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Entre a Solidariedade e o Esquecimento

| 20/04/2022

sem abrigo pobreza foto daniel zgombic

“Não podemos ignorar os que sempre tivemos quase ao nosso lado e não passam de sombras humanas com as quais não conseguimos criar empatia, mas também precisam, e muito, da nossa ajuda.” Foto © Daniel Zgombic.

 

Neste presente e passado recente de cerca de dois anos, temos vindo a ser dominados pelo medo. Primeiro a pandemia; agora, sem que a doença tenha passado, embora tenha deixado de ser relatada e noticiada, esta guerra (apesar de tantas outras guerras e vítimas delas terem a vida também parcialmente amputada) que nos traz pessoas que, com naturalidade, ajudamos.

Muitos andávamos esquecidos daqueles que, por terem formas de existir diferentes e geografias mais longínquas, pareciam merecer menos a nossa atenção e até precisar menos do nosso apoio. Era fácil deixá-los à sua sorte e, apenas, esperar que os poucos dedicados resolvessem os problemas que nos iam passando ao lado porque não nos sentíamos chamados a intervir ali. Muitos fizemos isso, mas, presentemente, estamos envolvidos com aqueles que são mais parecidos connosco.

Agora olhamos para as vidas totalmente construídas que tudo deixaram para trás para salvar o corpo; conhecemos histórias de horror que podiam ser as nossas e se diluíram num abrir e fechar de olhos; compadecemo-nos e desabamos ao olhar imagens de tremenda violência que a todos ameaçam; queremos ajudar, o melhor que sabemos e podemos, a quantos, de algum modo, nos tocam mais de perto, “vá-se lá saber porquê”. Entretanto, o Estado e múltiplas organizações não governamentais vão criando soluções mais ou menos permanentes para os que tudo perderam, dizendo que não há limites para receber refugiados e para os apoiar, como se, atualmente, só estas pessoas em sofrimento existissem.

Precisamos de nos organizar. Tem de haver ainda mais regras para o que fazemos pelos que agora nos chegam, já que também não podemos ignorar os desfavorecidos de sempre que são da nossa nacionalidade, vivem por perto, falam e sempre falaram a nossa língua. Desses, alguns de nós, onde claramente me incluo, temos andado mesmo distraídos, apesar de, às vezes, parecer que não.

Para os que agora vêm, temos, e bem, os braços abertos e a disponibilidade ativada. Entregamos tudo o que conseguimos em prol de caminhos de esperança que queremos ver, de novo, percorridos por estes a quem quiseram matar os sonhos, mas não podemos ignorar os que sempre tivemos quase ao nosso lado e não passam de sombras humanas com as quais não conseguimos criar empatia, mas também precisam, e muito, da nossa ajuda.

Dito isto, penso que todas as ajudas são poucas e todas as ajudas são louváveis. Isso é inquestionável. Precisamos, contudo, de rever aquilo para que, antes desta guerra, não tínhamos olhado com a devida atenção. É que a solidariedade que temos mostrado ativa-se forte e instantaneamente para responder ao que em nós tem impacto, mas, pouco a pouco, vai-se reduzindo não por maldade ou deliberação, mas porque o estímulo que a desencadeia deixa de ser tão ameaçador e tão surpreendente. É uma questão de sobrevivência e de capacidade de suportar a própria vida.

Também os meios de comunicação social, numa rigorosa “caça” a audiências, mandam jornalistas para lugares de risco “só” para que possam transmitir imagens extraordinárias de momentos escaldantes e demolidores e sempre assim tem sido. Sim. Homens e mulheres deslocados vão arriscar as suas vidas desnecessariamente, diria eu. E porque digo isto? Porque, na realidade, apesar de precisarmos de estar informados, há imagens e narrativas às quais apenas deveríamos, na minha opinião, ter acesso quando fossem somente História, e não antes; há reportagens que eram escusadas, pois só exibem o sofrimento de cada coração em cada momento; há entrevistas que, em meu parecer, nunca deviam ter sido feitas, pois quase tocam a fronteira da (in)dignidade humana; há contínuas repetições, ou quase, que visam somente justificar a permanência naqueles terrenos.

Será que merece a pena expor-se a tanto perigo? Na verdade, a saúde mental de cada um não beneficia por ver mísseis descontrolados ou bombardeamentos absolutamente fortuitos; por ouvir toques de sirenes e rostos apavorados; por olhar casais e pais e filhos a separarem-se; por perceber nas vozes dos repórteres uma pseudo-serenidade que não conseguem disfarçar, porque, humanamente, isso não é possível. Informar em busca de audiências não é cuidar do bem-estar das pessoas. Eu sei que os jornalistas estão a cumprir as suas missões como podem, sabem e lhes mandam, mas parece-me que deveria haver uma boa articulação para que, em vez de cada meio de informação querer ser o primeiro a fazer chegar certo espetáculo de horror, estivessem em teatro de guerra apenas o menor número de pessoas e o menor tempo possível, de forma rotativa pelos diferentes média, para que corressem riscos calculados e não se defrontassem, consequentemente, com traumas prolongados que podem vir a ser difíceis de resolver. Assim, as suas informações seriam, depois, passadas para todos de modo que todos as pudessem difundir de acordo com os próprios critérios. Naturalmente esta é uma visão idealista da realidade e, provavelmente, pouco passível de ser concretizada, mas a cooperação entre os média talvez ajudasse a que menos perigo houvesse para cada repórter e contribuísse de forma significativa para o equilíbrio psicológico e emocional de toda a população.

Humildemente sei que nada sei sobre a arte de fazer notícia e, por isso, respeito o trabalho de quem as faz com rigor e zelo. Contudo, o impacto que estas têm em quem as consome e a adição que geram, que é como quem diz, a falta de controlo sobre o ver e o escutar mais e mais, faz-me desejar que pudesse haver uma menor exposição.

Neste texto de retalhos, quero ainda refletir um pouco sobre o muito que se debate acerca das personalidades de quem faz a guerra, não no terreno, naturalmente, mas no comando maior das ideias e das decisões.

Há uma tendência natural para atribuir rótulos que pareçam clarificadores e que descansem quem, ao achar que percebe do que se trata, julga poder dominar a sua compreensão da realidade e tomar partido só porque tem uma grelha de leitura correta do que se passa ao seu redor.

Sim. Todos nós, pelo menos os que estamos ligados à saúde mental, espontaneamente, vemo-nos a comentar os presidentes dos dois países envolvidos e as suas personalidades, numa lógica de anteciparmos o que pode acontecer em seguida. No entanto, ainda que nos pareça relativamente fácil dizer de cada um o seu diagnóstico, creio ser muito mais útil conhecer, a partir do que vemos e ouvimos, os seus traços predominantes. Deixemo-nos, pois, de rótulos para vermos com limpidez aquilo de que cada um é potencialmente capaz, seja em termos de horror e de destruição, do lado dos invasores; seja em termos de resistência, dignidade e mobilização, do lado do país invadido.

E, agora, individualmente, façamos tudo o que estiver ao nosso alcance para promover a paz. Eu sei que, obviamente, parece, perante certas notícias e atitudes, que pouco ou nada depende de nós, mas isso não é verdadeiro. Cada um deve ir investindo na construção da consciência, da sua missão e não se demitir só porque apenas pode assinar uma petição ou ter uma conversa ou viabilizar um contacto. Tudo o que cada eu puder fazer por cada outro é para ser feito. A vida é um puzzle e ninguém pode demarcar-se desse todo ao qual pertence, ainda que a peça que representa tenha, aparentemente, uma mínima dimensão.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt

 

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