Sentem a falta dos telefonemas quase diários do Papa Francisco, mas ficaram “muito felizes e também impressionados” pelo facto de o Papa Leão XIV ter insistido tanto na necessidade de paz nestes primeiros dias do seu pontificado. Apesar do enorme sofrimento em que vivem devido à guerra e ao bloqueio da ajuda humanitária, os cristãos em Gaza não perdem a esperança de em breve poderem reconstruir as suas vidas na terra que é também sua, partilha o padre Gabriel Romanelli, que tem acompanhado a população.
No dia da eleição do cardeal Robert Prevost, recorda em declarações ao Vatican News, “estávamos juntos, católicos e ortodoxos, na igreja, e todos os presentes entenderam que ele trazia a paz no coração”. “O Papa Prevost falou de paz para todos, e isso também se aplica a nós”, sublinha o pároco da Sagrada Família na Cidade de Gaza, para quem Francisco ligava quase sempre ao anoitecer, a saber como estava a comunidade e a assegurar a sua oração. “A palavra — lembra o padre — tem um poder especial. É verdade que precisamos que o apelo do Santo Padre aos poderosos do mundo seja posto em prática e que esta guerra seja interrompida. Mas a palavra tem uma força espiritual, uma força de consolação. Nós a experimentámos ao longo desta guerra.”
A situação é terrível, reconhece: “Aqui temos tantos refugiados. Os jovens jogam futebol, outros cantam durante as funções religiosas e a Missa. É uma vida ‘normal’, mas pontuada por bombardeamentos” e, para piorar, há a fome. “Dividimos e partilhamos tudo o que temos aqui entre nós, com os 500 refugiados e com nossos vizinhos, mas há um mês nada entra na Faixa de Gaza”, lamenta. Além da fome e da desnutrição que se intensificaram significativamente desde que o acesso à ajuda foi cortado a 2 de março, preocupa-o também o estado mental da população. “As pessoas caem em depressão. Elas veem que ninguém as protege ou as encoraja dizendo: ‘Sim, vocês têm o direito de viver aqui e permanecer na vossa terra’”.
A libertação do último refém israelita, que aconteceu na terça-feira, 13 de maio, poderia representar “o começo do fim desta guerra”. “Soubemos também que várias delegações estavam a reunir-se para discutir um novo cessar-fogo. Isso – continua ele – é absolutamente necessário. É absolutamente necessário que todos os reféns sejam libertados, que a ajuda humanitária chegue e que a guerra termine. Precisamos de começar a dar a esta população de mais de dois milhões de pessoas a oportunidade de reconstruir as suas vidas, aqui, na sua própria terra.”
Os últimos acontecimentos, no entanto, não são animadores. Pelo menos 79 pessoas morreram na madrugada desta quinta-feira em Gaza, 53 das quais na cidade de Khan Yunis, em bombardeamentos israelitas à Faixa de Gaza, segundo fontes hospitalares. Foi a segunda noite consecutiva de bombardeamentos de grande intensidade.
Conselho de Segurança tem de parar “a atrocidade do Século XXI”

O chefe de assistência humanitária da ONU, Tom Fletcher, durante uma visita ao norte de Gaza. Foto © Ocha/Olga Cherevko
O subsecretário-geral da ONU para a Assistência Humanitária, Tom Fletcher, falou na terça-feira aos membros do Conselho de Segurança sobre a situação em Gaza e perguntou-lhes se conseguiam imaginar o que dirão às gerações futuras sobre as decisões que tomaram sobre aquilo que está a acontecer.
Para Tom Fletcher, não restam dúvidas: “Israel está a impor deliberada e descaradamente condições desumanas aos civis no Território Palestino Ocupado” e o grupo tem o poder de deter “a atrocidade do Século XXI, testemunhada diariamente em Gaza”.
O pedido de Fletcher aos membros do Conselho de Segurança é que possibilitem que os profissionais humanitários voltem a trabalhar, retomando a ajuda, em larga escala, de formas neutra, imparcial e independente.
Assegurando que a ONU dispõe de suprimentos vitais prontos nas fronteiras e mecanismos rigorosos para garantir que a ajuda “chegue aos civis, e não ao Hamas”, o chefe humanitário assinalou que a proposta de Israel para entrega de ajuda não é a solução, pois “condiciona o auxílio a objetivos políticos ou militares”. Segundo ele, o modelo exclui muitas pessoas, força mais deslocamento e expõe milhares de palestinos a danos e riscos. Fletcher revelou ainda que a ONU teve 12 reuniões com as autoridades de Israel para discutir o plano, que descreveu como um “espetáculo cínico e distração deliberada”.
E recordou casos anteriores de graves violações dos direitos humanos e do direito humanitário, como o de Myanmar em 2019, Sri Lanka em 2012, e Srebrenica e Ruanda, ambos em 1999. Fletcher enfatizou que a revisão de todos esses casos apontou a falha coletiva pela falta de posicionamento contra as violações enquanto estas eram cometidas.
Para Fletcher, trata-se de uma “degradação do direito internacional”, que “é corrosiva e infecciosa” e está a abalar décadas de progresso nas regras para proteger os civis da desumanidade e da violência.
Nesta quarta-feira, em audiência com cinco mil pessoas na Ala Paulo VI por ocasião do Jubileu das Igrejas Orientais, Leão XVI fez mais um apelo pelo silêncio das armas: “os povos querem a paz, e eu, com o coração na mão, digo aos líderes das nações: encontremo-nos, dialoguemos, negociemos!”.
Passaram já 19 meses de guerra, a população está confinada a 30% do território e há dez semanas não recebe comida, água, medicamentos ou tendas. A violência continua a aumentar na Cisjordânia, onde a situação é a “pior em décadas”, afirma Fletcher.
“É por isso que esperamos que a oração e o apelo do Papa Francisco e agora do Papa Leão XIV sejam verdadeiramente ouvidos para o bem de todos, pela paz entre israelenses e palestinianos, pelo futuro de todos e especialmente das gerações mais jovens”, conclui o padre Romanelli. “Temos tantas crianças aqui, adolescentes para os quais a guerra é uma parte essencial de suas vidas. Não podemos permitir que isso continue.”










