesmo livro de Huub Oosterhuis o poema “Velha e muito velha” lembrei-me de uma amiga americana com quem trabalhei há muitos anos num encontro internacional do Graal em Louisiana. Era de origem indiana, com uma espiritualidade muito centrada na compreensão das almas. Dizia-me: “Tu és uma alma nova.”

Sinto a Luz entrar na minha alma, ao ler o poema “Velha e muito velha”:

A minha alma é tão nova
como no dia
em que foi criada
sim e ainda mais nova
eu digo te
teria vergonha
se ela amanhã
não for mais nova
do que hoje

In: Wie bestaat (Quem existe), 2008, p. 71

 

 

Marijke de Koning, neerlandesa, trabalhou como pedagoga social e educadora de adultos, predominantemente no contexto do Graal, movimento internacional de mulheres enraizado na fê Cristã.

 

(Com muita gratidão às amigas que corrigiram o português: Ana Oom (poemas) e Glória Miraldes (texto).

Notas:
[i] In: https://www.arquivopintasilgo.pt
Pasta: 0258.010 Título: TECNOLOGIA E ÉTICA Autor: [Maria de Lourdes Pintasilgo]
Âmbito e Conteúdo:
 Comunicação sobre tecnologia e o comportamento ético, em torno da utilização da energia atómica para fins pacíficos, relação entre ciência e tecnologia, sociedade mediatizada pela técnica, literacia científica e tecnológica, contributo da comunidade científica para o desenvolvimento económico e social, desigualdades entre Norte e Sul, sobrevivência do planeta e a mudança para o paradigma de limites.
[ii] In: Caderno com textos manuscritos, 1/10/2023
[iii] NOS NEDERLAND KIEST: HET DEBAT, 17 de Março-80 min.
[iv] Harry Kunneman. Voorbij het dikke ik: Bouwstenen voor een kritisch humanisme. (Além do eu gordo: elementos para um humanismo crítico), Humanistic University Press, 2005.
[v] O principal calendário associado a São Gerardo Majella (Gerardus Majella) centra-se no seu Tríduo e Peregrinação anual, geralmente realizado em meados de outubro na paróquia H. Gerardus Majella em Zuidoost Twente (Países Baixos), incluindo missas, procissões e momentos de oração.

 

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