Entre Margens

“A longa viagem começa por um passo”, recriemos… novidade

Inicio o meu quarto ano de uma escrita a que não estava habituada, a crónica jornalística. Nos primeiros três anos escrevi sobre a interculturalidade. Falei sobre o modo como podemos, por hipótese, colocar as culturas moçambicanas e portuguesa a dialogarem. Noutras vezes, inclui a cultura judaica, no diálogo com essas culturas. De um modo geral, tenho-me questionado sobre a cultura, nas suas diferentes manifestações: literatura, costumes, comportamentos sociais, práticas culturais, modos de ser, de estar e de fazer.

A roseira que defende a vinha: ainda a eutanásia

Há tempos, numa visita a uma adega nacional conhecida, em turismo, ouvi uma curiosa explicação da nossa guia que me relembrou imediatamente da vida de fé e das questões dos tempos modernos. Dizia-nos a guia que é hábito encontrar roseiras ao redor das vinhas como salvaguarda: quando os vitivinicultores encontravam algum tipo de doença nas roseiras, algum fungo, sabiam que era hora de proteger a vinha, de a tratar, porque a doença estava próxima.

Esta é a Igreja que eu amo!

Fui um dos que, convictamente e pelo amor que tenho à Igreja Católica, subscrevi a carta que 276 católicas e católicos dirigiram ao episcopado português para que, em consonância e decididamente, tomassem “a iniciativa de organizar uma investigação independente sobre os crimes de abuso sexual na Igreja”.

Onde menos se espera, aí está Deus

Por vezes Deus descontrola as nossas continuidades, provoca roturas, para que possamos crescer, destruir em nós uma ideia de Deus que é sempre redutora e substituí-la pela abertura à vida, onde Deus se encontra total e misteriosamente. É Ele, o seu espírito, que nos mostra o nosso nada e é a partir do nosso nada que podemos intuir e abrir-nos à imensidão de Deus, também nas suas criaturas, todas elas.

O Senhor a receber das mãos do servo

Sendo hoje 6 de Janeiro (19 de Janeiro no calendário gregoriano), no calendário juliano (seguido por grande parte dos cristãos ortodoxos em todo o mundo), celebramos a Festa da Teofania de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo, isto é, a festa da manifestação ou revelação ao mundo da Sua divindade, no mistério do Seu Baptismo no rio Jordão, das mãos de São João Baptista.

O que revela “Não olhem para cima” da Netflix

Não Olhem Para Cima é uma nova sátira da Netflix escrita e realizada por Adam McKay e que conta a história de dois astrónomos que entram em pânico para chamar a atenção da humanidade para a colisão de um cometa cujo tamanho gerará uma extinção em massa. Em suma, a humanidade deixará de existir. A sátira está numa humanidade que vive de tal forma na sua bolha de entretenimento, entre sondagens políticas e programas da manhã que, simplesmente, não quer saber.

Viver no ritmo certo

Enquanto pensava no que iria escrever este mês, havia uma palavra que não saía da minha mente: “descanso”. Obtive a confirmação desta quando, por coincidência ou não, este foi o tema escolhido pela Aliança Evangélica Europeia para a sua semana universal de oração, realizada de 9 a 16 de janeiro de 2022. Os líderes evangélicos apelam a que todos possam viver no ritmo de Deus porque estamos a ser engolidos por uma onda de homens e mulheres sobrecarregados, completamente esgotados e sem força para lutar mais pela vida.

Uma Teofania nos corações humanos

A Epifania é celebrada pelas Igrejas Ortodoxas a 6 de Janeiro no calendário Juliano (19 no calendário Gregoriano), 12 dias após a Festa do Natal. A banalização da festa do Natal inscreveu-a no imaginário do espírito humano, sobrevalorizando-o e operando a sua dessacralização em detrimento do Espírito de Deus.

2022: aprender a construir a paz

A Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz de 2022 é expressão de um momento muito forte que atravessamos, numa transição de incerteza e perplexidade. Guerras e conflitos, pandemias, doenças, alterações climáticas, degradação ambiental, fome e sede, consumismo, individualismo, em lugar de partilha solidária – eis o conjunto de preocupações que dominam este início de 2022. Nestes termos, o Papa propõe-nos três caminhos para uma Paz duradoura.

“Matar os nossos deuses” – a propósito do Dia Mundial da Religião

Celebra-se neste terceiro domingo de janeiro o Dia Mundial da Religião, que promove a ideia da compreensão e a paz entre todas as religiões. Através de uma série de eventos realizados em todo o mundo, os seguidores de todas as religiões são incentivados a conhecer e a aprender mais acerca das outras religiões e respetiva fé. Reconhecendo-se que, durante séculos, as diferentes religiões e credos lutaram muitas vezes entre si, ignorando muitos dos seus valores comuns, torna-se, pois, necessário que se trabalhe em prol de um entendimento pacífico entre todos.

A promessa “terrivelmente cristã”

Em dezembro, a posse de André Mendonça como ministro do Supremo Tribunal Federal brasileiro foi destaque, consagrando a fase ultraconservadora do Brasil. O primeiro discurso de Mendonça após sua aprovação para o STF em 1º de dezembro focalizou a Bíblia, o indivíduo e a família, as mesmas “ideias-força” que vêm orientando a conjuntura política nacional desde 2015.

Apareci nas notícias!

14 de dezembro de 2021. Apareci nas notícias: sou um dos 3591 novos casos de infeção por covid-19. Bem tentei, mas não consegui: cancelei jantares grandes, privilegiei estar só com a minha família e amigos mais próximos, evitei ambientes com demasiadas pessoas, reforcei a máscara, andei menos de transportes públicos, cumpri todas as regras e recomendações e, mesmo assim, o vírus entrou cá em casa.

Nas margens da filosofia (XLI)

A importância de desacelerar

Um dos alertas que nos foi dado pelo Papa Francisco na sua encíclica Laudato Si’ foi a necessidade de tomarmos consciência do ritmo frenético que se instalara nas nossas vidas. O termo por ele usado foi rapidación, essa velocidade imposta às acções humanas, fortemente contrastante com a lentidão natural da evolução biológica.”

Otimismo obrigatório ou demagógico?

As decisões estão permanentemente a mudar em função de mais uma investigação incompleta, mas dada como segura. Transformámo-nos em cataventos humanos que, querendo saber imenso, não sabemos quase nada. Mas sim, como nunca, temos de cuidar das opiniões que damos. Elas têm impacto em outros já vulnerabilizados pelos medos circunstanciais e podem destruir-lhes a tranquilidade.

História, exegese e teologia

A data do Natal e a mitologização do Verbo Encarnado

É comum hoje criticar-se a celebração do Natal não somente pelo aspecto consumista, que adquiriu desde princípios do século passado (aspecto de resto criticado implacavelmente pela imensa maioria dos ministros cristãos, e mais decorrente duma mentalidade secularizada que propriamente da piedade cristã), como ainda pela sua própria data a 25 de Dezembro que, segundo dizem, é incorrecta historicamente e terá sido “usurpada” pelos cristãos a um qualquer culto pagão, com o propósito oportunista de tornar a Igreja dominante em todo o Império Romano.

“A ceremony of carols”

Tanto quanto me lembro, o nascimento de Jesus canta-se a partir da circunstância de cada um, a partir da realidade de cada comunidade, esteja ela num mosteiro no século XII, numa aldeia transmontana ou no Rockefeller Center.

A comissão da honra perdida

Depois da pandemia da covid-19, que outra epidemia estará à espreita, em colégios e seminários, igrejas e sacristias e em tantas instituições de bem-fazer, dispersas pelo país?

A crise da demografia portuguesa (3)

A evolução demográfica do país a partir da evolução dos concelhos

Sessenta anos de estagnação demográfica para três quartos do território criam condições para o envelhecimento e a ausência de juvenilização. E os municípios do chamado litoral começam a dar sinais de que a sua população jovem emigra também para os vários estrangeiros onde consegue sobreviver. Terceiro texto da série sobre a crise da demografia em Portugal.

E se Jesus Cristo não tivesse nascido?

A infeliz (e entretanto rapidamente abandonada) proposta da Comissão Europeia de impor (ou apenas aconselhar) aos seus funcionários a omissão de referências ao Natal nas tradicionais saudações da quadra respetiva suscitou múltiplas reações. Pretender que a harmonia das sociedades europeias onde hoje convivem pessoas de múltiplas culturas e religiões implique o cancelamento das raízes culturais cristãs dessas sociedades, ou o seu confinamento à esfera privada, seria dar razão a quem recusa o acolhimento dessas pessoas para preservar tais raízes (se essa convivência exige que cancelemos o Natal, então não queremos essa convivência…). Mas essa pretensão não tem razão de ser.

Oportunidade para a conversão pastoral

Este Francisco parece que adivinha o que poderá acontecer se o Povo de Deus ficar quieto e calado à espera que o clero clericalize todo o caminho sinodal. E está para tal, pelo menos no que se vai passando em Portugal. São os riscos apontados no seu discurso que se tornam factos de formalismos exigentes por parte dos poderes clericais.

Caminho sinodal e o instinto de autopreservação

Vai-se assistindo a várias segmentações no seio da Igreja, entre os ditos progressistas e os ditos conservadores. Uns e outros construindo os seus núcleos e opondo-se aos demais. Um Sínodo sobre a sinodalidade da Igreja tem, por paradoxal que pareça, desertado os instintos impositivos de ambos os lados. Um e outro lado, reivindicando ser detentor da verdade e único mensageiro da voz de Deus. Assim, ao invés de ir ao encontro uns dos outros, reconhecendo que em todos Deus se faz presente, cada qual se fecha no próprio núcleo e tenta que a sua voz seja a dominante.

O Natal, a família de Jesus e a cultura da imperfeição

A propósito do Natal gostaria de refletir sobre a nossa capacidade de aceitar o outro tal como ele é. No capítulo 1 do evangelho segundo Mateus, é-nos descrita a genealogia de Jesus; chamo a atenção para três nomes: Tamar, Raabe e Rute. Se já seria escandaloso encontrar nomes de mulheres numa genealogia no primeiro século, o pano ainda fica mais manchado com a história destas mulheres.

O Natal é quando o Homem quiser!

É costume dizer-se popularmente que “Natal é quando o Homem quiser”. Inicialmente dito por um poeta (Quando o homem quiser, Ary dos Santos), vulgarizou-se pela canção que lhe deu voz. Esta afirmação, tida por muito certa pela generalidade das pessoas, assumiu um significado que, embora dito por palavras discutíveis, é muito acertado.

Mãos que aquecem mãos

Esta história é verdadeira e tem início nas antigas portagens da A1, ali mesmo, à saída de Lisboa, em Sacavém, rumo ao Norte. As mãos frias da longa espera percorrem de imediato as mãos do condutor.

Transformados pela espera

Das virtudes teologais, a esperança é talvez a mais invisível, incompreendida e, no nosso tempo, desprezada. Custa esperar. Esperar o quê e para quê? E como se espera? 

Refugiados e migrantes como armas em jogos geopolíticos

Colocar voluntários e organizações humanitárias ao nível das máfias organizadas que traficam milhares de pessoas causa-me repulsa, mas não chega a provocar-me espanto. De facto, estamos apenas perante um novo patamar na tendência que se desenha já há décadas, de securitização dos discursos e práticas de diversos governos em relação aos refugiados e migrantes.

Racismo, autoridades e vergonha nacional

A vergonha nacional e o luto da família de Ihor Homenyuk ainda não estava ultrapassada e vivemos mais um embaraço por conta de autoridades e abuso de poder contra alguém que não nasceu português. Desta vez não por parte do SEF, mas da GNR.

A dançarina em dezembro

A menina dança em dezembro para aquecer a alma. Dezembro é a dança melodiosa que ilumina a árdua coreografia do resto do tempo. O seu peito trémulo e arquejante espreita ousado para dentro das casas onde lareiras ardem a deitar cheiro, a menina imagina que é os outros meninos no aconchego dos agasalhos, cheios de pai e mãe, cheios de jantar e luz. 

Advento, Natal e Ano Novo

Vem aí o Natal. É o que todos sabemos. Um mote mais do que provável, talvez impertinentemente banal e desinteressante. O calendário marca a nossa vida sempre e, nestes momentos cruciais, se se pode dizer isto, marca ainda de forma mais notória. Nós, católicos, devemos ter os nossos corações em festa grande.

E se retornássemos ao primeiro Natal?

Estamos a poucos dias de celebrar o Natal. Muito provavelmente, pelo menos no mundo ocidental, milhões e milhões de pessoas empreendem uma corrida desenfreada… Tudo isto para supostamente recordar e festejar o nascimento de um menino ocorrido há cerca de dois mil anos em Belém da Judeia.

Como manipular símbolos cristãos

No dia 1 de dezembro, André Mendonça, pastor presbiteriano e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, foi sabatinado e aprovado no Senado Federal, tendo sido nomeado pelo Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, para o Supremo Tribunal Federal no dia seguinte. André Mendonça, diferente do Presidente, é um “homem estudado”.

Criminalizar os pobres?

A sociedade suíça é muitas vezes encarada como modelo de civilização, ordem, limpeza e harmonia. Este caso choca-nos porque denota a intenção de esconder a pobreza (sem a eliminar) como algo de indecoroso ou incómodo, que dá “mau aspeto”, como quem varre o lixo para não destruir essa suposta limpeza, ordem ou harmonia.

Ombros sedutores? “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”

Um texto a propósito de algumas atitudes pouco abonatórias adoptadas como política ou como procedimento em algumas instituições moçambicanas. Refiro-me ao preconceito de que os ombros das mulheres são sedutores e que os seus cabelos, quanto menos naturais, melhor. Ainda não me fiz entender, eu sei.

Combater bem o mal

Os tempos que se vivem na Igreja Católica suscitam especial dor a todas as pessoas, sejam ou não crentes, provocando revolta em muitos contra um aparentemente imobilismo na resposta a uma crise que já se prolonga por demasiado tempo. A Igreja, enquanto realidade operante no mundo, não ficou imune a este fenómeno transversal à humanidade que é o abuso sexual de menores.

Encontra um trabalho que não amas, não perderás um minuto da tua vida

Ainda antes de acabar o curso fui à minha primeira entrevista de trabalho “a sério”, numa produtora de filmes num bairro trendy de Lisboa. Roubei um dia à escrita da tese de mestrado, apanhei o comboio e lá fui eu, tão nervosa quanto entusiasmada. O dono começou por me perguntar se fazer cinema era o meu sonho. Fiquei logo sem chão. Sofri, desde muito cedo, de um mal que me acompanha até hoje: sonhava demais e muitos sonhos diferentes.

O capelão ateu

Recentemente a Universidade de Harvard (EUA) elegeu um ateu para presidente dos capelães, pela primeira vez na sua já centenária história. Foi algo que chamou a atenção pela sua novidade. Um bispo americano que por vezes sigo nas redes sociais – Robert Barron – afirmou num artigo do New York Post que era incompreensível um painel de líderes religiosos nomear para uma representação religiosa alguém que não tem fé.

Um patriarca mediático

Tinha 18 meses quando lhe faltou o pai, José Ribeiro. A mãe, Ana Gonçalves, ficaria eternamente só. Solidária com ela, Maria de Lima, a professora do único filho que, na família nasceria, em 21 de maio de 1928, em Pereira, lugar da freguesia de S. Clemente, no concelho de Celorico de Basto. Terras de emigração e casas senhoriais das fortunas do Brasil, os campos escondiam, por detrás dos montes de Basto, uma agricultura difícil. A casa da família Ribeiro era modesta, de granito frio.

A (necessária) arte do encontro

Os encontros revelam-nos sempre o nosso lugar no tempo e na história, desde que estejamos disponíveis para o movimento. Vamos para o encontro como somos e vamos como estamos. Muitas vezes estamos de ego tão exacerbado e de alma tão conturbada que apenas nos transportamos para os encontros, como caixas fechadas e vociferando impressões, sem nada ouvir e receber de quem nos rodeia.

Os desafios dos bispos em França

“Ao padre que sabe muito e fala bem ainda lhe falta o coração e a humanidade.” Um bom mote do cardeal António Marto para alguns artigos meus anteriores e que abre caminho para aprofundar o que é “ter vocação” – e não só para sacerdote ou consagrado. É também uma boa maneira de abordar o tema da sexualidade perante os escândalos na hierarquia da Igreja Católica (não só, infelizmente).

O simbólico da Trindade na liturgia ortodoxa

As Igrejas Ortodoxas celebram a festa de S. João Crisóstomo no dia 26 de Novembro (dia 13 do mesmo mês, no calendário juliano). Nascido em Antioquia (viveu entre 347-407), esteve sujeito aos vexames dos partidários de Arius e, em rotura com a Igreja Egípcia, assimilou contradições culturais, conservando independência de espírito. Exprimiu-se através de fórmulas doutrinais inatacáveis que o levaram ao Patriarcado de Constantinopla.

Maid: a série que todos devemos ver

Netflixicamente, é excelente, não se enreda no drama ou no feminismo fácil, tem o seu quê de humor, não caricatura personagens, e a actriz principal, Margaret Qualley, merece todos os prémios da temporada. Mas não é isto que interessa, que não sou crítica de televisão. Com pena, admito. Em dez episódios, acompanhamos a jornada de Alex para se autonomizar da relação abusiva que mantém com Sean, o pai de Maddy, a filha de quase três anos.

Nas margens da filosofia (XXXIX)

Cultivemos a amizade na era das redes sociais

As redes sociais em que hoje nos movimentamos põem em causa o conceito de amizade e as suas exigências. Todos os dias somos inundados com mensagens de pessoas que se apresentam como amigos e que permanentemente nos comunicam os seus estados de alma, partilhando alegrias e tristezas, anunciando eventos, dando-nos conta das suas preocupações, revelando intimidades que as mais das vezes preferíamos ignorar.

Igreja, escândalos e má comunicação

Sabemos que o tempo mediático não é igual ao tempo da Igreja. A Igreja deve saber ler os tempos da sociedade em rede do século XXI, dispondo de ferramentas e técnicas que pode usar adequadamente no âmbito da sua missão, sem esquecer a estética própria da comunicação eclesial, no respeito pela sua natureza específica, evitando copiar erros e padrões inadequados de estética comunicacional de outras áreas.

A misericórdia triunfa sempre sobre o juízo

O fresco do Julgamento Final, de Miguel Ângelo, pintado na parede da Capela Sistina, demonstra bem o drama dos que, nos finais dos tempos, irão ser confrontados por Jesus. Embora o tema desta magistral obra seja o julgamento – que tem como fundo a passagem do Evangelho de Mateus (25:32-46) – alguns críticos da obra de Miguel Ângelo veem na figura de Cristo alguém que vem com misericórdia.

Confesso que morro…

Confesso que morro. Morro em semblantes irresgatáveis, gestos pardos em quedas sinistramente abruptas. Morri nas entranhas da minha mãe quando fui cuspida ao mundo e hei-de morrer no louco abismo desse voo.

Abusos sexuais: isto não vai com água benta

Os abusos sexuais do clero católico sobre menores e pessoas fragilizadas voltaram à ribalta dos media. O Papa Francisco já não aguentava com a vergonha. Repetiu até à exaustão a palavra em que não queria acreditar. Desde o princípio do seu pontificado, em 2013, Francisco não se cansou de verberar este crime moral, hediondo, perpetrado em vários cantos do mundo.

Crentes honestos

Em conversa com duas pessoas de outra confissão religiosa, foi-me dito que “é precisa muita coragem para se ser católico nos dias de hoje”, com tantos escândalos dentro da Igreja, como a pedofilia e outras ofensas sexuais, casos de infidelidade ou questões financeiras. É interessante pensar como, frequentemente, o desejo de conforto pode fazer-nos abdicar das nossas crenças ou convicções, apenas para ficarmos bem aos olhos da sociedade.

A liberdade de morrer

Muito se tem escrito e falado nos últimos tempos sobre a votação da reformulação da eutanásia. Infelizmente, grande parte do discurso público parece nascido de frases feitas, pensamentos soltos e sem grande suporte científico e moral. Pensar a morte, a nossa morte, decidir o seu momento, as razões desse momento, não é um pensamento catequizável. Implica o empenho de toda a nossa realidade.

Sim, os direitos humanos nas prisões

Como em todo o mundo, as prisões portuguesas são ocupadas principalmente por pobres. Pobres de dinheiro, pobres de conhecimento, pobres de consciência moral, pobres de perspectivas. Isso deveria interpelar-nos e levar-nos a pensar porque será que o sistema a penal processa basicamente pessoas que vêm da base da pirâmide social.

Apologia da simplicidade

Provavelmente, nos tempos que correm, este título não interessa mesmo nada. Ainda assim há que arriscar. Todos temos imensas coisas para dizer e um manancial infindável de opiniões a dar. Vamos assoberbando os canais através dos quais comunicamos com dezenas de assuntos, ditos e reditos de milhares de maneiras.

Eutanásia e conceitos indeterminados

O motivo que levou o Tribunal Constitucional a declarar a inconstitucionalidade de algumas normas do decreto aprovado pelo Parlamento que vem legalizar a eutanásia e o suicídio assistido foi a invocada violação do princípio da determinabilidade da lei, como corolário dos princípios do Estado de Direito e da reserva de lei (reserva de lei no sentido em que determinadas matérias, pela sua relevância, devem ser reguladas por lei e não estar dependentes de decisões casuísticas).

Pastoral da Ecologia Integral: um caminho inevitável

É verdade que as decisões políticas afectam a vida dos povos, mas o precedente aberto nas COP de que uma nação pode voltar atrás com os compromissos assumidos (como aconteceu com os Estados Unidos), leva a que as palavras pronunciadas desde então soem sempre a vazio, como o olhar de pedra dos gigantes da Ilha de Páscoa. O primeiro-ministro da Índia assumiu o compromisso na COP26 de trabalhar para que a sua nação atinja as emissões-zero em 2050.

Saudade

A saudade é a estranha penumbra desabotoada no gélido crepúsculo da memória. Acontece quando os odores se desfazem e os timbres deixam de ecoar;
essa é a saudade.

A I República e os protestantes portugueses

Em Novembro de 1921, durante a I República, reunia no Porto a primeira assembleia plenária da Aliança Evangélica Portuguesa. Hoje a instituição celebra 100 anos sobre a sua data fundadora. As comemorações do centenário decorrem agora e incluirão um roteiro pelas igrejas e lugares históricos do protestantismo.

Aplicar os direitos humanos nas prisões

O Parlamento votará na quinta-feira, dia 11, uma proposta apresentada pelo CDS, para revogação da lei 9/2020. Em 10 de Abril de 2020 foi publicada a Lei nº 9/2020 que estabeleceu um regime excecional de flexibilização da execução das penas e de medidas de graça, no âmbito da pandemia da doença covid-19.

“Menino Menina” – um livro só para crianças?

Recentemente tive acesso ao livro de Joana Estrela, Menino, Menina (Planeta Tangerina, 2020) que aborda as questões de género. Não pude deixar de ter este pensamento recorrente: dramatiza-se e lançam-se impropérios sobre a ideologia de género e aqui está tudo tão bem explicado às crianças, de modo simples e objetivo!

“E juntou-se aos seus antepassados…”

Ser próximo de quem se vai despedindo traduz-se num estímulo para continuar com mais ardor a verdadeira missão no mundo de quem nos passa o testemunho, por mais jovem ou desprotegido que seja. As nossas festas e diversões, estudo ou trabalho duro, manifestações de amizade e amor… tudo pode ser feito de maneira a tornar melhor o mundo que nos foi entregue. E deixando boas dicas para quem nos sucederá.

A beleza dos dias tristes

Um dia, ao falarmos sobre um momento particularmente marcante da minha conversão, disse-me assim o meu Avô: “Filha, é só saber olhar: até na morte há beleza”. Se bem o disse, melhor o fez, pois morreu uns anos mais tarde, num triste Setembro belo, dando lugar a uns dos mais bonitos dias tristes da minha vida.

Política e informação ao nível da sarjeta em matéria religiosa

Hoje é moda o ataque descabelado à religião, tanto por parte de alguns políticos, em nome de determinadas agendas, como de jornalistas – mas estes, regra geral, em nome da ignorância e incompetência. Um caso recentemente passado em Portugal ilustra bem esta segunda afirmação. Uma estação de televisão generalista em Portugal, num dos seus programas, relatou o caso duma família que terá contratado um empreiteiro brasileiro para reconstruir uma casa.

A crise da demografia portuguesa: ainda há solução?

Damos aqui início a uma série de artigos sobre a demografia portuguesa, desde 1864, ano da publicação do primeiro Censo da População de Portugal. Procuraremos destacar os principais períodos demográficos, as suas causas e as suas consequências. Mais do que números – embora estes sejam a alma da estatística – interessa-nos a compreensão do que aconteceu e a projeção do futuro à luz dos factos. Restringimos a análise ao Portugal do Continente Europeu, que inclui a Madeira e os Açores.

Creio na Igreja – mais consciência e mais perguntas

“Creio na Igreja Católica”. Ultimamente, quando rezo este artigo do Credo, rezo-o com mais consciência e mais perguntas… não porque tenha deixado de acreditar na Igreja, mas porque alguns acontecimentos me têm feito pensar e desejar uma Igreja diferente. Nos últimos meses fui-me confrontando com situações que me levam a sentimentos contraditórios, por um lado de desilusão e, por outro, de esperança.

O maior mistério da vida

A correria dos familiares para os cemitérios no Dia dos Fiéis Defuntos é um ritual que se vai repetindo ano após ano, transformando estes espaços públicos em jardins, salpicados de flores, onde a saudade e os silêncios se entrelaçam. Na verdade, a morte sempre foi, ao longo da história, um mistério e celebração para todas as civilizações, desde as mais primitivas às desenvolvidas.

O meu Credo sempre renovado

O Sínodo católico de 2021-23 alerta para a falta de congruência entre o que professamos e o como vivemos. Ora o Credo de Niceia é sobretudo uma tentativa de justificação filosófica do desenvolvimento histórico da maneira de compreender o Deus professado e vivido por Jesus Cristo. Mas as suas posições dogmáticas tornaram-se belicosas, como se alguns “chefes” católicos quisessem gritar a condenação de todos os crentes que, de modo diferente, respeitam o mistério de Deus e a inteligência humana.

O difícil não vem de Deus

Bem sabe o Criador do que somos feitos, criaturas tão repetitivas no erro e tão errantes nos passos que é certo que não se nos pode pedir senão o básico. Mas ainda que não fosse pela nossa inépcia, é evidente que Deus tem preferência pela simplicidade como se não quisesse contar com o nosso brilhantismo para transmitir a Sua luz.

Os abusos sexuais e uma questão ética

A recente notícia sobre a investigação de abusos sexuais praticados na Igreja francesa nos últimos setenta anos, assim como outras semelhantes, fazem sempre com que me venha à mente a minha experiência profissional quase quotidiana. Na verdade, na minha função de juiz desembargador tenho ocasião de lidar com recursos de condenações (muitas delas em penas das mais graves) por abusos sexuais de crianças e adolescentes.

Isto não é um acidente!

Em matéria de abuso sexual de menores no meio católico, a primeira premissa de todas deve ser que esta situação não é pontual nem acidental, mas uma forma de estar. Infelizmente. Mas este cancro tem que ser extirpado.

Luiza Andaluz: uma voz feminina na história da Igreja em Portugal

Nesta quarta-feira, 27 de outubro, será lançado em Santarém o terceiro volume dos escritos de Luiza Andaluz (1877-1973), fundadora da Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima (SNSF). Depois de publicadas as suas Memórias e os seus Pensamentos, o Centro de Conhecimento Luiza Andaluz promove agora a edição de centenas de cartas dirigidas pela fundadora às irmãs da sua comunidade.

Sínodo de esperança ou nem isso

Tenhamos esperança de que o Sínodo começado em Portugal e em todas as dioceses do mundo católico-romano não seja um esfrangalhado tecido que nada terá a ver com a vontade indomável de um homem, que se chama Francisco, bispo de Roma e Papa. As primeiras notas não são nada animadoras: basta sentirmos o que a Igreja Católica em Portugal fez com a encíclica Laudato Si’, que simplesmente silenciou e, embora alguns pequenos grupos teimem em levá-la à luz do dia, o clero português, na sua generalidade, não estará para aí virado.

Lobolo: vender, usurpar, compensar ou pagar propina?

O termo lobolo é uma palavra de origem tsonga e equivale à palavra dote. Lobolar é um neologismo construído a partir da palavra tsonga kulovola, acrescentada da terminação verbal “ar”, da língua portuguesa. Expliquei, num texto meu no 7MARGENS, que lobolo de mulher, em tempos antigos, correspondia à entrega de uma noiva à família do seu noivo, num evento no qual as famílias partilhavam carinho entre si. Esse carinho era traduzido, simbolicamente, em bens – daquilo que melhor produziam – que ambos permutavam.

Nós somos porque eles foram. E nós seremos nos que vierem a ser.

A homenagem aos que perderam as suas vidas nesta pandemia é uma forma de reconhecermos que não foram só os seus dias que foram precoce e abruptamente reduzidos, mas também que todos nós, os sobreviventes, perdemos neles um património imenso e insubstituível. Só não o perderemos totalmente se procurarmos valorizá-lo, de formas mais ou menos simbólicas como é o caso da Jornada da Memória e da Esperança deste fim-de-semana, mas também na reflexão sobre as nossas próprias vidas e as das gerações que nos sucederão.

Sínodo em demanda de mudanças

Falo-vos da reflexão feita pelo Papa Francisco, como bispo de Roma, no início do Sínodo, cuja primeira etapa agora começa, de outubro de 2021 a abril de 2022, respeitando às dioceses individuais. Devemos lembrar que o “tema da sinodalidade não é o capítulo de um tratado de eclesiologia, muito menos uma moda, um slogan ou novo termo a ser usado ou instrumentalizado nos nossos encontros. Não! A sinodalidade exprime a natureza da Igreja, a sua forma, o seu estilo, a sua missão”.

Confinar o medo?

Todos sentimos o impacto da pandemia, seja por conhecermos alguma vítima ou algum familiar ter sido afetado, por termos ouvido dezenas de reportagens nos media sobre a crise económica ou até por, mais de um ano depois, ainda detestarmos as máscaras. Após quase dois anos de distanciamento, continua o receio de estar perto do outro, a tentação de evitar um café com alguém porque “não tem cuidado nenhum”, de nos afastarmos porque temos receio de levar o vírus para dentro das nossas casas.

Pregos no caixão

Como resultado de uma evolução e saturação pessoais, cheguei ao ponto de ter medo, no próprio e exacto sentido da palavra, cada vez que vejo um padre ou um bispo aparecer na TV ou ser transcrito num jornal, porque é imensa a possibilidade de das suas bocas sair forte asneira e de os seus gestos e trejeitos serem comprometedores.

Os dias não têm 24 horas

E se de repente nos viessem dizer que cada dia passaria a ter apenas 16 ou 17 horas? Com a falta de tempo de que sempre nos queixamos iríamos, decerto, apanhar um susto. Não saberíamos como resolver tamanho corte e, com imensa probabilidade, entraríamos em stresse, esse companheiro que nos boicota a vida num padrão que, como alguém disse, se traduz por excesso de presente.

Um sentimento misto

No trabalho ou em qualquer outra responsabilidade todos desejamos que tenham confiança em nós e no discernimento que fazemos das coisas. Quantas pessoas não fazem a menor ideia da rede complexa de relacionamentos que estão em jogo e que, por detrás dos silêncios, existe uma visão do todo cuja compreensão exige tempo para a assimilar, não um tweet. Assume, aqui, importância, desenvolver uma cultura da confiança em quem assume determinadas responsabilidades.

Abusos: entre a vergonha e a esperança

Saiu agora mais um relatório sobre a realidade dos abusos sexuais, desta vez em França. Recordo outras situações como EUA, Polónia, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia, Alemanha…todos, segundo os critérios diferenciados de estudo e análise, vão mostrando uma realidade que envergonha a Igreja Católica e a sociedade, manifestando não apenas escândalo, mas também situações de indiferença e até crueldade.

A busca de Jesus – em memória de Dimas Almeida

Num testamento deixado à família e ao Grupo de Carcavelos, Dimas Almeida cita a célebre pergunta que Jesus fez aos seus discípulos: “Quem dizeis vós que eu sou?” É espantoso que esse texto (Marcos 8: 27-35) esteja incluído no evangelho deste dia litúrgico, precisamente quando evocamos a memória do nosso amigo, e tenha sido citada no último texto que nos legou.

Erros e pecados

A tradução da Bíblia do grego levada a cabo por Frederico Lourenço contém um interessante reparo relativamente ao termo “pecado”. De acordo com o tradutor, o termo grego significa “erro” e, do ponto de vista semântico, relaciona-se com um verbo cujo sentido literal é “falhar o alvo”.

Indonésia: as sementes de Almeida

Não é só a economia mundial que se está a deslocar progressivamente para a Ásia, também o cristianismo ganha força nessas paragens de que sabemos tão pouco, mesmo em regiões inesperadas como no maior país muçulmano do mundo.

Francisco e os “Guerreiros do Rosário”

São de todos conhecidas as reformas que corajosamente o Papa Francisco tem procurado levar a cabo ao longo do seu pontificado. Muitas delas não serão assim tão inéditas, indo apenas no sentido de se implementar e consolidar o que foi decidido no Concílio Vaticano II. Sabendo-se que durante os pontificados de João Paulo II e de Bento XVI houvera um certo afrouxamento na implementação dessas reformas, a tarefa que Francisco tem tentado levar a cabo não tem sido nada fácil.

Críticas a “Igrejas que afastam de Deus?”

Recebi várias críticas ao artigo em referência, duas delas cuidadosamente analíticas. Organizo-as em parágrafos (vários deles pertencem ao mesmo crítico), seguidos de breve comentário. De facto, devo a muitos padres uma excelente educação e formação. Mas também devo dizer que muitos outros falhavam, até perigosamente, no campo das relações humanas.

Pedofilia: bispos, palavra pedida

Foi um peso pesado que veio expressamente enviado do Vaticano a Portugal no passado mês de maio. Jesuíta, alemão, psicólogo, o padre Hans Zollner foi o viajante. Em nome da Comissão antipedofilia do Vaticano e da Comissão Pontifícia para a Tutela de Menores, falou. A razão de ser da sua vinda era o cumprimento da vontade expressa do Papa Francisco, em abertura ao apuramento e condenação de abusos sexuais na Igreja.

Saúde Mental, níveis e sentido de vida

Os níveis e categorias de saúde mental tomam contornos e provocam efeitos evidentes e diferenciados. Não vamos esboçar um manual de saúde mental. Apenas passar ao papel algumas reflexões à volta da saúde mental. As décadas de trabalho em casas de saúde em que só alguns dos muitos doentes mentais entram em tratamento por se tornarem perigosos para outros, na própria família e para a sociedade, fazem pensar.

Quando a memória começa a faltar-nos

Há uma altura da nossa vida em que aparecem as falhas de memória. E começamos a recorrer a recordações colectivas, perguntando aos nossos amigos: quando foi? quem era? como se chamava? quem esteve presente? e outras questões do mesmo tipo. Esta perda angustia-nos e preocupa-nos, não só porque as recordações do passado são parte determinante do presente que somos, mas também porque gastamos tempo a lembrar autores e teorias que esquecemos, a procurar coisas que perdemos, a reconstituir episódios e datas importantes que devíamos ter presentes. No entanto, há vantagens no esquecimento para o equilíbrio psíquico de todo o ser humano.

Dois anos sem Manuela Silva: Mulher de fé

Manuela Silva pertence àquele pequeno grupo de pessoas que por vezes temos o privilégio de se cruzarem na nossa vida e cuja presença nos marcam profundamente em múltiplas facetas. Na Igreja, na profissão, na vida do dia-a-dia, nas pequenas e nas grandes coisas.

Como vender a alma ao diabo

Porque será que o sector evangélico apresenta uma estranha atracção por figuras autoritárias e uma forma bruta de exercer o poder? E por que razão tendem a deixar-se fascinar e a apoiar líderes que não apenas não evidenciam características consonantes com a sua fé como ainda revelam práticas de assédio, misoginia, racismo e outros tipos de discriminação além dum discurso rasteiro e ordinário, como se pode verificar pelos casos de Donald Trump nos EUA e de Jair Bolsonaro no Brasil?

25 anos do Nós Somos Igreja: Transformação 

Para dar a conhecer, aqui vai um bom motivo de celebração, de memória, de data a saber que existiu e é bom que tenha existido. Festejamos no dia 12 de outubro os 25 anos do Movimento Nós Somos Igreja – Portugal. Nós, Povo de Deus, os batizados, que somos Igreja, na diversa e universal aceção de o ser.

JMJ 2023, a terceira ponte de Lisboa

A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) 2023, que irá realizar-se em Lisboa, é a possibilidade concreta da construção de uma ponte multidimensional, com início em Lisboa e com destino à humanidade. Uma ponte que culmine realmente no seu propósito de ligar margens e não meramente de uma bonita foto de postal, uma ponte que não exclua ninguém apenas por alguém estar numa “ilha”.

Dimas de Almeida e a renúncia a si mesmo

Ao lembrar hoje o meu amigo, o nosso amigo e irmão Dimas, recordo como, no fundo, foi isso mesmo que, na sua fé operativa, ele nos testemunhou: a unidade na caridade. Para lá dos detalhes – sem dúvida importantes – das doutrinas, e da tradição rica e plural dos rituais; congregando a multiplicidade de tantos caminhos percorridos, está a disciplina maior de nos descobrirmos imanados no seguimento de Cristo.

A melhor parte

Para viver com mais equilíbrio é preciso treinar boas escolhas todos os dias. Mas para escolher bem é preciso perceber o que está em causa. Neste episódio em que Jesus está com Marta e Maria, podemos pensar que a tensão ilustrada por estas mulheres é apenas a tensão trabalho/oração. Se assim for, podemos correr o risco de interpretar que Jesus está a dizer que a oração é a prioridade, que o trabalho não é importante e que todos devemos ser como Maria.

A loucura furiosa

Por vezes parece que estamos a viver numa espécie de loucura furiosa entre loucos, oportunistas e gente alienada, à beira dum ataque de nervos. Ultimamente temos tido de tudo. Quem chegue agora a Portugal será tentado a pensar que o coronavírus afectou a cabeça de muita gente. Será apenas uma coincidência curiosa ou estamos a entrar numa onda de extremismo?

Como vai a “saúde” na Igreja?

No passado dia 14 de setembro, foi inaugurada a Faculdade de Medicina da Universidade Católica. Ao acto foi dada a maior importância e solenidade. E não era caso para menos. Para além das autoridades da universidade e de inúmeras entidades e instituições convidadas estiveram, também, presentes o sr. primeiro-ministro, o sr. ministro do Ensino Superior e o sr. magno chanceler da Universidade (cardeal-patriarca de Lisboa).

Sínodo, urgência de Participar – sugestões várias

Olhar o outro. Ver o outro. Entender o outro. Escutar. Ajudar. Apoiar. Integrar. Proteger. Não têm fim as palavras aplicáveis ao sentido do Documento Preparatório e ao Vademecum, nesta fase preliminar do Sínodo [da Igreja Católica] que irá marcar um tempo novo, viragem de reflexão e cidadania sobre a Igreja, a diversidade de culturas e realidades na atualidade do mundo. Entre 10 de outubro de 2021, com a presença e presidência do Papa Francisco e até outubro de 2023, um universo de gente participará nesta viragem, revisão de vida.

Procriação artificial: Compra e venda

O Salon Désir d’Enfant, cuja segunda edição se realizou em Paris no fim de semana de 5 e 6 de setembro, faz com que nos venha à memória o célebre romance distópico de Aldous Huxley Admirável Mundo Novo. Trata-se de uma verdadeira feira comercial de promoção de várias formas de procriação artificial. Empresas de maternidade de substituição de vários países aí publicitam os seus serviços, com testemunhos de quem a ela recorreu, como “cliente” ou como “prestadora de serviços”.

Memória de Acácio Catarino (1935-2021)

Acácio Catarino era um homem de ação e reflexão – segundo o método de Ver, Julgar e Agir. Recordo-o sempre com grande coerência e serenidade. Com Maria de Loures Pintasilgo, Alfredo Bruto da Costa e Manuela Silva é referência fundamental da Igreja Católica portuguesa contemporânea – com uma intervenção na sociedade e na economia, num sentido orientado para o desenvolvimento humano.

Valdosende, a aldeia que “passou” de católica a metodista

Uma história curiosa quando, há 50 anos, um numeroso grupo de jovens, metodistas, lusitanos, católico-romanos e ateus, a solicitação do pastor metodista Abel Lopes e sua esposa Arminda Lopes, os acompanhou em Valdosende (Terras de Bouro). As pessoas de Valdosende estavam divididas: o pároco católico-romano pretendia erguer um novo templo fora do lugar de Valdosende, o que fez, mas a grande maioria da população não estava de acordo.

A ideia de Deus

Não é certo que quem nasça numa família de forte tradição religiosa esteja em melhores condições do que qualquer outra pessoa para desenvolver a componente espiritual e uma relação com o divino. Pode acontecer exatamente o inverso. Crescer com uma ideia de Deus pode levar-nos a cristalizá-la nos ritos, hábitos ou procedimentos que, a dada altura, são desajustados ou necessariamente superficiais.

Manuel Martins, um precursor da Sinodalidade

Escrevo a propósito da partida deste mundo há quatro anos, que se completam hoje mesmo, dia 24, do bispo Manuel Martins. Há seres humanos que não deveriam morrer. Não por eles, mas por nós. Contrariamente ao que é vulgar dizer-se, são mesmo insubstituíveis. A propósito, evoco também a memória de um outro que nos deixou no passado dia 2 de setembro.

Jorge Sampaio, um laico cristão

Já tudo, ou quase tudo, foi dito e escrito sobre a figura do Jorge Sampaio. Assinalando a sua morte, foram, por muitos e de múltiplas formas, sublinhadas as diversas facetas definidoras da sua personalidade nos mais diversos aspetos. Permitam-me a ousadia de voltar a este tema, para sublinhar um aspeto que não vi, falha minha porventura, sublinhado como considero ser merecido.

Livrai-nos do Astérix, Senhor!

A malfadada filosofia do politicamente correcto já vai no ponto de apedrejar a cultura e diabolizar a memória. A liberdade do saber e do saber com prazer está cada vez mais ameaçada. Algumas escolas católicas do Canadá retiraram cerca de cinco mil títulos do seu acervo por considerarem que continham matéria ofensiva para com os povos indígenas.

O outro sou eu

Há tanto que me vem à cabeça quando penso em Jorge Sampaio. Tantas ocasiões em que o seu percurso afetou e inspirou o meu, quando era só mais uma adolescente portuguesa da primeira geração do pós-25 de Abril à procura de referências. Agora, que sou só uma adulta que recusa desprender-se delas, as memórias confundem-se com valores e os factos com aspirações.

A palavra que falta explicitar no “cuidar da criação”

No dia 1 de setembro começou o Tempo da Criação para diversas Igrejas Cristãs. Nesse dia, o Papa Francisco, o Patriarca Bartolomeu e o Arcebispo de Canterbury Justin assinaram uma “Mensagem Conjunta para a Protecção da Criação” (não existe – ainda – tradução em português). Talvez tenha passado despercebida, mas vale a pena ler.

Novo ano letivo: regressar ao normal?

Após dois conturbados anos letivos, devido à pandemia, as escolas preparam-se para um terceiro ano ainda bastante incerto, mas que desejam que seja o mais normal possível. O regresso à normalidade domina as declarações públicas de diretores escolares e de pais, alunos e professores. Este desejo de regresso à normalidade, sendo lógico e compreensível, após dois anos de imensa instabilidade, incerteza e experimentação, constitui ao mesmo tempo um sério problema.

Caminhar juntos, lado a lado, na mesma direcção

Vem aí o Sínodo, cuja assembleia geral será em outubro de 2023, já depois da Jornada Mundial da Juventude, a realizar em Lisboa, no verão anterior. O tema é desafiante: Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão. O documento preparatório veio a público a 7 de setembro e lança as bases de um caminho a percorrer juntos.

42 anos do SNS: memória e homenagem espirituais

Hoje, 15 de setembro, celebro e comemoro e agradeço e relembro António Arnaut, o criador em 1979 do Serviço Nacional de Saúde, o SNS da sobrevida de tantos de nós, portugueses. Depois de ter passado um dia de quase dez horas como doente de oncologia em imenso espaço de hospital, entre variadas mãos, procedimentos, cuidados, não posso deixar vazio na data.

Deixem o vice-almirante em paz!

Só há uma coisa de que as pessoas gostam mais do que de fabricar heróis, é deitá-los por terra na primeira curva da estrada. Se Gouveia e Melo cair na asneira de entrar na política vai arrepender-se depressa.

A novela do bispo Novell

O abandono de um bispo do seu ministério pastoral é tão atípico que nem está prevista a sua secularização na lei fundamental da Igreja Católica, o Código de Direito Canónico. No cânone nº 290 §3, legisla-se sobre a perda do estado clerical dos diáconos, em casos graves, e dos presbíteros em casos gravíssimos – mas dos bispos nada se diz.

Velhice aos 60, doença obrigatória

Fomos de férias. Que lugar-comum esse que apenas descreve a clássica paragem de Agosto! Nada de novo e tudo diferente ao ir e ao regressar. É mesmo estranho o que estamos a viver – um mundo de imprevistos e de incertezas, no qual antes pareciam só existir convicções e controlos; um lugar de todos e de ninguém, aquele que, antes, sem apregoar, deixava sempre um cantinho livre para quem quer que chegasse.

Igrejas que afastam de Deus?

Igrejas que afastam de Deus? São aquelas que não sabem ligar o sagrado ao profano. E porquê? Porque faltam “padres cultos e capazes de dialogar”, como dizia recentemente, com toda a naturalidade, Lídia Jorge. Utilizo “igrejas” não no sentido de templo ou instituição hierárquica, mas de comunidades dos crentes em Jesus Cristo. E baseio-me livremente nos vários artigos relacionados com Dimas de Almeida, publicados recentemente no 7MARGENS.

O que acontecerá à religião após a pandemia?

O que acontecerá à religião após a pandemia? Como poderão as igrejas reagir ao declínio da sua influência direta num mundo ocidental cada vez mais secularizado, relativizado e individualizado? a ampla difusão de uma mentalidade secular compreende a religião como um conjunto de crenças e práticas que se tornaram na sua maioria redundantes, de pouca ou nenhuma utilidade nas sociedades avançadas. A religião ainda é útil ou podemos substituir as funções que lhe são atribuídas por novos meios e mais eficientes?

O vale afundado e a barragem do Sabor

Há o silêncio que desce pelas encostas banhadas pelo sol, um murmúrio de aves, vertendo-se até ao vale profundo. Souto é um lugar com casas esventradas, imoladas numa intemporalidade de destroços, num esvaziamento. Raras estão de pé: uma, é “alojamento local”; outras, servem também para casas de férias.

Ampliar e aprofundar a formação teológica

Há dias, um dos temas comentados nas redes sociais foi uma das recomendações de S. Paulo à comunidade cristã de Éfeso em que diz: “As mulheres submetam-se aos maridos» (Carta aos Efésios 5,22). Não é minha intenção entrar na polémica que se tentou gerar, pois as explicações estão dadas por instâncias mais competentes do que eu.

Porque pode a religião provocar violência extrema?

Porque sentirão os crentes a obrigação de “defender a honra” do seu deus[1] perante os que têm fé diferente, de forma violenta? Será esse deus assim tão fraco e impotente que não consegue sequer defender-se a si mesmo, ou os fiéis interiorizaram o conceito duma divindade mesquinha e vulnerável?

Taizé: lugar para ser

Paz. É o que sentimos em Taizé. O espírito de grupo, as orações e até as refeições revelam a verdadeira essência deste lugar. Lugar que é mais que lugar: é templo, é família, é casa. 

Compostela: uma peregrinação de fé e aventura

Já com a pandemia parcialmente derrotada, pelas eficazes vacinas que nos vão proporcionando uma maior descontração, iniciamos agora uma nova etapa nas nossas vidas, embora mantendo algumas precauções recomendadas. Já basta de limitações, vivendo nas margens do medo, que nos foi atrofiando muitos momentos da nossa liberdade. Agora, tudo leva a crer, já será o tempo de voltarmos a sonhar com novas aventuras.

Nas margens da filosofia (XXXVII)

Para quem tocam os sinos?

O título deste texto é tirado de um poema de John Donne, um autor inglês do século XVII que, como todos os bons poetas, se mantém plenamente actual e interpelante. Ernest Hemingway construiu a partir dele um romance belíssimo sobre a Guerra de Espanha e a solidariedade que provocou entre os combatentes antifranquistas.

O pão nosso de crianças cegas

É o meu rito dominical: nas manhãs do canal France2, saborear a missa católica sem esquecer algumas amostras das cerimónias do islão, protestantismo, judaísmo e budismo, de que procuro tirar o maior proveito.

Talibang!

Cansado dos vinte anos de atoleiro militar no Afeganistão, Trump fechou um acordo de rendição com os talibãs, em 2020, para a retirada das tropas ocidentais, mas fê-lo nas costas dos aliados da NATO. Os ingleses já se vieram queixar.

Excertos da Índia

Olhares baços no horizonte baço

É nas terras de horizonte baço que os direitos são mais negligenciados, pensava eu ao caminhar por ruas tranquilamente infernais numa tentativa de compreender o que via e sentia. Meninos descalços, sem nome. São meninos de olhos vazios e mão estendida. Porque me daria a vida sobras de afeto se a eles nada disso pode dar?

Aquecimento global e o futuro da humanidade

Nos últimos 150 anos, a população mundial cresceu exponencialmente como em nenhum outro momento da história humana, e com ela as cidades progrediram em prejuízo das florestas, e a indústria libertou mais CO2 para a atmosfera do que havia sido libertado, arrisco-me a dizer, durante todos os milhares de anos anteriores, desde que existe história escrita.

Vacinas e ética da vida

Um pouco por todo o lado, sucedem-se tomadas de posição e manifestações contra a obrigatoriedade da vacinação contra a Covid-19, ou contra a exigência dessa vacinação para acesso a diversas atividades. É, sobretudo, o valor da autonomia individual que é invocado para justificar tais posições.

Re-significar a vida

A conclusão do percurso académico é, na vida de qualquer jovem, um momento de especial significado e simbolismo. É um olhar para o trajeto percorrido e sentir a nostalgia das etapas que foram particularmente significativas para o momento presente, mas é, sobretudo, olhar para o futuro, lugar de tantos sonhos e de tantas expectativas.

Nem só de ecrã vive o Homem

O Facebook tem mais utilizadores que cristãos existentes no mundo. A receita financeira pela captura da nossa atenção atingiu já um trilião de dólares, mas o Facebook não está ainda satisfeito. O seu novo alvo é a religião.

As Lídias e os Pichardos desta vida

Temos que escolher entre viver acantonados num território, agarrados a um passado longínquo, por mais glorioso que tenha sido, de modo saudosista e deprimido, ou darmo-nos ao mundo. De resto, apenas se optarmos pela segunda hipótese estaremos a ser fiéis à vocação histórica universal dos nossos antepassados.

Entre uma leitura literal e progressiva dos textos bíblicos

Uma pesquisa levada a cabo pela Gallup em 2017 revela que menos de um quarto dos norte-americanos interpretam a Bíblia literalmente, sendo esta a primeira vez em quarenta anos que, os que adotam a leitura literal dos textos bíblicos, foram ultrapassados pelos que acham que a Bíblia é “um livro de fábulas, lendas, história e preceitos morais registados pelo homem”.

Já fui a Paris (à missa e tudo)

Há várias formas de descobrir uma cidade. Uma das minhas é ir à missa naquelas por onde vou passando, mesmo que não perceba muito (ou nada) do que por lá é dito. Há umas semanas foi a vez de Paris, onde aterrei na Igreja de Notre Dame de l’Assomption de Passy para a missa das 9h00, com uns minutos de atraso e uma leve irritação – o atraso seria demasiado evidente, notado e presenteado com olhares de censura.

Dimas de Almeida: O teólogo sedento da união dos cristãos

O Reverendo Dimas de Almeida era uma pessoa simples e atenciosa, ouvia o parecer dos outros, mesmo que não concordasse, com a reverencia dos simples, com um subido olhar de quem escuta sempre para aprender; ele sabia ser dos “homens grandes” de porque sabem, sabem que ainda não sabem nada.

Até logo, querido Dimas!

Para mim, como para tantos dos seus conhecidos e amigos era o Professor Dimas. Ou simplesmente o Dimas, um bom amigo que foi meu professor de grego e de Teologia do Novo Testamento, no Seminário Presbiteriano de Lisboa, nos longínquos anos de 1975-1977, então localizado na Avenida do Brasil.

Otelo como criação shakespeareana

A notícia da morte de Otelo (1936-2021) diz pouco sobre a sua vida, mas os comentários produzidos em público a esse respeito são extremamente elucidativos sobre os seus autores. No meio da cacofonia destaca-se a lucidez e sentido da História de Ramalho Eanes.

Energias limpas: solução ou ilusão?

O deserto chileno de Atacama é considerado uma das regiões mais áridas do planeta, havendo locais que nunca sentiram um pingo de chuva. Chuquicamata é nome conhecido por aí se situar a maior mina de cobre a céu aberto. Mas Chuquicamata também foi, até fevereiro de 2008, uma pequena cidade que cresceu à sombra da mina e na qual viviam cerca de 25.000 pessoas que dependiam direta ou indiretamente da mina

Vários

Soubemos há dias que na nossa Conferência Episcopal apenas dois bispos nomearam os seus responsáveis diocesanos para a missão de acompanhamento dos preparativos para o Sínodo (com início marcado para 17 de outubro próximo) e de elaboração do respetivo relatório, no formal documento a enviar para Roma.

Os semideuses do Olimpo e o preço do espetáculo

No dia em que terminam os Jogos Olímpicos em Tóquio, uma reflexão sobre o exemplo dos atletas olímpicos: como aqueles seres “tão distantes de nós, tão estratosféricos, tão a milhões de quilômetros de nossos corpos medianos”, podem ser nossos ídolos? Apenas se os pensarmos como semideuses poderemos considerá-los ídolos, no sentido da adoração que se devota a uma espécie de divindade. No entanto, são humanos – e a atitude da ginasta Simone Biles é um raro exemplo a comprová-lo.

[D, de Daniel]

e agora sei que oiço as coisas devagar

Para isto me abeirei da poesia, para o duplo milagre do vagar e da escuta. Preciso do silêncio de que é feito o poema, o branco da página a céu aberto. E da palavra ponderada, arredondada na boca antes de ser escrita, húmida ainda de saliva e sangue. E luminosa como uma janela oriental.

Futebol em tempos de cólera

A ideia de associar o desporto a uma actividade lúdica, como no mundo antigo (mens sana in corpore sano, diria Juvenal), de modo a desenvolver a saúde física e mental mas também as boas relações entre indivíduos e as virtudes sociais parece estar há muito lançada por terra, pelo menos no futebol profissional.

Tudo começa com uma metáfora

Li num livro de Milan Kundera que “as metáforas podem ser muito perigosas” e que “o amor começa sempre com uma metáfora”. Estas frases soam-me em eco desde então, não fosse o meu vocabulário um território manco onde a muleta de todas as horas são precisamente as metáforas.

Nos 101 anos de Mário Castrim

O Mário Castrim faleceu em Outubro de 2002. Se fosse vivo, faria hoje 101 anos. Foi jornalista, escritor e crítico de televisão. Foram as suas crónicas sobre o que se passava no “pequeno ecrã” de então que lhe valeram a fama – entre protagonistas e leitores – de crítico acerbo e impiedoso. Era, na verdade, extremamente exigente com quem fazia televisão, porque receava o poder nefasto que ela podia ter sobre as pessoas.

“It’s the season, silly!”

Quando, há dias, comecei a pensar nesta contribuição, estavam em cima da mesa vários temas importantes, urgentes e vitais: o clima que samba na cara das inimiga’ na Europa Central; Israel que tenta mudar a agulha da agenda mediática para os estudos sobre vacinas, para esconder a aplicação continuada das suas políticas colonialistas sobre o povo palestiniano; ou as últimas detenções ligadas a processos de corrupção.

Jesus Cristo tinha uma agenda liberal?

Dizer apenas que todas as vidas são importantes é uma tirada lapalissiana. É óbvio que sim, mas o problema é que nem todas as vidas estão em risco devido a fenómenos sociais como o racismo, a xenofobia, a violência sobre mulheres e crianças, o abuso sexual e o tráfico de pessoas, já para não falar nesta economia que mata, no dizer do Papa Francisco.

Mulheres, aptas para o ministério sacerdotal

No ano de 2020, na Igreja de Inglaterra (Comunhão Anglicana), das 591 pessoas recomendadas para a formação ao ministério ordenado e assumirem funções ministeriais a tempo inteiro, a maioria dos candidatos são do género feminino.

Como regressar à vida?

Num recente inquérito à opinião pública, as pessoas consideram que as medidas contra a Covid-19 foram positivas, mas queixam-se que a democracia se viu limitada. É um julgamento natural. Importa, porém, compreender que fomos surpreendidos por uma enfermidade que continuamos a desconhecer.

Comunidades com sentido: xitíkar, tsimar e cuidar

Dilma, minha aluna, apareceu muito sonolenta numa aula de segunda-feira. Achei muito estranho, por ela ser, normalmente, activa e inquieta. Nesse dia, não fez perguntas e não comentou as intervenções dos colegas. Limitou-se a ouvir e a tomar apontamentos.

Privilégios políticos são abraço de urso para a Igreja

Basta de desancar o secularismo para justificar a quebra da prática e adesão à fé cristã nos países desenvolvidos. Há alguns paradoxos que ajudam a determinar onde está realmente o problema. Muitos se questionam por que razão a fé cristã cresce nalguns países e áreas do mundo e diminui noutros.

A tecnologia feita por amor santifica

Superar a situação de pandemia que vivemos depende muito da tecnologia. Existe muita engenharia na construção de máscaras dos mais diversos tipos, na ventilação dos espaços para garantir a diluição da concentração de aerossóis, e podemo-nos questionar se existe algum valor espiritual nas coisas tecnológicas. São subtis os traços da vida espiritual no desenvolvimento tecnológico, mas existem.

O Cristo de Havana

Em julho de 1989 passei dez dias em Havana. Escrevo impressionada pelas recentes notícias de protesto contra o regime, com fortes imagens de manifestações e brutal repressão nas ruas. O povo cubano sofre de crise económica, política, social. Retomo o tempo e o contexto da minha ida, a partir do Rio de Janeiro, com escala em Lima, onde vivi ambiente de terror pelas ações do Sendero Luminoso, a América Latina incendiada.

Fazermo-nos crianças

Neste tempo de férias entre dois anos letivos é tempo de fazer balanço, de reler o vivido e de sonhar o ano que vem… Olhando para este ano, um ano que não foi fácil para ninguém, com sucessivos confinamentos e de adaptação constante às regras sanitárias, agradeço as pessoas a quem me entrego numa boa parte da minha missão: as crianças.

O grito de Eva – violência doméstica em famílias cristãs

A editora Thomas Nelson Brasil acaba de lançar mais um livro da jornalista e escritora Marília de Camargo César, O Grito de Eva – A violência doméstica em lares cristãos. Ao longo das 208 páginas que compõem a obra, a autora expõe um dos maiores problemas sociais no Brasil, a da violência doméstica nos lares cristãos.

O “efeito trincheira”

A forma como boa parte das pessoas vivenciam hoje a política é um atraso de vida. Literalmente. Voltámos atrás 100 anos, às batalhas de trincheiras que caracterizaram a I Guerra Mundial. Bem sei que é o medo que está na origem das reacções mais violentas observadas no ser humano.

O caminho da vida

Um destes dias estive na festa de 60 anos de uma amiga. Parece estranho – 60 anos. Para os mais novos é muita, muita idade. Para quem já lá chegou ou chegará em breve, é uma existência com esperança de que mais possa ser desfrutado numa boa condição.

Eros e Ágape: Confundidos sobre o amor

Eros, o amor passional, e ágape, o amor sacrificial, continuam em batalha campal nas nossas vidas, como se não fosse possível juntá-los à mesma mesa, que é como quem diz, assumi-los por inteiro e integrá-los a ambos no leque dos bons amigos. A confusão radica nas dualidades que somos propensos a fazer, dividindo o que está destinado a ser junto e atribuindo dísticos de “bom” e “mau” a realidades que se limitam a ser.

O aborto contra a mulher

É habitual associar a legalização do aborto aos direitos da mulher. A recente resolução do Parlamento Europeu sobre a “situação da saúde e direitos sexuais e reprodutivos na União Europeia” (baseada no polémico relatório Matic) chega a afirmar que a proibição do aborto é “uma forma de violência de género”. Durante a discussão desta resolução ouviram-se, dos seus partidários, frases como estas: “Não há igualdade de género sem direito universal ao aborto”.

Alberto Neto: uma vida em coerência plena

Fazer memória do padre Alberto Neto, lembrando-o às gerações mais novas, as quais, por isso mesmo, com grande probabilidade, não sabem de quem se trata, é o objetivo deste texto.
Completam-se neste sábado, 3 de julho, 34 anos sobre o assassinato, até hoje nunca esclarecido, do padre Alberto Neto. Tinha 56 anos de uma vida plena para Cristo e para os irmãos.

Monte Moriá

Uma das passagens mais conhecidas do Antigo Testamento é a do sacrifício de Isaac (Génesis, 22; 1-19). Depois de lhe conceder um filho, Deus pede a Abraão que o ofereça em sacrifício como prova da sua lealdade. No preciso momento em que Abraão se preparava para degolar o filho, cumprindo assim o que lhe fora ordenado, um “mensageiro do Senhor” intervém e oferece-lhe um carneiro para ser oferecido em sacrifício no lugar de Isaac.

Trumpistas ou cristãos?

Numa das suas mais dramáticas reuniões anuais que reuniu 16.000 pastores e líderes, a maior denominação protestante dos Estados Unidos, a Convenção Baptista do Sul, elegeu há dias em Nashville o seu novo presidente, um pastor moderado do Alabama, evitando assim a tomada de poder por parte da ala direita insurgente da denominação.

À luz da “Fratelli Tutti”: o Rendimento Social de Inserção vale a pena

Passam nesta quinta-feira, 1 de julho, os 25 anos da entrada em vigor de uma medida de proteção social cujo objetivo é garantir um pequeníssimo subsídio às pessoas e agregados familiares portugueses mais pobres dos pobres. Decidida pelo Governo liderado por António Guterres, nasceu como Rendimento Mínimo Garantido (RMG) e, em 2003, passou a chamar-se Rendimento Social de Inserção (RSI).

São Paulo e os Apóstolos

Algumas referências breves para o estudo da relação de Paulo com os outros Apóstolos, na diversidade ecuménica dos primeiros tempos, no contexto da celebração da sinaxe – encontro – dos Apóstolos Pedro e Paulo, que se celebra a 29 de Junho e, segundo o calendário juliano, a 12 de Julho.

O que é a liberdade?

O que é a liberdade? Ela existe de facto, ou não passa de uma ilusão? O problema da liberdade pode também ser formulado assim: somos realmente autores dos nossos atos, quer dizer, a sua causa primeira, original, vertical, ou são eles necessariamente prisioneiros de uma causalidade horizontal, i.e. fisio-psico-biológica?

Todos os avós precisam de um neto

“Todos os avós precisam de um neto” é o título de um painel lisboeta, no início da Avenida Miguel Torga, quando se desce em direcção a Benfica. Passo por ele quase todos os dias, pois é perto de minha casa. E todos os dias me irrito com este pedido que transforma os avós em deficientes motores, com muletas e bengalas.

Manuela Silva, mulher de fé comunitária

Para um cristão como era a Manuela, a saudade, sem deixar de ser dura, não pode ser um espaço vazio do Espírito Santo. Muito pelo contrário: o espaço tem de estar cheio do espírito, da memória e da vida fecunda daquela que nos deixou. Só assim faz sentido a nossa Fé. E a Manuela era acima de tudo uma Mulher de Fé, uma mulher sobre a qual o Espírito “soprou” em abundância.

O que faz falta é agitar a malta

Para algum jornalismo o que interessa não é informar o público mas agitar as emoções, não as consciências. O importante não é dar a conhecer o que se passa no país e no mundo, mas selecionar o fluxo noticioso de acordo com uma dada intenção, que vai quase sempre associada a um enviesamento e a uma sugestão dirigida, de modo a despoletar determinadas reacções.

Quando a serenidade pesa

Este ano, o tema do Dia Mundial dos Refugiados, celebrado no passado domingo, 20 de Junho, foi “Juntos superamos, aprendemos e brilhamos”. Trouxe-me à memória o slogan da primeira grande campanha da PAR – Plataforma de Apoio aos Refugiados, que é também o princípio da Cantata de Paz de Sophia: “Vemos, ouvimos e lemos, Não podemos ignorar.” E, depois, a exortação do Papa Francisco na carta Fratelli Tutti: “acolher, proteger, promover e integrar.”

Anglicanos: conversas dos bispos – e o povo de deus?

A Comunhão Anglicana adiou para o ano de 2022 a reunião mundial onde estarão presentes todos os arcebispos das suas províncias, assim como alguns bispos. A Conferência de Lambeth, como se chama, esteve marcada para 2020, mas foi protelada devido à pandemia. Antes da reunião, foi decidido organizar uma “Conversa dos Bispos” ou seja, os bispos vão conversar entre si, sobre o tema da conferência, “Igreja de Deus para o Mundo de Deus”.

Gastronomia, transmissão de costumes e novos migrantes

Quando emigramos, levamos connosco, além de uma língua e de uma nacionalidade, os nossos hábitos culturais que se materializam nos hábitos alimentares, na música, na educação e na visão de mundo. Ao chegarmos ao destino, verificamos o choque cultural com um novo mundo, ao qual temos de nos adaptar, para lidar com essa realidade e tornar possível a necessária aculturação física e mental.

Sínodo: espírito de conversão

Realiza-se em outubro de 2023 a 16ª assembleia geral do Sínodo dos Bispos, precedida por um processo inédito de consulta das assembleias diocesanas e continentais. O Sínodo tem por tema “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão” e decorrerá segundo uma “modalidade inédita”, que tem como objetivo possibilitar “a escuta real do Povo de Deus e garantir a participação de todos no processo sinodal”.

Pela autodeterminação da Europa evangélica

O movimento evangélico europeu precisa de se libertar da tutela americana, agora que o evangelicalismo da outra margem do Atlântico está a percorrer um caminho cada vez mais estranho e perigoso. Uma das últimas novidades no país do Tio Sam é a publicação da Bíblia God Bless the USA Bible.

“E isso serve para quê?” – Humanidades em tempo de pandemia

O título que escolhi para este texto evoca a questão que talvez seja a mais comum aos ouvidos de quem estuda e investiga na área das Humanidades. Numa época pandémica, em que se exige tanto dos profissionais da saúde, da economia, da segurança, da estatística, e de tantos outros, as Humanidades ficaram aparentemente ainda mais em segundo plano, já que, pela essência dos objetos com que lidam, não foram chamadas para a linha da frente do combate anti-covid-19.

A hermenêutica de Jesus

Jesus é, por excelência, o verdadeiro hermeneuta, aquele que interpreta verdadeiramente a vontade do Pai. Jamais alguém viu o Pai; por isso, também ele é o único que revela o Pai. Outros dirão igualmente que Jesus é a chave hermenêutica para a compreensão das próprias escrituras. Mas Jesus, além de interpretar as escrituras, também as reinterpreta, dando-lhes novos sentidos.

Santo António de Lisboa, de Pádua, do mundo

Com base nos tradicionais elementos da iconografia antoniana e nas recentes palavras do Papa Francisco (em carta redigida para assinalar os 800 anos da vocação franciscana de Santo António), tentamos pintar um retrato realmente atual do Santo de Lisboa.

Ventos, baladas e canções do matrimónio

Tive que escrever um texto sobre Balada de Amor ao Vento, o primeiro romance da primeira romancista moçambicana, Paulina Chiziane. Folheando o livro, encontrei algumas anotações feitas, há algum tempo. Tenho o hábito de borrar nos meus livros, com os pensamentos que me ocorrem, no momento da leitura.

A república do ludopédio

Os ingleses inventaram o ludopédio (futebol) e continuam a driblar-nos com ele. Mas isso só é possível porque persistimos em ser provincianos. Deslumbramo-nos com tudo o que vem de fora e nem sequer nos damos ao respeito.

Homenageando o artesanato

Os novos tempos transformaram, ainda que provisoriamente, os hábitos que muitos de nós tínhamos bem arreigados. O conceito de descanso, tantas vezes associado a férias em paragens longínquas, passou a contemplar simplesmente sair de casa e chegar-se a destinos que, apesar de próximos, não tinham ainda sido, para muitos, explorados.

Quem segue o padre TikTok segue Jesus?

Serão as redes sociais a versão moderna de seguir o padre em vez de seguir Jesus? No Seu tempo, seguir Jesus era uma experiência literal. Para onde Jesus ia, as pessoas seguiam-no para O ouvir. Hoje, se Jesus estivesse presente nas redes sociais e tivesse biliões de seguidores dado o número de cristãos no mundo, teria o mesmo efeito na vida das pessoas?

A paz. Para além do medo e da ameaça

O Papa Francisco, em várias ocasiões, tem pugnado pela abolição total das armas nucleares, declarando a ilicitude moral do seu uso e até da sua posse. A Santa Sé foi dos primeiros aderentes ao Tratado das Nações Unidas sobre a abolição total dessas armas, o qual já recolheu a adesão do número suficiente de países para entrar em vigor.

Palestina: uma luz sobre a resistência

Admiro, desde sempre, a resistência do povo palestiniano, que considero profundamente inspiradora da esperança num mundo melhor. Acompanho-a com particular intensidade desde 2003, depois de esbarrar de frente com a história da Rachel Corrie, ativista e voluntária do International Solidarity Movement.

João Resina, o padre da física quântica

Nesta quinta-feira, 3 de junho, completam-se 11 anos que o Padre João, como era conhecido entre aqueles que mais de perto tinham o privilégio de com ele lidar, partiu para Deus. Por coincidência de datas, em 3 de junho de 2010 a Igreja celebrava, tal como hoje, a solenidade do Corpo de Cristo.

Sem misericórdia

O populismo de extrema-direita costuma invocar os valores cristãos apenas como fachada para aceder ao poder e exercê-lo. Temos visto este mesmo filme na Europa e nas Américas. O exercício da misericórdia, que significa baixar o nosso coração à miséria do outro, está cada vez mais difícil.

Ribeiro Telles: unanimidade nacional

Li com entusiasmo, no 7MARGENS, a notícia sobre a proposta de criação do Dia Nacional dos Jardins. Em tempo de reflexões sobre a encíclica Laudato Si’, e transformando dados diversos em unidade de pensamento, escrevi.

Humanidade e lei

Ao reler algumas partes do livro “O Sopro da Vida Interior” da freira beneditina americana Joan Chittister, vi-me confrontado com a minha humanidade. Escreve Joan: Não estamos interessados em proteger o inocente; queremos matar os assassinos. Queremos os dissidentes silenciados. Queremos os não-conformistas excomungados. Queremos os rebeldes reduzidos a nada. Queremos lei e ordem. E continua: Estamos tão concentrados na religião que esquecemos a retidão.

O coração no meio da escuridão

Fátima nunca será um tema consensual. Uns veem-na como crendice popular sem sustento, outros encaram-na como algo politicamente conveniente, outros ainda, têm em Fátima a história da sua conversão pessoal. Na diversidade (e antagonismo, em determinados casos), haverá verdade. Os acontecimentos da Cova da Iria deram azo à maior variedade de posições e interpretações e talvez esse facto constitua também uma riqueza.

Israel-Palestina: novos tempos exigem novas soluções

Parece que já quase ninguém acredita, em qualquer dos dois lados, na solução de dois estados no conflito entre Israel e Palestina. A tendência, segundo se diz, é a radicalização de ambas as partes, com o perigo da extrema-direita israelita em crescendo, mercê de uma população jovem cada vez radicalizada e adepta de uma solução de força. O ódio cresce e, à falta de um horizonte de solução, resta a solução desesperada, que é a da guerra total na qual uma das partes é aniquilada.

Universalidade de gestos e emoções

Pentecostes: O Sopro

O Cristo ressuscitado, Cristo Jesus, o Nosso Senhor, certeza, motivo, mistério da nossa fé e a celebração de Pentecostes. O Sopro do Espírito Santo em face da gente unida pelo medo, pela insegurança, pela ameaça, por todo o sinal de violência do mundo, lá fora. De repente, a iluminação, a sabedoria, a linguagem, variada e entendível entre todos, os apóstolos, os tantos homens e as mulheres ali assustados, perdidos no sentido das palavras certas para dizer. Para cumprir. Para seguir.  

Povo em movimento

Voz(es) que clama(m) do deserto

Desertos, regiões geográficas sinónimas de secura, esterilidade e de isolamento, na antiguidade bíblica sempre foram locais muitas vezes associados a pureza. Sempre que Deus queria preparar o seu povo escolhido para uma tarefa grandiosa, conduzia-o a locais isolados e desérticos. A visão de um povo em movimento, essencialmente nómada, sempre foi tida em contraste com a vida da polis, das sociedades urbanas.

A caridade é o coração da Igreja

Felicito a Igreja Católica de Lisboa pela realização do Congresso Diocesano de Pastoral Socio-Caritativa. Que dê abundantes frutos. O que, por enquanto, me chamou mais a atenção desta magna reunião eclesial, foram alguns extratos da comunicação feita pelo cardeal Tolentino Mendonça. “Não podemos ver a pastoral sócio-caritativa como um departamento, mas como um sopro transversal.

Desamores, dores e redenção

Habituamo-nos a tudo na vida, até a ter a alma em frangalhos, cheia de dores, pisaduras, feridas novas e velhas, algumas ainda com sangue a jorrar. Como são dores na alma, não sabemos o que fazer com elas e vamo-las mascarando com distrações várias, pecúlios, alegrias breves e ilusões de felicidade, numa superficialidade tão mais evidente quanto mais fundo é o abismo que levamos dentro.

Deus é americano?

A religião americana privilegia o “ser americano” antes do ser cristão e o nacionalismo antes do universalismo da fé. Só que tal mentalidade faz tábua rasa da figura de Jesus Cristo, seu discurso e obra. Atendendo a alguns discursos por vezes parece que Deus tem um fraquinho especial pelos Estados Unidos.

A liberdade religiosa: tema atual

O encontro entre o Papa Francisco e o Grande Imã da Mesquita de Al Azhar, Ahmed Mohamed El-Tayeb, no Abu Dhabi, constituiu um momento da maior importância no âmbito do diálogo entre as religiões, envolvendo a assinatura do Documento sobre a Fraternidade Humana (4.2.2019), que permite a afirmação de uma cultura de paz baseada no respeito mútuo, na liberdade de consciência e na necessidade de uma compreensão mútua baseada no conhecimento e na sabedoria.

O elogio do concreto em tempos de covid

A pandemia trouxe muitas alterações às nossas vidas. E uma delas é o novo modelo dos telejornais. Habituámo-nos a ver desfilar nos nossos écrans centenas de pessoas a serem injectadas, outras tantas transportadas em macas, outras ainda entubadas e sujeitas a tratamentos que nos arrepiam. É um desfile de gente, irmanada no estatuto comum de doentes, actuais ou possíveis, dos quais nos pretendemos demarcar, situando-nos no grupo dos não infectados.

A origem do mal

De onde vem o mal, se só a alma é real? De onde vem o mal, se só o Ser é real? O mal parece existir no nosso mundo, apenas porque o bem não está garantido. Quer dizer, no plano humano, o bem exige um luta e conquista permanentes. O nosso mundo, o mundo humano, o mundo que é a existência humana em projeto, está incompleto, inacabado como o próprio ser humano. Mas o sentido é o bem, é sempre essa, em última análise, a intenção, a finalidade do agir humano.

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“A longa viagem começa por um passo”, recriemos…

“A longa viagem começa por um passo”, recriemos… novidade

Inicio o meu quarto ano de uma escrita a que não estava habituada, a crónica jornalística. Nos primeiros três anos escrevi sobre a interculturalidade. Falei sobre o modo como podemos, por hipótese, colocar as culturas moçambicanas e portuguesa a dialogarem. Noutras vezes, inclui a cultura judaica, no diálogo com essas culturas. De um modo geral, tenho-me questionado sobre a cultura, nas suas diferentes manifestações: literatura, costumes, comportamentos sociais, práticas culturais, modos de ser, de estar e de fazer.

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