Entre a Mata das Camarinhas e a greve do clima

| 20 Set 19

Mata das Camarinhas. Foto © Teresa Vasconcelos

 

Percorro diariamente, mais uma vez, a Mata das Camarinhas[1], entre Moledo e Caminha – um ritual de final de mês de Agosto que repito todos os anos.

Experimento aqui uma profunda comunhão com a natureza, com o mistério, como se entrasse numa catedral Descubro-me balbuciando “Laudato Sí’” enquanto os meus pés calcam as agulhas dos pinheiros sobre o terreno bem arenoso – esta mata borda o mar até à foz do rio Minho. Caminho como quem venera. Dou graças à criação de Deus por este pequeno bem comum. Os fetos a começar a ficar secos, deixam passar o verde brilhante das folhas das camarinhas – as bagas parecidas com pérolas brancas, tão saborosas e refrescantes, já foram apanhadas e consumidas. Mas o cheiro, tão especial, permanece. Encho os pulmões deste fino odor, escuto o mar ao longe e continuo o caminho.

Paralela à mata, a estrada nacional. E, depois a montanha. Os incêndios lá no alto têm assustado os caminhenses e os moledenses (e esta minhota de raiz que sou eu) tal o receio de que haja um incêndio na “nossa” mata das camarinhas, uma das mais belas do país. A comunicação social tem vindo a falar dos gravíssimos incêndios na Amazónia e uno-me em pensamento à preparação do Sínodo dos Bispos sobre aquela região. Mas também receio por esta pequena “amazónia” ibérica por onde caminho.

A ONU prevê a deslocação de mil milhões de pessoas em virtude das alterações climáticas. Relembro o relatório “Cuidar o Futuro”(1998)[2] recentemente reeditado. Já lá vão mais de 20 anos e está quase tudo por fazer. Alguma coisa tenho mudado no meu estilo de vida já bastante frugal. Aprendi nos países africanos como se pode poupar água, um bem que se vai tornando escasso. A roupa em segunda mão pode não ser última moda mas pode ser ainda mais bela. Cada vez uso mais os transportes públicos. Até nas férias! Se posso, vou às manifestações pelo clima, nomeadamente juntando-me aos jovens. Mas é tão pouco!

Que fazemos nos colectivos em que vivemos? Na família? Na paróquia? Com os grupos de amigos? Enquanto professora formadora de professores pergunto: nas escolas, estamos a aproveitar a chamada “flexibilização curricular” para induzir os alunos no cuidado com o planeta? Na pura contemplação da natureza? As crianças, em geral, são espontaneamente sensíveis à natureza e são as primeiras a planear o que se pode fazer para preservar o planeta: em muitos jardins de infância separam-se os lixos, poupa-se a água e são as próprias crianças a interpelar os adultos (pais ou educadores) se nos “esquecemos” do compromisso com o planeta.

Retomo o meu deambular pela mata das camarinhas. Usufruo em plenitude o momento mas ligo-me àqueles e aquelas que incansavelmente nos desafiam com ações pelo planeta. Já em Lisboa integro-me na semana que agora começa. Será que conseguimos ser muitos e fazer o que a criação nos pede? Deus e o Espírito estejam presentes em nós.

Mata das Camarinhas. Foto © Teresa Vasconcelos

 

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e membro do Graal –  Movimento Internacional de Mulheres Cristãs.

Contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

Notas

(1) Camarinha ou camarinheira é uma planta que se desenvolve especialmente península ibérica. As flores passam quase despercebidas, sendo a sua polinização assegurada pelo vento. A ramagem liberta uma intensa e espetacular fragância a mel (dos Deuses). Os frutos surgem em pleno Agosto e Setembro, pequenas bagas brancas e suculentas, semelhantes a pérolas, comestíveis, constituindo um alimento para animais silvestres e …pessoas atentas.

(2) Comissão Independente População e Qualidade de Vida, 1998, presidida por Maria de Lourdes Pintasilgo.

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