Entre Margens

Dormir com o inimigo novidade

O segmento evangélico americano pautou-se durante largas décadas por ensinar aos fiéis a integridade pessoal. A lógica era que o homem nascido de novo (born again) seria transformado à imagem de Cristo e viveria uma nova ética, sendo bom cidadão, bom profissional, parte duma família funcional, promotor da paz e cultivando o amor e o perdão para com o seu semelhante. Billy Graham foi o seu profeta maior, com uma postura de integridade e semeando uma mensagem de esperança num mundo do pós-guerra, devastado física e moralmente.

Eliminar a pobreza, sanar o tecido social

Voltou a haver pobreza em Portugal como não havia, diz-se, desde há 100 anos. Não sei se será bem assim, mas que há mais pobreza, há. Vê-se muito mais gente nas ruas a pedir ajuda, envergonhada, aviltada, desconfortável com a sua nova situação. Gente que, talvez até há menos de um ano, não esperava chegar ao ponto de se ver obrigada a ir para a rua pedir para comer. Frequentemente, gente de meia-idade ou bem mais velha.

Chorar em Fátima

Apeteceu-me dizer aos companheiros dos círculos ao lado que sou ateu, que me ensinem como é sentir o que eles sentem. Que importa? Senti o coração a abrir-se e descobrir que também sou uma árvore frondosa como o meu pai e a minha mãe desejaram que eu fosse.

O meio é a massagem

Na minha crónica anterior, citei o filósofo canadiano Marshal Mc Luhan, lembrando a afirmação the medium is the message (“o meio é a mensagem”), por ele usada em Understanding Media.[1] Editado em 1964, o livro foi um sucesso. Três anos mais tarde, associando-se ao desenhador Quentin Fiore, Mc Luhan publicou uma pequena brochura intitulada The Media is the Massage (“O Meio é a Massagem”)[2], uma representação gráfica e criativa das teses defendidas na obra de 64. O título insólito deveu-se a um erro do editor. Mas o filósofo resolveu mantê-lo…

Ninguém tem tempo

Entrei pela porta da secretaria do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra, onde trabalho, e na conversa com o pessoal administrativo veio à tona o tema da leitura, ao que diziam – “não tenho tempo para ler”. Mais tarde, em conversa com a senhora do quiosque onde a minha filha foi fazer o seu passe, voltei a ouvir – “antes conseguia fazer uma caminhada de duas horas no Choupal. Agora não tenho tempo.” Ninguém tem tempo, e todos têm razão, porque o tempo não se possui. Por isso, qual a raíz desta queixa?

Autoregulação ou caos

O campo protestante necessita urgentemente de se auto-regular sob pena de cair no caos, ou de amanhã alguém de fora o querer controlar, o que seria bem pior.

“Fratelli Tutti”, um grito de esperança

O pensamento do Papa Francisco consegue sempre surpreender-nos por ser mais luminoso ainda, pois sabe que é necessário um apelo forte que faça frente à escuridão mais densa que poderá chegar, se no caminho continuarmos a permitir a indiferença e os muros que separam, em vez de acolherem e integrarem.

A emoção da “Fratelli Tutti” em 2020, como da “Pacem in Terris” em 1963

Ao percorrer o texto da recente encíclica do Papa Francisco, Fratelli Tutti (assim denominada como sempre, por serem estas as primeiras palavras que iniciam o texto de Francisco, Todos Irmãos), não pude deixar de reviver a emoção e a memória com que, há 57 anos, acompanhei a publicação dessa outra encíclica, desse outro grande Papa que foi João XXIII, o Bom Papa João, hoje S. João XXIII: a encíclica Pacem in Terris. Fazer uma leitura conjunta destas duas encíclicas revela-se-me essencial.

“Fratelli tutti”: dois caminhos

1. O 7MARGENS já publicou alguns artigos valiosos que sumariam e comentam a encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco. Nesta breve reflexão, vou concentrar-me em dois caminhos possíveis para a respetiva sequência: um deles consiste na consagração; e o outro na ação.

“Coisificação” do Homem (ou ser consumido pelo Fogo)

Vamos falar do homem no Séc. XXI. Que ser é este? Não tenho a certeza de saber responder à pergunta. Encontro frequentemente alguém que tem acesso a tudo, para quem quase nada é impossível, mas com um volume de insatisfações que tanto o desgosta… São inúmeras as queixas que dele escutamos, embora possamos distinguir algumas mesmo muito frequentes

Um ano sem Manuela Silva

Faz neste dia 7 de outubro um ano que a Manuela Silva humanamente nos deixou, partindo para a Casa do Pai. Nós, cristãos, contrariamente aos ensinamentos de Jesus, teimamos em celebrar nestas datas a partida, a saudade, a ausência, olhando apenas para o vazio deixado entre nós pelos que partem. Somos “homens de pouca fé” (Mt, 8, 26) como Jesus no-lo refere diversas vezes no Evangelho. E assim consideramos que a morte física, como a conseguimos percecionar, nos leva os entes queridos, esquecendo as palavras de Jesus.

“À sombra das palavras”

Faz agora quase um ano pintei no meu atelier, durante cinco semanas quase sem parar, com duas outras artistas, os poemas da Sophia escolhidos para integrarem um Memorial evocativo do centenário do seu nascimento.

Não vale tudo

Algumas propostas e discussões atuais impõem que se reafirme que no combate à criminalidade não vale tudo. Ou seja: que os fins não justificam os meios, que há linhas vermelhas intransponíveis, que não se combate o crime com práticas que com ele se confundem, sob pena de esse combate perder autoridade moral. E é assim, mesmo em relação aos crimes que mais repugnância possam causar, como os crimes sexuais que vitimam crianças.

A trama invisível da cidadania e o valor de educar

“Em Ersília, para estabelecer as relações que governam a vida na cidade, os habitantes estendem fios entre as esquinas das casas, brancos ou pretos ou cinzentos ou pretos e brancos, conforme assinalem relações de parentesco, permuta, autoridade, representação. Quando os fios são tantos que já não se pode passar pelo meio deles, os habitantes vão-se embora: as casas são desmontadas; só restam os fios e os suportes dos fios.”

Fátima e “Avante”

Permitam-me duas ou três reflexões, como cristão católico, sobre a polémica instalada na sociedade portuguesa, relativamente aos acontecimentos na Quinta da Atalaia e na Cova da Iria.

Rituais pós-nascimento: “Ku xlomula mamani ni ku humisa mwana”

Nas culturas bantu do sul de Moçambique, especificamente na xironga e na xitswa, após o nascimento de um bebé, a mãe e a sua criança ficam, por algum tempo, interditados do convívio com a família alargada, por se considerar que os seus corpos não se encontram fortes o suficiente para conviver com agentes impuros, sejam do ambiente poluído de fora de casa, sejam os que com eles habitam, pelo facto de viverem entre o resguardo do lar e outras actividades que realizam fora de casa.

Os jovens do Torne na luta por “uma Igreja nova num Portugal novo”

Na década de sessenta do século passado, e até 1974, surgiu na paróquia de São João Evangelista (Vila Nova de Gaia), da Igreja Lusitana, Católica, Apostólica, Evangélica (IL), um grupo de jovens, que se intitulou Jovens do Torne – JT. No princípio englobado na “Liga do Esforço Cristão de Gaia”, foram prosseguindo um caminho ecuménico, alargado a todas as religiões e ateus.

Porque (não) falo de Aylan

A folha virtual aberta no ecrã do computador apresenta um branco que não é menos penoso nem menos frustrante que o branco níveo de uma folha de papel. A possibilidade de lhe diminuir a intensidade do brilho torna-a momentaneamente mais cinzenta, mas não resolve o drama: devo escrever?

Os sinos de bronze antigo

Fui encontrá-los numa aldeia do Minho interior. Tocavam Foi aos pastorinhos às meias horas, acrescentando o Avé de Fátima às horas cheias. Que maravilhosa experiência de comunidade! Aonde o som deles chegasse, toda a natureza, pessoas e animais, toda a movimentação e trabalho, tudo parecia embelezado e mais unido.

Não esquecer a memória

Não lembrei pessoalmente nestas páginas ainda a partida de Frei Mateus Cardoso Peres, O.P. (1933-2020), personalidade fascinante com uma rica obra de apostolado e de reflexão, e devo fazê-lo. Conheci-o bem e tenho pela sua vida e ação uma grande estima. O grupo de que fez parte dos “católicos inconformistas” integrou alguns dos meus grandes amigos, como António Alçada Baptista, Helena e Alberto Vaz da Silva e João Bénard da Costa.

Crer num Deus ferido

A fé tem de ser um ato de vontade e de resistência e não uma mera herança. O aparente silêncio de Deus desconcerta-nos e desafia-nos. Sob um prisma racional, há momentos em que parece não fazer o menor sentido continuar a acreditar. Tanto nas grandes “crises de fé” que possamos ter, mas também, e provavelmente com maior intensidade, nas pequenas e singelas desilusões da vida em que Deus parece ausentar-se.

Oremos em todo o tempo…

Com o título “Missa ‘virtual’ não substitui participação pessoal na Missa”, noticiou o Vatican News que, em carta aos presidentes das conferências episcopais, “o cardeal Roberth Sarah afirmou a necessidade de voltar à normalidade da vida cristã, nos locais onde a emergência sanitária provocada pela pandemia o permite: participar de uma missa pelos meios de comunicação não é equiparável à participação física na igreja”.

As finas flores do entulho

O campo religioso evangélico atravessa talvez a sua pior fase na história do mundo ocidental. Depois da prostituição com o poder político, os escândalos sucedem-se. Era de esperar.

Pecadores nas mãos de um Deus infinitamente amoroso

É sobejamente conhecido um famoso sermão que Jonathan Edwards pregou no dia 8 de Julho de 1741. O sermão tinha por tema “Pecadores nas mãos de um Deus irado” e estava em curso o chamado Primeiro Grande Avivamento pietista que atingiu a então colónia britânica de Nova Inglaterra em meados do século XVIII e que se espalhou pela civilização norte-americana ocidental.

Vicente – O Não Crente

O Vicente. Este seu nome é ele e não outro alguém, nestes dias da sua tão chorada recente morte. Pelos tantos testemunhos daqueles que com ele trabalharam e conviveram, o nome de Vicente Jorge Silva é unanimidade nacional, como Jornalista. Não descrevo o seu percurso, os grandes momentos da sua carreira, os seus múltiplos talentos. Mas lembro a sua presença, o seu pasmo, o seu entusiasmo, a sua indignação em face do espetáculo do mundo.

Pandemia e bioética

O combate à pandemia do novo coronavírus suscita uma reflexão sobre várias questões relativas à bioética. Desde logo, a do primado do valor da vida humana sobre considerações de outro tipo, como as de ordem económica.

Cristo, Gandhi e Mandela

Do mesmo modo como uma minoria ateia não pode impor à força a toda uma sociedade a sua forma de pensar, também nenhum sector religioso tem o direito de fazer o mesmo. A isto chama-se democracia.

A educação não é confinável!

Da noite para o dia, na sequência da pandemia, do confinamento obrigatório e do encerramento das escolas, estas e os professores foram capazes de responder eficazmente à nova situação, embora de modos muito diversos. Uns mais facilmente, outros com mais dificuldades. As atividades letivas puderam prosseguir, as famílias receberam a escola e os professores em suas casas e os alunos (a grande maioria) tiveram diariamente propostas de trabalho escolar (por vezes até demasiadas e desconexas).

Um sentido para a vida das pessoas (2)

O que podemos então esperar? Talvez não aquilo que virá, mas aquilo que já cá está. O Reino, escreveu São Lucas, “não vem de modo ostensivo. Ninguém poderá afirmar ‘Ei-lo aqui ou ali’, pois o reino de Deus está dentro de vós.” (Lc 18 20-21). O Reino – a plenitude ilimitada da liberdade, do amor, do conhecimento, da justiça, da verdade, da beleza. A expressão do infinito na finitude.

Contra todas as teocracias

Por princípio sou contra todas as formas de teocracia, incluindo as cristãs. Esses ideais estribam-se em equívocos teológicos, em erros de interpretação histórica ou, em muitos casos, em inconfessáveis aspirações de poder.

Breves provocações para o recomeço das aulas

A pandemia que temos vivido obriga-nos a um novo olhar sobre muitos hábitos que tínhamos como adquiridos. Um deles é o conjunto de actividades que acompanham o recomeço das aulas, envolvendo professores, alunos e pais na azáfama comum de planificar um novo ano lectivo. O que nos leva a revisitar a temática do que é (ou deveria ser) aprender e ensinar.

“Conversão das paróquias”: uma instrução redutora

Cada tempo, na sua especificidade, e o tempo todo, na sua generalidade, são um contínuo e constante desafio à sempre urgente necessidade de mudança de e na vida das pessoas. Por isso, e para responder a isso, a Igreja vai ajustando as velas aos ventos que vão soprando, aproveitando a variação das marés que vão surgindo e procurando o rumo que coincida com a vontade d’Aquele que a comanda.

Cuidar o futuro

A pandemia do coronavírus traz consigo não só um problema de saúde pública, mas também o agudizar dos fenómenos de fragilidade social. Olhando para os desafios com que a população idosa se tem confrontado durante a pandemia, é preciso refletir profundamente sobre os dados demográficos, a realidade do envelhecimento da população e a organização social.

Um sentido para a vida humana

Precisamos de uma escatologia que nos devolva a Esperança. Precisamos de acreditar que há um Horizonte para além de todos os horizontes, nesse ponto no infinito onde os paralelos se cruzam. Um Sentido que nos coloque no caminho de uma vida mais autêntica, luminosa, verdadeiramente significativa. A vida humana é opaca e vazia se nela não existe o encanto de uma Promessa.

Falemos de censura

De momento existem duas novas formas de censura que têm sido profusamente utilizadas, mesmo nos países de regime democrático. A primeira delas é o excesso de informação irrelevante. Segundo Yuval Noah Harari: “No passado, a censura funcionava através da interrupção do fluxo de informação. No século XXI essa censura funciona através do excesso de informações irrelevantes fornecidas às pessoas” (Homo Deus, Elsinore, 2017).

Podem, por favor, desligar o telemóvel?

A consciência dos três tempos do nosso tempo de que gosto de falar, responsabiliza-nos por aprender com o passado, para que ele, por deixar de ser pensado em excesso, não se transforme em depressão; aprender com o presente, para que ele, por deixar de ser vivido em turbilhão, não se transforme em stresse; e aprender com o futuro, para que ele, por também deixar de ser sentido como uma violenta catadupa de ameaças, não se transforme em ansiedade.

Lares de idosos perante omissões de fundo

Face à agitação provocada pelas infeções covid-19 e pelas respetivas mortes em lares de idosos, ou “estruturas residenciais para pessoas idosas”, torna-se imperiosa a assunção das nossas responsabilidades coletivas. Para não alongar o texto, limito-me, por ora, a elencar três omissões graves, que são fundamentais e comuns a outros problemas.

O regresso do tribalismo

Assim, as ideias da tribo manifestam-se sob o jugo terrível da negação da cultura, da democracia e da racionalidade. Não faltam por todo o lado os caudilhos a fazerem este trabalho manipulador das massas, para que comunguem destes ideais que alimentam os rebanhos acéfalos. Então a tribo fecha-se cada vez mais sobre os seus filiados que odeiam o outro, o ser diferente, a quem responsabilizam pelas desgraças que estão a surgir.

“Oh! Quem me dera ser como são as crianças!”

Estou convencida que foi essa marca cristã, a educação que eu assimilei ao longo da minha infância e adolescência que não me fez esquecer a figura de Jesus – continuando a ler sobre Ele, a partir dos 40 anos, com renovado interesse – e após labirintos e encruzilhadas, regressar, após longa jornada, a Casa, ao cristianismo. Não somos nós todos peregrinos? Não procura o Pastor a ovelha extraviada e deixa as noventa e nove no monte?

Teologia da prosperidade: uma aberração capitalista

A teologia da prosperidade é uma aberração capitalista. A ideia de que Deus tem casas com piscina, aviões particulares e outras mordomias para distribuir a granel é um insulto ao evangelho, que é centrado no Ser e não no Ter, essa tara dos nossos dias. É sobretudo um insulto aos pobres, os quais Jesus declarou que sempre existirão: “Porque os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes” (João 12:8).

Importância económica e social das IPSS

Com dados agora disponíveis para três exercícios consecutivos e para a mesma amostra de IPSS, confirma-se que, mais do que eventuais oscilações, há uma tendência que continua a ser negativa: se a percentagem de IPSS com resultados líquidos negativos era de 42,12% em 2016, no ano seguinte era de 39,82% mas em 2018 era de 44,10%.

Força e fé perante o medo e a pandemia

Na instituição em que trabalho, houve uma forte mobilização das equipas no sentido de se organizarem seguindo as orientações da Direção Geral da Saúde: fez-se o plano de contingência, prepararam-se as declarações de controlo de mobilidade para as deslocações ao serviço e houve também uma grande mobilização de apoio entre as chefias, psicólogos, médicos, enfermeiros, assistente social, terapeutas, auxiliares.

Pedro Casaldáliga: “… abrirei o coração cheio de nomes”

Partilho o pouco que conheci de Pedro Casaldáliga, nos anos que passei no Brasil. Guardo três linhas de memória: as vindas de Pedro ao nosso seminário em São Paulo, animando a Verbo Filmes na produção do filme Pé na Caminhada, e outros filmes; Pedro no programa ao vivo Roda Viva, durante duas horas, a 31/10/1988; Pedro relatando como foi a sua visita ad limina ao Vaticano, onde se sentiu humilhado.

Plano de recuperação… Também social?

Deste modo, corre-se o risco de persistir a subalternidade dos problemas e dinamismos sociais perante a força da economia. Talvez se atenuasse, ou infletisse, a subalternidade se fosse cumprida a Constituição da República no articulado relativo aos planos de desenvolvimento económico e social (artºs. 90º.-91º.); e, melhor ainda, se fosse promovido o desenvolvimento local, a partir da freguesia e do protagonismo de cada pessoa e instituição.

Esta crise das lideranças é dramática

Mesmo na velha Europa o que vemos são indivíduos muito pequeninos, em dívida para com a ética política, a moral pessoal e desprovidos de sentido de estado. A corrupção ronda estas figuras e contam-se pelos dedos das mãos as que conseguem manter uma postura decente. Temos ainda os grupos extremistas de direita e de esquerda que ameaçam os regimes democráticos, os quais por sua vez se vão deixando colapsar aos poucos por dentro.

Que filosofia pretendemos ensinar aos adolescentes?

Ensinar filosofia implica necessariamente filosofar, ou seja, não nos podemos limitar a transmitir, reconstituir e explicar o pensamento dos filósofos. Depois de um primeiro passo que é compreender as teorias e os problemas, interessa apropriarmo-nos deles, ou seja, trazê-los para a nossa vida, examinando-os, questionando-os ou deles nos demarcando com opiniões fundamentadas.

Infinito

Ser crente é acreditar que duas linhas paralelas se cruzam necessariamente no Infinito, e que esse ponto onde se cruzam é Deus. É acreditar que no fim, como no princípio de Tudo, há um ponto sem extensão nem duração, que é Deus. E que esse ponto está em toda a parte, inteiramente, absolutamente, sem estar todavia em parte nenhuma, pois ele não pode estar num sítio em detrimento de outro.

Casas. Duas memórias.

E o sacrário da casa, o quarto da minha avó, onde ela se refugiava e onde, aí, a minha mãe tinha absoluta primazia. Completo prazer, interação secreta e apaixonada entre ela e a mãe. Era a única filha – talvez por ser a mais velha, mas acho que não era só por isso – que tratava a mãe, pela doçura dessa expressão em português: “minha mãe”, “ó minha mãe”.

A dialéctica do racismo

Qualquer pessoa de boa-fé reconhece a existência de um racismo estrutural na sociedade portuguesa. Negá-lo é pretender negar uma evidência. Por que razão um homem branco de 70 anos, se falar com um outro homem branco, de 40 anos, o trata por você, mas se se dirigir a um negro da mesma idade já o trata por tu?

Pobreza, vergonha de todos nós

O que hoje é novo na nossa situação de pobreza é a falta de autonomia económica e o elevado número de novos casos no país. Quem não ouviu já referir na comunicação social que mesmo pessoas da classe média e, por vezes alta, se encontram a receber apoios do Banco Alimentar, à procura do pão nosso de cada dia para quem, de um momento para o outro, tudo faltou, pelas mais diversas razões das suas vidas?

Plano de recuperação sem recuperação do plano?

Os planos de desenvolvimento económico e social, previstos nos artºs. 90º.-91º. da Constituição da República, nunca se efetivaram, embora sejam aprovadas anualmente as grandes opções… do plano…  No I Governo constitucional, a prof. Manuela Silva, na qualidade de Secretária de Estado responsável  pelo planeamento, elaborou, com a sua equipa, um projeto de plano, mas não conseguiu a necessária aprovação.

Estranho Mundo

Chegou o Verão. Como todos os anos apetece ir de férias, descansar, parar, encontrar os que nem sempre estão perto, cruzar corações que se querem bem, quem sabe, até viajar.

O princípio da incerteza

O sector da saúde também está na expectativa, sem saber quando virá uma segunda vaga da pandemia ou se ela chegará mesmo. Os meios religiosos vão mantendo os serviços de forma condicional, mas sem saber por quanto tempo ou o que virá. No fundo, todos os sectores da economia e da sociedade estão pendentes do que vier a suceder nos tempos mais próximos, da banca aos seguros, da indústria à agricultura e pescas, da educação à saúde e às religiões, e em tudo quanto diz respeito às famílias e aos indivíduos.

Uma sinodalidade portuguesa?

José Ornelas, bispo de Setúbal e, agora, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), será um dos três bispos portugueses em maior consonância com a abertura do bispo de Roma, Francisco. Outros dois serão o de Leiria-Fátima, D. António Marto, e D. José Tolentino Mendonça, o que se poderá traduzir numa maior abertura da Igreja Católica Romana à sinodalidade que “não é inimiga, antes pelo contrário, da unidade”.

Vendo o presente e construindo o futuro

Nesta “estação de pandemia” parece estarmos em descensão, reconquistando, pouco a pouco, uma “nova normalidade”. Com prudência, para continuar a vigiar a extensão do vírus, mas afirmando e confiando na responsabilidade de cada um e de todos na gestão da sua saúde e da saúde da comunidade, sem discriminação pela idade e respeitando a autonomia pessoal, que não é outra senão a capacidade de cumprir com as próprias obrigações morais.

A União Europeia e a liberdade religiosa

Tomei conhecimento da ação do comissário europeu para a liberdade religiosa através do livro Enfim livre (editado em português pela Lucerna, com o apoio da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre), que relata a odisseia de Asia Bibi até à sua libertação. Essa ação é, por si só, reveladora da importância que pode ter esse cargo e chegaria para justificar a sua manutenção.

“Verdades” dos mitos: rituais de donzelar

Há mitos sobre rituais de iniciação, sobretudo no que se refere ao de passagem da adolescência à idade adulta. Um deles tem a ver com o facto de que o que se trata nessas cerimónias deverá ser guardado em segrego; o outro tem a ver com a ideia que se criou de que, no sul de Moçambique, não há esse tipo de eventos para as donzelas e que só no norte é que são realizados. Neste texto, falarei sobre o segundo mito acabado de apontar.

Das notícias de Bob Dylan aos heróis

Em tempos que já lá vão, quando um desgraçado trazia uma má notícia ao rei corria um sério risco de ser executado. Matar o mensageiro era uma forma de exorcizar o mal. Agora as coisas viraram do avesso e as pessoas assumiram uma postura colectiva de tipo masoquista, em que gostam de premiar quem lhe traga as piores notícias. Se não fosse assim não existiriam tablóides e jornalismo de sarjeta.

Alma e neurobiologia

Quem quer que se reconheça habitante de si mesmo e disso intua a evidência radical, não pode negar que a sua consciência seja algo mais do que o simples produto de uma mecânica estritamente biológica. É que existe a evidência fundamental, objetiva na subjetividade, de que uma interioridade existe. De que perceções percecionadas de um ponto de vista estritamente interior, subjetivo, existem. Isso é absolutamente incontornável.

Um tempo suspenso. Um espaço confinado

Ao falarmos de tempo e de espaço imediatamente nos lembramos dos muitos filósofos que escreveram sobre esta temática. De facto, dos pitagóricos aos nossos dias, o espaço, o tempo e as relações que entre si estabelecem, têm dado azo à produção de textos que se tornaram clássicos para todo o estudioso de filosofia. Com a presente pandemia a vivência do tempo e do espaço impôs-se-nos como objecto de reflexão.

A tábua do abade e a distância social

Contaram-me numa vila transmontana que, indo certo dia o arcebispo de Braga visitar a paróquia, quis inspeccionar a casa do senhor abade, onde este vivia com jovem mulher a quem chamava criada. O prelado – cujo nome desconheço, mas dava ares do arguto e bom São Frei Bertolameu dos Mártires – andou por todos os compartimentos do tugúrio sacerdotal.

Santa Sofia novamente mesquita

Ao cristianismo hodierno falta-lhe profundidade. Muitos cristãos instalaram-se na modernidade. Há necessidade de procurar novos desertos, como fizeram os monges durante a instalação do cristianismo na política do Império Romano (380). Por isso, muitos procuram outros caminhos que, no entanto, não encontram na Igreja-instituição.

E o que dizem os jovens?

É interessante verificar que este tempo tem tido reflexos profundos na maneira de viver dos nossos jovens, aumentando-lhes os normais receios do amanhã, numa fase da vida em que a incerteza é um fator de grande ansiedade.
Os jovens manifestam também a necessidade de ouvir vozes que lhes transmitam segurança e apontem caminhos de esperança no futuro, sem alarmismos, mas com clareza e verdade.

Covid ataca eu-tanásia e faz dela “cré”-tanásia?

Moral da história: a covid19 deixou bem à vista que a sociedade não se sabe preparar para a vida. Tem medo de sofrer, mas pouco ou nada se importa de fazer sofrer. Tem medo de morrer, mas não se importa de matar – aos outros e a si própria – mais ou menos violentamente. E utiliza outra modalidade de gerir a morte (a não confundir com a “cré-tanásia”) – a que podíamos chamar “crio-tanásia”: levar à “morte pelo frio” ou frieza nas relações humanas e nas estratégias de domínio e enriquecimento.

Da Amália à religião do Fado

Já se sabe que os cépticos acharão que a perspectiva religiosa do fado será um disparate, e os fanáticos da religião dirão o mesmo, mas por outras razões. Uns porque pretendem remeter a fé para o submundo da sociedade e outros porque temem a dessacralização da expressão do sagrado e se pensam proprietários privilegiados da fé cristã. Mas para o universo do fado nem uns nem outros contam lá muito.

Oração do silêncio

O cristianismo tem uma longuíssima experiência da oração silenciosa ou meditação ou contemplação ou oração de Presença ou do Coração que, no Ocidente, se foi esfumando até quase desaparecer. O Concílio Vaticano II exprimiu a importância desta oração nos leigos, mas não pegou muito. Agora, surgem livros sobre o assunto e há mais prática desta oração. Há um livro que achei muito interessante: Pequeno Tratado da Oração Silenciosa, de Jean-Marie Gueullette, OP (2016, Paulinas Editora).

A sustentável leveza do jugo de Jesus

É incontestável o facto de que cada um de nós experimenta, uns mais do que outros e de formas variadas, o peso da vida. E esse peso manifesta-se de múltiplas maneiras, seja a depressão e solidão, a tensão e a ansiedade, a angústia e medo, a dor e a hostilidade. Carregamos até, voluntariamente ou não, os pesos de outros.

Desafia-te a viver positiva(mente)!

Assim, viver positivamente deverá impulsionar-nos a transcender essa visão ontológica do ser humano que tende a acentuar mais aquilo que é negativo ou que não funciona, procurando antes focar o olhar naquilo que cada circunstância oferece como aprendizagem, caminho necessário à mudança e ao crescimento, assim como naquilo que no mundo e no ser humano há de melhor.

Re-cristianizar é preciso!

Muita gente pensa que se eliminarmos a religião da arena pública, também acabarão as noções éticas que (ainda) sustentam a nossa sociedade. Mas para essas pessoas a moral cristã é a mãe de todas as repressões. A sociedade utópica está na música de John Lennon. É preciso deixar de cultivar moralismos “medievais”. Sejamos livres. Sejamos livres para gritar e estrebuchar.

Do confinamento às Minas

Vestígios dos trilhos usados para o contrabando abundante nesta zona da raia. Algum complemento a um salário magro. Histórias de perigos, ousadia, dignidade, persistência e superação. Na aldeia de Santana das Cambas existe um Museu do Contrabando que soubemos estar encerrado.   
Curvo-me perante uma realidade que desconhecia, apenas intuía… Ao olhar para os mineiros envelhecidos e suas famílias passei a vê-los como heróis, príncipes daquela terra, figuras exemplares de cidadania e coragem.

A favor do argumento ontológico

A realidade é um extraordinário abismo de Ilimitado em todas as direções e dimensões. É isto o Absoluto. Não tendo na sua constituição nenhuma descontinuidade, nenhum vazio absoluto (pois nele o nada absoluto [ou Nada] não pode simplesmente ter lugar), o Absoluto é plenitude de Ser. A isto se chega pela simples consideração de que o Nada, precisamente por ser Nada, não existe nem pode existir, pelo que sobra “apenas” aquilo que existe de facto, que é Tudo.

Memórias do Levante

À ideia da raça superior sucedeu a ideia da cultura superior, quase tão maléfica como aquela. E escravizar os seres humanos “inferiores” deu lugar a desvalorizar ou mesmo destruir as culturas “inferiores”. O resultado é que, se ninguém ganhou com isso, a verdade é que a humanidade perdeu e muito

A imagem de Jesus ou a pedagogia do amor

Jesus era negro, mulato, mestiço, cor de tuaregue, certamente não era branco. Este é um facto que não devemos esquecer, apesar das imagens e iconografias tentarem apagar este dado.
Na verdade, todos os cristãos sentimos Jesus como nosso, todas as culturas sentem Cristo como seu e representam-no conforme as suas tradições e conforme a sua cor da pele.

De joelhos os grandes sistemas económicos

Mas – dizem –, se existem catástrofes na economia motivada por um vírus exponencial, a “mão humana” lá está para dar alento a esta tempestade. E essa tem um “confinamento” suave, porque quem sofre são os trabalhadores mais vulneráveis, os informais, os pobres, as mulheres, as pessoas de cor, os migrantes e os refugiados. A violência doméstica aumenta, os direitos humanos são atrofiados e a indústria privada farmacêutica e o seu sistema de patentes é orientada para lucros inconcebíveis, em que a defesa da dignidade das mulheres e dos homens é colocada em causa.

O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente

Presumir a virtude do sujeito que detém o poder é, para além de naïf, algo injusto. Expor qualquer pessoa à possibilidade do poder sem limites (ainda que entendido como serviço) é deixá-la desamparada nas múltiplas decisões que tem de tomar com repercussões não só em si mesma, mas igualmente em terceiros. E também, obviamente, muito mais vulnerável para ceder a pressões, incluindo as da sua própria fragilidade.

Economista social ou socioeconomista?

Em 2014, a revista Povos e Culturas, da Universidade Católica Portuguesa, dedicou um número especial a “Os católicos e o 25 de Abril”. Entre os vários testemunhos figura um que intitulei: “25 de Abril: Católicos nas contingências do pleno emprego”. No artigo consideram-se especialmente o dr. João Pereira de Moura e outros profissionais dos organismos por ele dirigidos; o realce do “pleno emprego”, quantitativo e qualitativo, resulta do facto de este constituir um dos grandes objetivos que os unia.

O valor da vida não tem variações

Na verdade, o valor da vida humana não tem variações. Não é quantitativo (não se mede em anos ou de acordo com qualquer outro critério), é qualitativo. A dignidade da pessoa deriva do simples facto de ela ser membro da espécie humana, não de qualquer atributo ou capacidade que possa variar em grau ou que possa ser adquirido ou perder-se nalguma fase da existência. Depende do que ela é, não do que ela faz ou pode fazer.

Iniciativa Educação: Uma janela aberta à aprendizagem

Há uns anos – ainda era professora do ensino secundário –, uma pessoa amiga tinha duas filhas com personalidades muito diferentes. Foi chamada à escola do 1º ciclo do ensino básico. A professora disse-lhe que a filha mais nova não conseguira chegar aos objectivos propostos e que caberia a ela, mãe e responsável pela educanda, decidir se a filha deveria passar para o ano seguinte ou não.

Esperança de renovação

Em entrevista recente a um jornal o novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) disse claramente ao que vinha, sem rodeios, o que alimenta alguma esperança de renovação no catolicismo português.

Arte, literatura e renovação cristã

Se falo de um renovador da arte a partir de uma perspetiva cristã, devo recordar o exemplo de Graham Greene (que o arquiteto João de Almeida bem conhecia e admirava). E dou o exemplo de Monsignor Quixote (1982, tradução portuguesa: Europa-América, 1984), o relato de uma viagem à Espanha pós-franquista, num tempo de diálogo com o comunismo e de renovação do catolicismo pós-conciliar.

Comunhão na mão e reverência pelo divino

Comungar obrigatoriamente na mão obrigar-nos-á a cuidar mais da reverência interior em relação ao sacramento, a termos mais atenção ao gesto, à própria limpeza das mãos. Levar-nos-á talvez a fazer mais atos de reparação e de louvor, por aqueles (às vezes nós) mais desatentos ou rotinizados. Mas não fará de nós mais ou menos pecadores do que éramos comungando na boca.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Perante este vendaval “purificador” que deseja derrubar estátuas, obras de arte, filmes, livros, mas sobretudo pessoas, porque em determinado momento do seu passado se revelaram menos “puros”, cometeram erros ou foram apenas homens do seu tempo, tenho-me lembrado muito da narrativa do encontro de Cristo com a mulher adúltera, que tantos queriam apedrejar.

Que Igreja na Cidade?

Sempre vivi em cidades e entusiasma-me a vida citadina. Umas mais pequenas, outras mais cosmopolitas, metrópoles… cidades a habitar. Como pároco numa cidade, desde o início se foi percebendo a tensão entre território e pertença, entre centro e periferia, entre identidade e fronteiras. Há dois anos, organizámos as primeiras Jornadas interparoquiais de Pastoral da Cidade para dar luz a um caminho novo que se impõe.

Ler, imaginar, sobreviver

Para vos distrair um pouco do assunto que a toda a hora é notícia, e talvez vos divertir, ofereço este fragmento do romance As Intermitências da Morte, de José Saramago [cujos dez anos da morte passaram no dia 18]. Imaginem que a morte deixava de existir no nosso país. As circunstâncias e as circunstâncias dariam muito que falar. Melhor do que assistir a uma série da Netflix é ler este delicioso livro.    

Manuela Silva nasceu há 88 anos: solidariedade ativa e empenhada

Como os recursos são forçosamente limitados, neste movimento ascensional de produção de necessidades, vão ficando esquecidos os grupos ou povos que, num mesmo país ou no conjunto das nações, não alcançam níveis de poder aquisitivo correspondentes às exigências dos novos padrões. Por isso, a pobreza relativa (em alguns casos, a pobreza absoluta) tem aumentado. Esta a conclusão a que se chega com base na informação estatística disponível.
Há 42 anos já assim se exprimia Manuela Silva.

A religião e os outros

Os profissionais de saúde são dos sectores da população mais atingidos pela covid-19 em todo o mundo, quer pelo perigo de infecção quer pelas consequências do stresse. Mas há formas de combater essa vulnerabilidade emocional.

Ouvir a voz da solidão

Há dois anos, as minhas netas mais velhas iniciaram-se no estudo da filosofia, uma disciplina obrigatória no 10º e 11º anos de escolaridade. E uma delas ofereceu-me pelo Natal uma fotografia com a seguinte legenda: “A filosofia ensina-nos a ouvir a voz da solidão.” Achei curioso que uma miúda de dezasseis anos tivesse a intuição de que a solidão também tem voz e que o isolamento pode constituir uma experiência benéfica de autoconhecimento, algo que nos faz crescer e encarar o mundo de uma outra maneira.

A máscara e o jogo da sociabilidade

Pois é, os nossos sentidos detestam ser apressados, é preciso dar-lhes tempo. O que muitas vezes dizemos não ter. A memória, enamorada pelos sentidos, gosta de pormenores e não de vistas aéreas, exige-nos tempo. Byung-Chul Han, no seu livro A Sociedade do Cansaço, escreve: “Ao desaparecer a descontração, perde-se o ‘dom da escuta’ e desaparece a ‘comunidade capaz de escutar’.”

Programa de estabilização: mensagens implícitas

O Programa de Estabilização Económica e Financeira tem o alto mérito de procurar atender inúmeras carências em vários domínios, através de medidas de curto prazo com perspetivas de inserção e continuação com prazos mais alargados. Apesar disso, contém mensagens implícitas que justificam atenta ponderação. A luta pela subsistência e pela erradicação da pobreza está condenada à marginalização?

A Trindade como reflexo da proximidade de Deus

François Varillon, sj, terá questionado, durante uma conferência, o que mudaria na nossa vida se Deus fosse uma só pessoa em vez de três. A pergunta é extremamente pertinente. Será que a nossa fé seria a mesma? A relação interior que cada um tem com Deus seria igual? Será que nos relacionamos com Deus como nas suas três pessoas? Estas e outras perguntas ficam a ecoar em nós perante esta pergunta provocadora.

O refugiado não é apenas um migrante

Importa perceber que os refugiados são migrantes, mas as razões que os levam a deixar os seus países são bem diferentes e mais dolorosas que as da maioria dos migrantes. Estes, em regra geral, procuram melhorar as suas condições económicas. Os refugiados fogem a perseguições, prisões políticas, torturas, discriminações desumanas…

Uma história simples: os irmãos Ratzinger

A desconcertante e inesperada notícia da viagem a Munique de Bento XVI [quinta-feira, 18 de junho] para acompanhar os últimos momentos do seu irmão George, na sua premente urgência, é de uma comoção quase épica e, certamente, muito poética.

A favor do argumento ontológico – evidência do Absoluto

A convicção que tenho de que a existência ou as existências particulares implicam inevitavelmente uma Existência Primeira necessariamente existente (Absoluta, Infinita, Eterna) não resulta apenas de derivação lógica por regressão dos efeitos às causas, do múltiplo ao uno. Isso seria muito pouco e ficar-se-ia pelo meramente esquemático. É mais do que isso: é uma forma de argumento ontológico.

Eugénio de Andrade: Poeta esquecido?

Neste momento, quem passa por essa casa, sabemos que foi cedida, pela Câmara, à União das Autarquias de Aldoar, Foz, Nevogilde. Mas o conteúdo da tal cultura no pequeno Auditório Eugénio de Andrade, não dignifica muito a obra do Poeta.

Os derrubadores

Quem anda a vandalizar e derrubar as estátuas de mercadores de escravos, colonizadores e até de missionários, como o padre António Vieira, não é moralmente superior aqueles que diaboliza, pela simples razão de que muitos dos que se notabilizaram por práticas hoje condenadas eram legais à época, socialmente aceites e apoiadas.

Rainhas anónimas, princesas reconhecidas: nomes com história

Sou filha de um matsua e de uma bitonga, ambos são da província de Inhambane. O meu pai era filho de uma bitonga, que o educara naquela cultura. Eu fui uma criança culturalmente bitonga, embora tenha nascido num território ronga, em Maputo. Somos todos do sul de Moçambique. Entretanto, depois de se separar do pai do meu pai, a minha avó tornou-se esposa de um machuabo.

Interrogar a justeza e justiça dos modelos sociais

Será por vezes difícil entender isso de passar de estado de emergência a calamidade ou vice-versa. E até me dá urticária ouvir falar em confinados. Recuso-me a estar com finado ou com finados, antes desejo, procuro, quero estar com vivos. Mesmo no chamado Dia de Finados, prefiro pensar na festa dos vivos que por agora não vemos.

Diáconos não são “sacerdotes de segunda”

Ser diácono significa, como Filipe, o mártir Estevão ou Francisco de Assis – este que nunca quis ser ordenado presbítero –, partilhar a liberdade de Jesus com a Humanidade. Esta no seu todo, estrangulada por quem não respeita a dignidade humana, mas, também não respeita seres vivos, que no seu conjunto são chamados abióticos.

Ir ao restaurante – direito a escolher

Quem escreve com regularidade procura estar atento ao mundo que o rodeia nas diversas áreas que o integram. Umas vezes, os estímulos são mais elaborados e menos acessíveis aos comuns mortais, que somos todos. Outras, são as simples ideias trocadas, em momentos mais ou menos frequentes, e que, sobretudo, saem espontâneas e próximas da banalidade. As que emanam do coração e, sem filtro, se deixam partilhar, não medindo consequências nem impactos.

Bolsonaro, Coronavírus e Coronéis

Os “evangélicos” – designação comum dos cristãos de origem protestante – no Brasil, eram há 40 anos uma minoria perseguida e sem influência político-cultural. Fossem eles de igrejas tradicionais, como os Luteranos, pentecostais históricos ou não, calmos e racionalmente lúcidos, ou emocionalmente histéricos…

Quo vadis, América?

Esta América a ferro e fogo vive uma revolta como não se via há mais de cinquenta anos, desde o assassinato do pastor protestante e activista dos direitos civis Martin Luther King, em 1968. E o mais dramático é que não pode contar com um estadista na Casa Branca mas apenas um incendiário, que chama “bandidos” a toda uma massa multirracial de manifestantes pacíficos que está farta do racismo endémico e da reconhecida violência policial no país.

O confinamento ou o retorno à espiritualidade

Quem está habituado a ver em tudo a mão de Deus e a procurar em tudo o Seu rosto não pode estranhar o confinamento nem todas as suas consequências. Pelo contrário, a visão espiritual dos acontecimentos parte sempre, em primeiro lugar, da sua aceitação integral como mistério.

Um armazém de crianças

O mundo tem assistido, sensibilizado e chocado, a um vídeo que retrata um grupo de várias dezenas de crianças recém-nascidas nos seus berços a aguardar quem as venha buscar e delas cuidar como progenitores. O vídeo é produzida por uma empresa ucraniana (Biotexcom) que explora comercialmente a chamada “gestação de substituição” (ou “maternidade de substituição”): o apelo que dele transparece é o de que as pessoas que recorreram aos serviços dessa empresa possam obter as necessárias autorizações de viagem (até agora negadas, devido à pandemia do coronavírus) para que tais crianças não permaneçam mais tempo nessa situação. Muitas pessoas serão sensíveis a este apelo, esquecendo todos os outros aspetos envolvidos. Não podemos, de qualquer modo, ignorar que essa empresa também quer garantir os lucros próprios da sua atividade.

Fala Correcta

“A comunicação parece estar bloqueada. Os pais não conseguem falar com os filhos; os maridos com as mulheres (ou os ex-maridos com as ex-mulheres, acrescento) e os sócios com os seus parceiros.”
Estas palavras foram ditas por um mestre budista vietnamita, muito conhecido, Thich Nhat Hanh, há alguns anos. Se visse agora… infelizmente, esta “fala bloqueada” faz parte das nossas vidas. É este o primeiro passo para outros mais perigosos, cada vez mais à beira do precipício e que podem, finalmente, assassinar/matar.

O domingo do mistério de Deus

Há cada vez mais teólogos de renome a lastimar um domingo dedicado ao esforço da razão para «explicar» o mistério de Deus que a liturgia cristã celebra neste domingo, 7 de Junho, com o nome de Domingo da Santíssima Trindade… O “mistério de um só Deus” foi substituído por uma “trindade de mistérios”: o de Deus criador, pai e mãe em plenitude; o de um ser humano que se deixou penetrar por Deus sem entraves da sua liberdade, conhecimento e vontade; o da actuação perene de Deus na história humana.

As casas de repouso eterno

As notícias chegam-nos em catadupa. Os nossos entes queridos que já não podiam viver connosco porque a vida frenética que levamos não nos permite cuidar deles e que, por amor, por compaixão e por comodidade, os colocámos nas casas de repouso, estão a morrer às dezenas. Os remorsos invadem-nos o espírito, sem que possamos encontrar uma solução e não vale a pena estar a acusar as instituições ou os funcionários que fazem tudo o que podem para os cuidar.

Peste Malina

Não, não é O Ano da Morte de Ricardo Reis, mas é o ano d’A Peste. As Ondas de pequenos monstros transformaram a terra num Vasto Mar de Sargaços. Qualquer Coisa Como um Lugar de Massacre. Nada vai voltar a ser como O Mundo em que Vivi. Sim, Os Dias Tranquilos acabaram, Os Anjos desfizeram As Estrelas Propícias (se é que, na verdade, alguma vez existiram). Agora, a vida está Em Frente da Porta, do Lado de Fora e toda a gente está confinada aos Pequenos Delírios Domésticos.

Afinal, quem são os evangélicos?

A maior parte dos que falam de minorias religiosas como os evangélicos nada sabem sobre eles, incluindo políticos e jornalistas. Em Portugal constituem a maior minoria religiosa, e a Aliança Evangélica Mundial conta com mais de 600 milhões de fiéis em todo o mundo.

Um planeta é como um bolo

O planeta Terra tem registado emissões de dióxido de carbono bastante mais reduzidas nestes primeiros meses do ano. Não porque finalmente os decisores e líderes políticos consideraram cumprir o Acordo de Paris, não por terem percebido as consequências trágicas de um consumo insustentável de recursos para onde o modelo económico e de vida humana no planeta nos leva, mas devido à tragédia da pandemia que estamos a viver.

Violência contra as Mulheres: origens

Olhando para os dados neste contexto de pandemia, mais uma vez dei por mim a pensar de onde virá a persistência estrutural do fenómeno da violência doméstica e de género, esta violência que assenta num exercício de poder exacerbado, descontrolado, total, de alguns homens em relação às suas companheiras, em que elas não são mais do que um objeto de posse sobre o qual se pode tudo.

Credo

O Deus em que acredito não é pertença de ninguém, não tem registo, é sem patente. É polifónico, é um entrecruzar de escolhas e de acasos, de verdades lidas nos sinais dos tempos, de vida feita de pedaços partilhados e também de sonhos.

Vem Espírito Santo e renova a face da Igreja

Em abril de 2013, nas Jornadas de Teologia da Caridade, subordinadas ao Tema “A força evangelizadora da caridade”, promovidas pela Cáritas Espanhola, em Salamanca, conheci, ao tempo, o arcebispo de Tânger, Santiago Agrelo Martínez. Fiquei fascinado pela profundidade do seu pensamento, pela simplicidade no trato e pela suas coragem e clarividência pastorais.

A Senhora mais brilhante do que o Sol

Quem é afinal Maria de Nazaré, a escolhida por Deus para encarnar a nossa humanidade? Os Evangelhos referem-na poucas vezes. Esse silêncio dá mais espaço à nossa criatividade e até a um certo empossamento da Mãe de Jesus. Em torno da sua figura construímos aquilo a que poderíamos chamar “questões fraturantes” entre cristãos. Mais importante que dogmas e divergências é atendermos à figura de Maria. Quem é que ela é, ou pode ser, para nós?

Evangélicos e Chega: separar as águas

Em todo o debate público levantou-se novamente a questão da identidade evangélica, cuja percepção é complexa até para os próprios evangélicos e sobretudo para a maioria dos portugueses, cuja cultura religiosa é essencialmente católica-romana. Grande parte da percepção pública dos evangélicos deriva dos soundbites brasileiros e norte-americanos, onde há de facto lobbies evangélicos e ultra-conservadores, como a “Bancada Evangélica” ou o “Tea Party”. A isso, acrescenta-se a difusão dos canais de televisão e rádio neopentecostais, o que colabora para a criação de estereótipos sobre os evangélicos no seu todo.

“Fake religion”

Para que uma falsificação faça sentido e seja bem-sucedida tem que juntar pelo menos duas condições. Antes de mais, o artigo a falsificar tem de estar presente no mercado e em segundo lugar tem que representar valor comercial. Ora, o mercado religioso existe e está bem de saúde, para desespero dos neo-ateístas. E de cada vez que surge uma catástrofe, uma guerra ou uma pandemia mortal a tendência geral dos indivíduos é para recorrerem ao discurso religioso, procurando encontrar aí um sentido para o drama que estão a viver, porque o ser humano necessita de encontrar um sentido no que vê e sente acontecer à sua volta.

A criatividade lexical de uma pandemia

 Ao longo de três meses temos sido espectadores atentos de uma telenovela que nos envolve a todos – as notícias acerca da pandemia covid-19. Não irei debruçar-me sobre os diferentes capítulos deste romance de terror, nem sobre as reviravoltas a que tem sido sujeito e que levaram a que uma inicial epidemia aparentemente longínqua se transformasse em catástrofe mundial com profundas mutações no nosso modus vivendi. Gostaria de sublinhar a criatividade lexical deste fenómeno, no que respeita à criação de novos vocábulos bem como à utilização de termos usuais que, no entanto, ganharam um significado diferente neste contexto. 

Lares de idosos no fio da navalha

Por más razões, os lares saltaram para as primeiras páginas da comunicação social. Ao longo das últimas semanas, os mortos nestas instituições, legais e ilegais, motivados pela pandemia do covid-19, atingiram cerca de 40% do número total das vítimas mortais (e cerca de 50% em toda a Europa). Trata-se de um elevado número de cidadãos que permaneceram muito esquecidos dos poderes públicos, na fase mais aguda desta devastadora pandemia: a população mais idosa, a mais vulnerável à contaminação pelo vírus.

O trabalho num quarto só para si – e a semana de quatro dias (Opinião da reitora da Univ. Católica)

Nestes dias do grande confinamento, reler Virginia Woolf e o seu notável Um Quarto Só para Si (A Room of One’s Own) adquire um sentido renovado. Dum escritório só para mim, sinto-me afinal herdeira de um texto que se tornou quase projeto de missão: que para a independência da mulher, em particular de uma profissional criativa, como a mulher escritora, se exigia ter um rendimento fixo e um quarto só para si. Nos dias do grande confinamento, contudo, o quarto não é garantido – apenas alguns o têm só para si – e muito menos o rendimento é fixo.

Covid e educação: aproveitar as oportunidades

Estamos a viver um tempo inusitado, inesperado e imprevisível, que deixou também as escolas e o sistema escolar em apuros, sob um elevado stresse organizacional e profissional. A mudança é disruptiva, em vez de incremental, é reativa em vez de antecipatória, é imposta, em vez de desejada. Isto marca desde logo um tempo muito peculiar e sem precedentes. Um tempo que requer uma atenção redobrada.

O mundo precisa (mesmo) de um milagre

Sim, sinto que o mundo precisa de um milagre. Um milagre que seja a revelação de um Milagre, isto é, que seja a revelação do verdadeiro Milagre, para toda a humanidade. Porque, como disse em 2017 o excelente padre Anselmo Borges numa entrevista ao jornal DN, precisamente a propósito das tradicionais celebrações das aparições marianas de Fátima, não há senão um e um só milagre: o milagre do Ser. Sim, o milagre da Existência de Tudo, o milagre que é existir algo em vez do nada.

Pós-pandemia: que sociedade?

Enquanto continuamos nesta clausura mais ou menos voluntária, neste confinamento à escala global, neste “novo normal” que tomou conta das nossas vidas, importa começar a pensar como vamos viver em comunidade quando (e verdadeiramente ninguém sabe quando) estes tempos excecionais passarem.

Sinto falta – Um muçulmano à beira do fim de Ramadão

Todos nós sentimos falta de algo. Quem nunca vivenciou o sentimento saudoso de repentinamente a sua mente ver-se transportada para aquela memória imaterial e turva da nossa infância para a qual olhamos com tanto carinho? Neste tempo de isolamento social por causa da pandemia de covid-19, para o qual fomos arrastados sem opção de escolha, sinto falta de tanta coisa…

Vamos chamar os bois pelos nomes?

O vírus toca a todos. Dizem que é democrático e que para ele todos somos iguais, mas também nesta matéria se verifica o velho princípio orwelliano de que existem uns cidadãos mais iguais do que outros.
Helena Roseta diz que “a covid-19 é um grande revelador das desigualdades económicas, sociais, ambientais e até geracionais”. Está provado que as camadas mais pobres e excluídas da população são os mais vulneráveis à pandemia da covid-19. Os Estados Unidos atestam esta ideia de forma gritante.

Monstros lendários: a rainha corona, um bicho, um xitukulumukumba e uma zuzu são momomos

A geração dos anos 40 cresceu intimidada pelos pais, sobre a existência de um bicho que nunca chegou a ver. Mas foi um bicho que a educou de forma rígida. Viveu o tempo todo obedecendo cegamente aos pais, em tudo o que fosse necessário. Não foi uma geração questionadora, pelo menos no que a assuntos domésticos dizia respeito. Uma palavra dos seus pais era de ordem.

Prémios no Novo Banco: uma economia assim mata mesmo

O país está a confrontar-se com uma inesperada e muito difícil crise económica e financeira. Tudo indica que se irá agravar nos próximos meses e poderá ter uma duração imprevista, dada a sua extensão geográfica ser de ordem mundial. Esta situação acarretou, inevitavelmente, uma nova crise social cujas proporções se revelam muito preocupantes por, rapidamente, terem manifestações agressivas, quer em quantidade, quer nas necessidades primárias que um cada vez maior número de nossos concidadãos não consegue satisfazer.

Um estranho paradoxo

Vivemos um estranho paradoxo. As pandemias tenderão a ser controladas pela ciência. Mas tal não tem acontecido no caso da covid-19. O certo é que tem faltado uma liderança ética e política partilhada nos planos europeu e mundial. A voz do Papa Francisco, as encíclicas Laudato Si’ e Caritas in Veritate são ainda ecos que clamam no deserto. A xenofobia, o isolacionismo e a desconfiança são traços dominantes no sistema internacional. Mas será esta pandemia uma oportunidade para se criar uma nova consciência capaz de 1) Prevenir ameaças globais; 2) Garantir uma melhor partilha de recursos; 3) Compreender que os mais fracos são as maiores vítimas; 4) Pôr em prática um contrato ecológico; 5) Ligar sustentabilidade, equidade e justiça distributiva na sociedade e entre as diferentes gerações, bem como garantir a subsidiariedade?

Inquietude e pesar em compasso de espera

Estamos a viver um tempo estranho, em que, de repente, o nosso dia-a-dia deixou de ter a dimensão tranquilizadora, que é garantida pelo habitual cumprimento das tarefas de todos os dias e pelo encontro confiado com aqueles que enchem a nossa existência, no nosso habitual fazer pela vida. A habitualidade rompeu-se. Nada acontece da mesma maneira que antes. A fórmula de “trabalhar a partir de casa”, cuja prática procura ser generalizada, não constitui propriamente um hábito alternativo, e está longe de proporcionar a confiabilidade que, em geral, só o agir sedimentado assegura.

Gastar hoje em inclusão, para poupar no futuro em prisões

O Código Penal português é um documento de justiça, mas desequilibrado em algumas situações, quando as penas passam a execução. Por um lado, crimes graves podem tornar-se em penas suspensas se o réu culpado o tiver cometido pela primeira vez e a sentença for menor de 5 anos. Por outro lado, uma pena máxima para qualquer crime é de 25 anos, mas se alguém comete vários crimes, e estes forem julgados em processos diferentes, há lugar a penas sucessivas. Assim, temos em Portugal pessoas a cumprirem de seguida várias penas, esperando mais de 37 anos para verem o mundo do lado de fora dos muros.

João e Francisco Pereira de Moura, um fraternal compromisso social cristão

Foi publicado recentemente o livro Testemunho de um Economista Social comprometido na humanização do mundo, editado pelo ITDC (Investiment, Training and Human Development Consulting), com prefácio de D. Manuel Martins, no que seria um dos seus últimos textos.
Em boa hora aconteceu esta publicação porque João Pereira de Moura, já nonagenário, é uma figura invulgar da administração pública, da vida política e do cristianismo social, em Portugal, na segunda metade do século XX.

Os espectros são sobretudo os longínquos outros

As vidas precárias “são vidas em relação às quais não faz sentido o luto porque já estavam perdidas para sempre ou porque, melhor ainda, nunca ‘chegaram a ser’, e devem ser eliminadas a partir do momento em que parecem viver obstinadamente nesse estado moribundo. A este estado moribundo das vidas humanas Butler chama desrealização porque transforma o humano em espectro.”

Reforma conciliar da Igreja, só a partir do injustiçado

Quando a carta de Tomás Halík (O sinal das igrejas vazias – Para um Cristianismo que volta a partir) começa por perguntar “Que tipo de desafio representa esta ‘situação de templos esvaziados’ para o cristianismo, para a Igreja e para a teologia?”, somos levados a crer que nos irá oferecer uma análise histórico-teológica movida por um “sentimento muito vivo e impaciente de mudanças” (Y. Congar, 1969). Porém, ela restringe-se ao intra-eclesial: nela não ressoa a interpelação da cultura moderna à Igreja.

O meu Credo

Como eu gostaria de recitar o Credo cristão (baseado no único e já tão esquecido “símbolo dos Apóstolos”, no “Pai nosso” e em muitas passagens da Bíblia). Quero respeitar Deus como Mistério totalmente indizível; bem como o Mistério da sua “presença” na História da Humanidade. Posições dogmáticas não respeitam nem Deus nem a inteligência humana – e só nos afastam deste Mistério que engloba todo o Universo e toda a Vida.

“Vidas precárias” ou os Outros. Humanos?

A motivação mais imediata destas reflexões foi o comentário de um dos assessores do Presidente Trump, em meados de março – cujo nome não retive –, que procurava explicar a grande percentagem de óbitos por covid-19 das pessoas afroamericanas, nos EUA.

Desigualdades sociais agravadas?

O Governo vem adotando medidas várias para a atenuação das consequências negativas da covid-19. Apesar disso, as consequências são muito preocupantes e poderão contribuir para o agravamento das desigualdades sociais.
Poderá afirmar-se que o contexto económico-social e as medidas adotadas pelo Governo foram mais favoráveis a quem se encontrava numa situação mais estável e, eventualmente, com níveis remuneratórios superiores à média; em contrapartida, os trabalhadores mais precários e os empresários mais débeis ficaram desfavorecidos, correndo muitos deles o sério risco de evoluírem para situações de pobreza mais ou menos acentuada.

Sinais de discriminação?

Aparentemente nos últimos dias ter-se-ão acumulado sinais de discriminação entre cidadãos, por parte de Governo e Presidência da República, o que é inaceitável. Mas nem a oposição sai bem nesta matéria.
Parece-me que há aqui qualquer coisa que não bate certo. Sabemos que uma adversidade inesperada como uma pandemia põe à prova qualquer sistema de saúde pública, mas também qualquer nível de governação, desde o local ao regional, nacional ou europeu, por exemplo. Trata-se dum teste duríssimo para quem decide e para as populações.

O inimaginável amanhã

“(…) A escrita favoreceu o aparecimento de poderosas entidades ficcionais que organizaram as vidas de milhões de pessoas e deram novas formas à realidade de rios, pântanos e crocodilos. Ao mesmo tempo a escrita fez com que fosse mais fácil para os homens acreditarem na existência de tais entidades ficcionais, porque acostumou as pessoas a experimentarem a realidade através da mediação de símbolos abstratos.” Diz isto Yuval Noah Harari, em Homo Deus, História Breve do Amanhã.

Dentro de muros (I)

Escrevo estas palavras em tempo de confinamento, dentro de muros que me separam fisicamente do mundo. São as ideias que nos devem libertar e unir.

Mesmo antes do estado de emergência começar, estive junto a um muro separador. Foi na fronteira de Tijuana, entre o México e os Estados Unidos da América (EUA). Estive no lado de dentro, mas também no lado de fora, dependendo de como vemos a realidade, estive dos dois lados da fronteira, entre o México e os EUA. E que privilégio esse, de saltar fronteiras, como se o muro a alguns nada fizesse. O problema é que faz a outros. É discriminador, ele.

Foi um bom centenário, “não é assim”, padre Júlio Fragata?…

O padre Júlio Moreira Fragata nasceu a 17 de Abril de 1920, em Seixo de Ansiães (Carrazeda de Ansiães) e faleceu a 27 de Dezembro de 1985, em Braga. Eminente figura como sacerdote jesuíta, como professor universitário, autor de obras de alto nível científico e conferencista em Portugal e no estrangeiro. Etc. (de verdade). Espera-se realizar a devida homenagem a 20 de Outubro, na sua terra natal. Entretanto, fantasiei o relato da celebração do centenário como se tivéssemos a sua presença física.

Tudo está ligado

A tese de que tudo está ligado tem aparecido recorrentemente na história da filosofia. E imediatamente lembro Espinosa e Leibniz, duas presenças determinantes nos diferentes cursos que leccionei sobre Filosofia Moderna. Em ambos, a ideia da relação de tudo com tudo ocupa um lugar central. O primeiro enfatiza a integração do homem na Natureza, enquanto parte da mesma. O segundo defende a ligação entre toda a matéria, sustentando que tudo está em tudo.

Papa Francisco, subsídios e trabalho

Na carta que recentemente dirigiu aos Movimentos Populares [ler carta aqui]o Papa Francisco advogou a criação de um “salário universal” para “trabalhadores informais, independentes e de economia popular” que se se vêem privados de rendimentos na atual situação de pandemia. Liga esse “salário” ao reconhecimento da dignidade desses trabalhadores.

Profetadas

Com a base de apoio progressivamente reduzida, o Presidente do Brasil estriba-se cada vez mais nos líderes religiosos do sector neopentecostal, fazendo tábua rasa do Estado laico e promovendo uma perigosa promiscuidade entre política e religião, que só pode vir a dar mau resultado no futuro.
Ouve-se e custa a acreditar, mas o “Polígrafo SIC” comprovou a veracidade dos factos relatados, no âmbito duma parceria de fact-checking com o Facebook, destinada a avaliar a veracidade das informações que circulam nessa rede social. Bolsonaro determinava uma “proclamação santa” anunciando um jejum religioso contra a pandemia do coronavírus, à qual teriam aderido os “maiores líderes evangélicos” do país. 

Não se pode adiar o último adeus – covid-19 e humanismo

Há comportamentos e acontecimentos que são analisados, conforme as circunstâncias em que se encontram. Concretamente, valorizam ou relativizam sentimentos consoante sejam os seus ou expressos por outros. Ao escrever no dia em que se assinala o 25 de Abril, dou como exemplo a valorização que fazem desta efeméride os que sofreram na alma e no corpo as consequências da luta pela Liberdade, e os que não chegaram a conhecer os tempos da ditadura. É uma questão de níveis de empatia e, em determinados casos, mesmo de compaixão (com+paixão), um valor humano nobre e fundamental que permite a alguém “meter-se na pele do outro”, ou ainda mais, sem retóricas inúteis sobre o sofrimento do outro, ser capaz de o assumir, de verdade, como seu. 

“Pfukùár” a humanidade

Vivíamos “aparentemente” felizes o limiar do ano 2020. O tal que, por ser capicua, dizia-se que prenunciava beleza, alegria, bem-estar e todas as boas coisas ligadas à estética. Mesmo quem não estivesse feliz, “entrava na onda” e era como se estivesse, porque a aura do início de um novo ano, de um modo geral, faz pensar que muita coisa irá mudar para o melhor. Alguns se esquecem, tal como se tem dito, que o dia que marca o ano novo é apenas mais uma data no calendário e que quem tem de mudar somos nós.

Maria de Sousa – ciência e poesia

Maria de Sousa (1939-2020) foi uma médica, bióloga e mulher de cultura e de ciência de exceção, que nos deixou vítima da terrível covid-19. Ensaísta de mérito, escreveu Meu Dito, Meu Escrito (Gradiva, 2014), onde se encontra a força e a alegria da sua personalidade única. Era professora emérita da Universidade do Porto e fez um brilhante percurso internacional no Reino Unido (onde foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian) e nos Estados Unidos.

Onde está Deus?

A propósito da pandemia que atinge agora o mundo inteiro, ressurge a incontornável questão: o que tem Deus a ver com isto; como pode um Deus bondoso permitir um mal como este?
De entre várias respostas que têm sido dadas a esta questão, parece-me de sublinhar a do padre Raniero Cantalamessa O.F.M., na pregação de Sexta-Feira Santa, perante o Papa Francisco.

Porque é que precisamos de beleza?

A arrebatadora frase de Fiódor Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo” é quase uma provocação. Leva-nos a questionar uma certa ordem do mundo. Talvez por encararmos o ato de salvar como um sustento precário. Ao pensar nos inúmeros problemas existenciais que temos e nos dilemas que o mundo atravessa, vêm-nos à mente diversos cenários.

O 25 de abril: rito (religioso) ou ritualismo (político)?

Claro que o 25 de abril deve ser celebrado, como todos os momentos mais fortes e intensos das nossas vidas!
Viver numa espécie de “ritualismo político” é achar que o 25 de abril é monopólio de alguns (contra a participação de todos), que a sua celebração só pode ser feita naquele espaço concreto de Parlamento (porque o cerimonial é mais importante que a celebração) e que o confinamento à casa de cada um perde a sua dimensão simbólica porque há uma casa que se apresenta como mais fundamental que é a Casa da Democracia.

Adorar a Deus em espírito e verdade

Uma pandemia como a que vivemos actualmente desafia a nossa fé por três razões. Primeiro, toda a confiança que possamos ter em Deus parece não nos livrar do contágio e da possível morte. Depois, obriga-nos a relegar para o plano individual aquilo que normalmente é vivido de forma pública e comunitária. Por fim, afasta-nos (no caso do catolicismo) daquilo que é a principal fonte da graça, o sacramento da eucaristia.

Uma epifania de Páscoa com Tintoretto

Passou a Páscoa. Este ano sob o sobressalto inimaginável de uma penitência literal. Na verdade, fomos todos chamados (os que são cristãos), mais ou menos involuntariamente, a defrontarmo-nos com uma inegável coincidência. A da redenção dos homens pela paixão de Cristo, com a dos padecimentos pela pandemia.

Proteger as comunidades ciganas no contexto da pandemia

A presença dos ciganos em Portugal remonta ao século XV, tendo esta minoria étnica permanecido na Península Ibérica desde então. As comunidades ciganas foram sempre perseguidas e excluídas, tendo sido iniciada por D. João III em 1526 a sua expulsão de Portugal, seguindo-se o decreto de 1538 de deportação para as colónias, em que os homens eram obrigados a trabalhos forçados nas galés.

Combate pela dignidade humana: olhar de frente a violência doméstica

Os números não nos enganam. Segundo os dados que vão sendo publicados, a violência doméstica tem aumentado muito, nos últimos anos, no nosso país. Agora, com esta situação de confinamento a que todos estamos forçados, devido à pandemia de covid-19, sem sabermos ao certo quando terá o seu termo, os psiquiatras e psicólogos não se cansam de nos alertar para os múltiplos casos de violência entre casais, fruto da constante proximidade das pessoas, ao longo de tantos dias.

Na linha da frente!

5.680 instituições particulares de solidariedade social. 340 mil trabalhadores. 800 mil utentes. 300 mil idosos. É este o Sector Social Solidário em Portugal: cuidar dos outros todos os dias, 7 dias por semana, 24 horas por dia.

Um leão chamado Corona

Segundo um site de notícias fictícias, a Câmara Municipal de Vizela iria soltar trinta leões nas ruas para obrigar as pessoas a manterem-se dentro de casa. Disparate, dirão uns. Que bela ideia, pensarão outros. Mas a receita é velha como o rei Salomão.

O movimento descendente como vocação cristã

Diz-se no Credo cristão: “(…) foi crucificado, morto e sepultado; / desceu à mansão dos mortos; / ressuscitou ao terceiro dia (…).” Jesus Cristo desceu aos Infernos ou “mansão dos mortos”; em hebraico, no Antigo Testamento, sheol significa morte e inferno.

Morrer da cura

Luís não chegou ainda aos quarenta. É solteiro e vive só. Habitando com os pais a mesma cidade, decidiu decretar a sua independência comprando há uns anos um exíguo apartamento. Está agora confinado em casa. Não pode visitá-los, pois tem medo de contaminá-los ou de ser contaminado por eles. Afinal, a mãe ainda trabalha num centro de saúde. Corporalmente, Luís está bem, diz. Mas a “alma” já não está a cem por cento.

Como reencantar o mundo depois do coronavírus?

É muito curioso notar como a palavra “viral” já faz parte do nosso vocabulário quotidiano de hiperconectados há algum tempo. Sobretudo na adolescência, no mundo da música e do cinema, do instagram e do facebook, dos youtubers e dos influencers, mas também na política, no desporto e na economia, todos aspiram a criar algo que se torne “viral”, isto é, que contagie ou conquiste o sorriso, a carteira ou a admiração de todos.

O mal: um desafio à filosofia e à teologia ou a dimensão trágica da existência

A oração do Papa Francisco pela humanidade expressou a vários níveis a situação existencial que estamos a viver: era um ser humano só, de uma vulnerabilidade extrema e que, assumindo ambas, solidão e vulnerabilidade, procurava viver e partilhar com o conjunto dos humanos os recursos que a sua história de vida punha à sua disposição para poder viver o momento atual, com sentido e num horizonte de esperança no futuro.

Paixão de Cristo, confortai-me

Há pequenas capelas junto ao rio Douro e aos seus afluentes, próximas das aldeias, denominadas Senhor da Boa Viagem, representando Jesus crucificado. Memórias de tempos em que se cruzava o rio nas “barcas de passagem”, “com o credo na boca”, quer os barqueiros quer os passageiros.  

Deus em quarentena

Como deveria ser em todos os 40 dias antes da Páscoa. Somos nós que precisamos de pôr Deus em isolamento: das ideias trapalhonas, relações humanas trapalhonas quando não trapaceiras, e de uma data de coisas que mais atrapalham do que ajudam. Para uma cuidadosa revisão.

Aprender a vulnerabilidade: Viver em pleno vento

Há dias, aceitei a oferta de um querido sobrinho meu que me foi fazer compras no supermercado. Dir-se-á que isto não tem nada de especial, dado que sou uma respeitável septuagenária. No entanto não estou habituada, confesso, a que cuidem de mim.

Não fazias falta nenhuma (ténue é a memória do homem)

Muitas teorias se têm lançado acerca da utilidade ou, pelo menos, da pertinência do novo coronavírus. Muitos textos, dissertações, vídeos impressionantes se têm produzido a acompanhar os relatos idiossincráticos dos pensadores pela sua cabeça e dos pseudopensadores, plagiadores fanáticos do material alheio.

Um tempo duas vezes suspenso

O tempo que estamos a viver está como que duplamente suspenso. Quer devido ao presente confinamento, quer por se inscrever na época pascal. A dúvida é saber em que condições vamos sair disto.

Comunicar na era do coronavírus

Byung-Chul Han é um observador perspicaz da sociedade contemporânea, por ele designada de várias maneiras, como “a sociedade do cansaço” ou “a sociedade da transparência”. Professor universitário em Berlim, ele analisa criticamente aquilo que designa como “o inferno do igual”, ou seja, algo de inevitável naqueles que a todo o custo pretendem ser diferentes mas que, na realidade, se aproximam por esse desejo comum – aliás não conseguido – de originalidade.

Deus sem máscaras

Assisti à cerimónia da consagração ao coração de Jesus e ao coração de Maria, proposta pelos bispos de Portugal, Espanha e outros países. Um ponto de partida para reflectir sobre oração e rito.

A ilusão do super-homem

As últimas semanas em Portugal, e há já antes noutros cantos do mundo, um ser, apenas visível a microscópio, mudou por completo as nossas vidas. Na altura em que julgávamos ter atingido o auge da evolução e desenvolvimento técnico e científico, surge um vírus.

Esse Deus não é o meu!

Os fundamentalismos alimentam-se do medo, do drama e da desgraça. Muitos deles sobrevivem ainda do Antigo Testamento, a fase infantil da revelação divina na perspectiva cristã.

As circunstâncias fazem os grandes líderes. Cá estão elas.

Faço parte de uma geração que reclama grandes líderes. Não tenho muitas dúvidas que esta reclamação é de quem vive num certo conforto. Não tive um Churchill porque não passei por uma grande guerra. Não tive um Schuman porque não era vivo quando a Europa esteve em cacos. Não tive um Sá Carneiro, Freitas do Amaral ou Mário Soares porque não era vivo quando Portugal ainda só sonhava com uma Democracia plena e funcional.

Apesar de tudo, a liberdade

Sinto a doença à minha volta e à volta dos meus. E, nesta reclusão involuntária, lembro-me de Trujillo e de suas altas torres. Não de todas, mas de uma que, na sua delgada altivez, se assumiu como mirante.

Uma experiência de sinodalidade – a Igreja Católica no Terceiro Milénio

Há dias, chamou-me à atenção, no 7MARGENS, um artigo intitulado Um sínodo sobre a sinodalidade para dar eficácia à ideia de participação. Li o artigo com entusiasmo, sobretudo, porque revivi a minha experiência de paroquiana numa igreja da cidade de Lisboa. Foram tempos de Alegria e Graça, os anos de 2000 a 2019, sob a “batuta” do padre e cónego Carlos Paes.

“Jesus chorou”

Esta frase do capítulo 11 do Evangelho de São João (Jo.11,35), faz parte do episódio da ressurreição de Lázaro e remete para o momento em que Jesus se encontra com Maria, irmã de Lázaro.

Oração, cidadania e solidariedade contra a pandemia

Esta sexta-feira, às 17h (hora de Lisboa), o Papa volta a estar em oração a partir do adro da basílica de São Pedro, perante uma praça vazia, naquela que será seguramente uma das imagens mediáticas que registarão este período difícil da humanidade.

O Sétimo Selo 2.0

A pandemia de covid-19 parece ser a nova peste negra da Idade Média. Se antes a Igreja aterrorizava os fiéis com o inferno, agora correm o risco de despersonalização através do isolamento social.

Covid-19: por que meter Deus ao barulho?

As pessoas religiosas têm tipicamente dois tipos de atitudes perante a tragédia da covid-19. Em primeiro lugar, os mais fanáticos chegam a defender que é um castigo de Deus (a ministra da Defesa do Zimbabué disse-o há dias). O problema é que, nesse caso, estamos perante uma inconsistência ou contradição lógica básica. Pois, suponha-se para fins argumentativos que há Deus e que a covid-19 é um castigo de Deus.

Sabemos (con)viver com a (fr)agilidade?

Vivemos um tempo singular. Somos, mais do que nunca, chamados a fazer sobressair, em nós próprios, aquilo que nos faz verdadeiramente pessoas: o cuidado que devemos uns aos outros, como a atitude de quem olha para os outros como espelho de si mesmo, a visão do próximo como aquele que é genuinamente diferente, numa diferença que se completa e nos torna verdadeiramente semelhantes na alteridade, unidos no essencial: a nossa dignidade de seres humanos, ao mesmo tempo únicos e (inter)dependentes uns dos outros.

“Vemos, ouvimos e lemos…”

Num tempo de medo e de incerteza pela ameaça do novo coronavírus, importa não perder a cabeça fria. Com afirmou José Gil há dias, a lição que estamos a ter deve preparar-nos para o tema da salvaguarda do Planeta e da Humanidade. A exortação apostólica pós-sinodal do Papa Francisco é, assim, de leitura obrigatória.

A Guiné Bissau e o futuro incerto

Estava em Bissau dia 27 de fevereiro a participar numa missão da ONGD Afetos com Letras, quando Umaro Sissoco Embaló, tomou posse como Presidente da República, sem que houvesse decisão do Supremo Tribunal de Justiça a um recurso interposto por Domingos Simões Pereira, o outro candidato, por alegadas irregularidades eleitorais.

A vez do teletrabalho?

Há males que vêm por bem. Talvez esta seja uma grande oportunidade para encarar a sério a questão do teletrabalho, nas profissões e funções que o permitam. E depois há imensas vantagens para todos mas, entre outras medidas, isso passa por baixar significativamente os custos do acesso à internet para todos os cidadãos.

Em tempo de Covid-19

Hesitei no título que haveria de dar a este artigo; pensei na alternativa: “Afinal quem é o homem do século XXI?” Poderia dizer: esse deslumbrado, contaminado pela pressa, controlador de tudo em nome da sua total autonomia, da liberdade que quer levar ao extremo, da autodestruição omnipotente, do ridículo sabor de querer ser Deus.

Uma questão de justiça

A Universidade de Georgetown, de Washington, realizou um estudo que pretende contabilizar a ação da Igreja Católica no âmbito da promoção social (saúde, educação, combate à pobreza, etc.) no mundo inteiro.

A experiência da vulnerabilidade

A situação que presentemente vivemos com o Covid-19 preocupa-nos, angustia-nos e faz-nos pensar na fragilidade das nossas vidas, levando-nos a viver na carne a experiência da vulnerabilidade. Aproveito a quarentena que nos foi imposta para reler algumas obras alusivas a situações catastróficas, nomeadamente aquelas que põem à vista o melhor e o pior da humanidade. Entre elas lembro, como particularmente significativo, o romance de Albert Camus, “A Peste”.

Religiões, vírus e responsabilidade de todos

Passou pouco mais de um mês sobre uma tertúlia em que se falou de media e religião, comunidade e fé, no arranque de um novo ano civil. Ouvíamos já os primeiros relatos de um novo vírus e as implicações da sua propagação na longínqua China.

Encanto e tristeza

Escrevo com vontade de pintar. É dessa possibilidade que construo esta crónica. Há dias recebi em nossa casa uma amiga que não via há algum tempo. Encontrámo-nos primeiro no meu ateliê de pintura…

Coronavírus? E os gafanhotos, pá?

Anda tudo concentrado nesta pandemia do coronavírus que pouca atenção se presta à praga de gafanhotos que começou na África Oriental e se propagou à China, ameaçando com uma crise alimentar sem precedentes.