Entre Margens

Moçambique

Ventos, baladas e canções do matrimónio

Tive que escrever um texto sobre Balada de Amor ao Vento, o primeiro romance da primeira romancista moçambicana, Paulina Chiziane. Folheando o livro, encontrei algumas anotações feitas, há algum tempo. Tenho o hábito de borrar nos meus livros, com os pensamentos que me ocorrem, no momento da leitura.

Futebol

A república do ludopédio

Os ingleses inventaram o ludopédio (futebol) e continuam a driblar-nos com ele. Mas isso só é possível porque persistimos em ser provincianos. Deslumbramo-nos com tudo o que vem de fora e nem sequer nos damos ao respeito.

Homenageando o artesanato

Os novos tempos transformaram, ainda que provisoriamente, os hábitos que muitos de nós tínhamos bem arreigados. O conceito de descanso, tantas vezes associado a férias em paragens longínquas, passou a contemplar simplesmente sair de casa e chegar-se a destinos que, apesar de próximos, não tinham ainda sido, para muitos, explorados.

Entre Margens

Quem segue o padre TikTok segue Jesus?

Serão as redes sociais a versão moderna de seguir o padre em vez de seguir Jesus? No Seu tempo, seguir Jesus era uma experiência literal. Para onde Jesus ia, as pessoas seguiam-no para O ouvir. Hoje, se Jesus estivesse presente nas redes sociais e tivesse biliões de seguidores dado o número de cristãos no mundo, teria o mesmo efeito na vida das pessoas?

Entre Margens

A paz. Para além do medo e da ameaça

O Papa Francisco, em várias ocasiões, tem pugnado pela abolição total das armas nucleares, declarando a ilicitude moral do seu uso e até da sua posse. A Santa Sé foi dos primeiros aderentes ao Tratado das Nações Unidas sobre a abolição total dessas armas, o qual já recolheu a adesão do número suficiente de países para entrar em vigor.

Palestina: uma luz sobre a resistência

Admiro, desde sempre, a resistência do povo palestiniano, que considero profundamente inspiradora da esperança num mundo melhor. Acompanho-a com particular intensidade desde 2003, depois de esbarrar de frente com a história da Rachel Corrie, ativista e voluntária do International Solidarity Movement.

João Resina, o padre da física quântica

Nesta quinta-feira, 3 de junho, completam-se 11 anos que o Padre João, como era conhecido entre aqueles que mais de perto tinham o privilégio de com ele lidar, partiu para Deus. Por coincidência de datas, em 3 de junho de 2010 a Igreja celebrava, tal como hoje, a solenidade do Corpo de Cristo.

Sem misericórdia

O populismo de extrema-direita costuma invocar os valores cristãos apenas como fachada para aceder ao poder e exercê-lo. Temos visto este mesmo filme na Europa e nas Américas. O exercício da misericórdia, que significa baixar o nosso coração à miséria do outro, está cada vez mais difícil.

Ribeiro Telles: unanimidade nacional

Li com entusiasmo, no 7MARGENS, a notícia sobre a proposta de criação do Dia Nacional dos Jardins. Em tempo de reflexões sobre a encíclica Laudato Si’, e transformando dados diversos em unidade de pensamento, escrevi.

Entre Margens

Humanidade e lei

Ao reler algumas partes do livro “O Sopro da Vida Interior” da freira beneditina americana Joan Chittister, vi-me confrontado com a minha humanidade. Escreve Joan: Não estamos interessados em proteger o inocente; queremos matar os assassinos. Queremos os dissidentes silenciados. Queremos os não-conformistas excomungados. Queremos os rebeldes reduzidos a nada. Queremos lei e ordem. E continua: Estamos tão concentrados na religião que esquecemos a retidão.

O coração no meio da escuridão

Fátima nunca será um tema consensual. Uns veem-na como crendice popular sem sustento, outros encaram-na como algo politicamente conveniente, outros ainda, têm em Fátima a história da sua conversão pessoal. Na diversidade (e antagonismo, em determinados casos), haverá verdade. Os acontecimentos da Cova da Iria deram azo à maior variedade de posições e interpretações e talvez esse facto constitua também uma riqueza.

Guerra de lideranças e vivência entre povos

Israel-Palestina: novos tempos exigem novas soluções

Parece que já quase ninguém acredita, em qualquer dos dois lados, na solução de dois estados no conflito entre Israel e Palestina. A tendência, segundo se diz, é a radicalização de ambas as partes, com o perigo da extrema-direita israelita em crescendo, mercê de uma população jovem cada vez radicalizada e adepta de uma solução de força. O ódio cresce e, à falta de um horizonte de solução, resta a solução desesperada, que é a da guerra total na qual uma das partes é aniquilada.

Universalidade de gestos e emoções

Pentecostes: O Sopro

O Cristo ressuscitado, Cristo Jesus, o Nosso Senhor, certeza, motivo, mistério da nossa fé e a celebração de Pentecostes. O Sopro do Espírito Santo em face da gente unida pelo medo, pela insegurança, pela ameaça, por todo o sinal de violência do mundo, lá fora. De repente, a iluminação, a sabedoria, a linguagem, variada e entendível entre todos, os apóstolos, os tantos homens e as mulheres ali assustados, perdidos no sentido das palavras certas para dizer. Para cumprir. Para seguir.  

Povo em movimento

Voz(es) que clama(m) do deserto

Desertos, regiões geográficas sinónimas de secura, esterilidade e de isolamento, na antiguidade bíblica sempre foram locais muitas vezes associados a pureza. Sempre que Deus queria preparar o seu povo escolhido para uma tarefa grandiosa, conduzia-o a locais isolados e desérticos. A visão de um povo em movimento, essencialmente nómada, sempre foi tida em contraste com a vida da polis, das sociedades urbanas.

A caridade é o coração da Igreja

Felicito a Igreja Católica de Lisboa pela realização do Congresso Diocesano de Pastoral Socio-Caritativa. Que dê abundantes frutos. O que, por enquanto, me chamou mais a atenção desta magna reunião eclesial, foram alguns extratos da comunicação feita pelo cardeal Tolentino Mendonça. “Não podemos ver a pastoral sócio-caritativa como um departamento, mas como um sopro transversal.

Crónica

Desamores, dores e redenção

Habituamo-nos a tudo na vida, até a ter a alma em frangalhos, cheia de dores, pisaduras, feridas novas e velhas, algumas ainda com sangue a jorrar. Como são dores na alma, não sabemos o que fazer com elas e vamo-las mascarando com distrações várias, pecúlios, alegrias breves e ilusões de felicidade, numa superficialidade tão mais evidente quanto mais fundo é o abismo que levamos dentro.

Deus é americano?

A religião americana privilegia o “ser americano” antes do ser cristão e o nacionalismo antes do universalismo da fé. Só que tal mentalidade faz tábua rasa da figura de Jesus Cristo, seu discurso e obra. Atendendo a alguns discursos por vezes parece que Deus tem um fraquinho especial pelos Estados Unidos.

A liberdade religiosa: tema atual

O encontro entre o Papa Francisco e o Grande Imã da Mesquita de Al Azhar, Ahmed Mohamed El-Tayeb, no Abu Dhabi, constituiu um momento da maior importância no âmbito do diálogo entre as religiões, envolvendo a assinatura do Documento sobre a Fraternidade Humana (4.2.2019), que permite a afirmação de uma cultura de paz baseada no respeito mútuo, na liberdade de consciência e na necessidade de uma compreensão mútua baseada no conhecimento e na sabedoria.

O elogio do concreto em tempos de covid

A pandemia trouxe muitas alterações às nossas vidas. E uma delas é o novo modelo dos telejornais. Habituámo-nos a ver desfilar nos nossos écrans centenas de pessoas a serem injectadas, outras tantas transportadas em macas, outras ainda entubadas e sujeitas a tratamentos que nos arrepiam. É um desfile de gente, irmanada no estatuto comum de doentes, actuais ou possíveis, dos quais nos pretendemos demarcar, situando-nos no grupo dos não infectados.

A origem do mal

De onde vem o mal, se só a alma é real? De onde vem o mal, se só o Ser é real? O mal parece existir no nosso mundo, apenas porque o bem não está garantido. Quer dizer, no plano humano, o bem exige um luta e conquista permanentes. O nosso mundo, o mundo humano, o mundo que é a existência humana em projeto, está incompleto, inacabado como o próprio ser humano. Mas o sentido é o bem, é sempre essa, em última análise, a intenção, a finalidade do agir humano.

Cimeira Social Europeia: das intenções às ações

Passou a Cimeira Social (CS) sobre o Pilar Europeu dos Direitos Sociais (PEDS) em ordem à construção de um novo Plano de Ação para cumprimento dos 20 princípios que edificam o referido PEDS. Ainda é cedo para retirar conclusões definitivas quanto ao interesse e eficácia dos dois encontros realizados na cidade do Porto.

Lá em casa é assim, “cada macaco no seu galho”

É sobre a consideração dos estatutos sociais das pessoas, dentro da sua tribo, que quero falar no presente texto. Não abordarei alguma tribo ou grupo étnico em especial, mas o modus vivendi de algumas tribos moçambicanas, de modo geral. Isso vem a propósito de uma conversa que tive com uma amiga, há dias, quando lhe liguei para falarmos por telefone.

Portugueses, não tenham medo de olhar para o retrovisor!

 Costuma dizer-se que a memória dos povos é curta. Depressa esquecemos as páginas douradas do passado, mas ainda mais depressa esquecemos as negras. Mas conhecer a história colectiva dum país continua a ser o melhor antídoto para evitar cair nos mesmos erros, sempre que as oportunidades espreitam.

Podemos celebrar a vida comendo uma lichia?

Na segunda semana de Maio que a Igreja Católica dedica à vida, que tempo dedicamos nós a viver? A vida sente-se quando existem mudanças. A mudança é a base transformativa da vida. Por exemplo, quando nasce um bebé, o seu ambiente muda radicalmente. Por isso, respirar o ar exterior ao ventre materno pela primeira vez é uma das experiências mais transformativas na vida de cada um de nós. Uma experiência transformativa que se distingue de todas as outras por ser impossível prever o impacte que uma determinada mudança produzirá em nós.

Escolher a medida alta: 100 anos de Sophie Scholl

Neste domingo, 9 de Maio, passaram 100 anos sobre o nascimento de Sophie Scholl, que integrou a Rosa Branca, o grupo informal de resistência pacífica ao III Reich, formado por estudantes e um professor da Universidade de Munique. Curiosamente, é também o dia da Europa. A vida da Rosa Branca é breve. Entre Junho de 1942 e Fevereiro de 1943, o grupo escreveu, imprimiu e distribuiu seis panfletos apelando à consciência dos alemães para que se revoltassem contra o regime

“Mil Novecentos e Oitenta e Quatro” na China

No último encontro da plataforma das Comissões Justiça e Paz europeias, entre outras situações relativas a violações de direitos humanos em várias partes do mundo, foi dado particular especial à situação da China em geral e de Hong-Kong em particular. O padre Gianni Criveller, missionário italiano, especialista em questão relativas à China e residente por longos anos em Hong-Kong, sublinhou o seu profundo desencanto com a situação que se vive atualmente nessa região.

“Des-samaritanização”, em processo dialético?

O posicionamento da Igreja, no lado da oferta de serviços e não tanto da procura, dificultou-lhe a aceitação do Estado social que, até certo ponto, foi considerado seu competidor; ao mesmo tempo, deu origem a que fosse descurado o desenvolvimento e a qualificação dos grupos paroquiais de ação social, em contraste com a importância atribuída aos centros sociais paroquiais, às santas casas da misericórdia e a outras instituições.

Quadrado da serenidade ou testemunho de ser

Desde há mais de um ano que uma percentagem muito significativa do que aparece escrito tem, direta ou indiretamente, a ver com o mundo em que o nosso mundo se transformou diante da invasão por esta pandemia de covid-19. Não se trata de uma secagem da imaginação humana, mas da pregnância que este fenómeno de tão larga escala assumiu.

Hans Küng, de “A Igreja” ao “Projeto Para Uma Ética Mundial”

Küng é um profeta do nosso tempo, e isso viu-se quando a Congregação para a Defesa da Fé (antiga Santa inquisição) o sancionou, retirando-lhe a cátedra e o múnus. Hans Küng deixou na sua obra a beleza de ser cristão, da reflexão sem cadeias e a proposição de que as questões infalíveis não o são; por isso a Igreja deve estar-lhe grata e aprofundar o seu pensamento. Um dia a história saberá quem foi este grande teólogo.

O desaparecimento dos gigantes da fé

De vez em quando temos a sensação de que se está a passar na porta giratória para um mundo diferente. Em especial quando se toma consciência de que alguns dos maiores gigantes do mundo cristão nos deixaram. O mais recente foi o grande teólogo e pensador protestante latino-americano René Padilla (1932-2021), o “pai” do conceito de “missão integral” que revolucionou as teologias do continente, em particular a missiologia.

Alma mutilada

Samuel caminhava dançante num jogo de toca e foge com a suave rebentação da extensa e espelhada beira-mar de Keri Beach. Entusiasmado com a chegada à nova cidade, discursava e gesticulava comparações entre as imensas praias por onde passara. O fiel Odara escutava-o ao longe, absorto no encantamento da devoradora paisagem. Caminhava a passos curtos e lentos, sentindo atentamente a incomum textura da areia que se lhe entranhava nos dedos dos pés a cada novo pisar

José Augusto Mourão… o frade, poeta e professor

Fazemos memória, nesta quarta-feira, 5 de maio, do décimo aniversário da partida para o Senhor de frei José Augusto Mourão op. Nascido em Lordelo, Vila Real, em 12 de junho de 1947, deixou-nos aos 64 anos. Conheci Frei Mourão quando, há já muitos anos, comecei a participar nas eucaristias do Convento de S. Domingos de Lisboa, levado pelo meu amigo Luís de França, também ele frade dominicano, entretanto já desaparecido do meio de nós

[À volta do 1º de Maio] Encruzilhadas da vida

Tenho 45 anos e sou trabalhadora precária. A precariedade tem sido uma constante na minha vida desde que entrei no mercado de trabalho. Talvez esta situação seja fruto de decisões tomadas no passado. Da busca de realização profissional e pessoal em diferentes áreas do conhecimento. Ou será que não?
A minha primeira licenciatura foi em Engenharia do Ambiente pelo Instituto Superior Técnico (IST).

[À volta do 1º de Maio] Perder oito vezes o Natal para receber o salário mínimo

Um dia, comecei a despertar desta dormência. Sentia-me incomodado ou, até mesmo encurralado. Não iria ficar rico a receber dois ordenados mínimos. Em 10 anos perdi oito vezes o Natal e a passagem de ano a trabalhar. Seria este o máximo a que eu poderia aspirar? Durante alguns dias não conseguia pensar noutra coisa. Até que, durante uma pausa do trabalho, fiz a chamada telefónica que mudou tudo: falei com a minha esposa, e disse-lhe que poderia ficar no fundo de desemprego (sobre o que falarei mais à frente) e voltar a estudar para melhorar a minha condição.

Os valores do Desporto

O anúncio da criação da Super Liga Europeia de Futebol (Super League Company) na última semana, criou um pequeno “terramoto” junto da comunicação social, governos, federações, FIFA, UEFA e adeptos. Porquê tanto alarido? O futebol tem assim tanta importância? Ao que parece tem e muita! Não é por acaso que este desporto rei, movimenta muito dinheiro e muita emoção.

Carta de uma mãe ao mundo

Diz-se muito que os filhos servem para ensinar aos pais o amor incondicional. Acredito em parte. Realmente, os filhos vêm para que consigamos perceber a quantidade de amor que somos capazes de suportar cá dentro. O problema é que crescemos pouco treinados para lidar com essa expansão; e são poucos, aqueles que se entregam à real contemplação da natureza do amadurecimento do ser.

A ira do Irão

O velho orgulho persa vive hoje isolado num regime desenquadrado do mundo contemporâneo, reduzido a uma teocracia islâmica obsoleta que já não cativa os jovens. O regime tem prazo de validade e um dia destes cai.

Dante e o Inferno: o sentido perdido ou nebuloso da jornada humana

“Deixai toda a esperança, vós que entrais” (Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate). Assim se lê na advertência encontrada por cima da porta do Inferno, no início do canto III da Divina Comédia de Dante Alighieri. A estratificação do Inferno em nove círculos, cada um deles com penas mais terríveis do que o antecedente, muito contribuiu para o imaginário do discurso religioso cristão acerca das penas que sofrerão os réprobos nos finais dos tempos.

“Velhos” e não “idosos”

A pandemia, que no início alguns optimistas prognosticavam ser um fenómeno de pouca duração, cada vez mais se nos apresenta como uma mudança de paradigma, uma ruptura com um modo de ser, de pensar e de agir que entendíamos ter sido definitivamente conquistado, sem suspeitarmos que pudessem ser postos em causa modelos de relacionamento, de vivências, de valores ou mesmo de linguagem.

“O grito”

Quem não conhece a pintura a óleo de Edvard Munch, que é posta a par da Mona Lisa? Como é possível que uma tela inerte, fechada em si, no silêncio perpétuo, arraste o nosso olhar como quem é atraído pelo mais tremendo grito de solidão? Quantas vezes na vida sentimos que somos um grito que perdeu a voz? Não haverá ninguém que nos ouça?

A longa e iníqua Inquisição

Até ao séc. XV, vigorou no nosso país um clima de convivência pacífica entre cristãos, judeus e muçulmanos, respeitando-se mutuamente. Uma liberdade religiosa apadrinhada pelos primeiros monarcas e pela Igreja. Pelo que se sabe, só nas Cortes de 1361 as minorias judaicas foram episodicamente sujeitas a perseguição por parte dos comerciantes que competiam nos negócios com os judeus.

Viver é Cristo, morrer é lucro

Tantos milénios soma a humanidade e a morte continua envolta numa densa névoa, como se não fosse um dos poucos factos de que podemos estar certos enquanto vivemos, para os outros e para nós próprios. Estranhamente, a morbidez escura e em surdina com que se vive o momento da morte e os que se lhe seguem alastra para todos os ambientes, incluindo os cristãos, como se não houvesse forma de contornar o politicamente correto negro de cara, veste e alma.

Falando de tudo menos do caso Marquês (que já cheira mal!)

Afinal, o que é normal no funcionamento da justiça quando falamos de um estado de direito democrático? E o que não se compreende? Os procedimentos de investigação criminal e a função judicial contemplam um conjunto de processos, acções e diligências cuja lógica pode e deve ser encarada com toda a normalidade, embora esteja sempre na mão dos seus actores uma margem de apreciação e decisão, atendendo a uma certa natureza subjectiva, uma vez que a justiça é aplicada por seres humanos e não por máquinas ou entidades divinas.

Hans Küng e o argumento ontológico

A morte recente do teólogo suíço Hans Küng despertou-me para a leitura da sua obra. O título mais disponível de imediato foi Aquilo em que creio (Was ich glaube), publicado originalmente em 2009. Neste livro, Küng expõe detalhadamente as suas crenças filosóficas, éticas, religiosas e científicas, revelando uma visão anti-dogmática acerca da fé, desfazendo habilmente alguns mitos acerca de Deus, do Homem e da relação entre fé e ciência, convidando-nos de facto a partilhar de uma visão integral e humanista do fenómeno humano.

A viagem do vestido de casamento

O cerne da questão das cerimónias de casamento, na minha sociedade, é o vestido de noiva. A existência do vestido de noiva é antecedida pelo anúncio do casamento, que traz felicidade a alguns familiares, tanto da noiva, quanto do noivo. Digo alguns, porque um casamento, para além da graça que carrega, reúne em torno de si muita agrura. Casar e ter filhos ainda é das coisas mais importantes na minha sociedade. Existe muito pouco deleite acima disso.

Dois quadros de Caravaggio

Há dois episódios que recentemente recordámos na liturgia que continuam a deixar-nos cheios de perplexidade. Falo da tripla negação de Pedro e da incredulidade de Tomé. Afinal, somos nós mesmos que ali estamos representados, por muito que isso nos choque. E o certo é que, para que não haja dúvidas, as palavras que pontuam tais acontecimentos são claríssimas. Pedro recusa terminantemente a tentação, quando Jesus lhe anuncia que ele O vai renegar. E nós sentimo-nos aí retratados.

Europa: um Pacto Ecológico para inglês ver?

“O Pacto Ecológico Europeu é … uma nova estratégia de crescimento que visa transformar a UE numa sociedade equitativa e próspera, dotada de uma economia moderna, eficiente na utilização dos recursos e competitiva, que, em 2050, tenha zero emissões líquidas de gases com efeito de estufa e em que o crescimento económico esteja dissociado da utilização dos recursos.” (Pacto Ecológico)

Leprosários

A mais recente Responsum ad dubium[1] da Congregação para a Doutrina da Fé relativa à bênção de uniões homossexuais tem feito correr rios de tinta. Se, por um lado, haja quem veja um retrocesso no caminho de inclusão delineado pelo Papa Francisco, outros encaram esta resposta como um travão necessário à prática de bênçãos a casais homossexuais, em total coerência com a linha da doutrina moral da Igreja.

Para condenar não me chamem

Após vinte e dois anos de trabalho dentro de uma prisão ainda me pergunto: que falta faz um padre na prisão? Talvez seja necessário responder antes a uma outra: para que serve a prisão? O sistema prisional devia ter dois objetivos fundamentais: proteger a sociedade de condutas criminosas e proporcionar aos reclusos uma hipótese de reabilitar as suas vidas.

Embriaguez sem vinho

A juventude é a embriaguez sem vinho, dizia Goethe, mas quando o vinho está azedo a embriaguez passa a doença. A recorrência das crises, os surtos pandémicos e a falta de horizontes podem estar a criar uma geração perdida. Mas não terá sido quase sempre assim?

Linguagem simbólico-religiosa: uma literacia para o humano

Podemos compreender a linguagem dos símbolos e a linguagem religiosa como uma forma de comunicação que abre o ser humano a uma nova mundividência? Ou será tão estranha e distante que resulta num novo analfabetismo? Imaginemos o cenário seguinte: um casal percorre diariamente a avenida de uma grande cidade, repleta de anúncios e informação muito diversificada.

O jejum de Ramadão, um acto de obediência e adoração

Entre esta terça-feira, 13 de Abril, até 12 de Maio de 2021, os muçulmanos entrarão, in cha Allah, no mês do Ramadão (em árabe Ramadan), o nono mês do calendário lunar, durante o qual foi revelado o Alcorão, Livro Sagrado do Islão. O jejum do mês do Ramadão é o quarto pilar da prática no Islão, portanto, é uma obrigação religiosa.

Liberdade ou o valor das pequenas coisas

Vivemos dezenas de anos cheios de momentos especiais e de benefícios que insistimos em banalizar porque estavam ao nosso alcance, diria mesmo garantidos. Era pelo menos o que pensávamos. Atualmente parece que começamos a conhecer o valor das pequenas coisas e, se assim é, estamos a aprender uma grande lição.Muitas pessoas perdem tempo (gostava de poder dizer – perdiam) com detalhes que as coisificam.

Persistência da desigualdade: O que Kuznets não viu

A área das desigualdades tem um problema que muitas outras áreas da economia não têm: falta de dados. Esta situação deve-se não só ao facto de no passado não se ter registado da melhor forma, ou de todo, dados a nível de desigualdades, como também ao facto de não ser fácil aferir a realidade, por exemplo, dos rendimentos mais altos da sociedade, para chegar aos indicadores.

A necessidade de fricção na comunicação

A comunicação é a capacidade que o ser humano desenvolveu para sobreviver ao longo dos milénios da nossa existência sobre a Terra. Por isso, qualquer coisa que afecta a nossa capacidade de comunicar, afecta a nossa sobrevivência. Assim, é legítimo questionar o que os meios de comunicação estão a fazer ao nosso modo de comunicar. Não me refiro, propriamente, aos que protagonizam esses meios, como os jornalistas, mas aos meios em si, sobretudo, os mais recentes como os que encontramos nos nossos telemóveis.

Saberei ser quem sou?

Que me fosse concedido o desejo de aquietar a consciência, aquele dom invejável dos sábios discretos;
às tantas, vivo cansada de uma mente desobediente a perturbar cada instante que a vida me dispõe.

Sopa de letras

Se os cristãos fossem hoje a cumprir a Torah à letra estaríamos a apedrejar até à morte os adúlteros e os homossexuais, não poderíamos envergar roupa com incorporação de determinados tipos de tecidos, não podíamos comer um rol imenso de alimentos e satisfaríamos muitos outros interditos, além de guardar religiosamente o sábado, quando ninguém poderia trabalhar.

Escola: prisão ou libertação?

Evitar o doutrinamento das crianças dá trabalho. Por um lado, necessitam de uma espécie de “catecismo elementar”, onde tudo venha explicado e estruturado de acordo com o seu desenvolvimento. Por outro lado, esta cultura inicial e maneira peculiar de olhar o mundo não podem ser prisão: pouco a pouco, de acordo com o ritmo da criança, virá a escolha de um trabalho personalizado e criativo.

A Deus, Xexão

O sorriso da Xexão já não está entre nós – e o nosso mundo ficou mais desamparado.
O Eugénio de Andrade que me desculpe, mas o último verso está errado: o que apetecia mesmo era viver naquele sorriso. Esse sorriso acolhedor e tranquilo, inteligente e sábio, que abria a porta e nos fazia sentir em casa.

Performance, expressões, palavras: rituais do acto de contar

A minha avó contou-me que a literatura existe em todos os momentos da vida de um bantu. Eu explico. Embora sejam vastas e sempre inacabadas as discussões sobre o que é literatura, há sempre delimitações possíveis ou básicas, para referir o campo abrangido pelo objecto e compreender, de algum modo, a dimensão do seu alcance.

Empurremos o Mundo!

O dia 30 de Março amanheceu inteiro e limpo como há muito não se via. “…a Xexão voou nas asas da luz para o outro lado das águas.” Foi com este salmo tão bonito que, ao romper de aurora, soube pelo irmão Luís Moita, que a minha tão querida amiga Xexão tinha partido. E agora? Que sensação de orfandade esta.

A Paz sem vencedor e sem vencidos

Ao participar nesta tarde de Sexta-feira Santa, 02-04-2021, na Via-Sacra transmitida diretamente da Praça de S. Pedro, em Roma, a forte imagem do Papa Francisco no seu semblante fechado e triste, levou-me a refletir sobre o que iria na sua cabeça.

A minha casa é a pele que visto

Os que amamos poderiam sempre demorar-se um pouco mais em nossos dias porque a saudade nunca estará preparada, deixaria de sê-lo; e jamais gavetas estarão vazias o suficiente para destinar amor ao esquecimento.

Tempo de Páscoa, imagens de Vida

A Páscoa era na Quinta-Feira Santa o Lava-Pés dos velhinhos do Asilo, humildes apóstolos, cobertos por vestes brancas. Era a Procissão do Enterro na Sexta-Feira às onze da noite, a vila atravessada pelo andor com o caixão de Jesus, batida compassada dos tambores e metais da banda filarmónica, eram as portas da igreja fechadas em sinal de luto. No Sábado, era o repicar das aleluias. E no bafo da noite, os cânticos saindo pelas portas escancaradas da Igreja Matriz, luz de velas e renovação das promessas do Batismo.

Euromiopia

Cuidado com o eurocentrismo. Há mais mundo para lá da Europa, meus senhores. A bitola europeia não serve para avaliar a diversidade da casa comum da humanidade. Um dos maiores erros do observador europeu quando olha para a realidade social, política e religiosa das Américas é partir sempre dos seus próprios pressupostos, seja em que dimensão for.

A Justiça livra da morte

É muitas vezes a fraqueza, a impotência e a frustração por não conseguirmos fazer aquilo que realmente queremos, que nos conduz ao mal. Queremos ser heróis, conquistar uma glória qualquer, ser absolutamente livres, e não compreendemos que o maior dos heroísmos não é o do impulso de uma hora, mas o de todas as horas em que tentamos adequar a nossa ação ao nosso juízo mais justo. Mesmo que doa, mesmo que a solidão pese, mesmo que a angústia prevaleça.

Voltar a casa – limpeza de Primavera

Enquanto o mundo se reorganizava, houve umas semanas para reflectir na relação que mantemos com a casa onde moramos, com a ideia de casa, e em como essa relação afecta a vida espiritual. “Não temos aqui morada permanente”, é certo, mas também há algo de incómodo nos 40 anos que o povo de Israel precisa para chegar à Terra Prometida ou nas andanças de Jesus, Maria e José pelo Egipto.

Liberdade religiosa e bem-estar animal

Uma recente sentença do Tribunal de Justiça da União Europeia (proferida no caso C-336/19 Centraal Israëlitisch Consistorie van België e outros) suscita uma interessante e importante reflexão sobre o valor da liberdade religiosa. A questão em apreço nessa sentença diz respeito ao abate de animais de acordo com as normais rituais hebraicas e muçulmanas. Por não permitirem o atordoamento dos animais no momento do abate, essas normas entram em conflito com as normas gerais de proteção do bem-estar animal.

A espiral da vida

Com muitas ou poucas aventuras, a espiral da vida tem uma peculiaridade: para quem nos observe e para o próprio, não estamos sempre a subir: podemos voltar muito abaixo do nível alcançado. Mas se o desejo não morreu, esta sensação apenas indica que a riqueza das experiências vividas não está a ser devidamente digerida. Na realidade, estaremos a subir: em breve, a energia acumulada nos faz subir com mais força e resiliência.

Do tudo ao nada – o caminho necessário

Ao longo da sua itinerância, os crentes podem apresentar-se diante de Deus de duas formas: com as mãos cheias de méritos, esforços e conquistas ou com as mãos simplesmente vazias. Na génese das duas atitudes estão corações ávidos e comprometidos com Deus; o que varia é o modo e o modo pode fazer muita diferença. Penso que em geral todos começamos com grandes ímpetos de “acumulação”.

Uma Igreja em saída

No seu recente livro O Tempo das Igrejas Vazias (ed. Paulinas), o padre Tomáš Halík interroga-se acerca do cumprimento da visão do Papa Francisco, na qual Cristo (que segundo as palavras da Escritura bate à nossa porta) bate desta vez no lado de dentro da porta da Igreja porque quer ir para fora. “E não deveríamos nós segui-lo para além das fronteiras do nosso entendimento atual da Igreja e do Cristianismo, principalmente até ao mundo dos pobres, necessitados e marginalizados?”.

A ciência e o malmequer

Mal-me-quer, bem-me-quer… Parece que há cristãos que recorrem ao jogo do malmequer para definir a sua vida, guiando-se por preconceitos e pensamento mágico, sem ter os pés assentes no chão. Quando se confundem preconceitos e pensamento mágico com fé sem ter os pés assentes no chão dá nisto. Incongruências, atitudes casuísticas e uma porta aberta para o disparate.

Identidade e Pandemia

Indubitavelmente que a pandemia também trouxe alterações positivas às nossas identidades pessoais e colectivas. A ideia de um homem dono e senhor da natureza foi substituída pela necessidade de cuidar do planeta e pela consciência das nossas obrigações enquanto habitantes do mesmo. O desafio diário para ultrapassar o modo habitual de lidar com os nossos medos intensificou a criatividade, levou a contactos diferentes com os amigos que apenas vemos online, manteve acesa a nossa sede de leitura partilhando livros e pedindo a filhos e netos que nos descarreguem músicas.

São Romero dos Direitos Humanos – Lições éticas, desafio educativo

É este o título de um dos livros de Luis Arangurem Gonzalo, traduzido e editado pela Editorial Cáritas, em 2018, mas que ainda não chegou ao domínio publico como o merece a qualidade da obra. A propósito da celebração, nesta quarta, 24, do dia litúrgico de S. Romero – escolhido por ser a data da sua morte como é costume acontecer a todos os cristãos e cristãs que são considerados santos, pela Igreja – fui revisitar o livro acima referido.

Deus está infinitamente para além do medo

Acreditar em Deus será necessariamente viver no medo do imprevisível? Só se crermos num deus caprichoso, que ora nos dá graças, ora nos dá dores, independentemente do que façamos, como a Job. É verdade que a desgraça se pode abater sobre qualquer um. Alguns defendem, porém, que dispensar Deus ou deuses e limitar-se a um estrito naturalismo nos isenta de medos supersticiosos, como já a escola filosófica epicurista defendia. É que a natureza não tem caprichos nem humores…

Sara Ocidental: como quebrar a espiral de violência?

Sou a mãe do preso político saraui Mohamed Lamin Haddi, do grupo de Gdeim Izik, condenado a 25 anos de prisão, que está na cadeia marroquina de Tiflet. Está em greve de fome há 57 dias. Mais, faz hoje 15 dias que está em lugar desconhecido. Sem telefone, nem visitas, nada. Cheguei à prisão e negaram-me a visita. Desconhecemos em que estado se encontra e nem sequer sabemos onde está. Que nos informem onde se encontra, como está de saúde, se está vivo ou não, qual é a sua situação.

Uma viagem inesquecível

Ao visitar o Iraque, o Papa Francisco contribuiu decisivamente para que se abram caminhos para um movimento corajoso no sentido de um diálogo entre religiões e povos, que conduza os governantes da região a delinearem a sua ação no sentido da Paz. Sabemos que as condições são adversas e extremamente difíceis e incertas, por isso muitos tentaram dissuadir o Papa no seu desejo de concretizar esta viagem.

Da memória dos sábados e da ausência de escândalo

Os jovens plebeus sempre se aguentaram bem nas suas posições irreverentes, porém respeitadoras do Senhor Patriarca, como era chamado. Pedíamos mais assistentes religiosos que tivessem capacidade de estar com jovens (e como eramos exigentes!, e como nos ficava bem essa exigência que tanto era de fé como de intelectualidade em fase de aprendizagem!), reclamávamos por mais apoio e compreensão da hierarquia.

Ideias e Perplexidades

Que possível ligação poderá haver entre o pensamento do filósofo francês Luc Ferry nos anos 80, o documento final na V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe em 2007 e o texto da Congregação para a Doutrina da Fé, divulgado na passada segunda-feira dia 15 de março? Permito-me uma associação de ideias, para circunstâncias de referência e de polémica, reações constantes e crescentes, nos dias de reflexão que cada vez mais nos são exigidos.

O pai Abraão tem muitos filhos

Abraão tem muitos filhos. Os judeus reivindicam a herança abraâmica, tal como os cristãos, que se consideram filhos do patriarca no sentido espiritual, e até os muçulmanos preservam a sua memória, considerando-o um dos cinco grandes profetas do islão. A propósito da recente visita do Papa Francisco ao Iraque, e mais especificamente à região de Ur, cheguei a ouvir na comunicação social que Abraão era o fundador das três grandes religiões monoteístas. Puro desconhecimento.

Fragilidade, dignidade e economia

O Papa Francisco convocou todos os católicos e cristãos do mundo e todas as pessoas de boa vontade a aderirem a uma reforma da economia. Para isso, lançou a iniciativa A Economia de Francisco, com o objetivo de repensar a economia a partir dos jovens. A nova economia, proposta por ele, inclui todos, promove a justiça, preserva o ambiente e gera solidariedade. Esta nova conceção da economia parte da convicção de que todas as pessoas, sem exceção, têm uma profunda dignidade, que provém da sua filiação divina.

Pecados em quarentena

Também há pandemias que atacam os assuntos mais sérios, destruindo a seriedade e independência com que deles devemos falar. E exigem cuidados especiais muito intensivos, quando está em jogo a formação de espírito crítico nas novas gerações e o esforço de darmos o exemplo: chamando bom ao que justificadamente consideramos bom e mau ao que justificadamente ajuizamos ser mau.

Ato de resistência

A resistência assume frequentemente o carácter de oposição a algo exterior que queremos combater. Contudo, arriscaria dizer que esta será sempre vã se não for precedida de uma firme resistência interior. Das maiores às menores mudanças que queremos operar no mundo, para serem bem-sucedidas todas têm de partir de um compromisso de honra assumido connosco próprios.

Construir fraternidade é uma heresia?

Por muita falta de nobreza de carácter que alguém tenha nunca poderá considerar que possam ser contranatura todos os esforços que se façam por uma maior humanização do mundo. Poderão não dar um passo nesse sentido e até mesmo criar dificuldades para que se alcance esse desígnio, mas, bem no seu âmago, sabem que viver em harmonia é um bem em si mesmo.

Consegues imaginar um mundo sem email?

Vivemos num mundo que procura eliminar a fricção. É cada vez mais fácil para qualquer pessoa neste planeta poder expressar a sua opinião sobre qualquer coisa e ter a sensação de ser ouvida. E, depois das alterações culturais que esta pandemia realizou no modo de comunicarmos, mais ainda se nota como um mundo sem fricção pode tornar-se num mundo superficial onde vinga a desinformação.

Um ano depois

Uma das certezas que temos na vida é a da impermanência. O mundo é dinâmico e a vida também. Nada é estático, nem o que é bom nem o que é difícil. “Isso passa”, como se costuma dizer, e passa mesmo. Perante eventos de dor e sofrimento, podemos fazer de tudo para que eles passem por nós o mais rapidamente possível ou podemos olhar de frente a realidade e transpor os limites do que nos acontece, não deixando que o que somos fique confinado.

Notícias boas também são boas notícias

Abrir a televisão para ouvir um serviço noticioso é hoje quase um exercício de masoquismo, não só pela exagerada extensão destes, em regra, mas sobretudo pela ênfase e quase exclusividade concedida às notícias más. Em termos de material noticioso, os jornalistas e editores de informação converteram-se ao primado do quanto pior melhor. Já nem falo do jornalismo de faca e alguidar pelo qual é conhecido um dos canais portugueses, mas pela tendência geral predominante no meio.

A irrelevância de Deus?

Mas o que queria desde já destacar é o que me parece ser um desafio-paradigma (paradigma, pois põe a questão em termos diferentes dos habituais na análise de situações da Igreja): enfrentar o facto de Deus não ser relevante para muita gente. Esta questão da não relevância de Deus parece-me exposta com clareza no texto de apresentação do congresso de Dresden e que é a autoria dos dois teólogos, Mathias Sellmann (Ruhr – Universität Bochum) e Thomas Arnold (Katholische Akademie Dresden), que intervêm no artigo-debate acima referido.

Guardar o jardim do mundo

Nestes tempos em que o início da Quaresma coincide com um estranho confinamento, explicado por uma pandemia que há um ano nos atinge e que vai afetar pelo segundo ano consecutivo a nossa Páscoa, importa recordar mais uma vez o que o Papa Francisco nos afirmou na encíclica Laudato Si’. Esta pandemia será ultrapassada, com mais ou menos esforço, mesmo que tenhamos de continuar a lidar com o vírus.

Arte de rua: amor e brilho no olhar

Ouvi, pela vida fora, incontáveis vezes a velha história da coragem, a mítica frase “eu não era capaz”; é claro que não, sempre que o preconceito se sobrepõe ao amor, não é possível ser-se capaz. Coragem?? Coragem eu precisaria para passar pela vida sem realizar os meus desejos, nesse louco trapézio entre doses paralelas de coragem e cobardia.

Eternidade

A vida segue sempre e nós seguimos com ela, necessariamente, como se fôssemos empurrados pela passagem inexorável do tempo. Mas enquanto uns aceitam esse empurrão inexorável como um impulso para levantar voo – inclusive até lugares onde o tempo não domina –, outros deixam-se arrastar por ele até ao abismo. Porque quando o tempo não serve para moldar e edificar pedaços de eternidade, ele apenas dura e, portanto, a nada conduz (a não ser à morte), pois a sua natureza é durar, sem mais.

França: a Marianne de barrete frígio ficou traumatizada

Os políticos europeus em geral não sabem nada do fenómeno religioso. Pior. Fingem que sabem e não se rodeiam de quem os possa esclarecer. Entretanto, a França parece querer trilhar um caminho perigoso. Quando o governo coloca as leis republicanas ao mesmo nível da lei de Deus, faz da república uma deusa e do secularismo uma religião.

Banco da solidariedade, experiência única

Sobre uma oportunidade de resistência coletiva     Muito se tem escrito e tenho escrito sobre a falta de saúde mental a que, provavelmente, estamos e estaremos sujeitos durante e após esta pandemia. Os números crescem, traduzidos por sofrimentos enquadráveis...

Que futuro, Iémen?

O arrastar do conflito tornou insuficiente a negociação apenas entre Hadi e houthis, já que somados não controlam a totalidade do território e é difícil encontrar uma solução que satisfaça todos os atores. Isso será ainda mais difícil porque as alianças não são sólidas, os objetivos são contraditórios e enquanto uns prefeririam terminar a guerra depressa, outros sairiam beneficiados se o conflito continuasse. Além disso, muitos são os que enriquecem à custa dele. Para esses, o melhor é que este não termine.

A sociedade e os idosos

Ao longo do último ano, tempo em que já dura a dolorosa pandemia que nos tem retido confinados, embora pelos piores motivos muito se tem falado dos que vivem em residências para idosos. Antes da covid-19, pelo que nos é dado agora saber, uma boa parte dos cidadãos e dos políticos parece que pouco ou nada sabiam do que se passava nestas instituições, quer nas clandestinas quer nas comparticipadas pelo Estado.

Servir: lavar as mãos, lavar os pés, lavar o coração

Depois de alguma leitura, aquela conversa não me saía da cabeça. Lembrei-me do ritual do “Lava pés”, que teve lugar na última ceia de Jesus Cristo, na qual Ele ensinou-nos, entre outras coisas, a partilhar o pão e o vinho (a comida) e a servir (lavou os pés aos seus discípulos). Lembrei-me também de uma tradição ocidental, segundo a qual quando alguém vai à casa de outrem pela primeira vez, a dona de casa deve servir ao visitante o “primeiro copo”. Por ser de “bom tom”, é cortês. E é, porque abre o à vontade ao visitante.

Como o “bicho” mexe com a prática religiosa

A verdade é que um de cada três cristãos praticantes americanos parou de frequentar a igreja com a pandemia, apesar da evidência de que a comunidade de fé exerce um efeito integrativo do ponto de vista social, de estabilização emocional e promove o encorajamento e a esperança dos indivíduos. Curiosamente, as gerações mais novas apresentaram mais dificuldades na substituição das celebrações presenciais pelas online, eventualmente devido a uma maior necessidade gregária.

Direitos Humanos das Pessoas Idosas. Importa-se de repetir?

Todos os textos são incontroversos, lembram que os idosos têm direito a trabalhar ou a ter uma fonte de rendimento, a viver com dignidade e segurança, a poder residir em casa pelo máximo de tempo possível, a formar associações que defendam os seus interesses ou a aceder a programas educacionais próprios; e reafirmam que os mais velhos contribuem para o desenvolvimento das sociedades de que fazem parte (tem o seu quê de irónico, dada a média etária dos “líderes mundiais”).

O que pensar da meritocracia?

A meritocracia leva a uma ética do sucesso que corrói a coesão social e o empenho pelo bem comum. Leva a pensar que quem tem sucesso, económico ou de outro tipo, recebe uma justa recompensa pelo seu trabalho, esforço e criatividade e que quem não tem sucesso sofre as consequências das suas faltas de empenho e diligência. Compreende-se que desta forma se aceitem as desigualdades de rendimentos e de reconhecimento social e a coexistência de dois mundos paralelos que não formam uma verdadeira comunidade.

Quaresma: tempo para renovar a fé, a esperança e a caridade

Começou o tempo da Quaresma. Tempo favorável (cfr. Isaías 49,8) e de conversão proposto, todos os anos, aos cristãos. É um tempo muito especial por culminar no acontecimento mais importante do cristianismo: a celebração da Páscoa. A sensação que se pode apoderar de muitos de nós é que se trata de mais um tempo ritual sem consequências de mudança na vida dos seus destinatários e, por eles, na da Igreja em geral.

Que memórias guardamos da pandemia?

Ao pensar nas memórias desta pandemia o que me vem à ideia em primeiro lugar é a ausência – ausência de gente pois estarmos circunscritos ao núcleo reduzido dos familiares mais próximos; ausência do toque e do abraço, que devemos conter por razões profiláticas; ausência de amigos de carne e osso, gente com quem possamos conversar cara a cara ou em grupo sem necessidade de recorrer às redes sociais para falar do que sentimos, do modo como nos pesa a solidão, das alegrias e dos desgostos, partilhando as pequenas desgraças e felicidades do dia a dia.

A debilidade de Deus

Praticamente todas as religiões monoteístas, e especialmente as abraâmicas, quando falam catafaticamente acerca de Deus, referem-se a Ele várias vezes como sendo Omnipotente, Todo-Poderoso. Acontece que nas nossas sociedades pós-modernas altamente secularizadas e perante a constatação de ocorrências de catástrofes naturais, do sofrimento e da morte, é por vezes difícil conciliar essa cosmovisão de um Deus bom e que tudo pode.

Estar com a Irmã Maria Domingos

À saída, acompanhava-me quase sempre para lá da porta do mosteiro. Pisava a rua e era nessa altura que, habitualmente, me contava algumas das suas aventuras em busca do Amor, desde a adolescência, à passagem pelo mosteiro em Fátima, onde iniciou a vida de monja, até ao mosteiro em França, lugar de que me falava com entusiamo sobre descobertas que considerava fundamentais.

Nunca troquem uma criança por um sábado!

 Os rituais sempre foram estruturantes na socialização humana, assim como na construção e consolidação das crenças e correspondentes liturgias colectivas. Mas não são tudo. Há mais vida para além dos rituais. Eles ajudam a estruturar a sociedade com recurso ao simbólico e a fixar normas de convivência, de reconhecimento e de valorização social. Mas no caso do campo religioso assumem o sentido de alguma sacralidade, tornando-se por isso mais intocáveis.

Que Igreja (também) para as mulheres?

Foi notícia em todo o mundo: o Papa permite às mulheres os ministérios laicais do leitorado e acolitado. Os mais otimistas, como eu, viram aí um caminho aberto para uma compreensão mais ampla da natureza destes e de outros ministérios; os mais pessimistas, também como eu, percebem que, apesar da grandeza e justeza da revisão legal, nada mudará verdadeiramente.

O valor da Memória

Dito de outro modo: queremos formar mulheres e homens para serem academicamente brilhantes ou queremos torná-los cidadãos e cidadãs empenhados no Bem Comum? A ética do cuidado pelo outro e a ideia, muito cristã, de uma família humana fundada na fraternidade dever-nos-ia servir de farol para evitarmos outras tragédias, sendo aqui recordada esta mesma preocupação por parte daquelas e daqueles que sobreviveram à barbárie e à perversão de uma ideologia totalitária.

Ser generoso na prosperidade – um hino de virtudes

Nas Escrituras Bahá’ís também podemos encontrar vários textos que descrevem o modelo de vida dos crentes. O mais conhecido é uma epístola de Bahá’u’lláh dirigida a um dos Seus filhos, onde o fundador da Fé Bahá’í usa uma linguagem espiritualmente intensa e profundamente poética, para nos apresentar um código de conduta moral universal.

As redes sociais e a degradação do espaço público

Vivemos em sociedades em que a degradação do espaço público tende a acelerar a corrosão da democracia. Não deixa, infelizmente, de ser curioso que o que se passa nas redes sociais marque, por vezes, a agenda dos próprios media tradicionais. Aliás, são cada vez mais frequentes os programas, nomeadamente televisivos, que recorrem à participação através das redes sociais valorando simples “bitaites” como se de comentários sérios e informados se tratasse, muitas vezes sem verdadeiros critérios de filtragem.

Por que estais com tanto medo, homens de pouca fé?

O crescimento pessoal e da humanidade não se dão numa linha contínua, mas costumam acontecer abruptamente, com “saltos” que nos levam para o nível seguinte: verifica-se nas eras da história humana e acontece na vida de cada um de nós. Cada uma dessas etapas é normalmente precedida por crises, sofrimentos e, não raramente, confrontos decisivos. São os tempos dos labirintos e das escolhas difíceis – porque sabemos que, no que quer que escolhamos, outros caminhos ficam para trás.

O “burnin” em tempos de pandemia

Com os confinamentos exigidos nestes tempos, alguns retornaram ao teletrabalho, voltando a ter o escritório em sua casa, cuja pilha de roupa e questões dos filhos a atender, pode levar à exaustão, ao dito burnout. Mas isso pode advir, também, de um modo de ser e estar no trabalho que vive mais de distracções do que de realizações, respondendo a inúmeros e-mails, mensagens de Slack, chamadas Skype ou Zoom.

Adeus, John Wayne!

Os anos noventa nos EUA testemunharam um amplo movimento de fé que procurava valorizar o papel masculino na igreja, denominado Promise Keepers, que sublinhava e reforçava o papel do homem como sacerdote e autoridade suprema na família. Promoveram-se então grandes reuniões em estádios às quais só podiam aceder homens e rapazes, um pouco ao estilo do Clube do Bolinha (“Menina não entra!”).

“Verdade” e preconceito

Comecei por dizer que escrevo hoje como cidadã, académica e mãe. E é sobretudo como Mãe que me preocupa este tipo de ignorância, que atua não como natural ausência de saber, mas como espaço alternativo de construção e dogmatização de ‘verdades’ nascidas do preconceito (seja ele social, racial, étnico, de género, ou outro). Preocupa-me o papel que nós adultos temos na formação das opiniões e, sobretudo, na criação das lentes pelas quais os nossos filhos começam a ler o mundo.

A “leveza” da fraternidade e a crispação das notícias

Celebrou-se dia 4 de fevereiro o 1º Dia Internacional da Fraternidade Humana. Esta efeméride foi instituída pela ONU, tendo a data sido escolhida para coincidir com o aniversário da declaração católico-islâmica em defesa da paz mundial e da convivência comum. O documento foi assinado a 4 de fevereiro de 2019 pelo Papa Francisco e pelo Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb. O 1º Dia internacional da Fraternidade juntou no mesmo momento os signatários do documento e o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres.

Um novo isolamento, uma nova oportunidade

A solidão é uma espécie de monstro que todos tememos, principalmente com o avançar dos anos, onde aquela se vai agarrando a nós com uma terrível força, fruto da nossa rotina e do aprofundar dos nossos pensamentos. É o local onde mais ninguém nos pode ouvir, onde somos confrontados com as nossas próprias vozes, sem distrações ou amparos, apenas o silêncio dos nossos receios. É claro que ter a companhia e o amor do nosso próximo é impreterível a uma vida mais feliz.

Deitar a toalha ao chão – ou ajuda mútua

As pessoas estão angustiadas, ansiosas, deprimidas, cansadas. Cansadas de ter de lutar em prol de não sei quê e contra um invisível que pode tornar-se avassalador; cansadas de fingir que acreditam no futuro; cansadas de ter de fazer de conta que conseguem ser felizes; cansadas de serem incompreendidas na sua dor; cansadas de não serem escutadas nos seus apelos; cansadas de disfarçar os seus reais problemas; cansadas de ver desonestidades e incompetências de alguns com consequências nefastas para quase todos.

Israel-Palestina: Um só estado não é irrealista

Também do lado de cá do Atlântico, a ideia parece estar no centro de um debate acerca do modo como a própria Europa se deve reposicionar face ao problema no contexto das relações com Israel. Com efeito, um artigo publicado este mês no próprio site do Conselho Europeu para os Assuntos Estrangeiros (European Council for Foreign Affairs), e significativamente intitulado The end of Oslo: A new European strategy on Israel-Palestine, explora o assunto sem preconceitos.

A eutanásia e a Constituição Portuguesa

A Constituição portuguesa confere à vida humana uma proteção ainda mais forte do que se reconhecesse (como fazem a generalidade das Constituições) apenas o direito subjetivo à vida, e não também um princípio objetivo de inviolabilidade da vida. Isto porque poderia ser eventualmente questionável (embora não necessariamente) a irrenunciabilidade e indisponibilidade desse direito. Com a formulação desse princípio objetivo, não pode haver dúvidas de que o direito à vida é irrenunciável e indisponível.

Descatolização do Brasil

Descatolização é hoje palavra expressiva na inteligência brasileira, quando se fala de vivência religiosa e ou experiência de espiritualidade, em identidade reconhecida de invocação ao sagrado, ao mistério, aos desígnios de Deus. No povo flagelado por desigualdades, excessos, agressões, acidentes, a fronteira entre vida e morte é invisível, a morte matada ou a morte morrida de João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa acontecem, sem cuidado, motivo ou previsão.

Fora com os judeus?

Curiosamente, o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto, 27 de Janeiro, surgiu este ano poucos dias depois de o líder populista dum partido político de extrema-direita, que se caracteriza por um discurso xenófobo, racista e misógino, ter obtido quase meio milhão de votos em Portugal. O leit motiv da campanha desse partido foi a diabolização social e política da comunidade cigana, à falta de problemas com as comunidades de imigrantes, ao contrário de alguns países europeus, de modo a fazer dos ciganos portugueses os maus da fita que vivem à custa dos nossos impostos, paralelo ao discurso cavalgado pela extrema-direita que se queixa dos imigrantes por tirarem o trabalho aos nacionais desses países. Isso e o discurso do medo.

O que nos salva? – uma espécie de carta à Humanidade

Temos absoluta necessidade de dar nome às coisas, visíveis e invisíveis, porque temos absoluta necessidade de compreender, e porque não somos capazes de determinar os limites da nossa própria alma. Sabemos que sentimos, que temos vida interior, íntima, e até isso, que é um dado absoluto, remete para um mistério sem nome; pois de onde nos vem e onde está sustentada no Ser esta capacidade íntima de ser dentro, de ser para si mesmo, esta intimidade ontológica?

Descatolização do Brasil

Descatolização é hoje palavra expressiva na inteligência brasileira, quando se fala de vivência religiosa e ou experiência de espiritualidade, em identidade reconhecida de invocação ao sagrado, ao mistério, aos desígnios de Deus. No povo flagelado por desigualdades, excessos, agressões, acidentes, a fronteira entre vida e morte é invisível, a morte matada ou a morte morrida de João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa acontecem, sem cuidado, motivo ou previsão.

Cuidado e dignidade humana

Quando se pede que nos protejamos e protejamos os outros, estamos, a um tempo, a apelar para que privilegiemos o valor da sobriedade e para que façamos tudo o que estiver ao nosso alcance para pôr em comum o que pode ajudar-nos a todos. Temos de criar condições no tempo próprio para que voltemos a estar próximos, a olhar-nos nos olhos e a evidenciar os nossos afetos. Mas temos de dar tempo ao tempo e preparar-nos com ponderação e bom senso, usando o cuidado como fator de humanidade.

Um livro que nos ajuda a resistir

Um dos aspectos positivos (se é que os há) desta pandemia é o facto de termos tempo para ler, escrever e pensar sem o stress habitual. E um dos livros que mais apreciei enquanto confinada foi A Resistência Íntima. Ensaio de uma filosofia da proximidade, de Josep Maria Esquirol.

O Pastor Ferido

Recebi um livro de Austen Ivereigh com o título O Pastor Ferido – O Papa Francisco e a Sua Luta para Converter a Igreja Católica (ed. Vogais). É um texto com 511 páginas, 80 das quais com referências às fontes onde se fundamentou o autor para as suas constatações e análises. Confesso que interrompi as anteriores leituras que estava a fazer, tal foi a enorme curiosidade que se apoderou de mim. Confesso que fui galvanizado pelo conhecimento das intrigas a que o Papa tem estado sujeito desde o início do seu pontificado.

A fábula dos bons e dos maus

Como muito bem sugeriu Marcelo, o governo deve rever a lei eleitoral e a constituição desde já. Há que admitir o voto por correspondência, reforçar o voto antecipado, e permitir que uma eleição possa ser adiada em caso de calamidade como a que estamos a viver. Mas deviam aproveitar para acabar com o chamado dia de reflexão, que é politicamente pré-histórico, e considerar um mandato único de sete anos para Belém, de modo a deixar de transformar os primeiros mandatos em campanha permanente para a reeleição.

Banco de Tempo, solidariedade e o legado da minha mãe

Pergunto-me ainda porque vivi quatro anos em Lisboa e não conheci um vizinho meu. Vivia num prédio com elevador, diga-se. Cruzava-me com pessoas nesse lugar, mas nunca nos falávamos, um bom dia que fosse… nunca ouvi, e nunca o disse… nunca quebrei o gelo. Tive de o quebrar, agora, dez anos depois, num prédio diferente, quando precisei que um residente em Portugal assinasse uma declaração atestando que um parente meu era seu vizinho. Para se obter um Atestado de Residência, em Portugal, é imperioso que um vizinho o ateste, antes da Junta da Freguesia.

Ihor Homenyuk, morada e conterrâneos

E para que não esqueçamos como é difícil romper a espessa camada do preconceito e da sobranceria nacionalista, não apenas em relação aos trabalhadores da construção civil como Ihor Homenyuk (onde se juntam o preconceito racial com o preconceito de classe), sir Hersch Lauterpacht, o académico de renome mundial, cavaleiro da Ordem do Império Britânico, foi eleito, em 1955, juiz do Tribunal Internacional de Justiça de Haia, “apesar da oposição de alguns que o consideravam insuficientemente britânico”.

O homem que o povo alemão pedia

Porquê escrever, a pretexto de um dia em memória das vítimas do Holocausto, sobre o homem responsável pelo maior genocídio da história? Porque também hoje pululam pequenos homens cheios de ódio, incapazes de lidar com a sua insignificância pessoal, mas cujo ego descomunal estimulado por um contexto favorável os pode transformar em caudilhos de populações exasperadas pelo abandono e pelo medo.

A ecologia integral de Leonardo Boff e as encíclicas do Papa Francisco

Professor brilhante, em 1992 deixou o ministério sacerdotal e a ordem de que fazia parte, e com outros teólogos veio a ser um dos grandes impulsionadores da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base. Continuou o seu trabalho de evangelização e, agora, colaborou nas duas encíclicas do Papa Francisco, o que traduz duas certezas: uma, que foi reabilitado; outra, que as teses que defende não estão em desacordo com o pensamento da Igreja Católica romana.

“Re-samaritanização” na “Fratelli Tutti”

O Papa Francisco entendeu por bem dedicar o segundo capítulo da encíclica Fratelli Tutti (FT) à parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37). E a maneira como aborda o tema permite-nos falar de “re-samaritanização”, por dois motivos: primeiro, porque vem recordar que este modelo tão antigo de caridade e de ação-intervenção social mantém plena atualidade; e, em segundo lugar, porque interpreta a parábola de maneira diferente da mais comum e tradicional.

A fraude do nacionalismo cristão

A secção de língua inglesa da International Bonhoeffer Society (fundada em 1973), um grupo de teólogos e académicos dedicados a estudar a vida e os escritos deixados pelo pastor luterano alemão e resistente antinazi Dietrich Bonhoeffer, executado em 1945 num campo de concentração, juntou-se ao crescente coro de autoridades eleitas, académicos e líderes religiosos que pedem a destituição do Presidente Donald Trump.

Euforia, esperança ou amnésia coletiva

2020 foi um ano em que, em boa parte, nos perdemos. Alguns arriscaram, mas, perante as consequências do destemor inicial, recuaram e reposicionaram a sua forma de vida. Outros não aprenderam nada e exibiram-se heróis, como se os riscos comprovados não existissem, como se as ameaças fossem coisa de fracos e de gente fora de moda. Pois é mesmo disso que tenho medo – de uma amnésia coletiva.

Educados por fantasmas

Aliás, se as crianças e os jovens são hoje educados por fantasmas, os adultos estão longe de ser imunes ao seu fascínio. É como se a envolvência de tal mundo, que afecta ambos, não permitisse um pensamento a frio sobre ele. Ainda que o, por assim dizer, crime de pensar, seja precisamente a única forma possível de nos colocarmos ainda diante desse mundo. À distância que nos permite o pensamento crítico verificamos que estes fantasmas falam. São veículos de ideologia.

E se confinássemos?

Inclinado, como é meu hábito, a confiar nas explicações científicas, e até mesmo na humilde incerteza que toda a séria certeza tem, aceito, evidentemente, que estamos a percorrer o caminho mais seguro para limitar a tragédia e assegurar, tanto quanto possível é prever, uma evolução favorável. Igualmente convicto da boa-fé, rectidão de motivos e sentido do serviço público de quem, em tempos tão difíceis, tem conduzido o país, não me resta qualquer paciência para opiniões avulsas ou teorias da conspiração.

A máscara – espelho da alma

A propósito da recolha, compilação e publicação de alguns contos e lendas do concelho de Bragança, todos eles belíssimos e inspiradores, resolvi escrever sobre um deles (A Máscara de Ouro), por três razões principais: a primeira razão prende-se com o facto de unir a memória e o território, na figura do Abade de Baçal, patrono do meu Agrupamento de Escolas;

A Gaivota que nos ensinou o que é a esperança

Muitas vezes são invejadas as pessoas que abraçam a vida com uma atitude de esperança. Como se esta fosse um dom inato que permitisse viver com maior ligeireza. Contrariamente ao que se possa pensar, a esperança é um ato de resistência, um combate interior e, por vezes, exterior. Exige muitíssimo mais olhar o mundo com um olhar de esperança e de braços erguidos quando tudo parece perdido do que, pura e simplesmente, aceitar a dureza da realidade que não nos satisfaz.

O estado dos portugueses

Era bom que todos entendessem que a presente situação pode ser ainda pior do ponto de vista emocional do que uma guerra, pelo menos num aspecto. É que a guerra implica um inimigo a combater, com um rosto, uma intenção e uma identidade, contra quem se podem dirigir as nossas energias, o que não é possível numa pandemia causada por um vírus que não se vê a olho nu e cuja presença não se sente nem percepciona.

A Igreja silenciada em 2020

2020 foi também o ano em que o Papa publicou a exortação apostólica Querida Amazónia e a encíclica Fratelli Tutti. A primeira foi uma verdadeira declaração de amor àquela parte do globo e um sublinhado das suas preocupações ecológicas. A encíclica é uma síntese de todo o seu magistério e, sobretudo, do seu pensamento social. É mais uma publicação em que o Papa realça que a opção preferencial da Igreja deve ser pelos mais pobres.

Prevenir contra a depressão sem medicamentos

A leitura é um hábito que oferece um mundo imaginário onde podemos experimentar como nós e o ambiente que nos rodeia são relacionais e interdependentes. E como tudo está relacionado com tudo, quando lemos, nunca nos sentimos sós. Ler ajuda-nos a amar o lado incompreensível do mundo, e a compreender a faceta do mundo que temos mais dificuldade em amar.

A Paz é uma conquista interior

Costumamos inaugurar os anos com desejos de paz, o primeiro dia do ano é o Dia Mundial da Paz. Falamos de paz como se ela dependesse apenas ou predominantemente de fatores externos. Raramente nos questionamos como é o ambiente de paz dentro de nós e como podemos ser construtores da paz, cada dia, cada hora, cada minuto que vivemos. Porque, na verdade, sem essa paz conquistada sobre nós mesmos jamais conseguiremos ser construtores de paz no mundo.

A insurreição americana

Donald Trump passou todo o mandato a destilar ódios e a dividir o país, colocando uns americanos contra os outros. Como se isso não bastasse funcionou como uma bola de demolição num processo sistemático e orientado de destruição do sistema democrático.

Cuidar para que haja paz

Cuidar é um imperativo ético que envolve a pessoa toda. Exige relação fundamentada na empatia e numa atenção ao outro em todos os aspetos da sua condição de ser e de bem-estar global. Cuidar torna-se numa relação profundamente interpessoal. Para assim ser, tem de estar envolta em permanente e perfeito humanismo. Trata-se, por isso, de uma relação muito exigente.

“Natureza humana” e “condição humana” em tempos de pandemia

O conceito de natureza humana fez carreira ao longo da história da filosofia sendo usado durante séculos sem levantar problemas. A época moderna foi fértil em livros dedicados a esta temática que poderíamos incluir no rol das ideias geradoras de que nos fala a filósofa Susan Langer. Trata-se de conceitos fundadores que determinadas épocas elegem, tematizam e desenvolvem, mantendo-os inquestionáveis ao longo de um tempo mais ou menos longo.

Perdidos no monte errado

Pelo facto de os montes serem lugares elevados, mais perto do céu, sugeriam maior proximidade com Deus. Ainda hoje há quem vá orar para um monte, com esta mesma inspiração; todavia sabemos que Deus está em todo o lugar, nos montes e nos vales. Se não fosse assim as geografias planas, as terras baixas, as ilhas sem elevações ou os mares não inspiravam a oração e a aproximação a Deus.

Fanatismo

Diante das notícias sobre o atentado terrorista na catedral de Nice, volta a surgir a perplexidade diante de uma tão chocante manifestação de ódio e desumanidade praticada em nome de Deus e de uma religião. Como é isso possível? Será isso próprio de uma religião determinada, ou da religião em geral? Não deveriam as religiões servir para a elevação moral da humanidade e a construção da paz? Para responder a esta questão, pareceu-me de grande interesse um pequeno livro recentemente publicado, da autoria de Adrien Candiard, dominicano e professor do Instituto Dominicano de Estudos Orientais do Cairo: Du Fanatisme (Les Éditions du Cerf, 2020).

Alerta e Misericórdia – Falhas, Faltas, Fala

A política de acolhimento e integração nem sempre resulta. A burocracia instala-se, a perturbar as boas práticas. Em março, tempo de plena pandemia, por despacho do Governo foi regularizada a situação de imigrantes com processos pendentes. Através de uma declaração do SEF, podiam aceder ao Centro de Saúde. Mas essa declaração não funcionava. Era recusada pelo funcionário do Centro de Saúde, onde só é aceite aquele que tem documento de residência.

Eduardo Lourenço, pensar livre…

Uma das visitas mais fascinantes que fiz ao Museu do Prado foi na companhia de Eduardo Lourenço. Não me lembro de quanto tempo tivemos juntos, percorrendo as salas de um modo totalmente desprendido, esquecidos das horas e do tempo. Aconteceu como nos velhos contos medievais em que um minuto se torna mil anos, como com o monge que se distraiu a ver a paisagem e ao voltar já não conhecia os companheiros do convento, pois tinha passado um ror de tempo naquele minuto esquecido.

A arte de ouvir

Aprender a ouvir os outros pode ser uma das maiores lições da nossa vida. Não iremos apenas escutar e entregar aquilo que temos. Vamos também crescer e absorver o conhecimento de outrem, questionando as nossas escolhas e apontando para novos caminhos. Falta-nos esta bonita vontade de querermos subjugar o nosso ego à criação de felicidade alheia. E, quem sabe, até nos possa levar para mais perto daquilo que idealizamos como uma plena paz de espírito. Uma felicidade menos artificial.

Deus também é mulher

Na poesia otomana é frequente Deus aparecer na figura masculina e com atributos de beleza semelhantes ao de um adolescente. O historiador Selim Kuru explica que o género de Deus não seria definitivamente ou masculino ou feminino, já que as meninas e os meninos, até à puberdade, não se distinguem como tal; as semelhanças entre os dois sexos são tantas que essa diferença não se nota.

Embuste à la carte

A superstição campeia sobretudo em tempos de crise. Muitos dos grandes estadistas mundiais são e sempre foram sensíveis a este embuste, assim como artistas de topo e figuras públicas. O facto é que são gente, feitos da mesma massa que todos os humanos. Também sofrem ansiedades e receios, também são frágeis, independentemente da imagem pública que cultivam, também têm muita dificuldade em lidar com a incerteza.    

A minha sogra merece, as outras também

Não é por ser eu a escrever que elogio a minha sogra. É que ela, de facto, merece elogios e uma boa lembrança da minha parte. Tenho pena de não ter convivido muito mais tempo com ela. Digo isso repetidas vezes.

Somos continuadores das grandes perguntas

Para os meus cinco anos de grego já patinado, as traduções de Dimas Almeida é o que melhor representa o original. Ficámos a pensar que os dois mil anos passados não nos fazem mais inteligentes ou mais simples, mas sim continuadores das grandes perguntas e dos grandes interesses, com as mesmas tendências fundamentais positivas e negativas, embora sujeitos continuamente a novos condicionalismos. Até gostamos de usar expressões praticamente idênticas.

Um Natal na guerra – 24 Dezembro 1971

Nessa noite de 24 de dezembro de 1971, assisti, na minha vida, ao espetáculo mais deprimente e humanamente degradante que alguma vez imaginei. Quando o álcool se torna o único escape para o Homem esquecer o ambiente e as circunstâncias em que está mergulhado, desce ao mais baixo da sua condição. Foi a isso que assisti, na companhia da minha mulher que, contra todas as regras militares, me acompanhava no mato de Angola, em Cassamba, naquela noite de 24 de dezembro de 1971.

mas as crianças, Senhor…

O meu sogro contava que quando era pequenino e havia alarme aéreo na sua cidade, a família e os vizinhos corriam para a cave do prédio, e ali passavam boa parte das noites encostados uns aos outros a ouvir o ruído das bombas a cair e a explodir à sua volta. “A minha mãe dizia em tom decidido: a nós não vai acontecer nada!” – contava ele, com um sorriso – “e eu acreditava piamente, porque era a minha mãe, e o modo como o dizia não deixava margem para dúvidas.”

Uma receita religiosa q.b.

Do mesmo modo que os cinco dedos, embora unidos numa mesma mão, não são iguais, é preciso reconhecer que as religiões monoteístas, em particular o cristianismo e o islão, têm verdades, defendem doutrinas e sustentam-se em princípios irreconciliáveis entre si. E o ponto principal de discórdia é a afirmação cristã de que Deus se fez homem em Jesus – tão próprio da celebração desta época do ano – que a fé islâmica rejeita totalmente.

O Natal é inclusivo ou não é Natal

Normalmente tendemos a excluir os diferentes de nós, aqueles em que reconhecemos factores diferenciadores, como a cor da pele, a religião, as opções políticas, sociais ou sexuais, mas também os de usos e costumes distintos dos nossos. A dar vazão a essa tendência, e por esta ordem de ideias, teríamos que excluir então a esmagadora maioria da população mundial. É que semelhantes a nós há muitos poucos, se tivermos em conta um conjunto largo de critérios de exclusão.

Homens e as suas circunstâncias

O Homem é o Homem, e as suas circunstâncias. Estamos repletos de contradições e fragilidades. Essa é uma postura de humildade que importa reconhecer, não para nos calarmos e tornarmos seres formatados e desprovidos de sentido crítico. Antes, para assumir com franqueza as nossas posições e defendê-las. Silenciar é negar a singularidade humana. Negar humanidade e vivências com as quais todos poderão ter algo a aprender. Fugir ao contraditório destrói mais convicções do que as que protege.

Natal 2020: regresso da anormalidade

Enquanto isto, chegou-nos a notícia que divulgamos, sem motivo de lágrimas: o velho Simeão acaba de falecer na paz do Senhor, por não querer esperar pela vacina, depois de ter lido fake news segundo as quais os idosos ficariam, outra vez, para o fim. Antes de partir, deixou este último desejo: “Que todos vejam como eu vi a salvação, preparada para os povos, e nada volte à normalidade!”

O presépio

Na metáfora que Olga tece, o Presépio de Bardo é como uma carta que a humanidade dirige a Deus para lhe dizer quem somos e como vemos o mundo a partir de baixo. Santo Agostinho dizia que os Salmos eram cartas que o Senhor escrevia à humanidade para acender nela o desejo de tornar a casa. O conto de Olga Tokarczuk sobre o presépio é como uma carta que a humanidade escreve a Deus para que Ele não se esqueça deste vale de lágrimas.

Boas notícias do tempo que passa

Se carregarmos os nossos pesos muito tempo, mais tarde ou mais cedo não seremos capazes de continuar, porque a carga vai-se tornando cada vez mais pesada. É preciso deixar o copo e descansar um pouco antes de o segurar novamente. Temos de deixar, periodicamente, a carga de lado. Isto alivia-nos e torna-nos capazes de continuar. Esta é a forma de aproveitar a vida.

O Cristo do meu pai preferia ficar na sala…

Antes de abrirmos as terrinas, antes de virarmos as bocas dos pratos para o tecto, antes de baralharmos as facas e os garfos, a minha avó obrigava-nos a fechar os olhos e orar. A minha avó deixava a porta semiaberta durante a oração; depois do ámen encostava a porta. Cristo era tão humilde em nossa casa, entrava do pequeno espaço que a minha avó deixava entre o aro e a porta.

Libertar do esmagamento estrutural

As nossas estruturas são mais pesadas do que aquilo que Deus criou na natureza. É esta a conclusão de um artigo publicado na Nature. Enquanto há uma preocupação saudável com a criação de Deus, onde se procura escutar o clamor da Terra e o dos pobres que habitam na casa comum, pouco se tem pensado na co-criação com Deus e que é da nossa exclusiva responsabilidade.

Diferenças culturais

Stupeur et Tremblements é um livro de Amélie Nothomb que fala dos choques culturais entre japoneses e uma belga nascida no Japão que pensava que conhecia o país. O livro relata a sua carreira numa empresa: começou no posto mais baixo, e a partir daí foi sempre a descer. Gosto muito da Amélie Nothomb, e este é um dos seus livros que li com mais gosto.

Tratado de acolhimento: duas reflexões sobre o presépio

Os seguintes, foram uns magos do oriente e que vinham talvez de sítios diversos do mundo. Não se sabe muito mais que isto, pese embora haja muitas tradições sobre os reis magos. Sabemos que uma diz que um deles era negro. Domingos Sequeira, pintor português do século XIX, na sua Adoração dos Magos pinta-os às dezenas, vindos de todos os sítios do mundo orientados pela brilhante estrela de Belém que a todo o quadro dá uma intensa luz.

A alma de Eduardo Lourenço

Em entrevista realizada em 2006 Eduardo Lourenço afirmava: “O que define o Homem é o facto de ele ser uma alma”, querendo significar que a pessoa humana está muito para lá da mera corporeidade. O país tem prestado homenagem ao insigne pensador, em especial nas últimas semanas, devido ao seu desaparecimento, mas o facto é que estamos perante um pensador com alma.

Um Natal sem Herodes

Não vou falar do Natal da minha infância, quando tinha pais e avós. Refiro-me ao Natal de hoje em que essa geração já não existe e somos nós agora os pais e os avós. A família foi crescendo (ou, realisticamente falando, envelhecendo) e o grupo restrito aumentou, ficando cada vez maior. Transformados em avós e a geração abaixo em pais, passámos a ser uma quase multidão.

Um padre pela Libertação

Confesso que me sinto desconfortável a escrever esta prosa. Pensava fazê-lo mais tarde, quando estivesse mais liberto da emoção que me causou a morte do padre João Gonçalves, coordenador nacional da Pastoral Prisional católica. Mas, pensando melhor, decidi fazê-lo já, porque, em muitas circunstâncias, penso que é bom fazer brotar tudo o que nos grita a alma. Assim, somos nós próprios.

O papel da UE numa África cada vez mais dependente da China

Dezembro de 2019 parece que foi há muito tempo, não tivesse, entretanto, o mundo mudado por causa da covid-19. No entanto, remonta à fase inicial do mandato da Comissão Europeia, que ainda tem muitos anos para cumprir. Foi nesse mês que Ursula von der Leyen foi a Adis Abeba reunir-se com Moussa Faki, presidente da Comissão da União Africana. O objetivo fundamental foi o de se discutir uma parceria estratégica e a gestão migratória.

Advento: Vida vivida, noite e dia

Desde 15 de Março, às vésperas da nossa estreia em estados de emergência, morreram-me trinta e um, entre amigos e amigas, os próximos e aparentados, os que desde sempre conheci, os que foram importantes ao longo de tantas peripécias, acontecimentos, fases de crise ou crescimento. De quem guardo momentos, frases, gestos, jeitos, tons de voz. Minoria por covid. Maioria por doença maior, por súbito surto, síncope, mal de coração, esvaimento de cabeça. Por velhice, por cansaço ou demasiado viver.

Tropeçar com Eduardo Lourenço na palavra “Jesus”

Colocando as bem-aventuranças no início da atividade pública de Jesus, o evangelista Mateus talvez nos queira sugerir a construção da humanidade de Jesus no tempo e no espaço. A vida furtiva de Jesus talvez não seja tão anónima quanto isso. Lendo e meditando as bem-aventuranças talvez descubramos, afinal, em que ocupou Jesus os seus dias de ilustre desconhecido: a construir e forjar a sua alma.

“O meu amigo” de toda a gente

Como “o meu amigo P. João”, íamos almoçar frequentemente junto à ria ou ao pé do mar. E tudo era boa conversa. Aí não havia tabus para falar da morte e sobretudo do sofrimento; de sexualidade e sobretudo de equilibradas relações humanas; de religião e sobretudo da vida espiritual. Muitas vezes em desacordo, mas esses desacordos originavam novas conversas mais profundas.

Nagorno-Karabach

Em todo o caso, Nagorno-Karabakh tinha uma posição central no reino arménio quando, na passagem para o século V, Mesrop Mashtots instalou no já centenário mosteiro de Amaras a primeira escola da língua arménia que utilizava o alfabeto por ele criado. Foi portanto nessa região que, há mil e seiscentos anos, se deram os primeiros passos para escrever a Bíblia em arménio, outra peça fundamental do reforço da identidade arménia para se distinguir dos outros povos que coexistiam e se moviam sobre o mesmo espaço geográfico.  

Reaprender a ser pobre

Não se está aqui de maneira nenhuma a defender qualquer espécie de estoicismo em que se atinge a ataraxia ou empatia face às adversidades da vida, o conformismo perante a pobreza ou até mesmo o despreendimento total das riquezas. Uma coisa é ter necessidade de consumir para satisfazer as nossas necessidades mais elementares e básicas, outra é deixar-se conduzir pelo consumismo desenfreado, motor que sustenta o capitalismo selvagem em que estamos mergulhados. Querem-nos ensinar a ser ricos e prósperos, quando o que necessitamos realmente é reaprender a ser pobres.

O pecado cheira a sexo

De facto as religiões abraâmicas nunca souberam lidar de forma natural com a sexualidade humana. Na tradição cristã o pecado cheira a sexo. Parece que a escravatura, a exploração dos pobres pelos poderosos, o racismo, a xenofobia, a subjugação da mulher por uma organização patriarcal das sociedades, o roubo, as ofensas corporais, a violência doméstica, o genocídio, o comércio de armas de guerra, a fuga ao fisco, a pena de morte, o falso testemunho, a calúnia, a difamação, e tantos outros pecados não têm importância nenhuma quando comparados com as questões da sexualidade.

Entre a Terra e o Céu

Toda a realidade clama a glória de Deus – as pedras da calçada, a natureza inteira e todas as criaturas. Depois da vinda de Cristo, o reino de Deus está efetivamente próximo. Não se trata apenas de uma proximidade temporal (no entendimento de que, perante a eternidade, o tempo é nada). Trata-se, sim, de uma proximidade espacial – o Reino já está no meio de nós, está em nós.

Da Laudato Si’ à Economia de Francisco de Assis

O bispo de Roma, Papa Francisco, desde a exortação Alegria do Evangelho, passando por inúmeras intervenções, até às encíclicas Louvado Sejas e Todos Irmãos, do debate contínuo sobre sinodalidade, a Querida Amazónia e, agora, o encontro A Economia de Francesco, tem assumido situações de rotura perante aquilo a que estávamos habituados de letargia do entendimento do que é a Igreja nos tempos em que vivemos.

Fé e ciência: duas asas para um mesmo voo

No pensamento e no olhar que temos acerca do mundo importa superar alguns monolinguismos. A visão que se produz a partir de uma única ótica pode tornar-se verdadeiramente redutora e empobrecedora do espírito humano, chegando mesmo a limitar o nosso horizonte de conhecimento. Muitos desses monolinguismos tendem a alimentar narrativas conflituais ou mesmo antagónicas – como sejam, a título de exemplo, fé vs. razão; religião vs. ciência; transcendência vs. imanência.

Bahá’i e Cristo-Rei

A festa litúrgica de Cristo Rei corre o risco de alimentar um triunfalismo religioso, a dois passos do fanatismo, em vez de meditar no que ela significa. Ora o “reino de Deus” não é apresentado como conceito (nem os exegetas encontram dele uma definição): manifesta o optimismo do plano de Deus, que se vai realizando com o contributo de “todas as pessoas de boa vontade” (os destinatários da universalmente famosa encíclica Pacem in Terris, de João XXIII). Os conceitos não evitam a imprecisão e debilidade próprias da expressão humana.

A espiritualidade em tempo de pandemia

Quem conseguir ler profunda e espiritualmente este Tempo, descobrirá uma forma e um meio de transformação pessoal que o fará ser diferente, talvez cuidando mais a criação, o outro e a própria vida; quem viver este período na solidão, na incapacidade de reler o sentido da própria existência, poderá não ir além daquela atitude primária de quem volta à prepotências das agendas, à escravidão das reuniões, aos horários indisciplinados e velozes, à displicência com a família e à arrogância sobre o ambiente e a Criação.  

Espinhos

Se fosse para escolher, preferiam um Deus poderoso e autoritário, um Deus alheio à empatia, ou um Deus que se fez nascer na mais extrema pobreza, que conheceu o exílio para fugir à perseguição de um rei movido por ódio assassino, que criou inimigos entre os poderosos e os instalados porque estava sempre do lado dos excluídos e dos que sofrem, e que acabou por morrer depois de terríveis torturas? Um Deus exterior e superior a nós, ou um Deus que sabe bem o que custa a vida dos humanos, porque sofreu tudo isso na própria pele?

Hamelin e a relativização do mal

Se o diabo em pessoa surgisse bem vestido, com um discurso conservador, a relativizar a falta de ética social, a falta de amor e de cuidado pelo próximo, aliado aos poderosos, mas a marginalizar minorias e a apontar o dedo a determinados comportamentos relacionados com uma certa moral sexual, muitos cristãos o seguiriam como os ratos seguiram o flautista de Hamelin, hipnotizados, até se afogarem no rio. No conto dos irmãos Grimm, O Flautista de Hamelin, narra-se a estória de como aquela comunidade germânica se viu livre duma praga de ratos, no séc. XIII.  

Vidas que também importam

Sabemos que a justificação para a legalização do aborto eugénico é uma justificação “piedosa”: o aborto seria um ato de misericórdia que poupa às suas vítimas uma vida infeliz. Mesmo que isso fosse verdade, nunca justificaria que alguém se substituísse a essas vítimas para formular esse juízo. Mas o testemunho de muitas pessoas com o síndrome de Down, e de muitas famílias que as acolhem, revela que essas pessoas são felizes, apesar das suas limitações e da falta de apoios sociais que lhes seriam devidos.

O sonho de Mohamed Zakaria, morto por um camião quando fugia da polícia em Calais

O mundo chora mais uma morte de um refugiado, uma morte sem sentido, uma morte não necessária, apenas porque os países de acolhimento não garantem passagens seguras para a Europa e, neste caso, dentro da própria Europa.
Esta é a carta escrita pelos amigos de um jovem que partiu para Deus e que estão na mesma situação em que ele se encontrava: na fronteira em Calais (França), esperando a oportunidade de passar, através do Canal da Mancha (em barcos ou camiões), para o Reino Unido, para aí pedirem asilo.

Valha-me o bom samaritano

A idolatria da juventude leva os mais velhos a dizer coisas como “já não tenho idade para mais”. O referido palestrante ridiculariza esta desculpa. Eu vou tendo idade para fazer as coisas com mais experiência e conhecimento – e, portanto, com mais criatividade.
Aproveito ainda não ter lido a carta de Francisco Samaritanus bonus para exemplificar sentimentos e razões que podem nascer das referências e comentários nos meios de comunicação – como no 7MARGENS.

A Ilha da Verdade no Oceano da Desinformação

Quando vejo quanto tempo as pessoas dedicam aos seus ecrãs, dentro e fora de casa, mais ainda em tempo de pandemia onde andamos todos feitos zoomies, isto é, mortos-vivos de zoom em zoom, fico a pensar que não nos podemos queixar de não ter sido avisados. O que procuramos com todo este dinamismo digital? Que valor tem a conectividade permanente para uma vida plena e profunda? Sabemos ainda o que alimenta uma vida profunda?

O futuro será bom, se o presente o for

E, já agora, falando em mulheres e em livros, escrevo, também, numa altura em que me encontro a fazer um prefácio a uma antologia de textos literários de mulheres, juntamente com Ana Mafalda Leite. Eu e ela, bem como Ana Rita Santiago, ambas docentes de literaturas; a primeira em Portugal e a segunda no Brasil, temos trabalhos nos quais recenseámos a existência de mulheres escritoras em Moçambique (nascidas no país e lusodescendentes), das quais pouco se fala e escreve. Aproveito este espaço para divulgar os nomes dessas escritoras e mais adiante, neste texto, explicarei a razão da sua invocação. Colocarei em itálico, os nomes das que me consta não estarem entre nós.

Uma utopia do reino dos céus aqui na terra

Sendo a religião puritana uma religião assente na Palavra de Deus, a pregação e a leitura da Bíblia eram extremamente fundamentais para a sua fé. A fim de que todos pudessem ter acesso às escrituras, colocavam forte ênfase na alfabetização e educação. Como consequência, tudo o que não constasse nas Escrituras, como as decorações nas igrejas, orações escritas, vestes sacerdotais, uso do sinal da cruz, ritualismo instituído, eram de todo rejeitados.

52 ed Orbmevon

Assistimos hoje a uma versão açoriana de uma espécie de 25 de Novembro ao contrário (como no título). Se em 1975 a esquerda antidemocrática tentou tomar o poder pela força, agora é a direita antidemocrática a tentar fazê-lo encavalitada num PSD onde Sá Carneiro já teria muita dificuldade em rever-se.

Um justo chamado Angelo Roncalli

Angelo Roncalli teve um pontificado curto, menos de cinco anos, de 1958 a 1963. Devido à sua idade já avançada e estado de saúde frágil, no momento da sua eleição foi encarado como um Papa de transição. Foi, por isso, com grande surpresa que foi acolhida a notícia da convocação de um concílio ecuménico, o Concílio do Vaticano II, que viria a mudar a vida da Igreja, aproximando-a dos fiéis e reforçando a sua participação litúrgica.

Uma oportunidade para a renovação democrática

Se é importante sublinhar que as identidades pessoais e coletivas configuram convenções socialmente necessárias à convivência, elas constituem, antes de tudo, um desafio e uma tarefa quando reclamam por reconhecimento e justiça no espaço público. No entanto, se exploradas politicamente, dão lugar a expressões de fundamentalismos de vária ordem: muros que separam os “bons” dos “maus”, postos de trabalho para os de “dentro” e não para os de “fora”, entre outros fenómenos conhecidos.

Bater o coração com novas músicas de Abril

Sempre sonhei acordada: como seria se eu tivesse nascido e vivido antes do 25 de Abril? O que faria, que personagem era, quem seria eu dentro de um estado onde parte das minhas liberdades, direitos e garantias eram reduzidos ou inexistentes, se não tivesse a liberdade de conversar com quem eu queria, sobre o que queria? Ou ouvir qualquer tipo de música que me agrada e me faz pensar, ler os livros que bem entendo, dar a minha opinião acerca do que me rodeia?

Gonçalo – o jardineiro de Deus

Gonçalo Ribeiro Telles foi um católico inconformista e determinado. Subscreveu em 1959 e 1965 três importantes documentos de católicos em denúncia da ausência de liberdade, da censura, e da repressão, arcando com as consequências de uma tal ousadia. Os textos de 1959 intitulavam-se significativamente: “As relações entre a Igreja e o Estado e a liberdade dos católicos” e “Carta a Salazar sobre os serviços de repressão do regime”; ambos tinham como primeiros subscritores os Padres Abel Varzim e Adriano Botelho.

Ignorância útil

A disciplina de Cidadania e Desenvolvimento está nas escolas portuguesas desde 2018. No entanto, foi há cerca de dois meses que se levantou uma grande polémica em relação à obrigatoriedade da mesma, colocando em causa o papel do Estado na educação de matérias da responsabilidade educativa das famílias, tais como a Educação para os Direitos Humanos, a Educação Rodoviária, a Educação para a Igualdade de Género, a Educação Financeira, entre outras. 

Manuela Silva: palavra e coerência

O Centro de Reflexão Cristã (CRC), de Lisboa, celebra este ano o seu 45º aniversário. A assinalá-lo, e da forma mais significativa, o nº 53-54 (2019-2020) da revista Reflexão Cristã é inteiramente uma evocação da memória e do legado da saudosa Manuela Silva.

O Pacto de Mayflower

Há milénios que a utopia de um novo mundo está presente no imaginário dos povos. Desde a República de Platão, passando pela Terra Prometida “que mana leite e mel”, dos hebreus, pelas propostas humanistas de Erasmo de Roterdão, pela ilha de Thomas Moore (amigo de Erasmo) consagrada na sua obra Utopia (1516) e até ao Pacto de Mayflower (1620).

Querida Espanha, tranquilidad y serenidad!

Num mundo global, aberto, não-coercivo e cosmopolita, os alicerces de uma sociedade que se queira coesa não se fazem só com um passado social que se possa considerar comum. Não basta mencionar aqui e ali Vasco da Gama ou Cristóvão Colombo, Humberto Delgado ou Adolfo Suárez. As sociedades modernas sobrevivem baseando-se na confiança, num conjunto de relações entre as diferentes formas do Estado, as instituições independentes e os cidadãos.

Uma nova normalidade

Nestes tempos de confinamento somos em grande parte privados da convivência social. Mas a convivência com outro tipo de amigos não foi, felizmente, afectada – estão neste caso os escritores e os filósofos. Embora sempre fizessem parte integrante das nossas vidas, a sua presença intensificou-se nestes meses, levando-nos a viver com eles a situação de isolamento que nos foi imposta.

O Reino de Deus – dos Evangelhos às Escrituras Bahá’ís

Expressões como “Reino de Deus” e “Reino dos Céus” são recorrentes nos Evangelhos. Jesus usou dezenas de alusões, parábolas e ensinamentos para explicar essa realidade espiritual. Foi certamente a forma mais adequada que Ele encontrou para explicar o conceito à sua audiência, há cerca de 2000 anos.

Estende a tua mão ao pobre

É esse o lema para o IV Domingo Mundial do Pobres que neste domingo, 15, se assinala. Estou convencido de que não foi por mero ajustamento de calendário que o Papa Francisco marcou como último ato celebrativo do Ano Jubilar Extraordinário da Misericórdia um grande encontro com os pobres que responderam ao seu convite para se deslocarem a Roma, a fim de que ele pudesse estar com eles para ouvir as suas histórias de vida e, sobretudo, os abraçar.

Reaprender a conjugar o “Nós” – A importância de sermos Povo

De facto, muito facilmente caímos nos particularismos do Eu e esquecemos que, perante Deus, somos essencialmente Povo. É como Povo que o próprio Deus gosta de nos olhar, apesar de conhecer o coração de cada um de nós melhor do que nós mesmos. Mas é como “nós” e não como “eu”, que nos apresenta a atitude correta perante Ele.

Pandemia e Luta contra a Pobreza

Embora diferente das anteriores que até há pouco vivemos, esta crise tem, contudo, um padrão comum que é o de colocar à prova a robustez das democracias. Importa relembrar que as duas últimas crises pelas quais passámos – 11 setembro 2001 e crise financeira de 2008 – contribuíram para o enfraquecimento das democracias, nomeadamente no que diz respeito a restrições das liberdades e redução de direitos.