Entre cristianismo e colonialismo – A última batalha de Magalhães

| 28 Set 19

Mural no Altar da Liberdade, em Mactan (Cebu, Filipinas), representando o momento em que Lapu Lapu vai matar Fernão de Magalhães. Foto © Carlos Picassinos[/caption]

 

A batalha é tremenda. O campo aberto, a violência instintiva. Ao centro, a cabeça quase perdida do soldado inclina-se perante a iminente estocada do nativo. A cabeça não cede, porém. A estocada não vem. Mas é neste quase, no imobilismo pictórico do grande mural do Altar da Liberdade, em Mactan, sobre a derrota dos espanhóis, a 27 de Abril de 1521, que reside o dilema das Filipinas. Quando se assinalam os 500 anos do início da viagem de circum-navegação (20 de Setembro de 1519), pode perguntar-se: que fazer de Magalhães? Celebrar o evangelizador ou disparar sobre a colonização?

 

“Ah Magallanes é português?!” Maria, e o filho Michael, passeiam sob o sol do meio dia no Altar da Liberdade. É um perímetro com aspecto de Luna Parque ajardinado, onde se ergue a estátua de bronze do chefe nativo Lapu Lapu, o obelisco oitocentista de Magalhães, além do mural examinado por Maria e o filho Michael.

“Pensávamos que era espanhol!!”, largam uma gargalhada ingénua perante o óbvio equívoco histórico. Equívoco sim, óbvio nem por isso. No jardim, as placas informativas sobre os acontecimentos de há quinhentos anos são pouco mais que laudatórias. Em nenhum local referem o nascimento do português, apenas a morte. “Neste lugar, morreu a 27 de Abril de 1521 ferido num encontro com soldados de Lapu Lapu”, o chefe de Cebu, recordado na estátua cintilante do novo herói nacional.

“Ah Magallanes é português?!” Maria, e o filho Michael, no Altar da Liberdade, em Mactan, (Cebu, Filipinas) riem com a descoberta. Foto © Carlos Picassinos

 

Nação e devoção

Aqui, Magalhães toma o nome inglês Magellan ou o castelhano Magallanes, se alguém sequer reparar numa das faces daquele obelisco mandado erigir, em 1866, nos últimos anos do reinado, por Isabel II a esse “Hernan de Magallanes”, pelas “glórias de Espanha”.

Mas conhecer as origens nacionais do navegador é pouco mais do que uma curiosidade ou uma bizarria, para quem decida deslocar-se a Punta Engano, na periferia de Macatan, o ilhote em frente a Cebu. Ou uma peregrinação íntima. Sobretudo para católicos ou amantes de história. São precisas horas de desespero para suportar o trânsito dos jeepney – o transporte público colectivo, herança americana da II Guerra Mundial – que, como insectos, devoram a estrada larga.

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