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Refugiados acolhidos na paróquia da Sagrada Família, na cidade de Gaza, participam na missa diariamente. Foto Direitos reservados
Dezenas de refugiados acolhidos pela paróquia da Sagrada Família, na cidade de Gaza, participam na missa desta terça-feira, 13 de maio. Foto: Direitos reservados

Pároco Gabriel Romanelli

Entre a fome e a depressão, em Gaza reza-se para que os apelos de Leão XIV sejam ouvidos

| 15/05/2025

Sentem a falta dos telefonemas quase diários do Papa Francisco, mas ficaram “muito felizes e também impressionados” pelo facto de o Papa Leão XIV ter insistido tanto na necessidade de paz nestes primeiros dias do seu pontificado. Apesar do enorme sofrimento em que vivem devido à guerra e ao bloqueio da ajuda humanitária, os cristãos em Gaza não perdem a esperança de em breve poderem reconstruir as suas vidas na terra que é também sua, partilha o padre Gabriel Romanelli, que tem acompanhado a população.

No dia da eleição do cardeal Robert Prevost, recorda em declarações ao Vatican News, “estávamos juntos, católicos e ortodoxos, na igreja, e todos os presentes entenderam que ele trazia a paz no coração”. “O Papa Prevost falou de paz para todos, e isso também se aplica a nós”, sublinha o pároco da Sagrada Família na Cidade de Gaza, para quem Francisco ligava quase sempre ao anoitecer, a saber como estava a comunidade e a assegurar a sua oração. “A palavra — lembra o padre — tem um poder especial. É verdade que precisamos que o apelo do Santo Padre aos poderosos do mundo seja posto em prática e que esta guerra seja interrompida. Mas a palavra tem uma força espiritual, uma força de consolação. Nós a experimentámos ao longo desta guerra.”

A situação é terrível, reconhece: “Aqui temos tantos refugiados. Os jovens jogam futebol, outros cantam durante as funções religiosas e a Missa. É uma vida ‘normal’, mas pontuada por bombardeamentos” e, para piorar, há a fome. “Dividimos e partilhamos tudo o que temos aqui entre nós, com os 500 refugiados e com nossos vizinhos, mas há um mês nada entra na Faixa de Gaza”, lamenta. Além da fome e da desnutrição que se intensificaram significativamente desde que o acesso à ajuda foi cortado a 2 de março, preocupa-o também o estado mental da população. “As pessoas caem em depressão. Elas veem que ninguém as protege ou as encoraja dizendo: ‘Sim, vocês têm o direito de viver aqui e permanecer na vossa terra’”.

A libertação do último refém israelita, que aconteceu na terça-feira, 13 de maio, poderia representar “o começo do fim desta guerra”. “Soubemos também que várias delegações estavam a reunir-se para discutir um novo cessar-fogo. Isso – continua ele – é absolutamente necessário. É absolutamente necessário que todos os reféns sejam libertados, que a ajuda humanitária chegue e que a guerra termine. Precisamos de começar a dar a esta população de mais de dois milhões de pessoas a oportunidade de reconstruir as suas vidas, aqui, na sua própria terra.”

Os últimos acontecimentos, no entanto, não são animadores. Pelo menos 79 pessoas morreram na madrugada desta quinta-feira em Gaza, 53 das quais na cidade de Khan Yunis, em bombardeamentos israelitas à Faixa de Gaza, segundo fontes hospitalares. Foi a segunda noite consecutiva de bombardeamentos de grande intensidade.

 

Conselho de Segurança tem de parar “a atrocidade do Século XXI”

Ocha Olga Cherevko O chefe de assistência humanitária da ONU, Tom Fletcher, visita o norte de Gaza

O chefe de assistência humanitária da ONU, Tom Fletcher, durante uma visita ao norte de Gaza. Foto © Ocha/Olga Cherevko 

O subsecretário-geral da ONU para a Assistência Humanitária, Tom Fletcher, falou na terça-feira aos membros do Conselho de Segurança sobre a situação em Gaza e perguntou-lhes se conseguiam imaginar o que dirão às gerações futuras sobre as decisões que tomaram sobre aquilo que está a acontecer.

Para Tom Fletcher, não restam dúvidas: “Israel está a impor deliberada e descaradamente condições desumanas aos civis no Território Palestino Ocupado” e o grupo tem o poder de deter “a atrocidade do Século XXI, testemunhada diariamente em Gaza”.

O pedido de Fletcher aos membros do Conselho de Segurança é que possibilitem que os profissionais humanitários voltem a trabalhar, retomando a ajuda, em larga escala, de formas neutra, imparcial e independente.

Assegurando que a ONU dispõe de suprimentos vitais prontos nas fronteiras e mecanismos rigorosos para garantir que a ajuda “chegue aos civis, e não ao Hamas”, o chefe humanitário assinalou que a proposta de Israel para entrega de ajuda não é a solução, pois “condiciona o auxílio a objetivos políticos ou militares”. Segundo ele, o modelo exclui muitas pessoas, força mais deslocamento e expõe milhares de palestinos a danos e riscos. Fletcher revelou ainda que a ONU teve 12 reuniões com as autoridades de Israel para discutir o plano, que descreveu como um “espetáculo cínico e distração deliberada”.

E recordou casos anteriores de graves violações dos direitos humanos e do direito humanitário, como o de Myanmar em 2019, Sri Lanka em 2012, e Srebrenica e Ruanda, ambos em 1999. Fletcher enfatizou que a revisão de todos esses casos apontou a falha coletiva pela falta de posicionamento contra as violações enquanto estas eram cometidas.

Para Fletcher, trata-se de uma “degradação do direito internacional”, que “é corrosiva e infecciosa” e está a abalar décadas de progresso nas regras para proteger os civis da desumanidade e da violência.

Nesta quarta-feira, em audiência com cinco mil pessoas na Ala Paulo VI por ocasião do Jubileu das Igrejas Orientais, Leão XVI fez mais um apelo pelo silêncio das armas: “os povos querem a paz, e eu, com o coração na mão, digo aos líderes das nações: encontremo-nos, dialoguemos, negociemos!”.

Passaram já 19 meses de guerra, a população está confinada a 30% do território e há dez semanas não recebe comida, água, medicamentos ou tendas.  A violência continua a aumentar na Cisjordânia, onde a situação é a “pior em décadas”, afirma Fletcher.

“É por isso que esperamos que a oração e o apelo do Papa Francisco e agora do Papa Leão XIV sejam verdadeiramente ouvidos para o bem de todos, pela paz entre israelenses e palestinianos, pelo futuro de todos e especialmente das gerações mais jovens”, conclui o padre Romanelli. “Temos tantas crianças aqui, adolescentes para os quais a guerra é uma parte essencial de suas vidas. Não podemos permitir que isso continue.”

 

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