Entre Margens

A palavra que falta explicitar no “cuidar da criação” novidade

No dia 1 de setembro começou o Tempo da Criação para diversas Igrejas Cristãs. Nesse dia, o Papa Francisco, o Patriarca Bartolomeu e o Arcebispo de Canterbury Justin assinaram uma “Mensagem Conjunta para a Protecção da Criação” (não existe – ainda – tradução em português). Talvez tenha passado despercebida, mas vale a pena ler.

Novo ano letivo: regressar ao normal?

Após dois conturbados anos letivos, devido à pandemia, as escolas preparam-se para um terceiro ano ainda bastante incerto, mas que desejam que seja o mais normal possível. O regresso à normalidade domina as declarações públicas de diretores escolares e de pais, alunos e professores. Este desejo de regresso à normalidade, sendo lógico e compreensível, após dois anos de imensa instabilidade, incerteza e experimentação, constitui ao mesmo tempo um sério problema.

Caminhar juntos, lado a lado, na mesma direcção

Vem aí o Sínodo, cuja assembleia geral será em outubro de 2023, já depois da Jornada Mundial da Juventude, a realizar em Lisboa, no verão anterior. O tema é desafiante: Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão. O documento preparatório veio a público a 7 de setembro e lança as bases de um caminho a percorrer juntos.

42 anos do SNS: memória e homenagem espirituais

Hoje, 15 de setembro, celebro e comemoro e agradeço e relembro António Arnaut, o criador em 1979 do Serviço Nacional de Saúde, o SNS da sobrevida de tantos de nós, portugueses. Depois de ter passado um dia de quase dez horas como doente de oncologia em imenso espaço de hospital, entre variadas mãos, procedimentos, cuidados, não posso deixar vazio na data.

Deixem o vice-almirante em paz!

Só há uma coisa de que as pessoas gostam mais do que de fabricar heróis, é deitá-los por terra na primeira curva da estrada. Se Gouveia e Melo cair na asneira de entrar na política vai arrepender-se depressa.

A novela do bispo Novell

O abandono de um bispo do seu ministério pastoral é tão atípico que nem está prevista a sua secularização na lei fundamental da Igreja Católica, o Código de Direito Canónico. No cânone nº 290 §3, legisla-se sobre a perda do estado clerical dos diáconos, em casos graves, e dos presbíteros em casos gravíssimos – mas dos bispos nada se diz.

Velhice aos 60, doença obrigatória

Fomos de férias. Que lugar-comum esse que apenas descreve a clássica paragem de Agosto! Nada de novo e tudo diferente ao ir e ao regressar. É mesmo estranho o que estamos a viver – um mundo de imprevistos e de incertezas, no qual antes pareciam só existir convicções e controlos; um lugar de todos e de ninguém, aquele que, antes, sem apregoar, deixava sempre um cantinho livre para quem quer que chegasse.

Igrejas que afastam de Deus?

Igrejas que afastam de Deus? São aquelas que não sabem ligar o sagrado ao profano. E porquê? Porque faltam “padres cultos e capazes de dialogar”, como dizia recentemente, com toda a naturalidade, Lídia Jorge. Utilizo “igrejas” não no sentido de templo ou instituição hierárquica, mas de comunidades dos crentes em Jesus Cristo. E baseio-me livremente nos vários artigos relacionados com Dimas de Almeida, publicados recentemente no 7MARGENS.

O que acontecerá à religião após a pandemia?

O que acontecerá à religião após a pandemia? Como poderão as igrejas reagir ao declínio da sua influência direta num mundo ocidental cada vez mais secularizado, relativizado e individualizado? a ampla difusão de uma mentalidade secular compreende a religião como um conjunto de crenças e práticas que se tornaram na sua maioria redundantes, de pouca ou nenhuma utilidade nas sociedades avançadas. A religião ainda é útil ou podemos substituir as funções que lhe são atribuídas por novos meios e mais eficientes?

O vale afundado e a barragem do Sabor

Há o silêncio que desce pelas encostas banhadas pelo sol, um murmúrio de aves, vertendo-se até ao vale profundo. Souto é um lugar com casas esventradas, imoladas numa intemporalidade de destroços, num esvaziamento. Raras estão de pé: uma, é “alojamento local”; outras, servem também para casas de férias.

Ampliar e aprofundar a formação teológica

Há dias, um dos temas comentados nas redes sociais foi uma das recomendações de S. Paulo à comunidade cristã de Éfeso em que diz: “As mulheres submetam-se aos maridos» (Carta aos Efésios 5,22). Não é minha intenção entrar na polémica que se tentou gerar, pois as explicações estão dadas por instâncias mais competentes do que eu.

Porque pode a religião provocar violência extrema?

Porque sentirão os crentes a obrigação de “defender a honra” do seu deus[1] perante os que têm fé diferente, de forma violenta? Será esse deus assim tão fraco e impotente que não consegue sequer defender-se a si mesmo, ou os fiéis interiorizaram o conceito duma divindade mesquinha e vulnerável?

Taizé: lugar para ser

Paz. É o que sentimos em Taizé. O espírito de grupo, as orações e até as refeições revelam a verdadeira essência deste lugar. Lugar que é mais que lugar: é templo, é família, é casa. 

Compostela: uma peregrinação de fé e aventura

Já com a pandemia parcialmente derrotada, pelas eficazes vacinas que nos vão proporcionando uma maior descontração, iniciamos agora uma nova etapa nas nossas vidas, embora mantendo algumas precauções recomendadas. Já basta de limitações, vivendo nas margens do medo, que nos foi atrofiando muitos momentos da nossa liberdade. Agora, tudo leva a crer, já será o tempo de voltarmos a sonhar com novas aventuras.

Nas margens da filosofia (XXXVII)

Para quem tocam os sinos?

O título deste texto é tirado de um poema de John Donne, um autor inglês do século XVII que, como todos os bons poetas, se mantém plenamente actual e interpelante. Ernest Hemingway construiu a partir dele um romance belíssimo sobre a Guerra de Espanha e a solidariedade que provocou entre os combatentes antifranquistas.

O pão nosso de crianças cegas

É o meu rito dominical: nas manhãs do canal France2, saborear a missa católica sem esquecer algumas amostras das cerimónias do islão, protestantismo, judaísmo e budismo, de que procuro tirar o maior proveito.

Talibang!

Cansado dos vinte anos de atoleiro militar no Afeganistão, Trump fechou um acordo de rendição com os talibãs, em 2020, para a retirada das tropas ocidentais, mas fê-lo nas costas dos aliados da NATO. Os ingleses já se vieram queixar.

Excertos da Índia

Olhares baços no horizonte baço

É nas terras de horizonte baço que os direitos são mais negligenciados, pensava eu ao caminhar por ruas tranquilamente infernais numa tentativa de compreender o que via e sentia. Meninos descalços, sem nome. São meninos de olhos vazios e mão estendida. Porque me daria a vida sobras de afeto se a eles nada disso pode dar?

Aquecimento global e o futuro da humanidade

Nos últimos 150 anos, a população mundial cresceu exponencialmente como em nenhum outro momento da história humana, e com ela as cidades progrediram em prejuízo das florestas, e a indústria libertou mais CO2 para a atmosfera do que havia sido libertado, arrisco-me a dizer, durante todos os milhares de anos anteriores, desde que existe história escrita.

Vacinas e ética da vida

Um pouco por todo o lado, sucedem-se tomadas de posição e manifestações contra a obrigatoriedade da vacinação contra a Covid-19, ou contra a exigência dessa vacinação para acesso a diversas atividades. É, sobretudo, o valor da autonomia individual que é invocado para justificar tais posições.

Re-significar a vida

A conclusão do percurso académico é, na vida de qualquer jovem, um momento de especial significado e simbolismo. É um olhar para o trajeto percorrido e sentir a nostalgia das etapas que foram particularmente significativas para o momento presente, mas é, sobretudo, olhar para o futuro, lugar de tantos sonhos e de tantas expectativas.

Nem só de ecrã vive o Homem

O Facebook tem mais utilizadores que cristãos existentes no mundo. A receita financeira pela captura da nossa atenção atingiu já um trilião de dólares, mas o Facebook não está ainda satisfeito. O seu novo alvo é a religião.

As Lídias e os Pichardos desta vida

Temos que escolher entre viver acantonados num território, agarrados a um passado longínquo, por mais glorioso que tenha sido, de modo saudosista e deprimido, ou darmo-nos ao mundo. De resto, apenas se optarmos pela segunda hipótese estaremos a ser fiéis à vocação histórica universal dos nossos antepassados.

Entre uma leitura literal e progressiva dos textos bíblicos

Uma pesquisa levada a cabo pela Gallup em 2017 revela que menos de um quarto dos norte-americanos interpretam a Bíblia literalmente, sendo esta a primeira vez em quarenta anos que, os que adotam a leitura literal dos textos bíblicos, foram ultrapassados pelos que acham que a Bíblia é “um livro de fábulas, lendas, história e preceitos morais registados pelo homem”.

Já fui a Paris (à missa e tudo)

Há várias formas de descobrir uma cidade. Uma das minhas é ir à missa naquelas por onde vou passando, mesmo que não perceba muito (ou nada) do que por lá é dito. Há umas semanas foi a vez de Paris, onde aterrei na Igreja de Notre Dame de l’Assomption de Passy para a missa das 9h00, com uns minutos de atraso e uma leve irritação – o atraso seria demasiado evidente, notado e presenteado com olhares de censura.

Dimas de Almeida: O teólogo sedento da união dos cristãos

O Reverendo Dimas de Almeida era uma pessoa simples e atenciosa, ouvia o parecer dos outros, mesmo que não concordasse, com a reverencia dos simples, com um subido olhar de quem escuta sempre para aprender; ele sabia ser dos “homens grandes” de porque sabem, sabem que ainda não sabem nada.

Até logo, querido Dimas!

Para mim, como para tantos dos seus conhecidos e amigos era o Professor Dimas. Ou simplesmente o Dimas, um bom amigo que foi meu professor de grego e de Teologia do Novo Testamento, no Seminário Presbiteriano de Lisboa, nos longínquos anos de 1975-1977, então localizado na Avenida do Brasil.

Otelo como criação shakespeareana

A notícia da morte de Otelo (1936-2021) diz pouco sobre a sua vida, mas os comentários produzidos em público a esse respeito são extremamente elucidativos sobre os seus autores. No meio da cacofonia destaca-se a lucidez e sentido da História de Ramalho Eanes.

Energias limpas: solução ou ilusão?

O deserto chileno de Atacama é considerado uma das regiões mais áridas do planeta, havendo locais que nunca sentiram um pingo de chuva. Chuquicamata é nome conhecido por aí se situar a maior mina de cobre a céu aberto. Mas Chuquicamata também foi, até fevereiro de 2008, uma pequena cidade que cresceu à sombra da mina e na qual viviam cerca de 25.000 pessoas que dependiam direta ou indiretamente da mina

Vários

Soubemos há dias que na nossa Conferência Episcopal apenas dois bispos nomearam os seus responsáveis diocesanos para a missão de acompanhamento dos preparativos para o Sínodo (com início marcado para 17 de outubro próximo) e de elaboração do respetivo relatório, no formal documento a enviar para Roma.

Os semideuses do Olimpo e o preço do espetáculo

No dia em que terminam os Jogos Olímpicos em Tóquio, uma reflexão sobre o exemplo dos atletas olímpicos: como aqueles seres “tão distantes de nós, tão estratosféricos, tão a milhões de quilômetros de nossos corpos medianos”, podem ser nossos ídolos? Apenas se os pensarmos como semideuses poderemos considerá-los ídolos, no sentido da adoração que se devota a uma espécie de divindade. No entanto, são humanos – e a atitude da ginasta Simone Biles é um raro exemplo a comprová-lo.

[D, de Daniel]

e agora sei que oiço as coisas devagar

Para isto me abeirei da poesia, para o duplo milagre do vagar e da escuta. Preciso do silêncio de que é feito o poema, o branco da página a céu aberto. E da palavra ponderada, arredondada na boca antes de ser escrita, húmida ainda de saliva e sangue. E luminosa como uma janela oriental.

Futebol em tempos de cólera

A ideia de associar o desporto a uma actividade lúdica, como no mundo antigo (mens sana in corpore sano, diria Juvenal), de modo a desenvolver a saúde física e mental mas também as boas relações entre indivíduos e as virtudes sociais parece estar há muito lançada por terra, pelo menos no futebol profissional.

Tudo começa com uma metáfora

Li num livro de Milan Kundera que “as metáforas podem ser muito perigosas” e que “o amor começa sempre com uma metáfora”. Estas frases soam-me em eco desde então, não fosse o meu vocabulário um território manco onde a muleta de todas as horas são precisamente as metáforas.

Nos 101 anos de Mário Castrim

O Mário Castrim faleceu em Outubro de 2002. Se fosse vivo, faria hoje 101 anos. Foi jornalista, escritor e crítico de televisão. Foram as suas crónicas sobre o que se passava no “pequeno ecrã” de então que lhe valeram a fama – entre protagonistas e leitores – de crítico acerbo e impiedoso. Era, na verdade, extremamente exigente com quem fazia televisão, porque receava o poder nefasto que ela podia ter sobre as pessoas.

“It’s the season, silly!”

Quando, há dias, comecei a pensar nesta contribuição, estavam em cima da mesa vários temas importantes, urgentes e vitais: o clima que samba na cara das inimiga’ na Europa Central; Israel que tenta mudar a agulha da agenda mediática para os estudos sobre vacinas, para esconder a aplicação continuada das suas políticas colonialistas sobre o povo palestiniano; ou as últimas detenções ligadas a processos de corrupção.

Jesus Cristo tinha uma agenda liberal?

Dizer apenas que todas as vidas são importantes é uma tirada lapalissiana. É óbvio que sim, mas o problema é que nem todas as vidas estão em risco devido a fenómenos sociais como o racismo, a xenofobia, a violência sobre mulheres e crianças, o abuso sexual e o tráfico de pessoas, já para não falar nesta economia que mata, no dizer do Papa Francisco.

Mulheres, aptas para o ministério sacerdotal

No ano de 2020, na Igreja de Inglaterra (Comunhão Anglicana), das 591 pessoas recomendadas para a formação ao ministério ordenado e assumirem funções ministeriais a tempo inteiro, a maioria dos candidatos são do género feminino.

Como regressar à vida?

Num recente inquérito à opinião pública, as pessoas consideram que as medidas contra a Covid-19 foram positivas, mas queixam-se que a democracia se viu limitada. É um julgamento natural. Importa, porém, compreender que fomos surpreendidos por uma enfermidade que continuamos a desconhecer.

Comunidades com sentido: xitíkar, tsimar e cuidar

Dilma, minha aluna, apareceu muito sonolenta numa aula de segunda-feira. Achei muito estranho, por ela ser, normalmente, activa e inquieta. Nesse dia, não fez perguntas e não comentou as intervenções dos colegas. Limitou-se a ouvir e a tomar apontamentos.

Privilégios políticos são abraço de urso para a Igreja

Basta de desancar o secularismo para justificar a quebra da prática e adesão à fé cristã nos países desenvolvidos. Há alguns paradoxos que ajudam a determinar onde está realmente o problema. Muitos se questionam por que razão a fé cristã cresce nalguns países e áreas do mundo e diminui noutros.

A tecnologia feita por amor santifica

Superar a situação de pandemia que vivemos depende muito da tecnologia. Existe muita engenharia na construção de máscaras dos mais diversos tipos, na ventilação dos espaços para garantir a diluição da concentração de aerossóis, e podemo-nos questionar se existe algum valor espiritual nas coisas tecnológicas. São subtis os traços da vida espiritual no desenvolvimento tecnológico, mas existem.

O Cristo de Havana

Em julho de 1989 passei dez dias em Havana. Escrevo impressionada pelas recentes notícias de protesto contra o regime, com fortes imagens de manifestações e brutal repressão nas ruas. O povo cubano sofre de crise económica, política, social. Retomo o tempo e o contexto da minha ida, a partir do Rio de Janeiro, com escala em Lima, onde vivi ambiente de terror pelas ações do Sendero Luminoso, a América Latina incendiada.

Fazermo-nos crianças

Neste tempo de férias entre dois anos letivos é tempo de fazer balanço, de reler o vivido e de sonhar o ano que vem… Olhando para este ano, um ano que não foi fácil para ninguém, com sucessivos confinamentos e de adaptação constante às regras sanitárias, agradeço as pessoas a quem me entrego numa boa parte da minha missão: as crianças.

O grito de Eva – violência doméstica em famílias cristãs

A editora Thomas Nelson Brasil acaba de lançar mais um livro da jornalista e escritora Marília de Camargo César, O Grito de Eva – A violência doméstica em lares cristãos. Ao longo das 208 páginas que compõem a obra, a autora expõe um dos maiores problemas sociais no Brasil, a da violência doméstica nos lares cristãos.

O “efeito trincheira”

A forma como boa parte das pessoas vivenciam hoje a política é um atraso de vida. Literalmente. Voltámos atrás 100 anos, às batalhas de trincheiras que caracterizaram a I Guerra Mundial. Bem sei que é o medo que está na origem das reacções mais violentas observadas no ser humano.

O caminho da vida

Um destes dias estive na festa de 60 anos de uma amiga. Parece estranho – 60 anos. Para os mais novos é muita, muita idade. Para quem já lá chegou ou chegará em breve, é uma existência com esperança de que mais possa ser desfrutado numa boa condição.

Eros e Ágape: Confundidos sobre o amor

Eros, o amor passional, e ágape, o amor sacrificial, continuam em batalha campal nas nossas vidas, como se não fosse possível juntá-los à mesma mesa, que é como quem diz, assumi-los por inteiro e integrá-los a ambos no leque dos bons amigos. A confusão radica nas dualidades que somos propensos a fazer, dividindo o que está destinado a ser junto e atribuindo dísticos de “bom” e “mau” a realidades que se limitam a ser.

O aborto contra a mulher

É habitual associar a legalização do aborto aos direitos da mulher. A recente resolução do Parlamento Europeu sobre a “situação da saúde e direitos sexuais e reprodutivos na União Europeia” (baseada no polémico relatório Matic) chega a afirmar que a proibição do aborto é “uma forma de violência de género”. Durante a discussão desta resolução ouviram-se, dos seus partidários, frases como estas: “Não há igualdade de género sem direito universal ao aborto”.

Alberto Neto: uma vida em coerência plena

Fazer memória do padre Alberto Neto, lembrando-o às gerações mais novas, as quais, por isso mesmo, com grande probabilidade, não sabem de quem se trata, é o objetivo deste texto.
Completam-se neste sábado, 3 de julho, 34 anos sobre o assassinato, até hoje nunca esclarecido, do padre Alberto Neto. Tinha 56 anos de uma vida plena para Cristo e para os irmãos.

Monte Moriá

Uma das passagens mais conhecidas do Antigo Testamento é a do sacrifício de Isaac (Génesis, 22; 1-19). Depois de lhe conceder um filho, Deus pede a Abraão que o ofereça em sacrifício como prova da sua lealdade. No preciso momento em que Abraão se preparava para degolar o filho, cumprindo assim o que lhe fora ordenado, um “mensageiro do Senhor” intervém e oferece-lhe um carneiro para ser oferecido em sacrifício no lugar de Isaac.

Trumpistas ou cristãos?

Numa das suas mais dramáticas reuniões anuais que reuniu 16.000 pastores e líderes, a maior denominação protestante dos Estados Unidos, a Convenção Baptista do Sul, elegeu há dias em Nashville o seu novo presidente, um pastor moderado do Alabama, evitando assim a tomada de poder por parte da ala direita insurgente da denominação.

À luz da “Fratelli Tutti”: o Rendimento Social de Inserção vale a pena

Passam nesta quinta-feira, 1 de julho, os 25 anos da entrada em vigor de uma medida de proteção social cujo objetivo é garantir um pequeníssimo subsídio às pessoas e agregados familiares portugueses mais pobres dos pobres. Decidida pelo Governo liderado por António Guterres, nasceu como Rendimento Mínimo Garantido (RMG) e, em 2003, passou a chamar-se Rendimento Social de Inserção (RSI).

São Paulo e os Apóstolos

Algumas referências breves para o estudo da relação de Paulo com os outros Apóstolos, na diversidade ecuménica dos primeiros tempos, no contexto da celebração da sinaxe – encontro – dos Apóstolos Pedro e Paulo, que se celebra a 29 de Junho e, segundo o calendário juliano, a 12 de Julho.

O que é a liberdade?

O que é a liberdade? Ela existe de facto, ou não passa de uma ilusão? O problema da liberdade pode também ser formulado assim: somos realmente autores dos nossos atos, quer dizer, a sua causa primeira, original, vertical, ou são eles necessariamente prisioneiros de uma causalidade horizontal, i.e. fisio-psico-biológica?

Todos os avós precisam de um neto

“Todos os avós precisam de um neto” é o título de um painel lisboeta, no início da Avenida Miguel Torga, quando se desce em direcção a Benfica. Passo por ele quase todos os dias, pois é perto de minha casa. E todos os dias me irrito com este pedido que transforma os avós em deficientes motores, com muletas e bengalas.

Manuela Silva, mulher de fé comunitária

Para um cristão como era a Manuela, a saudade, sem deixar de ser dura, não pode ser um espaço vazio do Espírito Santo. Muito pelo contrário: o espaço tem de estar cheio do espírito, da memória e da vida fecunda daquela que nos deixou. Só assim faz sentido a nossa Fé. E a Manuela era acima de tudo uma Mulher de Fé, uma mulher sobre a qual o Espírito “soprou” em abundância.

O que faz falta é agitar a malta

Para algum jornalismo o que interessa não é informar o público mas agitar as emoções, não as consciências. O importante não é dar a conhecer o que se passa no país e no mundo, mas selecionar o fluxo noticioso de acordo com uma dada intenção, que vai quase sempre associada a um enviesamento e a uma sugestão dirigida, de modo a despoletar determinadas reacções.

Quando a serenidade pesa

Este ano, o tema do Dia Mundial dos Refugiados, celebrado no passado domingo, 20 de Junho, foi “Juntos superamos, aprendemos e brilhamos”. Trouxe-me à memória o slogan da primeira grande campanha da PAR – Plataforma de Apoio aos Refugiados, que é também o princípio da Cantata de Paz de Sophia: “Vemos, ouvimos e lemos, Não podemos ignorar.” E, depois, a exortação do Papa Francisco na carta Fratelli Tutti: “acolher, proteger, promover e integrar.”

Anglicanos: conversas dos bispos – e o povo de deus?

A Comunhão Anglicana adiou para o ano de 2022 a reunião mundial onde estarão presentes todos os arcebispos das suas províncias, assim como alguns bispos. A Conferência de Lambeth, como se chama, esteve marcada para 2020, mas foi protelada devido à pandemia. Antes da reunião, foi decidido organizar uma “Conversa dos Bispos” ou seja, os bispos vão conversar entre si, sobre o tema da conferência, “Igreja de Deus para o Mundo de Deus”.

Gastronomia, transmissão de costumes e novos migrantes

Quando emigramos, levamos connosco, além de uma língua e de uma nacionalidade, os nossos hábitos culturais que se materializam nos hábitos alimentares, na música, na educação e na visão de mundo. Ao chegarmos ao destino, verificamos o choque cultural com um novo mundo, ao qual temos de nos adaptar, para lidar com essa realidade e tornar possível a necessária aculturação física e mental.

Sínodo: espírito de conversão

Realiza-se em outubro de 2023 a 16ª assembleia geral do Sínodo dos Bispos, precedida por um processo inédito de consulta das assembleias diocesanas e continentais. O Sínodo tem por tema “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão” e decorrerá segundo uma “modalidade inédita”, que tem como objetivo possibilitar “a escuta real do Povo de Deus e garantir a participação de todos no processo sinodal”.

Pela autodeterminação da Europa evangélica

O movimento evangélico europeu precisa de se libertar da tutela americana, agora que o evangelicalismo da outra margem do Atlântico está a percorrer um caminho cada vez mais estranho e perigoso. Uma das últimas novidades no país do Tio Sam é a publicação da Bíblia God Bless the USA Bible.

“E isso serve para quê?” – Humanidades em tempo de pandemia

O título que escolhi para este texto evoca a questão que talvez seja a mais comum aos ouvidos de quem estuda e investiga na área das Humanidades. Numa época pandémica, em que se exige tanto dos profissionais da saúde, da economia, da segurança, da estatística, e de tantos outros, as Humanidades ficaram aparentemente ainda mais em segundo plano, já que, pela essência dos objetos com que lidam, não foram chamadas para a linha da frente do combate anti-covid-19.

A hermenêutica de Jesus

Jesus é, por excelência, o verdadeiro hermeneuta, aquele que interpreta verdadeiramente a vontade do Pai. Jamais alguém viu o Pai; por isso, também ele é o único que revela o Pai. Outros dirão igualmente que Jesus é a chave hermenêutica para a compreensão das próprias escrituras. Mas Jesus, além de interpretar as escrituras, também as reinterpreta, dando-lhes novos sentidos.

Santo António de Lisboa, de Pádua, do mundo

Com base nos tradicionais elementos da iconografia antoniana e nas recentes palavras do Papa Francisco (em carta redigida para assinalar os 800 anos da vocação franciscana de Santo António), tentamos pintar um retrato realmente atual do Santo de Lisboa.

Ventos, baladas e canções do matrimónio

Tive que escrever um texto sobre Balada de Amor ao Vento, o primeiro romance da primeira romancista moçambicana, Paulina Chiziane. Folheando o livro, encontrei algumas anotações feitas, há algum tempo. Tenho o hábito de borrar nos meus livros, com os pensamentos que me ocorrem, no momento da leitura.

A república do ludopédio

Os ingleses inventaram o ludopédio (futebol) e continuam a driblar-nos com ele. Mas isso só é possível porque persistimos em ser provincianos. Deslumbramo-nos com tudo o que vem de fora e nem sequer nos damos ao respeito.

Homenageando o artesanato

Os novos tempos transformaram, ainda que provisoriamente, os hábitos que muitos de nós tínhamos bem arreigados. O conceito de descanso, tantas vezes associado a férias em paragens longínquas, passou a contemplar simplesmente sair de casa e chegar-se a destinos que, apesar de próximos, não tinham ainda sido, para muitos, explorados.

Quem segue o padre TikTok segue Jesus?

Serão as redes sociais a versão moderna de seguir o padre em vez de seguir Jesus? No Seu tempo, seguir Jesus era uma experiência literal. Para onde Jesus ia, as pessoas seguiam-no para O ouvir. Hoje, se Jesus estivesse presente nas redes sociais e tivesse biliões de seguidores dado o número de cristãos no mundo, teria o mesmo efeito na vida das pessoas?

A paz. Para além do medo e da ameaça

O Papa Francisco, em várias ocasiões, tem pugnado pela abolição total das armas nucleares, declarando a ilicitude moral do seu uso e até da sua posse. A Santa Sé foi dos primeiros aderentes ao Tratado das Nações Unidas sobre a abolição total dessas armas, o qual já recolheu a adesão do número suficiente de países para entrar em vigor.

Palestina: uma luz sobre a resistência

Admiro, desde sempre, a resistência do povo palestiniano, que considero profundamente inspiradora da esperança num mundo melhor. Acompanho-a com particular intensidade desde 2003, depois de esbarrar de frente com a história da Rachel Corrie, ativista e voluntária do International Solidarity Movement.

João Resina, o padre da física quântica

Nesta quinta-feira, 3 de junho, completam-se 11 anos que o Padre João, como era conhecido entre aqueles que mais de perto tinham o privilégio de com ele lidar, partiu para Deus. Por coincidência de datas, em 3 de junho de 2010 a Igreja celebrava, tal como hoje, a solenidade do Corpo de Cristo.

Sem misericórdia

O populismo de extrema-direita costuma invocar os valores cristãos apenas como fachada para aceder ao poder e exercê-lo. Temos visto este mesmo filme na Europa e nas Américas. O exercício da misericórdia, que significa baixar o nosso coração à miséria do outro, está cada vez mais difícil.

Ribeiro Telles: unanimidade nacional

Li com entusiasmo, no 7MARGENS, a notícia sobre a proposta de criação do Dia Nacional dos Jardins. Em tempo de reflexões sobre a encíclica Laudato Si’, e transformando dados diversos em unidade de pensamento, escrevi.

Humanidade e lei

Ao reler algumas partes do livro “O Sopro da Vida Interior” da freira beneditina americana Joan Chittister, vi-me confrontado com a minha humanidade. Escreve Joan: Não estamos interessados em proteger o inocente; queremos matar os assassinos. Queremos os dissidentes silenciados. Queremos os não-conformistas excomungados. Queremos os rebeldes reduzidos a nada. Queremos lei e ordem. E continua: Estamos tão concentrados na religião que esquecemos a retidão.

O coração no meio da escuridão

Fátima nunca será um tema consensual. Uns veem-na como crendice popular sem sustento, outros encaram-na como algo politicamente conveniente, outros ainda, têm em Fátima a história da sua conversão pessoal. Na diversidade (e antagonismo, em determinados casos), haverá verdade. Os acontecimentos da Cova da Iria deram azo à maior variedade de posições e interpretações e talvez esse facto constitua também uma riqueza.

Israel-Palestina: novos tempos exigem novas soluções

Parece que já quase ninguém acredita, em qualquer dos dois lados, na solução de dois estados no conflito entre Israel e Palestina. A tendência, segundo se diz, é a radicalização de ambas as partes, com o perigo da extrema-direita israelita em crescendo, mercê de uma população jovem cada vez radicalizada e adepta de uma solução de força. O ódio cresce e, à falta de um horizonte de solução, resta a solução desesperada, que é a da guerra total na qual uma das partes é aniquilada.

Universalidade de gestos e emoções

Pentecostes: O Sopro

O Cristo ressuscitado, Cristo Jesus, o Nosso Senhor, certeza, motivo, mistério da nossa fé e a celebração de Pentecostes. O Sopro do Espírito Santo em face da gente unida pelo medo, pela insegurança, pela ameaça, por todo o sinal de violência do mundo, lá fora. De repente, a iluminação, a sabedoria, a linguagem, variada e entendível entre todos, os apóstolos, os tantos homens e as mulheres ali assustados, perdidos no sentido das palavras certas para dizer. Para cumprir. Para seguir.  

Povo em movimento

Voz(es) que clama(m) do deserto

Desertos, regiões geográficas sinónimas de secura, esterilidade e de isolamento, na antiguidade bíblica sempre foram locais muitas vezes associados a pureza. Sempre que Deus queria preparar o seu povo escolhido para uma tarefa grandiosa, conduzia-o a locais isolados e desérticos. A visão de um povo em movimento, essencialmente nómada, sempre foi tida em contraste com a vida da polis, das sociedades urbanas.

A caridade é o coração da Igreja

Felicito a Igreja Católica de Lisboa pela realização do Congresso Diocesano de Pastoral Socio-Caritativa. Que dê abundantes frutos. O que, por enquanto, me chamou mais a atenção desta magna reunião eclesial, foram alguns extratos da comunicação feita pelo cardeal Tolentino Mendonça. “Não podemos ver a pastoral sócio-caritativa como um departamento, mas como um sopro transversal.

Desamores, dores e redenção

Habituamo-nos a tudo na vida, até a ter a alma em frangalhos, cheia de dores, pisaduras, feridas novas e velhas, algumas ainda com sangue a jorrar. Como são dores na alma, não sabemos o que fazer com elas e vamo-las mascarando com distrações várias, pecúlios, alegrias breves e ilusões de felicidade, numa superficialidade tão mais evidente quanto mais fundo é o abismo que levamos dentro.

Deus é americano?

A religião americana privilegia o “ser americano” antes do ser cristão e o nacionalismo antes do universalismo da fé. Só que tal mentalidade faz tábua rasa da figura de Jesus Cristo, seu discurso e obra. Atendendo a alguns discursos por vezes parece que Deus tem um fraquinho especial pelos Estados Unidos.

A liberdade religiosa: tema atual

O encontro entre o Papa Francisco e o Grande Imã da Mesquita de Al Azhar, Ahmed Mohamed El-Tayeb, no Abu Dhabi, constituiu um momento da maior importância no âmbito do diálogo entre as religiões, envolvendo a assinatura do Documento sobre a Fraternidade Humana (4.2.2019), que permite a afirmação de uma cultura de paz baseada no respeito mútuo, na liberdade de consciência e na necessidade de uma compreensão mútua baseada no conhecimento e na sabedoria.

O elogio do concreto em tempos de covid

A pandemia trouxe muitas alterações às nossas vidas. E uma delas é o novo modelo dos telejornais. Habituámo-nos a ver desfilar nos nossos écrans centenas de pessoas a serem injectadas, outras tantas transportadas em macas, outras ainda entubadas e sujeitas a tratamentos que nos arrepiam. É um desfile de gente, irmanada no estatuto comum de doentes, actuais ou possíveis, dos quais nos pretendemos demarcar, situando-nos no grupo dos não infectados.

A origem do mal

De onde vem o mal, se só a alma é real? De onde vem o mal, se só o Ser é real? O mal parece existir no nosso mundo, apenas porque o bem não está garantido. Quer dizer, no plano humano, o bem exige um luta e conquista permanentes. O nosso mundo, o mundo humano, o mundo que é a existência humana em projeto, está incompleto, inacabado como o próprio ser humano. Mas o sentido é o bem, é sempre essa, em última análise, a intenção, a finalidade do agir humano.

Cimeira Social Europeia: das intenções às ações

Passou a Cimeira Social (CS) sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais (PEDS) em ordem à construção de um novo Plano de Ação para cumprimento dos 20 princípios que edificam o referido PEDS. Ainda é cedo para retirar conclusões definitivas quanto ao interesse e eficácia dos dois encontros realizados na cidade do Porto.

Lá em casa é assim, “cada macaco no seu galho”

É sobre a consideração dos estatutos sociais das pessoas, dentro da sua tribo, que quero falar no presente texto. Não abordarei alguma tribo ou grupo étnico em especial, mas o modus vivendi de algumas tribos moçambicanas, de modo geral. Isso vem a propósito de uma conversa que tive com uma amiga, há dias, quando lhe liguei para falarmos por telefone.

Portugueses, não tenham medo de olhar para o retrovisor!

 Costuma dizer-se que a memória dos povos é curta. Depressa esquecemos as páginas douradas do passado, mas ainda mais depressa esquecemos as negras. Mas conhecer a história colectiva dum país continua a ser o melhor antídoto para evitar cair nos mesmos erros, sempre que as oportunidades espreitam.

Podemos celebrar a vida comendo uma lichia?

Na segunda semana de Maio que a Igreja Católica dedica à vida, que tempo dedicamos nós a viver? A vida sente-se quando existem mudanças. A mudança é a base transformativa da vida. Por exemplo, quando nasce um bebé, o seu ambiente muda radicalmente. Por isso, respirar o ar exterior ao ventre materno pela primeira vez é uma das experiências mais transformativas na vida de cada um de nós. Uma experiência transformativa que se distingue de todas as outras por ser impossível prever o impacte que uma determinada mudança produzirá em nós.

Escolher a medida alta: 100 anos de Sophie Scholl

Neste domingo, 9 de Maio, passaram 100 anos sobre o nascimento de Sophie Scholl, que integrou a Rosa Branca, o grupo informal de resistência pacífica ao III Reich, formado por estudantes e um professor da Universidade de Munique. Curiosamente, é também o dia da Europa. A vida da Rosa Branca é breve. Entre Junho de 1942 e Fevereiro de 1943, o grupo escreveu, imprimiu e distribuiu seis panfletos apelando à consciência dos alemães para que se revoltassem contra o regime

“Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” na China

No último encontro da plataforma das Comissões Justiça e Paz europeias, entre outras situações relativas a violações de direitos humanos em várias partes do mundo, foi dado particular especial à situação da China em geral e de Hong-Kong em particular. O padre Gianni Criveller, missionário italiano, especialista em questão relativas à China e residente por longos anos em Hong-Kong, sublinhou o seu profundo desencanto com a situação que se vive atualmente nessa região.

“Des-samaritanização”, em processo dialético?

O posicionamento da Igreja, no lado da oferta de serviços e não tanto da procura, dificultou-lhe a aceitação do Estado social que, até certo ponto, foi considerado seu competidor; ao mesmo tempo, deu origem a que fosse descurado o desenvolvimento e a qualificação dos grupos paroquiais de ação social, em contraste com a importância atribuída aos centros sociais paroquiais, às santas casas da misericórdia e a outras instituições.

Quadrado da serenidade ou testemunho de ser

Desde há mais de um ano que uma percentagem muito significativa do que aparece escrito tem, direta ou indiretamente, a ver com o mundo em que o nosso mundo se transformou diante da invasão por esta pandemia de covid-19. Não se trata de uma secagem da imaginação humana, mas da pregnância que este fenómeno de tão larga escala assumiu.

Hans Küng, de “A Igreja” ao “Projeto Para Uma Ética Mundial”

Küng é um profeta do nosso tempo, e isso viu-se quando a Congregação para a Defesa da Fé (antiga Santa inquisição) o sancionou, retirando-lhe a cátedra e o múnus. Hans Küng deixou na sua obra a beleza de ser cristão, da reflexão sem cadeias e a proposição de que as questões infalíveis não o são; por isso a Igreja deve estar-lhe grata e aprofundar o seu pensamento. Um dia a história saberá quem foi este grande teólogo.

O desaparecimento dos gigantes da fé

De vez em quando temos a sensação de que se está a passar na porta giratória para um mundo diferente. Em especial quando se toma consciência de que alguns dos maiores gigantes do mundo cristão nos deixaram. O mais recente foi o grande teólogo e pensador protestante latino-americano René Padilla (1932-2021), o “pai” do conceito de “missão integral” que revolucionou as teologias do continente, em particular a missiologia.

Alma mutilada

Samuel caminhava dançante num jogo de toca e foge com a suave rebentação da extensa e espelhada beira-mar de Keri Beach. Entusiasmado com a chegada à nova cidade, discursava e gesticulava comparações entre as imensas praias por onde passara. O fiel Odara escutava-o ao longe, absorto no encantamento da devoradora paisagem. Caminhava a passos curtos e lentos, sentindo atentamente a incomum textura da areia que se lhe entranhava nos dedos dos pés a cada novo pisar

José Augusto Mourão… o frade, poeta e professor

Fazemos memória, nesta quarta-feira, 5 de maio, do décimo aniversário da partida para o Senhor de frei José Augusto Mourão op. Nascido em Lordelo, Vila Real, em 12 de junho de 1947, deixou-nos aos 64 anos. Conheci Frei Mourão quando, há já muitos anos, comecei a participar nas eucaristias do Convento de S. Domingos de Lisboa, levado pelo meu amigo Luís de França, também ele frade dominicano, entretanto já desaparecido do meio de nós

[À volta do 1º de Maio] Encruzilhadas da vida

Tenho 45 anos e sou trabalhadora precária. A precariedade tem sido uma constante na minha vida desde que entrei no mercado de trabalho. Talvez esta situação seja fruto de decisões tomadas no passado. Da busca de realização profissional e pessoal em diferentes áreas do conhecimento. Ou será que não?
A minha primeira licenciatura foi em Engenharia do Ambiente pelo Instituto Superior Técnico (IST).

[À volta do 1º de Maio] Perder oito vezes o Natal para receber o salário mínimo

Um dia, comecei a despertar desta dormência. Sentia-me incomodado ou, até mesmo encurralado. Não iria ficar rico a receber dois ordenados mínimos. Em 10 anos perdi oito vezes o Natal e a passagem de ano a trabalhar. Seria este o máximo a que eu poderia aspirar? Durante alguns dias não conseguia pensar noutra coisa. Até que, durante uma pausa do trabalho, fiz a chamada telefónica que mudou tudo: falei com a minha esposa, e disse-lhe que poderia ficar no fundo de desemprego (sobre o que falarei mais à frente) e voltar a estudar para melhorar a minha condição.

Os valores do Desporto

O anúncio da criação da Super Liga Europeia de Futebol (Super League Company) na última semana, criou um pequeno “terramoto” junto da comunicação social, governos, federações, FIFA, UEFA e adeptos. Porquê tanto alarido? O futebol tem assim tanta importância? Ao que parece tem e muita! Não é por acaso que este desporto rei, movimenta muito dinheiro e muita emoção.

Carta de uma mãe ao mundo

Diz-se muito que os filhos servem para ensinar aos pais o amor incondicional. Acredito em parte. Realmente, os filhos vêm para que consigamos perceber a quantidade de amor que somos capazes de suportar cá dentro. O problema é que crescemos pouco treinados para lidar com essa expansão; e são poucos, aqueles que se entregam à real contemplação da natureza do amadurecimento do ser.

A ira do Irão

O velho orgulho persa vive hoje isolado num regime desenquadrado do mundo contemporâneo, reduzido a uma teocracia islâmica obsoleta que já não cativa os jovens. O regime tem prazo de validade e um dia destes cai.

Dante e o Inferno: o sentido perdido ou nebuloso da jornada humana

“Deixai toda a esperança, vós que entrais” (Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate). Assim se lê na advertência encontrada por cima da porta do Inferno, no início do canto III da Divina Comédia de Dante Alighieri. A estratificação do Inferno em nove círculos, cada um deles com penas mais terríveis do que o antecedente, muito contribuiu para o imaginário do discurso religioso cristão acerca das penas que sofrerão os réprobos nos finais dos tempos.

“Velhos” e não “idosos”

A pandemia, que no início alguns optimistas prognosticavam ser um fenómeno de pouca duração, cada vez mais se nos apresenta como uma mudança de paradigma, uma ruptura com um modo de ser, de pensar e de agir que entendíamos ter sido definitivamente conquistado, sem suspeitarmos que pudessem ser postos em causa modelos de relacionamento, de vivências, de valores ou mesmo de linguagem.

“O grito”

Quem não conhece a pintura a óleo de Edvard Munch, que é posta a par da Mona Lisa? Como é possível que uma tela inerte, fechada em si, no silêncio perpétuo, arraste o nosso olhar como quem é atraído pelo mais tremendo grito de solidão? Quantas vezes na vida sentimos que somos um grito que perdeu a voz? Não haverá ninguém que nos ouça?

A longa e iníqua Inquisição

Até ao séc. XV, vigorou no nosso país um clima de convivência pacífica entre cristãos, judeus e muçulmanos, respeitando-se mutuamente. Uma liberdade religiosa apadrinhada pelos primeiros monarcas e pela Igreja. Pelo que se sabe, só nas Cortes de 1361 as minorias judaicas foram episodicamente sujeitas a perseguição por parte dos comerciantes que competiam nos negócios com os judeus.

Viver é Cristo, morrer é lucro

Tantos milénios soma a humanidade e a morte continua envolta numa densa névoa, como se não fosse um dos poucos factos de que podemos estar certos enquanto vivemos, para os outros e para nós próprios. Estranhamente, a morbidez escura e em surdina com que se vive o momento da morte e os que se lhe seguem alastra para todos os ambientes, incluindo os cristãos, como se não houvesse forma de contornar o politicamente correto negro de cara, veste e alma.

Falando de tudo menos do caso Marquês (que já cheira mal!)

Afinal, o que é normal no funcionamento da justiça quando falamos de um estado de direito democrático? E o que não se compreende? Os procedimentos de investigação criminal e a função judicial contemplam um conjunto de processos, acções e diligências cuja lógica pode e deve ser encarada com toda a normalidade, embora esteja sempre na mão dos seus actores uma margem de apreciação e decisão, atendendo a uma certa natureza subjectiva, uma vez que a justiça é aplicada por seres humanos e não por máquinas ou entidades divinas.

Hans Küng e o argumento ontológico

A morte recente do teólogo suíço Hans Küng despertou-me para a leitura da sua obra. O título mais disponível de imediato foi Aquilo em que creio (Was ich glaube), publicado originalmente em 2009. Neste livro, Küng expõe detalhadamente as suas crenças filosóficas, éticas, religiosas e científicas, revelando uma visão anti-dogmática acerca da fé, desfazendo habilmente alguns mitos acerca de Deus, do Homem e da relação entre fé e ciência, convidando-nos de facto a partilhar de uma visão integral e humanista do fenómeno humano.

A viagem do vestido de casamento

O cerne da questão das cerimónias de casamento, na minha sociedade, é o vestido de noiva. A existência do vestido de noiva é antecedida pelo anúncio do casamento, que traz felicidade a alguns familiares, tanto da noiva, quanto do noivo. Digo alguns, porque um casamento, para além da graça que carrega, reúne em torno de si muita agrura. Casar e ter filhos ainda é das coisas mais importantes na minha sociedade. Existe muito pouco deleite acima disso.

Dois quadros de Caravaggio

Há dois episódios que recentemente recordámos na liturgia que continuam a deixar-nos cheios de perplexidade. Falo da tripla negação de Pedro e da incredulidade de Tomé. Afinal, somos nós mesmos que ali estamos representados, por muito que isso nos choque. E o certo é que, para que não haja dúvidas, as palavras que pontuam tais acontecimentos são claríssimas. Pedro recusa terminantemente a tentação, quando Jesus lhe anuncia que ele O vai renegar. E nós sentimo-nos aí retratados.

Europa: um Pacto Ecológico para inglês ver?

“O Pacto Ecológico Europeu é … uma nova estratégia de crescimento que visa transformar a UE numa sociedade equitativa e próspera, dotada de uma economia moderna, eficiente na utilização dos recursos e competitiva, que, em 2050, tenha zero emissões líquidas de gases com efeito de estufa e em que o crescimento económico esteja dissociado da utilização dos recursos.” (Pacto Ecológico)

Leprosários

A mais recente Responsum ad dubium[1] da Congregação para a Doutrina da Fé relativa à bênção de uniões homossexuais tem feito correr rios de tinta. Se, por um lado, haja quem veja um retrocesso no caminho de inclusão delineado pelo Papa Francisco, outros encaram esta resposta como um travão necessário à prática de bênçãos a casais homossexuais, em total coerência com a linha da doutrina moral da Igreja.

Para condenar não me chamem

Após vinte e dois anos de trabalho dentro de uma prisão ainda me pergunto: que falta faz um padre na prisão? Talvez seja necessário responder antes a uma outra: para que serve a prisão? O sistema prisional devia ter dois objetivos fundamentais: proteger a sociedade de condutas criminosas e proporcionar aos reclusos uma hipótese de reabilitar as suas vidas.

Embriaguez sem vinho

A juventude é a embriaguez sem vinho, dizia Goethe, mas quando o vinho está azedo a embriaguez passa a doença. A recorrência das crises, os surtos pandémicos e a falta de horizontes podem estar a criar uma geração perdida. Mas não terá sido quase sempre assim?

Linguagem simbólico-religiosa: uma literacia para o humano

Podemos compreender a linguagem dos símbolos e a linguagem religiosa como uma forma de comunicação que abre o ser humano a uma nova mundividência? Ou será tão estranha e distante que resulta num novo analfabetismo? Imaginemos o cenário seguinte: um casal percorre diariamente a avenida de uma grande cidade, repleta de anúncios e informação muito diversificada.

O jejum de Ramadão, um acto de obediência e adoração

Entre esta terça-feira, 13 de Abril, até 12 de Maio de 2021, os muçulmanos entrarão, in cha Allah, no mês do Ramadão (em árabe Ramadan), o nono mês do calendário lunar, durante o qual foi revelado o Alcorão, Livro Sagrado do Islão. O jejum do mês do Ramadão é o quarto pilar da prática no Islão, portanto, é uma obrigação religiosa.

Liberdade ou o valor das pequenas coisas

Vivemos dezenas de anos cheios de momentos especiais e de benefícios que insistimos em banalizar porque estavam ao nosso alcance, diria mesmo garantidos. Era pelo menos o que pensávamos. Atualmente parece que começamos a conhecer o valor das pequenas coisas e, se assim é, estamos a aprender uma grande lição.Muitas pessoas perdem tempo (gostava de poder dizer – perdiam) com detalhes que as coisificam.

Persistência da desigualdade: O que Kuznets não viu

A área das desigualdades tem um problema que muitas outras áreas da economia não têm: falta de dados. Esta situação deve-se não só ao facto de no passado não se ter registado da melhor forma, ou de todo, dados a nível de desigualdades, como também ao facto de não ser fácil aferir a realidade, por exemplo, dos rendimentos mais altos da sociedade, para chegar aos indicadores.

A necessidade de fricção na comunicação

A comunicação é a capacidade que o ser humano desenvolveu para sobreviver ao longo dos milénios da nossa existência sobre a Terra. Por isso, qualquer coisa que afecta a nossa capacidade de comunicar, afecta a nossa sobrevivência. Assim, é legítimo questionar o que os meios de comunicação estão a fazer ao nosso modo de comunicar. Não me refiro, propriamente, aos que protagonizam esses meios, como os jornalistas, mas aos meios em si, sobretudo, os mais recentes como os que encontramos nos nossos telemóveis.

Saberei ser quem sou?

Que me fosse concedido o desejo de aquietar a consciência, aquele dom invejável dos sábios discretos;
às tantas, vivo cansada de uma mente desobediente a perturbar cada instante que a vida me dispõe.

Sopa de letras

Se os cristãos fossem hoje a cumprir a Torah à letra estaríamos a apedrejar até à morte os adúlteros e os homossexuais, não poderíamos envergar roupa com incorporação de determinados tipos de tecidos, não podíamos comer um rol imenso de alimentos e satisfaríamos muitos outros interditos, além de guardar religiosamente o sábado, quando ninguém poderia trabalhar.

Escola: prisão ou libertação?

Evitar o doutrinamento das crianças dá trabalho. Por um lado, necessitam de uma espécie de “catecismo elementar”, onde tudo venha explicado e estruturado de acordo com o seu desenvolvimento. Por outro lado, esta cultura inicial e maneira peculiar de olhar o mundo não podem ser prisão: pouco a pouco, de acordo com o ritmo da criança, virá a escolha de um trabalho personalizado e criativo.

A Deus, Xexão

O sorriso da Xexão já não está entre nós – e o nosso mundo ficou mais desamparado.
O Eugénio de Andrade que me desculpe, mas o último verso está errado: o que apetecia mesmo era viver naquele sorriso. Esse sorriso acolhedor e tranquilo, inteligente e sábio, que abria a porta e nos fazia sentir em casa.

Performance, expressões, palavras: rituais do acto de contar

A minha avó contou-me que a literatura existe em todos os momentos da vida de um bantu. Eu explico. Embora sejam vastas e sempre inacabadas as discussões sobre o que é literatura, há sempre delimitações possíveis ou básicas, para referir o campo abrangido pelo objecto e compreender, de algum modo, a dimensão do seu alcance.

Empurremos o Mundo!

O dia 30 de Março amanheceu inteiro e limpo como há muito não se via. “…a Xexão voou nas asas da luz para o outro lado das águas.” Foi com este salmo tão bonito que, ao romper de aurora, soube pelo irmão Luís Moita, que a minha tão querida amiga Xexão tinha partido. E agora? Que sensação de orfandade esta.

A Paz sem vencedor e sem vencidos

Ao participar nesta tarde de Sexta-feira Santa, 02-04-2021, na Via-Sacra transmitida diretamente da Praça de S. Pedro, em Roma, a forte imagem do Papa Francisco no seu semblante fechado e triste, levou-me a refletir sobre o que iria na sua cabeça.

A minha casa é a pele que visto

Os que amamos poderiam sempre demorar-se um pouco mais em nossos dias porque a saudade nunca estará preparada, deixaria de sê-lo; e jamais gavetas estarão vazias o suficiente para destinar amor ao esquecimento.

Tempo de Páscoa, imagens de Vida

A Páscoa era na Quinta-Feira Santa o Lava-Pés dos velhinhos do Asilo, humildes apóstolos, cobertos por vestes brancas. Era a Procissão do Enterro na Sexta-Feira às onze da noite, a vila atravessada pelo andor com o caixão de Jesus, batida compassada dos tambores e metais da banda filarmónica, eram as portas da igreja fechadas em sinal de luto. No Sábado, era o repicar das aleluias. E no bafo da noite, os cânticos saindo pelas portas escancaradas da Igreja Matriz, luz de velas e renovação das promessas do Batismo.

Euromiopia

Cuidado com o eurocentrismo. Há mais mundo para lá da Europa, meus senhores. A bitola europeia não serve para avaliar a diversidade da casa comum da humanidade. Um dos maiores erros do observador europeu quando olha para a realidade social, política e religiosa das Américas é partir sempre dos seus próprios pressupostos, seja em que dimensão for.

A Justiça livra da morte

É muitas vezes a fraqueza, a impotência e a frustração por não conseguirmos fazer aquilo que realmente queremos, que nos conduz ao mal. Queremos ser heróis, conquistar uma glória qualquer, ser absolutamente livres, e não compreendemos que o maior dos heroísmos não é o do impulso de uma hora, mas o de todas as horas em que tentamos adequar a nossa ação ao nosso juízo mais justo. Mesmo que doa, mesmo que a solidão pese, mesmo que a angústia prevaleça.

Voltar a casa – limpeza de Primavera

Enquanto o mundo se reorganizava, houve umas semanas para reflectir na relação que mantemos com a casa onde moramos, com a ideia de casa, e em como essa relação afecta a vida espiritual. “Não temos aqui morada permanente”, é certo, mas também há algo de incómodo nos 40 anos que o povo de Israel precisa para chegar à Terra Prometida ou nas andanças de Jesus, Maria e José pelo Egipto.

Liberdade religiosa e bem-estar animal

Uma recente sentença do Tribunal de Justiça da União Europeia (proferida no caso C-336/19 Centraal Israëlitisch Consistorie van België e outros) suscita uma interessante e importante reflexão sobre o valor da liberdade religiosa. A questão em apreço nessa sentença diz respeito ao abate de animais de acordo com as normais rituais hebraicas e muçulmanas. Por não permitirem o atordoamento dos animais no momento do abate, essas normas entram em conflito com as normas gerais de proteção do bem-estar animal.

A espiral da vida

Com muitas ou poucas aventuras, a espiral da vida tem uma peculiaridade: para quem nos observe e para o próprio, não estamos sempre a subir: podemos voltar muito abaixo do nível alcançado. Mas se o desejo não morreu, esta sensação apenas indica que a riqueza das experiências vividas não está a ser devidamente digerida. Na realidade, estaremos a subir: em breve, a energia acumulada nos faz subir com mais força e resiliência.

Do tudo ao nada – o caminho necessário

Ao longo da sua itinerância, os crentes podem apresentar-se diante de Deus de duas formas: com as mãos cheias de méritos, esforços e conquistas ou com as mãos simplesmente vazias. Na génese das duas atitudes estão corações ávidos e comprometidos com Deus; o que varia é o modo e o modo pode fazer muita diferença. Penso que em geral todos começamos com grandes ímpetos de “acumulação”.

Uma Igreja em saída

No seu recente livro O Tempo das Igrejas Vazias (ed. Paulinas), o padre Tomáš Halík interroga-se acerca do cumprimento da visão do Papa Francisco, na qual Cristo (que segundo as palavras da Escritura bate à nossa porta) bate desta vez no lado de dentro da porta da Igreja porque quer ir para fora. “E não deveríamos nós segui-lo para além das fronteiras do nosso entendimento atual da Igreja e do Cristianismo, principalmente até ao mundo dos pobres, necessitados e marginalizados?”.

A ciência e o malmequer

Mal-me-quer, bem-me-quer… Parece que há cristãos que recorrem ao jogo do malmequer para definir a sua vida, guiando-se por preconceitos e pensamento mágico, sem ter os pés assentes no chão. Quando se confundem preconceitos e pensamento mágico com fé sem ter os pés assentes no chão dá nisto. Incongruências, atitudes casuísticas e uma porta aberta para o disparate.

Identidade e Pandemia

Indubitavelmente que a pandemia também trouxe alterações positivas às nossas identidades pessoais e colectivas. A ideia de um homem dono e senhor da natureza foi substituída pela necessidade de cuidar do planeta e pela consciência das nossas obrigações enquanto habitantes do mesmo. O desafio diário para ultrapassar o modo habitual de lidar com os nossos medos intensificou a criatividade, levou a contactos diferentes com os amigos que apenas vemos online, manteve acesa a nossa sede de leitura partilhando livros e pedindo a filhos e netos que nos descarreguem músicas.

São Romero dos Direitos Humanos – Lições éticas, desafio educativo

É este o título de um dos livros de Luis Arangurem Gonzalo, traduzido e editado pela Editorial Cáritas, em 2018, mas que ainda não chegou ao domínio publico como o merece a qualidade da obra. A propósito da celebração, nesta quarta, 24, do dia litúrgico de S. Romero – escolhido por ser a data da sua morte como é costume acontecer a todos os cristãos e cristãs que são considerados santos, pela Igreja – fui revisitar o livro acima referido.

Deus está infinitamente para além do medo

Acreditar em Deus será necessariamente viver no medo do imprevisível? Só se crermos num deus caprichoso, que ora nos dá graças, ora nos dá dores, independentemente do que façamos, como a Job. É verdade que a desgraça se pode abater sobre qualquer um. Alguns defendem, porém, que dispensar Deus ou deuses e limitar-se a um estrito naturalismo nos isenta de medos supersticiosos, como já a escola filosófica epicurista defendia. É que a natureza não tem caprichos nem humores…

Sara Ocidental: como quebrar a espiral de violência?

Sou a mãe do preso político saraui Mohamed Lamin Haddi, do grupo de Gdeim Izik, condenado a 25 anos de prisão, que está na cadeia marroquina de Tiflet. Está em greve de fome há 57 dias. Mais, faz hoje 15 dias que está em lugar desconhecido. Sem telefone, nem visitas, nada. Cheguei à prisão e negaram-me a visita. Desconhecemos em que estado se encontra e nem sequer sabemos onde está. Que nos informem onde se encontra, como está de saúde, se está vivo ou não, qual é a sua situação.

Uma viagem inesquecível

Ao visitar o Iraque, o Papa Francisco contribuiu decisivamente para que se abram caminhos para um movimento corajoso no sentido de um diálogo entre religiões e povos, que conduza os governantes da região a delinearem a sua ação no sentido da Paz. Sabemos que as condições são adversas e extremamente difíceis e incertas, por isso muitos tentaram dissuadir o Papa no seu desejo de concretizar esta viagem.

Da memória dos sábados e da ausência de escândalo

Os jovens plebeus sempre se aguentaram bem nas suas posições irreverentes, porém respeitadoras do Senhor Patriarca, como era chamado. Pedíamos mais assistentes religiosos que tivessem capacidade de estar com jovens (e como eramos exigentes!, e como nos ficava bem essa exigência que tanto era de fé como de intelectualidade em fase de aprendizagem!), reclamávamos por mais apoio e compreensão da hierarquia.

Ideias e Perplexidades

Que possível ligação poderá haver entre o pensamento do filósofo francês Luc Ferry nos anos 80, o documento final na V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe em 2007 e o texto da Congregação para a Doutrina da Fé, divulgado na passada segunda-feira dia 15 de março? Permito-me uma associação de ideias, para circunstâncias de referência e de polémica, reações constantes e crescentes, nos dias de reflexão que cada vez mais nos são exigidos.

O pai Abraão tem muitos filhos

Abraão tem muitos filhos. Os judeus reivindicam a herança abraâmica, tal como os cristãos, que se consideram filhos do patriarca no sentido espiritual, e até os muçulmanos preservam a sua memória, considerando-o um dos cinco grandes profetas do islão. A propósito da recente visita do Papa Francisco ao Iraque, e mais especificamente à região de Ur, cheguei a ouvir na comunicação social que Abraão era o fundador das três grandes religiões monoteístas. Puro desconhecimento.

Fragilidade, dignidade e economia

O Papa Francisco convocou todos os católicos e cristãos do mundo e todas as pessoas de boa vontade a aderirem a uma reforma da economia. Para isso, lançou a iniciativa A Economia de Francisco, com o objetivo de repensar a economia a partir dos jovens. A nova economia, proposta por ele, inclui todos, promove a justiça, preserva o ambiente e gera solidariedade. Esta nova conceção da economia parte da convicção de que todas as pessoas, sem exceção, têm uma profunda dignidade, que provém da sua filiação divina.

Pecados em quarentena

Também há pandemias que atacam os assuntos mais sérios, destruindo a seriedade e independência com que deles devemos falar. E exigem cuidados especiais muito intensivos, quando está em jogo a formação de espírito crítico nas novas gerações e o esforço de darmos o exemplo: chamando bom ao que justificadamente consideramos bom e mau ao que justificadamente ajuizamos ser mau.

Ato de resistência

A resistência assume frequentemente o carácter de oposição a algo exterior que queremos combater. Contudo, arriscaria dizer que esta será sempre vã se não for precedida de uma firme resistência interior. Das maiores às menores mudanças que queremos operar no mundo, para serem bem-sucedidas todas têm de partir de um compromisso de honra assumido connosco próprios.

Construir fraternidade é uma heresia?

Por muita falta de nobreza de carácter que alguém tenha nunca poderá considerar que possam ser contranatura todos os esforços que se façam por uma maior humanização do mundo. Poderão não dar um passo nesse sentido e até mesmo criar dificuldades para que se alcance esse desígnio, mas, bem no seu âmago, sabem que viver em harmonia é um bem em si mesmo.

Consegues imaginar um mundo sem email?

Vivemos num mundo que procura eliminar a fricção. É cada vez mais fácil para qualquer pessoa neste planeta poder expressar a sua opinião sobre qualquer coisa e ter a sensação de ser ouvida. E, depois das alterações culturais que esta pandemia realizou no modo de comunicarmos, mais ainda se nota como um mundo sem fricção pode tornar-se num mundo superficial onde vinga a desinformação.

Um ano depois

Uma das certezas que temos na vida é a da impermanência. O mundo é dinâmico e a vida também. Nada é estático, nem o que é bom nem o que é difícil. “Isso passa”, como se costuma dizer, e passa mesmo. Perante eventos de dor e sofrimento, podemos fazer de tudo para que eles passem por nós o mais rapidamente possível ou podemos olhar de frente a realidade e transpor os limites do que nos acontece, não deixando que o que somos fique confinado.

Notícias boas também são boas notícias

Abrir a televisão para ouvir um serviço noticioso é hoje quase um exercício de masoquismo, não só pela exagerada extensão destes, em regra, mas sobretudo pela ênfase e quase exclusividade concedida às notícias más. Em termos de material noticioso, os jornalistas e editores de informação converteram-se ao primado do quanto pior melhor. Já nem falo do jornalismo de faca e alguidar pelo qual é conhecido um dos canais portugueses, mas pela tendência geral predominante no meio.

A irrelevância de Deus?

Mas o que queria desde já destacar é o que me parece ser um desafio-paradigma (paradigma, pois põe a questão em termos diferentes dos habituais na análise de situações da Igreja): enfrentar o facto de Deus não ser relevante para muita gente. Esta questão da não relevância de Deus parece-me exposta com clareza no texto de apresentação do congresso de Dresden e que é a autoria dos dois teólogos, Mathias Sellmann (Ruhr – Universität Bochum) e Thomas Arnold (Katholische Akademie Dresden), que intervêm no artigo-debate acima referido.

Guardar o jardim do mundo

Nestes tempos em que o início da Quaresma coincide com um estranho confinamento, explicado por uma pandemia que há um ano nos atinge e que vai afetar pelo segundo ano consecutivo a nossa Páscoa, importa recordar mais uma vez o que o Papa Francisco nos afirmou na encíclica Laudato Si’. Esta pandemia será ultrapassada, com mais ou menos esforço, mesmo que tenhamos de continuar a lidar com o vírus.

Arte de rua: amor e brilho no olhar

Ouvi, pela vida fora, incontáveis vezes a velha história da coragem, a mítica frase “eu não era capaz”; é claro que não, sempre que o preconceito se sobrepõe ao amor, não é possível ser-se capaz. Coragem?? Coragem eu precisaria para passar pela vida sem realizar os meus desejos, nesse louco trapézio entre doses paralelas de coragem e cobardia.

Eternidade

A vida segue sempre e nós seguimos com ela, necessariamente, como se fôssemos empurrados pela passagem inexorável do tempo. Mas enquanto uns aceitam esse empurrão inexorável como um impulso para levantar voo – inclusive até lugares onde o tempo não domina –, outros deixam-se arrastar por ele até ao abismo. Porque quando o tempo não serve para moldar e edificar pedaços de eternidade, ele apenas dura e, portanto, a nada conduz (a não ser à morte), pois a sua natureza é durar, sem mais.

França: a Marianne de barrete frígio ficou traumatizada

Os políticos europeus em geral não sabem nada do fenómeno religioso. Pior. Fingem que sabem e não se rodeiam de quem os possa esclarecer. Entretanto, a França parece querer trilhar um caminho perigoso. Quando o governo coloca as leis republicanas ao mesmo nível da lei de Deus, faz da república uma deusa e do secularismo uma religião.

Banco da solidariedade, experiência única

Sobre uma oportunidade de resistência coletiva     Muito se tem escrito e tenho escrito sobre a falta de saúde mental a que, provavelmente, estamos e estaremos sujeitos durante e após esta pandemia. Os números crescem, traduzidos por sofrimentos enquadráveis...

Que futuro, Iémen?

O arrastar do conflito tornou insuficiente a negociação apenas entre Hadi e houthis, já que somados não controlam a totalidade do território e é difícil encontrar uma solução que satisfaça todos os atores. Isso será ainda mais difícil porque as alianças não são sólidas, os objetivos são contraditórios e enquanto uns prefeririam terminar a guerra depressa, outros sairiam beneficiados se o conflito continuasse. Além disso, muitos são os que enriquecem à custa dele. Para esses, o melhor é que este não termine.

A sociedade e os idosos

Ao longo do último ano, tempo em que já dura a dolorosa pandemia que nos tem retido confinados, embora pelos piores motivos muito se tem falado dos que vivem em residências para idosos. Antes da covid-19, pelo que nos é dado agora saber, uma boa parte dos cidadãos e dos políticos parece que pouco ou nada sabiam do que se passava nestas instituições, quer nas clandestinas quer nas comparticipadas pelo Estado.

Servir: lavar as mãos, lavar os pés, lavar o coração

Depois de alguma leitura, aquela conversa não me saía da cabeça. Lembrei-me do ritual do “Lava pés”, que teve lugar na última ceia de Jesus Cristo, na qual Ele ensinou-nos, entre outras coisas, a partilhar o pão e o vinho (a comida) e a servir (lavou os pés aos seus discípulos). Lembrei-me também de uma tradição ocidental, segundo a qual quando alguém vai à casa de outrem pela primeira vez, a dona de casa deve servir ao visitante o “primeiro copo”. Por ser de “bom tom”, é cortês. E é, porque abre o à vontade ao visitante.

Como o “bicho” mexe com a prática religiosa

A verdade é que um de cada três cristãos praticantes americanos parou de frequentar a igreja com a pandemia, apesar da evidência de que a comunidade de fé exerce um efeito integrativo do ponto de vista social, de estabilização emocional e promove o encorajamento e a esperança dos indivíduos. Curiosamente, as gerações mais novas apresentaram mais dificuldades na substituição das celebrações presenciais pelas online, eventualmente devido a uma maior necessidade gregária.

Direitos Humanos das Pessoas Idosas. Importa-se de repetir?

Todos os textos são incontroversos, lembram que os idosos têm direito a trabalhar ou a ter uma fonte de rendimento, a viver com dignidade e segurança, a poder residir em casa pelo máximo de tempo possível, a formar associações que defendam os seus interesses ou a aceder a programas educacionais próprios; e reafirmam que os mais velhos contribuem para o desenvolvimento das sociedades de que fazem parte (tem o seu quê de irónico, dada a média etária dos “líderes mundiais”).

O que pensar da meritocracia?

A meritocracia leva a uma ética do sucesso que corrói a coesão social e o empenho pelo bem comum. Leva a pensar que quem tem sucesso, económico ou de outro tipo, recebe uma justa recompensa pelo seu trabalho, esforço e criatividade e que quem não tem sucesso sofre as consequências das suas faltas de empenho e diligência. Compreende-se que desta forma se aceitem as desigualdades de rendimentos e de reconhecimento social e a coexistência de dois mundos paralelos que não formam uma verdadeira comunidade.

Quaresma: tempo para renovar a fé, a esperança e a caridade

Começou o tempo da Quaresma. Tempo favorável (cfr. Isaías 49,8) e de conversão proposto, todos os anos, aos cristãos. É um tempo muito especial por culminar no acontecimento mais importante do cristianismo: a celebração da Páscoa. A sensação que se pode apoderar de muitos de nós é que se trata de mais um tempo ritual sem consequências de mudança na vida dos seus destinatários e, por eles, na da Igreja em geral.

Que memórias guardamos da pandemia?

Ao pensar nas memórias desta pandemia o que me vem à ideia em primeiro lugar é a ausência – ausência de gente pois estarmos circunscritos ao núcleo reduzido dos familiares mais próximos; ausência do toque e do abraço, que devemos conter por razões profiláticas; ausência de amigos de carne e osso, gente com quem possamos conversar cara a cara ou em grupo sem necessidade de recorrer às redes sociais para falar do que sentimos, do modo como nos pesa a solidão, das alegrias e dos desgostos, partilhando as pequenas desgraças e felicidades do dia a dia.

A debilidade de Deus

Praticamente todas as religiões monoteístas, e especialmente as abraâmicas, quando falam catafaticamente acerca de Deus, referem-se a Ele várias vezes como sendo Omnipotente, Todo-Poderoso. Acontece que nas nossas sociedades pós-modernas altamente secularizadas e perante a constatação de ocorrências de catástrofes naturais, do sofrimento e da morte, é por vezes difícil conciliar essa cosmovisão de um Deus bom e que tudo pode.

Estar com a Irmã Maria Domingos

À saída, acompanhava-me quase sempre para lá da porta do mosteiro. Pisava a rua e era nessa altura que, habitualmente, me contava algumas das suas aventuras em busca do Amor, desde a adolescência, à passagem pelo mosteiro em Fátima, onde iniciou a vida de monja, até ao mosteiro em França, lugar de que me falava com entusiamo sobre descobertas que considerava fundamentais.

Nunca troquem uma criança por um sábado!

 Os rituais sempre foram estruturantes na socialização humana, assim como na construção e consolidação das crenças e correspondentes liturgias colectivas. Mas não são tudo. Há mais vida para além dos rituais. Eles ajudam a estruturar a sociedade com recurso ao simbólico e a fixar normas de convivência, de reconhecimento e de valorização social. Mas no caso do campo religioso assumem o sentido de alguma sacralidade, tornando-se por isso mais intocáveis.

Que Igreja (também) para as mulheres?

Foi notícia em todo o mundo: o Papa permite às mulheres os ministérios laicais do leitorado e acolitado. Os mais otimistas, como eu, viram aí um caminho aberto para uma compreensão mais ampla da natureza destes e de outros ministérios; os mais pessimistas, também como eu, percebem que, apesar da grandeza e justeza da revisão legal, nada mudará verdadeiramente.

O valor da Memória

Dito de outro modo: queremos formar mulheres e homens para serem academicamente brilhantes ou queremos torná-los cidadãos e cidadãs empenhados no Bem Comum? A ética do cuidado pelo outro e a ideia, muito cristã, de uma família humana fundada na fraternidade dever-nos-ia servir de farol para evitarmos outras tragédias, sendo aqui recordada esta mesma preocupação por parte daquelas e daqueles que sobreviveram à barbárie e à perversão de uma ideologia totalitária.

Ser generoso na prosperidade – um hino de virtudes

Nas Escrituras Bahá’ís também podemos encontrar vários textos que descrevem o modelo de vida dos crentes. O mais conhecido é uma epístola de Bahá’u’lláh dirigida a um dos Seus filhos, onde o fundador da Fé Bahá’í usa uma linguagem espiritualmente intensa e profundamente poética, para nos apresentar um código de conduta moral universal.

As redes sociais e a degradação do espaço público

Vivemos em sociedades em que a degradação do espaço público tende a acelerar a corrosão da democracia. Não deixa, infelizmente, de ser curioso que o que se passa nas redes sociais marque, por vezes, a agenda dos próprios media tradicionais. Aliás, são cada vez mais frequentes os programas, nomeadamente televisivos, que recorrem à participação através das redes sociais valorando simples “bitaites” como se de comentários sérios e informados se tratasse, muitas vezes sem verdadeiros critérios de filtragem.

Por que estais com tanto medo, homens de pouca fé?

O crescimento pessoal e da humanidade não se dão numa linha contínua, mas costumam acontecer abruptamente, com “saltos” que nos levam para o nível seguinte: verifica-se nas eras da história humana e acontece na vida de cada um de nós. Cada uma dessas etapas é normalmente precedida por crises, sofrimentos e, não raramente, confrontos decisivos. São os tempos dos labirintos e das escolhas difíceis – porque sabemos que, no que quer que escolhamos, outros caminhos ficam para trás.

O “burnin” em tempos de pandemia

Com os confinamentos exigidos nestes tempos, alguns retornaram ao teletrabalho, voltando a ter o escritório em sua casa, cuja pilha de roupa e questões dos filhos a atender, pode levar à exaustão, ao dito burnout. Mas isso pode advir, também, de um modo de ser e estar no trabalho que vive mais de distracções do que de realizações, respondendo a inúmeros e-mails, mensagens de Slack, chamadas Skype ou Zoom.

Adeus, John Wayne!

Os anos noventa nos EUA testemunharam um amplo movimento de fé que procurava valorizar o papel masculino na igreja, denominado Promise Keepers, que sublinhava e reforçava o papel do homem como sacerdote e autoridade suprema na família. Promoveram-se então grandes reuniões em estádios às quais só podiam aceder homens e rapazes, um pouco ao estilo do Clube do Bolinha (“Menina não entra!”).

“Verdade” e preconceito

Comecei por dizer que escrevo hoje como cidadã, académica e mãe. E é sobretudo como Mãe que me preocupa este tipo de ignorância, que atua não como natural ausência de saber, mas como espaço alternativo de construção e dogmatização de ‘verdades’ nascidas do preconceito (seja ele social, racial, étnico, de género, ou outro). Preocupa-me o papel que nós adultos temos na formação das opiniões e, sobretudo, na criação das lentes pelas quais os nossos filhos começam a ler o mundo.

A “leveza” da fraternidade e a crispação das notícias

Celebrou-se dia 4 de fevereiro o 1º Dia Internacional da Fraternidade Humana. Esta efeméride foi instituída pela ONU, tendo a data sido escolhida para coincidir com o aniversário da declaração católico-islâmica em defesa da paz mundial e da convivência comum. O documento foi assinado a 4 de fevereiro de 2019 pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb. O 1º Dia internacional da Fraternidade juntou no mesmo momento os signatários do documento e o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres.

Um novo isolamento, uma nova oportunidade

A solidão é uma espécie de monstro que todos tememos, principalmente com o avançar dos anos, onde aquela se vai agarrando a nós com uma terrível força, fruto da nossa rotina e do aprofundar dos nossos pensamentos. É o local onde mais ninguém nos pode ouvir, onde somos confrontados com as nossas próprias vozes, sem distrações ou amparos, apenas o silêncio dos nossos receios. É claro que ter a companhia e o amor do nosso próximo é impreterível a uma vida mais feliz.

Deitar a toalha ao chão – ou ajuda mútua

As pessoas estão angustiadas, ansiosas, deprimidas, cansadas. Cansadas de ter de lutar em prol de não sei quê e contra um invisível que pode tornar-se avassalador; cansadas de fingir que acreditam no futuro; cansadas de ter de fazer de conta que conseguem ser felizes; cansadas de serem incompreendidas na sua dor; cansadas de não serem escutadas nos seus apelos; cansadas de disfarçar os seus reais problemas; cansadas de ver desonestidades e incompetências de alguns com consequências nefastas para quase todos.

Israel-Palestina: Um só estado não é irrealista

Também do lado de cá do Atlântico, a ideia parece estar no centro de um debate acerca do modo como a própria Europa se deve reposicionar face ao problema no contexto das relações com Israel. Com efeito, um artigo publicado este mês no próprio site do Conselho Europeu para os Assuntos Estrangeiros (European Council for Foreign Affairs), e significativamente intitulado The end of Oslo: A new European strategy on Israel-Palestine, explora o assunto sem preconceitos.

A eutanásia e a Constituição Portuguesa

A Constituição portuguesa confere à vida humana uma proteção ainda mais forte do que se reconhecesse (como fazem a generalidade das Constituições) apenas o direito subjetivo à vida, e não também um princípio objetivo de inviolabilidade da vida. Isto porque poderia ser eventualmente questionável (embora não necessariamente) a irrenunciabilidade e indisponibilidade desse direito. Com a formulação desse princípio objetivo, não pode haver dúvidas de que o direito à vida é irrenunciável e indisponível.

Descatolização do Brasil

Descatolização é hoje palavra expressiva na inteligência brasileira, quando se fala de vivência religiosa e ou experiência de espiritualidade, em identidade reconhecida de invocação ao sagrado, ao mistério, aos desígnios de Deus. No povo flagelado por desigualdades, excessos, agressões, acidentes, a fronteira entre vida e morte é invisível, a morte matada ou a morte morrida de João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa acontecem, sem cuidado, motivo ou previsão.

Fora com os judeus?

Curiosamente, o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, 27 de Janeiro, surgiu este ano poucos dias depois de o líder populista dum partido político de extrema-direita, que se caracteriza por um discurso xenófobo, racista e misógino, ter obtido quase meio milhão de votos em Portugal. O leit motiv da campanha desse partido foi a diabolização social e política da comunidade cigana, à falta de problemas com as comunidades de imigrantes, ao contrário de alguns países europeus, de modo a fazer dos ciganos portugueses os maus da fita que vivem à custa dos nossos impostos, paralelo ao discurso cavalgado pela extrema-direita que se queixa dos imigrantes por tirarem o trabalho aos nacionais desses países. Isso e o discurso do medo.

O que nos salva? – uma espécie de carta à Humanidade

Temos absoluta necessidade de dar nome às coisas, visíveis e invisíveis, porque temos absoluta necessidade de compreender, e porque não somos capazes de determinar os limites da nossa própria alma. Sabemos que sentimos, que temos vida interior, íntima, e até isso, que é um dado absoluto, remete para um mistério sem nome; pois de onde nos vem e onde está sustentada no Ser esta capacidade íntima de ser dentro, de ser para si mesmo, esta intimidade ontológica?

Descatolização do Brasil

Descatolização é hoje palavra expressiva na inteligência brasileira, quando se fala de vivência religiosa e ou experiência de espiritualidade, em identidade reconhecida de invocação ao sagrado, ao mistério, aos desígnios de Deus. No povo flagelado por desigualdades, excessos, agressões, acidentes, a fronteira entre vida e morte é invisível, a morte matada ou a morte morrida de João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa acontecem, sem cuidado, motivo ou previsão.

Cuidado e dignidade humana

Quando se pede que nos protejamos e protejamos os outros, estamos, a um tempo, a apelar para que privilegiemos o valor da sobriedade e para que façamos tudo o que estiver ao nosso alcance para pôr em comum o que pode ajudar-nos a todos. Temos de criar condições no tempo próprio para que voltemos a estar próximos, a olhar-nos nos olhos e a evidenciar os nossos afetos. Mas temos de dar tempo ao tempo e preparar-nos com ponderação e bom senso, usando o cuidado como fator de humanidade.

Um livro que nos ajuda a resistir

Um dos aspectos positivos (se é que os há) desta pandemia é o facto de termos tempo para ler, escrever e pensar sem o stress habitual. E um dos livros que mais apreciei enquanto confinada foi A Resistência Íntima. Ensaio de uma filosofia da proximidade, de Josep Maria Esquirol.

O Pastor Ferido

Recebi um livro de Austen Ivereigh com o título O Pastor Ferido – O Papa Francisco e a Sua Luta para Converter a Igreja Católica (ed. Vogais). É um texto com 511 páginas, 80 das quais com referências às fontes onde se fundamentou o autor para as suas constatações e análises. Confesso que interrompi as anteriores leituras que estava a fazer, tal foi a enorme curiosidade que se apoderou de mim. Confesso que fui galvanizado pelo conhecimento das intrigas a que o Papa tem estado sujeito desde o início do seu pontificado.

A fábula dos bons e dos maus

Como muito bem sugeriu Marcelo, o governo deve rever a lei eleitoral e a constituição desde já. Há que admitir o voto por correspondência, reforçar o voto antecipado, e permitir que uma eleição possa ser adiada em caso de calamidade como a que estamos a viver. Mas deviam aproveitar para acabar com o chamado dia de reflexão, que é politicamente pré-histórico, e considerar um mandato único de sete anos para Belém, de modo a deixar de transformar os primeiros mandatos em campanha permanente para a reeleição.

Banco de Tempo, solidariedade e o legado da minha mãe

Pergunto-me ainda porque vivi quatro anos em Lisboa e não conheci um vizinho meu. Vivia num prédio com elevador, diga-se. Cruzava-me com pessoas nesse lugar, mas nunca nos falávamos, um bom dia que fosse… nunca ouvi, e nunca o disse… nunca quebrei o gelo. Tive de o quebrar, agora, dez anos depois, num prédio diferente, quando precisei que um residente em Portugal assinasse uma declaração atestando que um parente meu era seu vizinho. Para se obter um Atestado de Residência, em Portugal, é imperioso que um vizinho o ateste, antes da Junta da Freguesia.

Ihor Homenyuk, morada e conterrâneos

E para que não esqueçamos como é difícil romper a espessa camada do preconceito e da sobranceria nacionalista, não apenas em relação aos trabalhadores da construção civil como Ihor Homenyuk (onde se juntam o preconceito racial com o preconceito de classe), sir Hersch Lauterpacht, o académico de renome mundial, cavaleiro da Ordem do Império Britânico, foi eleito, em 1955, juiz do Tribunal Internacional de Justiça de Haia, “apesar da oposição de alguns que o consideravam insuficientemente britânico”.

O homem que o povo alemão pedia

Porquê escrever, a pretexto de um dia em memória das vítimas do Holocausto, sobre o homem responsável pelo maior genocídio da história? Porque também hoje pululam pequenos homens cheios de ódio, incapazes de lidar com a sua insignificância pessoal, mas cujo ego descomunal estimulado por um contexto favorável os pode transformar em caudilhos de populações exasperadas pelo abandono e pelo medo.

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