Entre Margens

Apesar de tudo, a liberdade

Sinto a doença à minha volta e à volta dos meus. E, nesta reclusão involuntária, lembro-me de Trujillo e de suas altas torres. Não de todas, mas de uma que, na sua delgada altivez, se assumiu como mirante.

Uma experiência de sinodalidade – a Igreja Católica no Terceiro Milénio

Há dias, chamou-me à atenção, no 7MARGENS, um artigo intitulado Um sínodo sobre a sinodalidade para dar eficácia à ideia de participação. Li o artigo com entusiasmo, sobretudo, porque revivi a minha experiência de paroquiana numa igreja da cidade de Lisboa. Foram tempos de Alegria e Graça, os anos de 2000 a 2019, sob a “batuta” do padre e cónego Carlos Paes.

“Jesus chorou”

Esta frase do capítulo 11 do Evangelho de São João (Jo.11,35), faz parte do episódio da ressurreição de Lázaro e remete para o momento em que Jesus se encontra com Maria, irmã de Lázaro.

Oração, cidadania e solidariedade contra a pandemia

Esta sexta-feira, às 17h (hora de Lisboa), o Papa volta a estar em oração a partir do adro da basílica de São Pedro, perante uma praça vazia, naquela que será seguramente uma das imagens mediáticas que registarão este período difícil da humanidade.

O Sétimo Selo 2.0

A pandemia de covid-19 parece ser a nova peste negra da Idade Média. Se antes a Igreja aterrorizava os fiéis com o inferno, agora correm o risco de despersonalização através do isolamento social.

Covid-19: por que meter Deus ao barulho?

As pessoas religiosas têm tipicamente dois tipos de atitudes perante a tragédia da covid-19. Em primeiro lugar, os mais fanáticos chegam a defender que é um castigo de Deus (a ministra da Defesa do Zimbabué disse-o há dias). O problema é que, nesse caso, estamos perante uma inconsistência ou contradição lógica básica. Pois, suponha-se para fins argumentativos que há Deus e que a covid-19 é um castigo de Deus.

Sabemos (con)viver com a (fr)agilidade?

Vivemos um tempo singular. Somos, mais do que nunca, chamados a fazer sobressair, em nós próprios, aquilo que nos faz verdadeiramente pessoas: o cuidado que devemos uns aos outros, como a atitude de quem olha para os outros como espelho de si mesmo, a visão do próximo como aquele que é genuinamente diferente, numa diferença que se completa e nos torna verdadeiramente semelhantes na alteridade, unidos no essencial: a nossa dignidade de seres humanos, ao mesmo tempo únicos e (inter)dependentes uns dos outros.

“Vemos, ouvimos e lemos…”

Num tempo de medo e de incerteza pela ameaça do novo coronavírus, importa não perder a cabeça fria. Com afirmou José Gil há dias, a lição que estamos a ter deve preparar-nos para o tema da salvaguarda do Planeta e da Humanidade. A exortação apostólica pós-sinodal do Papa Francisco é, assim, de leitura obrigatória.

A Guiné Bissau e o futuro incerto

Estava em Bissau dia 27 de fevereiro a participar numa missão da ONGD Afetos com Letras, quando Umaro Sissoco Embaló, tomou posse como Presidente da República, sem que houvesse decisão do Supremo Tribunal de Justiça a um recurso interposto por Domingos Simões Pereira, o outro candidato, por alegadas irregularidades eleitorais.

A vez do teletrabalho?

Há males que vêm por bem. Talvez esta seja uma grande oportunidade para encarar a sério a questão do teletrabalho, nas profissões e funções que o permitam. E depois há imensas vantagens para todos mas, entre outras medidas, isso passa por baixar significativamente os custos do acesso à internet para todos os cidadãos.

Em tempo de Covid-19

Hesitei no título que haveria de dar a este artigo; pensei na alternativa: “Afinal quem é o homem do século XXI?” Poderia dizer: esse deslumbrado, contaminado pela pressa, controlador de tudo em nome da sua total autonomia, da liberdade que quer levar ao extremo, da autodestruição omnipotente, do ridículo sabor de querer ser Deus.

Uma questão de justiça

A Universidade de Georgetown, de Washington, realizou um estudo que pretende contabilizar a ação da Igreja Católica no âmbito da promoção social (saúde, educação, combate à pobreza, etc.) no mundo inteiro.

A experiência da vulnerabilidade

A situação que presentemente vivemos com o Covid-19 preocupa-nos, angustia-nos e faz-nos pensar na fragilidade das nossas vidas, levando-nos a viver na carne a experiência da vulnerabilidade. Aproveito a quarentena que nos foi imposta para reler algumas obras alusivas a situações catastróficas, nomeadamente aquelas que põem à vista o melhor e o pior da humanidade. Entre elas lembro, como particularmente significativo, o romance de Albert Camus, “A Peste”.

Religiões, vírus e responsabilidade de todos

Passou pouco mais de um mês sobre uma tertúlia em que se falou de media e religião, comunidade e fé, no arranque de um novo ano civil. Ouvíamos já os primeiros relatos de um novo vírus e as implicações da sua propagação na longínqua China.

Encanto e tristeza

Escrevo com vontade de pintar. É dessa possibilidade que construo esta crónica. Há dias recebi em nossa casa uma amiga que não via há algum tempo. Encontrámo-nos primeiro no meu ateliê de pintura…

Coronavírus? E os gafanhotos, pá?

Anda tudo concentrado nesta pandemia do coronavírus que pouca atenção se presta à praga de gafanhotos que começou na África Oriental e se propagou à China, ameaçando com uma crise alimentar sem precedentes.

A espiritualidade terá escapado à pastoral?

“A espiritualidade terá escapado à pastoral?” é a pergunta forte da teóloga canadiana Pierrette Daviau. Talvez seja verdade que a ação pastoral da Igreja que marcou o pós-Concílio em Portugal olhou com suspeita – e até com alguma rudeza – para âmbitos mais litúrgicos e espirituais.

O reconhecimento de um Justo

Passou recentemente nos cinemas o filme de Terrence Malick A Hidden Life (em português, Uma vida escondida). A tradução de hidden por “escondida” é simplista, pois a vida do personagem central do filme não é a de um homem que se esconde mas, sim, de alguém que paulatinamente vai percebendo a perversidade dos ideais nazis e a incompatibilidade dos mesmos com a fé cristã.

Lembrar as mulheres refugiadas

neste dia quero sobretudo lembrar (e perdoem-me todas as outras, nomeadamente as que são vítimas) as que não têm voz, aquelas que não engrossam as manifestações de rua ou o espaço da comunicação, mas que calam a revolta e sofrem em silêncio a razão da sua luta. Elas fazem parte dos mais de 70 milhões de pessoas forçadas a deixar as suas casas por motivos de guerra, perseguição, violência e violação aos direitos humanos.

O exemplo da “Brotéria”

Em 1965, quando a revista Brotéria passou a assumir-se como uma revista de cultura, inspirada na “grande abertura conciliar”, o padre Manuel Antunes, S.J. afirmou: “Procurando sentir e fazer sentir que somos de uma pátria e que ao seu sentido estamos ligados, a Brotéria não ignorará que o facto cultural, constituindo um sistema de valores suscetíveis de difundir-se, transcende as condições de espaço e duração.

Ainda de volta à eutanásia

Foi com alívio que vi serem aprovados, por maioria de votos, os cinco projectos-lei para despenalização da eutanásia, apresentados por cinco dos partidos com assento parlamentar. Do seu debate na Comissão de Direitos, Liberdades e Garantias, resultará um só diploma a votar no Parlamento. Aí se decide se terá ainda lugar, ou não, um referendo (espero que não).

Terrapatetismo

Os terraplanistas estão ao nível dos amantes dos extraterrestres. As pessoas têm direito às suas alucinações mas, por favor, sejam higiénicos, tirem a Bíblia e a religião do assunto.

A Justiça como bem-aventurança

Os nossos encontros diários ou a leitura de notícias são boas ocasiões para trazer situações que nos levam a questionar como vão a nossa consciência e sentido de compromisso. Poderíamos apelidar o binómio: consciência e compromisso, de sentido de justiça. A Teologia da Libertação procurou reafirmar a centralidade da justiça na denominada “opção preferencial pelos pobres”.

Bem-viver e bem-morrer

Ouvi há dias, na Antena 1, os meus amigos e afilhados de casamento, o Rogério e a Ana, sobre a doença com que ele se debate, a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica). Além de meu camarada de armas – estivemos os dois em Angola, na guerra –, o Rogério Santos, escritor e professor universitário da Católica, é um investigador inveterado da rádio, continuando a produzir livros e a manter brilhantemente no Facebook uma aturada história da rádio em Portugal, apesar da ELA.

A Baixa Pombalina vai ser dos turistas

Tem sido notícia que a Baixa Pombalina, em Lisboa, vai ficar quase sem carros, a não ser os dos residentes e pouco mais. Na verdade, ninguém contesta que o planeta tem de ser preservado, mas não com medidas pseudo-populistas ou apenas na moda, balofas e impensadas para a dimensão que têm.

Os cristãos a fazer “apagão” ao racismo e à discriminação

Em 2015, a catedral de Colónia, uma das catedrais mais representativas e proeminentes na Europa, tomou uma decisão para assinalar a sua recusa da intolerância extrema simbolizada, à época, pelo movimento Pegida (Plataforma contra a islamização da Europa), que daria origem à AfD, o partido de extrema-direita em ascensão na Alemanha. A decisão foi simples: apagar as luzes que, durante a noite, iluminavam esplendorosamente a catedral. A diocese católica de Colónia aderia, assim, ao movimento cujo mote era: “Sem luz para o racismo”.

Olhar a mulher com Alfredo Cunha

O Tempo das Mulheres, em exposição no Museu de Lisboa (Torreão Poente da Praça do Comércio) até 29 de março, oferece um conjunto de fotografias de mulheres com o comentário de Maria Antónia Palla. A objetiva de Alfredo Cunha percorreu diversas regiões do globo, diferentes épocas e vivências culturais. A exposição divide-se em quatro tempos: infância, juventude, idade adulta, e terceira idade; numa alusão aos tempos que percorrem a vida e se constituem como marcos da sua evolução.

Da eutanásia às Cinzas

Viveremos (os cristãos), nesta quarta-feira, a imposição das Cinzas, lindíssima celebração pela qual muitos cristãos (incluindo eu) têm verdadeira devoção, sejam quais forem as interpretações, significados pessoais (ou teológicos) desse gesto: para mim, é sagrado. Passada a Quarta-Feira de Cinzas iniciaremos a caminhada quaresmal.

Liberdade, igualdade, paternidade

Liberté, égalité, paternité – foi um slogan usado em manifestações contrárias à legislação em discussão no Parlamento francês, que vem permitir o acesso à procriação artificial fora do quadro de um casal composto por um homem e uma mulher e com propósito intencional de privar a criança a nascer da figura paterna.

Uma pedagogia ao serviço da paz e da não-violência

Suscitar nos jovens uma atitude de inconformismo, uma ação enérgica e um compromisso vital em prol da justiça, da paz e dos direitos humanos é não só um desafio fundamental, mas urgente. A paz há-de dar frutos se encetarmos uma verdadeira pedagogia da não-violência. Uma não-violência que, mais do que nunca, deverá derrubar os discursos do ódio, do racismo e da intolerância.

Hanau: isto não foi o Capuchinho Vermelho

De vez em quando, a morte passa-nos por perto. Hanau fica a trinta quilómetros de onde moro e é conhecida por ser a cidade natal dos irmãos Grimm, aqueles que compilaram contos populares alemães como o Capuchinho Vermelho ou a Branca de Neve. Muitos deles são histórias terríveis que eram contadas às crianças para ganharem a noção da maldade humana e não serem enganadas facilmente.

A lição de Merkel

As eleições de Outubro de 2019 na Turíngia, estado da antiga República Democrática Alemã, ditaram um resultado que se vislumbraria difícil de solucionar. A esquerda do Die Linke ganhou as eleições, seguida da direita radical da Alternativa para a Alemanha (AfD) e da União Democrata Cristã (CDU), de Angela Merkel. O Partido Social-Democrata (SPD), não foi além dos 8,2% e os Verdes e os Liberais (FDP) ficaram na casa dos 5%.

Maria e Marta – como compreender dois nomes num congresso mundial

Foi nesse congresso que, pela primeira vez, tive a explicação relativa a dois nomes, Maria e Marta, cujo significado fiquei de procurar, desde 1983, ano no qual nasceram as minhas primas Maria e Marta. O facto é que, quando elas nasceram, o meu avô materno, impôs que fossem chamadas por esses nomes. Despertou-me curiosidade a insistência, uma vez que já as chamávamos por outros nomes.

Sempre mais sós (Debate Eutanásia)

Reli várias vezes o artigo de opinião de Nuno Caiado publicado no 7MARGENS. Aprendi alguns aspetos novos das questões que a descriminalização da eutanásia ativa envolve. Mas essa aprendizagem não me fez mudar de opinião. Ao contrário do autor, não creio que a questão central da eutanásia agora em discussão seja a do sofrimento do doente em situação terminal. A questão central é a da nossa resposta ao seu pedido para que o ajudemos a morrer.

Opção pela morte?

Li recentemente, numa notícia na Ecclesia que “eutanásia e suicídio assistido não acabam com o sofrimento, acabam com uma vida”. Parece um slogan próprio de grandes marchas públicas. O autor (D. Nuno Almeida, bispo auxiliar de Braga) propõe que a Assembleia da República deve votar “não à eutanásia e suicídio assistido»”, porque se trata de uma “interrupção voluntária do amor e da vida”.

Eutanásia: Não podemos passar sem o referendo

Vemos, ouvimos e lemos o que se tem dito nestes dias sobre a eutanásia. Mas não vemos, não ouvimos, nem lemos argumentos sobre a essência da questão que está em cima da mesa. Trata-se, pura e simplesmente, de saber se devemos dar ao Estado a possibilidade de matar um cidadão alegadamente a pedido do próprio, em nome do seu próprio interesse individual.

O sofrimento como elemento axiomático da reflexão sobre a eutanásia

Após umas notas na página do 7MARGENS no Facebook, pedem-me para lhes dar forma de artigo a fim de poder ser publicado. Está bem. Por alguma razão, que não estará fora do entendimento de quem venha a ler estas linhas, lembrei-me de ir buscar à estante o disco Requiem for My Friend, do compositor contemporâneo Zbigniew Preisner. Há muito que penso que gostaria de o ter no meu funeral e, por maioria de razão, se algum dia eu for sujeito a eutanásia, no momento da passagem.

Eutanásia ativa: não, não creio!…

É possível e desejável auscultar os eleitores através de referendo sobre se consideram, ou não, que o tema deva ser objeto de legislação por parte da Assembleia da República durante esta legislatura. Assim se garantirá ao Parlamento a total legitimidade de que...

Eutanásia: Para que os que não vêem, vejam…

Foi elucidativo e frutuoso o diálogo entre a deputada Isabel Moreira, constitucionalista, e o padre José Nuno, porta-voz do Grupo Inter-Religioso Religiões-Saúde, levado a cabo pela TVI24, quinta-feira, 13 de Fevereiro, no Jornal das 8 (aqui um pequeno excerto; até às 20h do próximo dia 20 ainda é possível, para quem tem operador de televisão digital, ver o debate na íntegra).

Eutanásia, hora do debate

Seja qual for a posição de cada um, a reflexão e o debate sobre a eutanásia é uma exigência de cidadania e não uma discussão entre alguns, em círculo fechado, mesmo se democraticamente nos representam. Quando está em jogo o tipo de sociedade que desejo para os meus netos, não quero que outros decidam sem saberem o que penso.

“Qual é o mal de matar?”

A interrogação que coloquei como título deste texto foi usada por Peter Singer que a ela subordinou o capítulo V do seu livro Ética Prática. Para este filósofo australiano, a sacralidade da vida humana é entendida como uma forma de “especismo”, uma designação que ele aplica a todas as teorias que sustentam a superioridade da espécie humana.

Auschwitz, 75 anos: uma visão do inferno

O campo da morte de Auschwitz foi libertado há 75 anos. Alguns sobreviventes do Holocausto ainda nos puderam narrar o que lá sofreram, antes de serem libertados pelos militares soviéticos, em 27 de janeiro de 1945. Tratou-se de um indescritível inferno, um lugar onde toda a esperança morria ao nele se entrar. Onde cada uma das vítimas foi reduzida a um número, tatuado no braço. Dizia-se então, quando se entrava através de um portão com a frase “o trabalho liberta”, que de lá só se podia sair através do fumo de uma chaminé.

Eutanásia e liberdade individual

Muitas das reflexões sobre a legalização da eutanásia terminam defendendo a importância de se estender o acesso a cuidados paliativos. Notícias dos últimos dias davam conta de que 70% dos portugueses não têm acesso a este tipo de cuidados. Ora, eu começo por aí, defendendo o mesmo.

As entrevistas de Anselmo Borges, uma motivação para a reflexão

Conheci o padre Anselmo Borges através das suas crónicas, nos anos 1980. Lia as crónicas no jornal que estava sempre em cima de uma mesa na sala dos professores de uma escola secundária – na minha fase agnóstica – e achava-as surpreendentes. Com a lide profissional, doméstica e leituras, cinema, yoga, meditação, esquecia-o. Mas na semana seguinte, lá estava a ler a crónica de novo.

Mário Murteira, sócio-economista cristão: laicalidade na laicidade

Mário Murteira, falecido há poucos anos, era doutorado pelo hoje designado Instituto Superior de Economia e Gestão, e professor catedrático do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa; distinguiu-se como notável economista na segunda metade do século passado. Muito próximo do padre Manuel Antunes e integrado na corrente dos «católicos progressistas», que nunca exibiu, foi um verdadeiro economista social, no sentido mais amplo e exigente, com boa fundamentação filosófica e humanista.

O prisioneiro de consciência mais breve da história

A história que partilho de seguida é sobejamente conhecida. Tem cerca de dois mil anos, mas reflete uma atualidade bastante grande, pois tudo funciona, hoje, praticamente da mesma forma que na altura. É a história do prisioneiro de consciência mais breve da história.

Viver na Cidade

Há muita gente a viver na cidade mas, no entanto, poucos se dão ao trabalho de a escutar. O que implica não só que conheçamos a sua topografia, mas também que estejamos atentos à multiplicidade de gentes que a habitam e à diversidade de modos como o fazem. Porque a cidade é uma grande casa, que simultaneamente se nos apresenta como um lugar de convivência, de conflito e de solidão. É nas cidades que se traçam fronteiras entre pessoas…

Nossa Senhora da Boa-Morte

Descobri que “boa-morte” é a tradução literal e exacta de “eu-tanásia”. E mais: existe uma Santa Atanásia (=imortal) mas não conheço nenhuma Santa Eutanásia e muito menos Santa Tanásia (ou Santa Morte, que pelos vistos já não será tão bom…).

A História não é para mulheres

Há cem anos, uma jovem mulher sueca desembarcou em Belém do Pará, onde ajudou a construir a maior igreja pentecostal do país. Depois foi perseguida, internada num hospício e apagada da História.

Ecumenismo: Todos queremos o mesmo e todos somos importantes

Entre 18 a 25 de Janeiro de cada ano celebra-se a Semana pela Unidade dos Cristãos. Tenho o privilégio de viver naquela que muitos chamam a cidade do ecumenismo em Portugal – o Porto. Neste ano, na zona do Grande Porto houve orações quase todos os dias: todas aquelas em que participei foram co-presididas; alguém de uma Igreja fazia a leitura, de outra a oração dos fiéis, outra diferente da que recebe dirigia a homilia, etc. E em todas participaram fiéis e ministros de diferentes igrejas, com todo um calendário ecuménico apresentado para o resto do ano.

Quando o Papa pediu desculpa

1. A notícia reza assim. O Papa Francisco, de 83 anos, teve um encontro tenso com uma peregrina no último dia do ano de 2019, durante uma caminhada na Praça de São Pedro. A mulher, que não foi identificada, inesperadamente agarrou a sua mão e a puxou na sua direção, causando evidente alarme. Vê-se um Francisco claramente descontente, que se liberta dando umas palmadas no braço da mulher.

Transformar a economia social e solidária

As transformações profundas, às vezes silenciosas, com as quais as sociedades se confrontam – digitalização, automação, inteligência artificial, conceito de trabalho e relações laborais –, geram não só novos comportamentos, mas sobretudo novas formas de nos relacionarmos com o outro e com o mundo. À Economia Social (ES), não sendo imune a essa nova realidade, é-lhe também exigido que se transforme de modo a encontrar novas respostas sem que nessa procura e transformação perca a sua identidade.

Uma narrativa que nos constrói

Na Carta Apostólica Abriu-lhes o entendimento, o Papa Francisco institui uma nova celebração na liturgia: no terceiro Domingo do Tempo Comum, passa a celebrar-se o Domingo da Palavra de Deus. Apelando assim a que todos os fiéis criem o hábito de ler, refletir e rezar com a Bíblia, indo também ao encontro da prática de outras famílias cristãs como os ortodoxos ou protestantes, num ímpeto ecuménico que vem marcando o seu papado.

A grandeza do ínfimo

Há obras de arte que nos incomodam e nos comovem. Creio aliás que uma pintura, uma escultura, um poema, um romance, uma partitura ou outro meio expressivo encontrado pela espécie humana que não incomode e comova nunca passará de um artefacto, por maior que seja a perícia técnica do executante. É o caso de “Uma Vida Escondida”.

Essa coisa do pecado

O conceito de pecado no Cristianismo, à luz do senso comum, é quase sempre individual, e por isso extremamente redutor. Não há espaço para os pecados sociais ou contra a natureza.

Na casa dos meus avós: rituais e tabus que nos inculca(va)m valores

Começo este ano com um assunto muito pessoal. E lembrando a obra Na casa de meu pai: a Africa na filosofia da cultura, de Kwame Anthony Appiah, roubo-lhe o título. Essa obra aborda questões filosóficas, etnográficas, antropológicas, entre outras e será esse o foco do meu texto. Será também na base da sugestão que é lançada pelo autor, no capítulo 4, que tentarei deixar alguns traços da identidade africana vividos na primeira pessoa.

Bispo Jacques Gaillot: o que permanece

Faz por estes dias 25 anos que Jacques Gaillot, arcebispo de Évreux (n.1935), foi dispensado da sua diocese, por intervenção e denúncia de católicos conservadores, manifestantes contra as suas causas sociais, os seus testemunhos e defesas formais em tribunal pelas “periferias,” pelos cidadãos sem documentos, pelos mais frágeis na sociedade. Parténia foi a sua “virtual” diocese sem fronteiras, em sequência. Hoje vive em Paris, com os padres Sanatarianos.

Franz Jägestätter

Foi com imenso agrado que vi o filme de Terrence Malik Uma vida escondida, sobre a vida de Franz Jägestätter, um camponês austríaco (beatificado em 2007) que, por razões de consciência, recusou prestar fidelidade a Adolf Hitler (em quem via incarnada a subversão completa dos valores cristãos) e assim servir o exército nacional-socialista, recusa que lhe custou a vida.

Taizé: continuar o caminho deste novo ano

Estive presente em mais uma etapa da peregrinação da confiança – o encontro europeu anual promovido pela comunidade de Taizé. A cidade que acolheu este encontro foi Breslávia (Wrocław), na Polónia, e nele estiveram presentes mais de 15 mil jovens de todo o mundo.

Arte e Esperança

Tenho tido a sorte de acompanhar, desde 2016, a apresentação dos Projetos Partis (Práticas Artísticas para a Inclusão Social) na Gulbenkian e em todos respiramos com emoção a frescura da criação artística onde os protagonistas são pessoas normalmente esquecidas por nós.

Os dois papas. E o povo, pá?

Esta estranha convergência entre os defensores da ortodoxia e os que a abjuram dá que pensar. Ambos desvalorizam Francisco, uns em nome dos dogmas e os outros em nome da crítica aos ditos.

Não façam do racismo um mantra

Tal como o feminismo ou os direitos de qualquer minoria, o combate ao racismo pode ficar a perder quando se torna uma espécie de prática religiosa sectária, sem discernimento nem bom senso.

Celebrando os 90 anos de Maria de Lourdes Pintasilgo

No passado dia 18, se Maria de Lourdes Pintasilgo (MLP) fosse viva, celebraria os seus 90 anos. Nesse dia, na sede da Fundação Cuidar o Futuro, na Praia Grande, esteve reunido, ao redor da lareira, um grupo de amigos e amigas relembrando as múltiplas facetas da vida de Maria de Lourdes.

A violência doméstica

No início da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, e em boa hora, a Comissão Ecuménica do Porto decidiu invocar que a violência doméstica não entre “nas nossas casas e todos vivam em paz”, por um amor livre e comprometido, gratuito e que sabe receber, intenso e equilibrado, apaixonado e consciente, mais entregue do que pedido, mais doado do que um direito.

Ditadura da esperteza ou psicopatia

Vivemos na era do destemor e do medo; da aceleração e da lentidão; das raivas e das guerras, mas também do desejo de paz; da ambição de conhecimento e da real ignorância sem qualquer sabedoria.

Beleza e ecumenismo

A junção de beleza e ecumenismo evoca a luxuriante diversidade num jardim. A beleza tem afinidades com a surpresa: é a vitória sobre o banal, o monótono.

Cultura: novas histórias e paradigmas…

“Torna-se necessária uma evangelização que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite os valores fundamentais” – afirma a exortação pastoral Evangelii Gaudium. Na mesma linha em que o Papa João XXIII apelava ao reconhecimento da importância dos “sinais dos tempos”, o Papa Francisco afirmou que: “É necessário chegar aonde são concebidas as novas histórias e paradigmas, alcançar com a Palavra de Jesus os núcleos mais profundos da alma das cidades.

Um imperativo de coerência

Ao renunciar, num ato de humildade e, seguramente, após longa reflexão, Joseph Ratzinger declarou não se encontrar em condições físicas compatíveis com o exercício das funções de Papa. Após a renúncia, o colégio dos cardeais eleitores escolheu Jorge Mario Bergoglio, o atual Papa Francisco, alguém que tem procurado atender as necessidades da Igreja, ouvir os fiéis e responder às suas inquietações. Revelou-se uma feliz surpresa para a Igreja, apesar dos movimentos de contestação que surgem em várias frentes.

Esquecer Simulambuco

Como português que sou senti-me um pouco comprometido em Simulambuco, quando visitei Cabinda no mês passado. Portugal falhou aos cabindas talvez porque o que tem de ser tem muita força. É o caso do petróleo.

Confessional

Que há passos e despassos, acertos e desacertos, conluios e cisões na Igreja-instituição-Vaticano, todos e todas vamos sabendo, mais os que frequentam as missas em conversas de bastidores e mais ainda os leitores de jornais e os que assistem a noticiários no mundo inteiro. Não é esse aqui o ponto.

A Guiné-Bissau merece uma oportunidade

O resultado destas eleições presidenciais, cujos dados foram divulgados no dia 1 de janeiro, com a vitória de Sissoco Embaló, levantam desafios que passam por um lado, pela rápida decisão sobre o recurso ao Supremo Tribunal de Justiça por alegadas irregularidades, instaurado pela candidatura de Domingos Simões Pereira, e pela divulgação do resultado final e oficial das eleições de 29 de dezembro.

Cidadania e Moral – viagem educativa rumo à construção da cidade

Uma das maiores conquistas que podemos alcançar em termos pedagógicos diz respeito à construção de pontes entre disciplinas e áreas do saber. Pontes e não muros. Porque pedagogia é “caminhar ao lado do outro”. Construir pontes que permitam encetar o diálogo e compreender a complementaridade na diversidade de aprendizagens sobre o humano. A busca de sentido para essa diversidade de aprendizagens transparece nas interrogações e interpelações iniciais dos discentes: “Os que vamos aprender? para que serve o que vamos aprender?”. Esta busca levará, cada um, ao encontro da bússola que há-de guiar e conduzir à construção da feli(z)cidade.

Onde estás, comunidade cristã?

Talvez não devesse contar esta história. Mas aceito as palavras de Jesus, que se me calar até as pedras falarão. E de facto de uma experiência sem importância, tocamos no fundamental da Igreja, o ser Comunidade.

Trump e os evangélicos

A prestigiada revista americana fundada por Billy Graham em 1956 defendeu, a 19 de Dezembro passado, a destituição de Donald Trump, uma atitude inédita que está a provocar algum desconforto nos meios evangélicos.

A difícil arte de amar

É inegável que cada um de nós sente carência de ser amado de forma inteira e incondicional. Ninguém sobrevive à aterradora sensação de não ter quem o espere quando regressa a casa, console as lágrimas mais sentidas e rejubile consigo nas maiores vitórias.

Educação 2018: progredimos muito, alguns desafios persistem

Foi recentemente publicado o “Estado da Educação” relativo a 2018, documento que o Conselho Nacional de Educação (CNE) edita todos os anos e em que propõe uma leitura atualizada da evolução de um conjunto de indicadores de análise da educação em Portugal. Destaco aqui seis aspetos.

O negócio da canábis

É de esperar que venham a ser de novo discutidos na legislatura que agora se iniciou projetos de legalização do cultivo, posse e venda de canábis para uso pessoal (dito “recreativo”). Suspeita-se até que algumas plantações em larga escala já autorizadas no nosso país não tenham em vista apenas a venda para fins medicinais (hoje já legalizada), mas a venda para fins recreativos.

Quanto tempo dura um crime?

No passado mês de Dezembro a Helena Araújo publicou no 7MARGENS um texto intitulado “O terror nazi: Todos devem saber tudo”. Nele se debruçava sobre a necessidade de divulgar alguns dos crimes mais horrendos cometidos por humanos. E digo humanos e não humanidade para enfatizar que aqueles que os perpetraram não são abstracções, são homens habitantes de um país, possuidores de um nome, ligados a uma história de vida. Reiterando este seu desiderato, reforço-o com outra exigência – a de não esquecer.

Elogio de um submarino

António Fournier (1966 – 2019), nascido numa ilha, foi um desses instrumentos pontifícios que ainda nos fazem crer na humanidade, com esperança contra toda a esperança. Conheci-o, quase por acaso, numa rua da Baixa de Lisboa e logo me apercebi disso. Professor da Universidade de Turim, aproveitou essa condição de emigrante para se transformar num veículo de comunicação entre a cultura portuguesa e a cultura italiana, entre as suas literaturas.

O labirinto do tempo

Há uma tendência geral para considerar a viragem para um novo ano como uma espécie de dobradiça da história. Por isso se formulam tantas intenções no início de cada unidade de tempo a que chamamos ano, mas que, regra geral, não resistem mais do que duas ou três semanas, no regresso às rotinas do costume.

Pequeno exercício de memória ou liberdade de expressão

Ainda tão próximo o dia de domingo passado, em celebração da Sagrada Família, encontro a carta de 16 de Dezembro de 2014, escrita pelo Movimento Nós Somos Igreja a D. Manuel Clemente, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, que tinha convocado para 2015 um Sínodo Diocesano, na mesma altura em que também em Roma se vivia o período entre as duas sessões do Sínodo dos Bispos sobre a família. Em tempo de preparação para o Sínodo, o NSI exprimia-se a manifestar apoio, proximidade, envolvimento com os nossos bispos, no exercício dos seus ministérios.

Na Beira, após o ciclone Idai: um Natal incompleto e de superação

O dia do Natal é marcado por muita alegria, partilha, confraternização e união. Este ano, não é assim para muitas pessoas: muitos dos nossos irmãos que foram vítimas do devastador ciclone Idai, em Moçambique, este Natal fica marcado por sentimentos de dor, consternação e saudades de todos e de tudo o que perdemos durante a intempérie.

Crescer como construtores de paz

Tenho 18 anos e participei no primeiro congresso internacional de formação para jovens líderes embaixadores de paz que decorreu em Madrid, de 13 a 15 de Dezembro, promovido pela rede Living Peace.

Injustiça social: “ukati, ovaxini vangahona vasati?”*

Marleen faz referência a uma injustiça social. Ao facto de se colocar “por cima dos ombros da mulher” a responsabilidade pelo casamento e pela família. Devo referir que, tradicionalmente, no Sul de Moçambique, o casamento de um homem e de uma mulher, na maior parte das vezes, é um compromisso entre as famílias dos dois. O que Marleen refere na música é que a família de uma determinada esposa se sente orgulhosa, pelo facto de a filha se ter casado.

Natal sem tempo

Sempre que quero explicar aos meus alunos o que é o Natal, socorro-me da língua inglesa. Não sendo eu professor de tal idioma, os miúdos estranham, mas depois lá vão entendendo as veredas tortuosas por onde me proponho levá-los. Normalmente, ao fim de alguns minutos, abrem os olhos ou a boca e começam a entender.

Há qualquer coisa no Natal

Mesmo abstraindo-nos das trocas de presentes, das reuniões de família na Consoada, e de mais algum folclore natalício, a verdade é que a quadra desperta um conjunto de sentimentos positivos nas pessoas em geral e sobretudo nas crianças.

Julia Kristeva e os 10 princípios do Novo Humanismo

No passado mês de Novembro pude pela primeira vez abraçar Julia Kristeva quando do reconhecimento com o grau de doutora honoris causa pela Universidade Católica Portuguesa. Queria conhecer ao vivo esta mulher que tanto me tem inspirado ao longo dos anos. Agradecendo-lhe a referência que são para mim os Dez Princípios do Novo Humanismo, Kristeva invetivou-me: “Il faut continuer!” (Precisamos de continuar!)

A tradição do Madeiro nas Beiras

  Com o aproximar da festa do Natal, uma grande parte das populações das aldeias e vilas da raia, de Trás-os-Montes às Beiras, envolve-se numa milenar festa comunitária, tendo como centro uma fogueira, colocada às portas das igrejas, para ser acesa antes da Missa...

A revelação de um apaixonado

No nosso íntimo, imaginávamos um deus omnipotente. A proximidade divina com a nossa matéria-prima, a desmedida do Seu amor tira-nos o chão. Queríamos um justiceiro e Deus troca-nos as voltas revelando-Se um apaixonado.

Beckett e o Advento

O que é que o dramaturgo Samuel Beckett tem que ver com o Advento? Talvez nada. Ou talvez tudo. Depende de quem ou do que estamos à espera.

Ditosa sejas, Senhora do Ó!

Tal como acontece com outros passos dos Evangelhos, as narrações da Infância de Jesus em Mateus e Lucas apresentam leituras diversificadas. Os nascimentos excepcionais são alegorias que pretendem explicar o mistério que envolve o nascimento de alguém que supera o padrão humano.

Porque quererá alguém estudar teologia?

O livro que estamos aqui a apresentar comemora os 50 anos de uma Faculdade de Teologia, e da única que existe em Portugal. Quando li o livro achei que era uma óptima oportunidade para tornar explícitas várias perguntas. São perguntas que me parecem importantes, nomeadamente: para que serve estudar teologia? E, o que é exactamente estudar teologia? Não é preciso ser-se professor de teologia para achar estas perguntas difíceis, e aproveitar e agradecer a oportunidade de lhes tentar responder em público.

O terror nazi: “Todos devem saber tudo”

Uma notícia que li esta semana no Der Spiegel descreve cenas de puro horror. Mas o mundo não pode esquecer o que aconteceu há 75 anos num dos países mais evoluídos do mundo. Temos de saber, temos de estar bem conscientes daquilo de que podemos ser capazes quando atribuímos a pessoas de certos grupos categorias que lhes sonegam a dignidade dos humanos.

Teocracia? Não, obrigado!

Ainda estamos a tempo de aprender que nenhuma teocracia é melhor do que a outra. Não importa se é islâmica, judaica, cristã ou outra qualquer. Definitivamente, não.

Taizé e os jovens: uma experiência que marca

Ao longo dos anos em que tenho participado nos encontros de Taizé, no âmbito da minha docência na disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, acompanhando e partilhando esta experiência com algumas centenas de alunos, tenho-me interrogado acerca do que significa aquilo a que chamamos “espiritualidade de Taizé” – que, no meu entender, é o que leva, ano após ano, milhares de jovens, a maioria repetidas vezes, à colina da pequena aldeia da Borgonha (França).

A escultura que incomoda a Praça de São Pedro

Foi na Praça de São Pedro, dentro desses braços que abraçam o mundo inteiro, que o Papa Francisco quis colocar um conjunto escultórico dedicado aos refugiados, o “anjo inconsciente”. De bronze e argila, representa uma embarcação com algumas dezenas de refugiados, tendo à frente uma mulher grávida ao lado de uma criança, de um judeu ortodoxo e de uma mulher muçulmana com o seu niqab.

Tem graça: ainda vou à missa!

Tem graça: ainda vou à missa! É o que fico a pensar, depois de ouvir certas conversas… Por isso, apreciei muito a sugestão do Conselho Diocesano de Pastoral, de Aveiro: «escutar as pessoas sem medo do que disserem». Mas… E se as pessoas têm medo de dizer o que lhes vai na alma? E não seria igualmente importante perguntar «Por que é que vai à missa»?

O elogio da frugalidade – por um Natal não consumista

O livro do sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard, Le Système des Objets[1], é uma reflexão sobre a sucessão de objectos de vária ordem, que se produzem a um ritmo acelerado nas civilizações urbanas. Interessa-lhe sobretudo o tipo de relação que os consumidores estabelecem com essa avalanche de gadgets, de aparelhos e de produtos de várias espécies. Ao relê-lo para efeitos de um trabalho académico, encontrei algumas páginas que me levaram a pensar nesta fase de consumismo desenfreado que, quer queiramos ou não, nos acompanha na época do Natal.

Aprender a dizer amor

Jorge Jesus, treinador do Flamengo, o mais falado clube nos últimos dias, afirmou: “No Brasil aprendi a dizer amor… Em Portugal é uma complicação para dizer amor. Quero desfrutar desse amor”. Sim, mas porque será tão difícil aos portugueses dizê-lo?

A fraternidade na Igreja Católica

Não faz muito ou até mesmo nenhum sentido uma Igreja Católica densamente hierarquizada como ainda hoje a Igreja se apresenta. Muito pouca gente acredita nisso. O mundo despojou-se e os formalismos felizmente perderam terreno.

Jornalixo

Chamemos-lhe jornalismo “criativo”, em vez de fake news ou jornalismo de fabricação, tabloide ou mesmo de sofreguidão. Independentemente da nomeação, é coisa que não nos interessa. De todo.

Católicos na Praça Central

Praça Central é, segundo a CNAL, um grande espaço de reflexão sobre questões do Cristianismo, Sociedade e Cultura de e para os leigos na Igreja Católica. Estive presente na recente Praça Central que se realizou em Santarém no passado dia 23 de Novembro.

Chamas, fuligem, humanidade

Fito as imagens das igrejas queimadas no Chile e recordo. Trago de novo ao coração lembranças dolorosas: a iconoclastia que irrompeu em tantos momentos do devir humano; o saque de igrejas em demasiadas épocas da História, levado a cabo até por “paladinos” da cristandade que de cristãos pouco tinham…

O Carter que dá cartas

Jimmy Carter foi Presidente dos Estados Unidos entre 1977 e 1981 mas é um caso à parte na política americana. Cristão convicto e comprometido, nunca utilizou a fé para fazer política, ao contrário do que é corrente nos Estados Unidos, onde a Modernidade chegou pela mão da religião, ao contrário da Europa, que escolheu a via do secularismo.

Multiculturalidade e condição feminina: algumas questões

Admitimos sem problema que as sociedades são regidas por diferentes valores e que há maneiras próprias de viver num mesmo espaço. O que nem sempre é pacífico, pois há certos direitos que embora se imponham como legítimos quando tomados cada um por si, poderão entrar em colisão quando se trata de convivência intercultural. Exemplificamos com a reivindicação dos direitos das mulheres, que frequentemente se torna um factor de antagonismo e de dissidência.

As cartas de D. António Barroso…

“António Barroso e o Vaticano”, de Carlos A. Moreira de Azevedo (Edições Alethêia, 2019), revela 400 cartas inéditas, onde encontramos um retrato de corpo inteiro de uma das mais notáveis figuras da nossa história religiosa, que catalisa a rica densidade da sua época.

A morte não se pensa

Em recente investigação desenvolvida por cientistas israelitas descobriu-se que o cérebro humano evita pensar na morte devido a um mecanismo de defesa que se desconhecia.

O regresso da eutanásia: humanidade e legalidade

As Perguntas e Respostas sobre a Eutanásia, da Conferência Episcopal Portuguesa, foram resumidas num folheto sem data, distribuído há vários meses. Uma iniciativa muito positiva. Dele fiz cuidadosa leitura, cujas anotações aqui são desenvolvidas. O grande motivo da minha reflexão é verificar como é difícil, nomeadamente ao clero católico, ser fiel ao rigor “filosófico” da linguagem, mas fugindo ao «estilo eclesiástico» para saber explorar “linguagem franca”. Sobretudo quando o tema é conflituoso…

Manuela Silva e Sophia

Há coincidências de datas cuja ocorrência nos perturbam e nos sacodem o dia-a-dia do nosso viver. Foram assim os passados dias 6 e 7 do corrente mês de Novembro. A 6 celebrou-se o centenário do nascimento de Sophia e a 7 completava-se um mês sobre a partida para Deus da Manuela Silva.

O barulho não faz bem

Nos últimos tempos, por razões diversas, algumas conversas têm-se dirigido maioritariamente para o facto de se habitar na cidade, suas comodidades e seus incómodos.

“Unicamente o vento…”

Teimosamente. A obra de Sophia ecoa. Como o vento. Como o mar. Porque “o poeta escreve para salvar a vida”. Aquela que foi. Que é. A vida num ápice. Luminosa e frágil. Do nascente ao ocaso. Para lá do poente. Celeste. Na “respiração das coisas”. No imprevisível ou na impermanência. A saborear o que tem. A usufruir do que teve. Na dor e na alegria.

“Cristianocídio”

Quando falamos de liberdade religiosa no mundo temos que falar, antes de mais, em perseguição, e sobretudo sublinhar que os cristãos são os mais perseguidos de todos. Sem qualquer dúvida.

A Guiné-Bissau e o futuro

Há uma nova crise política na Guiné-Bissau. O país volta a estar em suspenso depois de um complexo processo que culminou com as eleições legislativas em março deste ano, permitindo o normal funcionamento da Assembleia Popular e a tomada de posse de um Governo legítimo que viu aprovado no Parlamento o seu programa.

Voltámos ao tempo da outra senhora?

Lê-se e não se acredita. Uma educadora de infância numa escola pública da Madeira viu a directora prejudicar-lhe a avaliação anual por se ter recusado a ir receber um bispo à igreja. Será que o tempo voltou para trás?

Conta Satélite da Economia Social: avaliar o peso do setor social no país

O Instituto Nacional de Estatísitica (INE) divulgou no Verão os resultados da terceira edição da Conta Satélite da Economia Social, relativa ao ano de 2016. A disponibilização de informação estatística atualizada destina-se a permitir efetuar uma avaliação da dimensão económica e das principais caraterísticas da Economia Social no nosso país.

O sentido dos ritos

Era uma igreja bonita e simples, como são as pequenas igrejas rurais. Um adro pequeno, algumas árvores e casas em volta. Os bancos estavam demasiado próximos, indicando a tentativa de aproveitar bem o espaço – afinal, estamos no Minho e o mês de julho é, tradicionalmente, de casamentos. Na sua maioria, ainda são na igreja, o noivo esperando nervoso à porta, a noiva de branco conduzida ao altar pelo pai.

Presença luminosa…

“Pensar o futuro contempla uma dupla preocupação: promover o entendimento em torno dos objetivos a alcançar num horizonte temporal alargado e contribuir para a construção de uma visão prospetiva, no que se refere à identificação de potencialidades e riscos decorrentes de mudanças demográficas, tecnológicas, económico-financeiras e outras”. A complexidade estava no seu horizonte, na linha dos ensinamentos de Edgar Morin, mas nessa preocupação estava fundamentalmente a consideração dos problemas concretos das pessoas. Manuela Silva (1932-2019) deu-se inteiramente às causas dos outros, na defesa intransigente da dignidade da pessoa humana.

Julia Kristeva, pensamento abrangente, uma inspiração

Em boa hora teve a Universidade Católica Portuguesa a iniciativa de, na cerimónia de abertura do ano académico do passado dia 10 de outubro, atribuir o doutoramento honoris causa à professora Julia Kristeva, por proposta da Faculdade de Ciências Humanas. Tive o privilégio de estar presente neste merecido doutoramento de uma mulher cujo pensamento abrangente e comprometido tem sido uma inspiração para mim.

A importância de uma estátua

É inaugurada neste domingo, 20 de Outubro (Dia Mundial das Missões) em Cernache de Bonjardim, uma estátua, em bronze, erguida à missionação portuguesa. O monumento representa a figura do antigo missionário e bispo do Porto (1899-1918) D. António Barroso (1854-1918) e revela os 320 nomes dos padres missionários, que saíram, como ele, do Real Colégio das Missões, entre 1856 e 1912, nos governos liberais e no início da República.

Foi então que conheci a Manuela Silva…

Em 2004, depois de quatro anos em Itália e acabadinha de regressar de um ano na América Latina no meio dos mais pobres, e tendo aí conhecido uma Igreja que andava envolvida nas revoluções sociais e a lutar ativamente pela justiça, mesmo quando para isso se tornava incómoda e alienava a simpatia dos poderosos, fiquei desanimadíssima com o que encontrei em Portugal. A Igreja cheirava-me a mofo. Foi então que conheci a Manuela Silva…

Um poeta na Capela Sistina

O Papa Francisco acaba de colocar o Colégio Cardinalício em risco, ao incluir nele um poeta. Devia saber que os poetas são gente perigosa em qualquer parte, mesmo entre cardeais… O tempo o dirá.

“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”: temos que fazer constar

Em função de um estudo que li sobre uma das culturas moçambicanas, a macua, um povo de Nampula, escrito por Helena Assunção, em 2018, comecei a delinear um sonho: o dia no qual mais elementos do Património Cultural Imaterial do meu país ascendam, à semelhança da timbila e do nyau, à categoria de Património Cultural Imaterial da Humanidade.

O politicamente incorrecto

Num debate em contexto universitário, precisamente em torno da questão do politicamente correcto, Ricardo Araújo Pereira afirmou que, embora fosse contra o “politicamente correcto”, não era a favor do “politicamente incorrecto”.

Erradicar a pobreza… com Manuela Silva

«Nós queremos erradicar a pobreza», afirmou a profª. Manuela Silva, muito firmemente. Como se poderá concretizar esta «erradicação», à luz do pensamento de Manuela Silva? Talvez seja razoável considerar segmentos de ação…

A desvairada parvoíce do politicamente correcto

Já não há pachorra para isto. A ideologia do politicamente correcto tornou-se uma autêntica ditadura que não permite espaço para o humor, nem contextualização histórica, nem sequer uma pitadinha de bom senso. Estamos perante uma espécie de fascismo social e relacional.

Dizer “olha o fascista” resolve muito pouco

André Ventura entrou na Assembleia da República e, pela primeira vez, teremos uma organização partidária onde o populismo, a irresponsabilidade e a desinformação são parte fundamental do seu programa e das suas ideias. Vivemos dias difíceis e enfrentamos desafios que há muito têm lugar pela Europa e por algumas outras democracias liberais no mundo.

Manuela Silva: um olhar inteiro, justo e solidário sobre a Terra inteira

Esperávamos a sua partida, mas acreditávamos que talvez fosse possível ainda continuar connosco. A Manuela Silva iniciou segunda-feira (7 de outubro) uma grande viagem e deixou-nos. Hoje, já são muitas as notícias e os testemunhos sobre quem foi e como foram envolvidos aqueles que tiveram o privilégio de com ela privar. Já não há muito para dizer, ou talvez esteja ainda tudo para dizer, porque importa que tudo continue a ser dito.

Adela Cortina e o conceito ético de “aporofobia”

O nome de Adela Cortina é conhecido e respeitado na filosofia contemporânea, nomeadamente nos campos da filosofia política e da ética aplicada. Num dos seus recentes livros cunhou o conceito de “aporofobia”, dissertando sobre o modo como a pobreza é encarada na sociedade actual e como tal situação é incompatível com a democracia, pois esta implica e exige o direito à inclusão.

Igreja Católica: que dizes do absentismo eleitoral?

A abstenção foi, mais uma vez, a grande vencedora das últimas eleições. É uma das doenças da nossa democracia. Não se pode continuar a demonstrar a perplexidade por tão expressa falta de cidadania, só depois de se encerrarem as urnas de voto. É um mal que tem de ser atacado rapidamente, pois as suas causas já estão bem identificadas.

O Sínodo visto a partir da Amazónia

Como este Sínodo é sobre a Igreja na Amazónia e também sobre a ecologia, para além de representantes dos bispos do mundo inteiro, vão estar bispos sobretudo dos nove países da Pan-Amazónia. O maior grupo será o brasileiro, com nada menos que 58 bispos. Mas haverá também muitos outros convidados para participar, entre leigos, diáconos, padres e religiosos que trabalham nesta imensa região da Amazónia.

Crentes sem religião, à procura de Deus

Na abordagem ao fenómeno religioso há que respeitar toda a gente, os crentes de qualquer religião ou sistema filosófico, os agnósticos e os ateus. Mas a complexificação da vida contemporânea está a levantar novas categorias até hoje desconhecidas. É o caso dos crentes sem religião.

Tudo bem, nada mal…

Quando há uns anos passei o mês de Agosto em Moçambique, fui tocada pela alegria e sentido positivo do povo moçambicano. Lembro-me de saudar as “mamãs” – as mulheres mais velhas – que vendiam frutas e legumes na rua perguntando-lhes: “Como vai a senhora?” Invariavelmente a resposta era “Tudo bem, nada mal!”… Uma lufada de ar fresco.

China, uma imensa prisão

Uma consulta do sítio bitterwinter.org, especializado na temática da liberdade religiosa na China, de que é principal responsável o sociólogo italiano Massimo Introvigne, causa profunda impressão.

Ambientalistas e paradigmas – Tempos curiosos

Prevêem-se tempos difíceis, de muita destruição, que atingirão infelizmente uma grande maioria daqueles que menos responsabilidade tiveram na origem de tudo isto. Circunstâncias que talvez mudem um pouco somente quando todos aqueles que estão em baixo sofrerem as consequências na própria pele, o sentirem de verdade de forma crua e real, e se encontrarem numa situação em que nada mais têm a perder.

A minha amiga comida

Na mesa ao lado uma mulher mais nova, muito nova, seguramente com menos 30 anos e 20 de idade, sentou-se e encomendou um croissant com chocolate e um refrigerante. Tinha visivelmente excesso de peso. Era cliente habitual e a dose bem conhecida do empregado. Quando estava a terminar ele perguntou, aliás, se ia ao segundo.

D. Manuel Martins, o defensor de Setúbal que partiu há dois anos

No passado dia 24, terça-feira, fez dois anos que D. Manuel Martins partiu deste mundo. Para todos os que o admiramos, ele não nos deixou, apenas se transformou a dimensão em que esteve, neste mundo, durante 90 anos – 23 dos quais na região de Setúbal. No dia 26 de outubro de 1975, disse que passaria a ser de Setúbal. Nunca mais deixou de o ser.

Greta não está sozinha em Casa

Onde os vemos? Nas primaveras, em contestação nas ruas, nos novos movimentos desinstitucionalizados de protesto – anticapitalista, antiglobalização, anticorrupção, antiviolência, anti… –, nas greves estudantis, nas lutas contra a discriminação e as desigualdades, na vivência ou procura de uma liberdade que quebra velhos (pre)conceitos, a dar voz à emergência climática, nas opções alimentares, na generosidade do voluntariado…

O homem Jesus Cristo

Está na hora de sublinhar a humanidade de Jesus Cristo. A identidade do Cristo Filho de Deus esconde muitas vezes a sua condição humana, que é talvez aquela que mais deveria influenciar e inspirar homens e mulheres que assumem a fé cristã.

“Vamos decorar a rua da Páscoa para o Natal!”

Na continuação das duas crónicas anteriores sobre projetos de vizinhança na Rua da Páscoa em Lisboa, apresento outro que ganhou vida há um ano e pode ser o mote para outros projetos locais. Desta vez vou contar-vos como uma ideia que valorizou o coletivo e a beleza ajudou a desbloquear medos, ansiedades e sofrimentos.

Tempo de regressar à questão social

O Sínodo para a Amazónia de Outubro de 2019 revela-se da maior importância e atualidade. Daí que o Papa Francisco peça uma revisitação à sua encíclica Laudato si’, “porque quem não a leu não compreenderá nunca o Sínodo sobre a Amazónia. A Laudato si’ não é uma encíclica verde, é uma encíclica social que se baseia sobre uma ‘realidade verde’, a proteção da Criação”.

A (grande) importância de compreender o Iémen

O conflito no Iémen e as suas várias dimensões têm sido pouco discutidas e debatidas. Isso mudou ligeiramente após o ataque a duas refinarias sauditas, fazendo disparar o preço do petróleo. Para entender o que se está a passar não apenas no país, mas também na região, ficam aqui dez pontos e uma conclusão sobre um conflito que se arrasta há cinco anos.

Entre a Mata das Camarinhas e a greve do clima

Percorro diariamente, mais uma vez, a Mata das Camarinhas , entre Moledo e Caminha – um ritual de final de mês de Agosto que repito todos os anos.
Experimento aqui uma profunda comunhão com a natureza, com o mistério, como se entrasse numa catedral. Descubro-me balbuciando “Laudato Sí’” enquanto os meus pés calcam as agulhas dos pinheiros sobre o terreno bem arenoso.

Festas e romarias, uma nova religiosidade

Após a Páscoa e ao longo do verão, no interior do país, vive-se ao ritmo das romarias e das festas dos santos de secular devoção local. Quando, após a saída de uma grande parte da população ativa que emigrou nas décadas de 60-70 do séc. XX para a Europa, se pensava que estas festas se achavam comprometidas, surge agora a agradável surpresa de que elas aí estão de novo, embora vivenciadas de um modo diferente. Continuam a ser a “festa do povo” mas, nos últimos tempos, já com um novo figurino.

O Brexit dos pobres

Um Brexit puro e duro deixará um rasto de destruição nas vidas e famílias por todo o Reino Unido. Foi isso que a Igreja de Inglaterra disse, procurando ser fiel à sua responsabilidade profética.

Não aos casamentos prematuros: não andemos à deriva

As “tradições” acima narradas já tiveram o seu tempo. Devem ser abolidas, sendo importante que se encontrem rituais de passagem alternativos, que marquem a transição de rapariga para mulher, sem colocarem em causa a sua dignidade, nem o fundamento de se destacar que existe uma distinção clara entre o estado de uma menina e o de uma mulher.

“Todo o mundo é composto de mudança”

Li há dias uma notícia com o título: “Troca de padres não agrada a paroquianos”. Casos como este são excelente ocasião para esclarecer valores ou razões escondidas, concorrendo para o crescimento espiritual de todos (não só dos paroquianos).

A ecologia não é só reciclar – celebrando o “Tempo da Criação”

Do convite do Papa decorreram múltiplas iniciativas. Entre elas, a rede Cuidar da Casa Comum, uma plataforma aberta à participação ecuménica. O seu principal objectivo é não só dar a conhecer e aprofundar a Laudato Si’, mas também promover uma consciência operativa da urgência em cuidar da Terra e em proporcionar instrumentos de análise que permitam pensar o futuro do Planeta.

Democracia em risco de serviços mínimos

Na década de 1970, a luta pela democracia encontrava-se em alta. Em vários países do globo lá se foi implantando, apesar das sempre complexas vicissitudes deste processo. Nesta fase se incluiu, numa primeira vaga, Portugal e Espanha que vinham de duas ditaduras gémeas. Outros países foram aderindo na América Latina, inspirados na democracia brasileira.

Jaime Gonçalves, um bispo sempre a favor do povo

No processo do diálogo para a paz em Moçambique, há alguns episódios da vida do arcebispo da Beira, D. Jaime Gonçalves, dignos do interesse de todos nós. Este grande bispo, com quem trabalhei muito directamente, durante vários anos, merece umas palavras nestas minhas Memórias. Quando digo “mais”, significa que já me referi noutras ocasiões a D. Jaime nos livros que escrevi e noutros momentos da minha vida de jesuíta.

A questão racial nas igrejas evangélicas

A presença de evangélicos no espaço público e na vida política brasileira tem-se tornado significativa desde a década de 80, coincidindo com a redemocratização do Brasil, após um longo período de regime ditatorial. A sua presença no Congresso e na Câmara de Deputados tem instigado debates sobre diversos temas relacionados com os Direitos Humanos, contribuindo para que os evangélicos se tenham tornado um relevante grupo de manobra política em tempos de eleições.

O Papa poisará aqui os seus pés

A agitação cresce nas ruas da cidade de Maputo. Compram-se camisetas e capulanas com fotografias do Papa Francisco. Uma bola de ansiedade cresce dentro da cidade. O país todo prepara-se para se curvar ao Papa que chega nesta quarta-feira. Nas ruas, as conversas, que se deixam levar pelo vento, murmuram a vinda de Francisco.

O ciclo da vida

Muitos anseiam essa última emancipação, surpreendentemente sem temer o novo ser que resultará do ser que venceu a morte – e que o terá feito por ser escravo dos seus medos e das suas angústias. Mas há algo de assustador em tudo isto. É que, na ânsia de vencer o medo da morte, parecemos ter esquecido a lição mais infantil e, por isso, mais sábia de todas: é o ciclo da vida.

Crime contra a humanidade – o que é?

Crime contra a humanidade são as florestas a arder e um tesouro como a Amazónia estar em perigo. E sem olhar a tecnicidades, é-o também uma economia assente no consumo: que quanto maior, melhor. Chamam-lhe “crescimento”. Que quanto maior, mais dinheiro. Retira a uns a riqueza para a concentrar em outros e a atenção do Estado prende-se na ação de arrecadar mais impostos conforme o interesse que lhe convém, para equilíbrio de contas públicas.

A mulher de dois mundos

As mulheres movem-se hoje em dois mundos muito diferentes. Se num deles estão a conquistar as posições a que têm naturalmente direito, no outro permanecem acantonadas por condicionamentos culturais, políticos, sociais e religiosos.

Uma revolução antropológica

A “ideologia do género” parte da distinção entre sexo e género, a qual se insere na distinção mais ampla entre natureza e cultura. O sexo representa a condição natural e biológica da diferença física entre homem e mulher. O género representa a construção histórico-cultural da identidade masculina e feminina. Até aqui, nada de novo, ou ideológico. A novidade reside na afirmação ideológica de que o género assim concebido deve sobrepor-se ao sexo assim concebido; a cultura deve sobrepor-se à natureza. O género não tem de corresponder ao sexo, corresponde a uma escolha subjetiva, que vai para além dos dados naturais e objetivos.

Que quer dizer “boa educação”?

Por que é que os Evangelhos apresentam Jesus a dissuadir pretensos discípulos de se despedirem da família e até, para um deles, de cumprir o dever quase sagrado de sepultar o pai acabado de morrer? Como se pode falar de boa educação?

Um mar de gente que são pessoas

Estive no Mediterrâneo. Não foi a primeira vez, mas talvez tenha sido a primeira vez que me incomodou mergulhar, olhar no horizonte e perceber que ali tão perto existiam homens, mulheres e crianças que também o faziam por razões diferentes, à espera de uma boia que os salve ou de um porto que os acolha.

O monstro

A solidão é uma espécie de monstro que persegue tenazmente milhares de idosos em Portugal. O problema principal deles nem sequer são os cuidados de saúde, mas a solidão a que os entregamos cada vez mais.

Bicentenário do Báb: “Manifestante de Deus” e fundador da Fé Bahá’í

Uma das particularidades da religião bahá’í é ter na sua origem dois Profetas: o Báb e Bahá’u’lláh. E se na terminologia bahá’í os fundadores das grandes religiões mundiais são referidos como “Manifestantes de Deus” (porque manifestam características divinas), a origem dupla da Fé Bahá’í levou alguns autores a referir os seus fundadores como “Manifestantes Gémeos”.

A crise do capital, uma doença demolidora

Tenho para mim que o problema pode ser mais largo e profundo. Prefiro centrá-lo mais na longa e constante crise da doença destruidora do capitalismo mundial, nas suas mais diversas formas. Um sistema que, verdadeiramente, se encontra doente e não funciona em benefício da maioria da população.

A teologia das pedras

A tentação de lançar pedras sobre os outros é sempre maior do que a de nos colocarmos em frente a um espelho. Mas, cada vez que lançamos uma pedra contra alguém, no fundo estamos a magoar-nos a nós mesmos.

Um género de ideologia

Já houve quem escrevesse que a ideologia de género não existe. Já houve quem escrevesse que quem defende a igualdade de género esconde uma ideologia. Falemos, pois, da realidade e avaliemo-la à luz não de uma ideologia, mas de duas: a ideologia da igualdade e a ideologia dos que clamam contra a ideologia de género.

“Nome grande”, nome espiritual

Um indivíduo não existe por si só; ou seja, a sua identidade se encontra ligada à sua família, aos seus ancestrais, à sua espiritualidade e/ou, por vezes a um acontecimento. Quero com isso dizer que, quando lhe perguntam o nome, do ponto de vista da filosofia dos gitonga, o indivíduo deverá dizer o seu, o do pai e o do avô

Conversa à volta da fogueira

Todos concordam que os incêndios florestais são uma calamidade em qualquer parte do mundo. Mas o que poucos ousam dizer em voz alta é que são uma calamidade inevitável e que, por essa razão, há que aprender a viver com eles.

Cooperação na solidariedade

A importância estratégica do sector social e solidário foi assumida pelo Estado desde há várias décadas, tendo sido assinado em 1996 o Pacto de Cooperação para a Solidariedade Social, enquanto instrumento que visava “criar condições para o desenvolvimento da estratégia de cooperação entre as instituições do sector social, que prosseguem fins de solidariedade social, a Administração Central e as Administrações Regional e Local”.

Escrever com os polegares

No passado mês de Junho morreu o filósofo Michel Serres. A sua obra é vastíssima e profundamente original. De facto escreveu sobre filosofia, história das ciências, matemática, pedagogia, ecologia, ciências da comunicação, banda desenhada. Neste campo é de relevar a importância que atribuiu a Hergé e aos seus personagens, que analisou como objectos de estudo filosófico.

A obra de arte de Alan Turing

Foram os resquícios da mentalidade vitoriana que levaram a Inglaterra a sacrificar cruelmente um dos seus maiores. E um certo rasto puritano que pontificou durante séculos em terras de Sua Majestade.

Escutar, acompanhar e ajudar

Há uns dias a liturgia católica de Domingo convidava-nos e aprofundar o encontro de Jesus com Marta e Maria (Evangelho de Lucas 10, 38-42). Há nesse encontro um convite à disponibilidade interior que vulgarmente chamamos de “escuta”.

Cada um disse o que lhe ia na alma

Durante as entrevistas que fiz aos moradores, e antes de iniciarmos o trabalho de pintura em madeira com diferentes parcelas de céu que enfeitaram as portas da rua durante o mês de junho do ano passado, coloquei uma pergunta aos vizinhos sobre o que têm encontrado de belo na Rua da Páscoa desde que aí mora.

Bolsonaro cristão, Bolsonaro pagão

Há quem defenda que o governo de Bolsonaro, apesar de se afirmar cristão, em boa parte, inscreve-se todos os dias em campo oposto à respectiva ética. As comparações com a personagem Donald Trump são inevitáveis.

O sonho de um novo humanismo…

A Carta Convocatória para o Encontro “Economia de Francisco” (Economy of Francisco), a ter lugar em Assis, de 26 a 28 de março de 2020, corresponde a um desafio crucial para a reflexão séria sobre uma nova economia humana. Dirigida aos e às jovens economistas e empreendedores, pretende procurar e encontrar uma alternativa à “economia que mata”.

Criança no centro?

Há alguns anos atrás estive no Centro de Arte Moderna (Fundação Gulbenkian) ver uma exposição retrospetiva da obra de Ana Vidigal. Sem saber exatamente porque razão, detive-me por largos minutos em frente a este quadro: em colagem, uma criança sozinha no seu jardim; rodeando-a, dois círculos concêntricos e um enredado de elipses. Ana Vidigal chamou àquela pintura: O Pequeno Lorde.

Uma espiritualidade democrática radical

Não é nenhuma novidade dizer que o modelo de democracia que temos, identificado como democracia representativa e formal (de origem liberal-burguesa) está em crise. Disso, entre outras razões, têm-se aproveitado muito bem os partidos de extrema-direita. Mas não só eles. Surgem também críticas fortes desde a própria sociedade civil a este modelo.

“Albino não morre, só desaparece”? E se fôssemos “bons samaritanos”?

A primeira frase do título não é nova, nem em Moçambique, nem fora do país. Lembrei-me dela, quando li/vi que o secretário-geral da ONU, António Guterres visitou Moçambique, em Julho último. Desse périplo, dois eventos prenderam a minha atenção: a sua ida à Beira, para se inteirar das consequências do ciclone Idai, e o seu encontro com pessoas com albinismo, e onde destacou que ninguém pode ser descriminado por causa da sua aparência física.

Refugiados e salgalhada de desinformação

O objetivo deste texto é combater alguns mitos, facilmente derrubáveis, sobre a questão dos refugiados com meia dúzia de dados, de forma a contribuir para uma melhor e mais eficaz discussão sobre o tema. Porque não acredito que devamos perder a esperança de convencer as pessoas com os melhores dados e argumentos.

IPSS e desenvolvimento local

As IPSS caracterizam-se por dar resposta a necessidades que as populações identificam e experimentam no seu dia-a-dia, prestando serviços e gerindo equipamentos sociais ao mesmo tempo que, localmente, contribuem para a solução de problemas de emprego.

A guerra dos papas

Falo não da guerra dos papas entre si (que também as houve e bem violentas) mas entre os “adeptos” deste ou daquele, nas imensas bancadas onde toda a gente se pode refugiar e donde aprecia, a modos de júri conflituoso, o grande desfile dos sucessores de São Pedro.

Diários de quarentena (14): Tudo ao contrário? Em tempos de “des-samaritanização”

Diários de quarentena (14): Tudo ao contrário? Em tempos de “des-samaritanização” novidade

A ação social básica, própria das relações de família, vizinhança e amizade, tem sido bastante descurada: ao longo da história, relevaram-se mais as diferentes instituições que foram sendo criadas, seguindo-se-lhes a consagração e desenvolvimento do Estado social. Deste modo, o patamar básico da ação social foi menosprezado, a favor do intermédio, ou institucional, e do estatal.

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Breves

Governo português decreta que imigrantes passam a estar em situação regular novidade

O Governo português decretou que, a partir de 18 de Março (dia da declaração do Estado de Emergência Nacional), todos os imigrantes e requerentes de asilo que tivessem pedidos de autorização de residência pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) passam a estar em situação regular, com os mesmos direitos que todos os outros cidadãos, incluindo nos apoios sociais.

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Boas notícias

É notícia

Entre margens

Apesar de tudo, a liberdade

Sinto a doença à minha volta e à volta dos meus. E, nesta reclusão involuntária, lembro-me de Trujillo e de suas altas torres. Não de todas, mas de uma que, na sua delgada altivez, se assumiu como mirante.

Uma experiência de sinodalidade – a Igreja Católica no Terceiro Milénio

Há dias, chamou-me à atenção, no 7MARGENS, um artigo intitulado Um sínodo sobre a sinodalidade para dar eficácia à ideia de participação. Li o artigo com entusiasmo, sobretudo, porque revivi a minha experiência de paroquiana numa igreja da cidade de Lisboa. Foram tempos de Alegria e Graça, os anos de 2000 a 2019, sob a “batuta” do padre e cónego Carlos Paes.

Cultura e artes

Nick Cave e o espanto de Maria Madalena defronte do túmulo novidade

É um assombro que espanta Nick Cave, aquele em que Maria Madalena e Maria permanecem junto à sepultura. Para o músico australiano, este é provavelmente o seu momento preferido da Bíblia. Jesus tinha sido retirado da cruz, o seu corpo depositado num túmulo novo, mandado talhar na rocha, e uma pesada pedra rolou para fazer a porta da sepultura. Os doze discípulos fugiram, só Maria Madalena e “a outra Maria” ali ficaram diante do túmulo.

Júlio Martín, actor e encenador: O Teatro permite “calçar os sapatos do outro”

O actor e encenador Júlio Martín diz que o teatro permite fazer a experiência de “calçar os sapatos do outro”, mantém uma conversa em aberto e, tal como a religião, “faz religar e reler”. E permite ainda fazer a “experiência de calçar os sapatos do outro, como os americanos dizem; sair de mim e estar no lugar do outro, na vida do outro, como ele pensa ou sente”, afirma, em entrevista à agência Ecclesia.

Uma tragédia americana

No dia 27 de Julho de 1996, quando decorriam os Jogos Olímpicos, em Atlanta, durante um concerto musical, um segurança de serviço – Richard Jewel – tem a intuição de que uma mochila abandonada debaixo de um banco é uma bomba. Não é fácil convencer os polícias da sua intuição, mas ele é tão insistente que acaba por conseguir.

“Louvor da Terra”, um jardim para cuidar

O filósofo sul-coreano (radicado na Alemanha) Byung-Chul Han é já conhecido do público português através da publicação de numerosos dos seus diretos e incisivos ensaios, onde a presença da pessoa numa sociedade híper-digitalizada é refletida e colocada em questão. Agora, em “Louvor da Terra”, possibilita-nos uma abordagem diferente e original, fruto da experiência do autor com o trabalho de jardinagem.

Sete Partidas

Um refúgio na partida

De um lado vem aquela voz que nos fala da partida como descoberta. Um convite ao enamoramento pelo que não conhecemos. Pelo diferente. Um apelo aos sentidos. Alerta constante. Um banquete abundante em novidade. O nervoso miudinho por detrás do sorriso feliz. Genuinamente feliz. O prazer simples de não saber, de não conhecer…

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

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