Entre Margens

Banco de Tempo, solidariedade e o legado da minha mãe novidade

Pergunto-me ainda porque vivi quatro anos em Lisboa e não conheci um vizinho meu. Vivia num prédio com elevador, diga-se. Cruzava-me com pessoas nesse lugar, mas nunca nos falávamos, um bom dia que fosse… nunca ouvi, e nunca o disse… nunca quebrei o gelo. Tive de o quebrar, agora, dez anos depois, num prédio diferente, quando precisei que um residente em Portugal assinasse uma declaração atestando que um parente meu era seu vizinho. Para se obter um Atestado de Residência, em Portugal, é imperioso que um vizinho o ateste, antes da Junta da Freguesia.

Ihor Homenyuk, morada e conterrâneos

E para que não esqueçamos como é difícil romper a espessa camada do preconceito e da sobranceria nacionalista, não apenas em relação aos trabalhadores da construção civil como Ihor Homenyuk (onde se juntam o preconceito racial com o preconceito de classe), sir Hersch Lauterpacht, o académico de renome mundial, cavaleiro da Ordem do Império Britânico, foi eleito, em 1955, juiz do Tribunal Internacional de Justiça de Haia, “apesar da oposição de alguns que o consideravam insuficientemente britânico”.

O homem que o povo alemão pedia

Porquê escrever, a pretexto de um dia em memória das vítimas do Holocausto, sobre o homem responsável pelo maior genocídio da história? Porque também hoje pululam pequenos homens cheios de ódio, incapazes de lidar com a sua insignificância pessoal, mas cujo ego descomunal estimulado por um contexto favorável os pode transformar em caudilhos de populações exasperadas pelo abandono e pelo medo.

A ecologia integral de Leonardo Boff e as encíclicas do Papa Francisco

Professor brilhante, em 1992 deixou o ministério sacerdotal e a ordem de que fazia parte, e com outros teólogos veio a ser um dos grandes impulsionadores da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base. Continuou o seu trabalho de evangelização e, agora, colaborou nas duas encíclicas do Papa Francisco, o que traduz duas certezas: uma, que foi reabilitado; outra, que as teses que defende não estão em desacordo com o pensamento da Igreja Católica romana.

“Re-samaritanização” na “Fratelli Tutti”

O Papa Francisco entendeu por bem dedicar o segundo capítulo da encíclica Fratelli Tutti (FT) à parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37). E a maneira como aborda o tema permite-nos falar de “re-samaritanização”, por dois motivos: primeiro, porque vem recordar que este modelo tão antigo de caridade e de ação-intervenção social mantém plena atualidade; e, em segundo lugar, porque interpreta a parábola de maneira diferente da mais comum e tradicional.

A fraude do nacionalismo cristão

A secção de língua inglesa da International Bonhoeffer Society (fundada em 1973), um grupo de teólogos e académicos dedicados a estudar a vida e os escritos deixados pelo pastor luterano alemão e resistente antinazi Dietrich Bonhoeffer, executado em 1945 num campo de concentração, juntou-se ao crescente coro de autoridades eleitas, académicos e líderes religiosos que pedem a destituição do Presidente Donald Trump.

Euforia, esperança ou amnésia coletiva

2020 foi um ano em que, em boa parte, nos perdemos. Alguns arriscaram, mas, perante as consequências do destemor inicial, recuaram e reposicionaram a sua forma de vida. Outros não aprenderam nada e exibiram-se heróis, como se os riscos comprovados não existissem, como se as ameaças fossem coisa de fracos e de gente fora de moda. Pois é mesmo disso que tenho medo – de uma amnésia coletiva.

Educados por fantasmas

Aliás, se as crianças e os jovens são hoje educados por fantasmas, os adultos estão longe de ser imunes ao seu fascínio. É como se a envolvência de tal mundo, que afecta ambos, não permitisse um pensamento a frio sobre ele. Ainda que o, por assim dizer, crime de pensar, seja precisamente a única forma possível de nos colocarmos ainda diante desse mundo. À distância que nos permite o pensamento crítico verificamos que estes fantasmas falam. São veículos de ideologia.

E se confinássemos?

Inclinado, como é meu hábito, a confiar nas explicações científicas, e até mesmo na humilde incerteza que toda a séria certeza tem, aceito, evidentemente, que estamos a percorrer o caminho mais seguro para limitar a tragédia e assegurar, tanto quanto possível é prever, uma evolução favorável. Igualmente convicto da boa-fé, rectidão de motivos e sentido do serviço público de quem, em tempos tão difíceis, tem conduzido o país, não me resta qualquer paciência para opiniões avulsas ou teorias da conspiração.

A máscara – espelho da alma

A propósito da recolha, compilação e publicação de alguns contos e lendas do concelho de Bragança, todos eles belíssimos e inspiradores, resolvi escrever sobre um deles (A Máscara de Ouro), por três razões principais: a primeira razão prende-se com o facto de unir a memória e o território, na figura do Abade de Baçal, patrono do meu Agrupamento de Escolas;

A Gaivota que nos ensinou o que é a esperança

Muitas vezes são invejadas as pessoas que abraçam a vida com uma atitude de esperança. Como se esta fosse um dom inato que permitisse viver com maior ligeireza. Contrariamente ao que se possa pensar, a esperança é um ato de resistência, um combate interior e, por vezes, exterior. Exige muitíssimo mais olhar o mundo com um olhar de esperança e de braços erguidos quando tudo parece perdido do que, pura e simplesmente, aceitar a dureza da realidade que não nos satisfaz.

O estado dos portugueses

Era bom que todos entendessem que a presente situação pode ser ainda pior do ponto de vista emocional do que uma guerra, pelo menos num aspecto. É que a guerra implica um inimigo a combater, com um rosto, uma intenção e uma identidade, contra quem se podem dirigir as nossas energias, o que não é possível numa pandemia causada por um vírus que não se vê a olho nu e cuja presença não se sente nem percepciona.

A Igreja silenciada em 2020

2020 foi também o ano em que o Papa publicou a exortação apostólica Querida Amazónia e a encíclica Fratelli Tutti. A primeira foi uma verdadeira declaração de amor àquela parte do globo e um sublinhado das suas preocupações ecológicas. A encíclica é uma síntese de todo o seu magistério e, sobretudo, do seu pensamento social. É mais uma publicação em que o Papa realça que a opção preferencial da Igreja deve ser pelos mais pobres.

Prevenir contra a depressão sem medicamentos

A leitura é um hábito que oferece um mundo imaginário onde podemos experimentar como nós e o ambiente que nos rodeia são relacionais e interdependentes. E como tudo está relacionado com tudo, quando lemos, nunca nos sentimos sós. Ler ajuda-nos a amar o lado incompreensível do mundo, e a compreender a faceta do mundo que temos mais dificuldade em amar.

A Paz é uma conquista interior

Costumamos inaugurar os anos com desejos de paz, o primeiro dia do ano é o Dia Mundial da Paz. Falamos de paz como se ela dependesse apenas ou predominantemente de fatores externos. Raramente nos questionamos como é o ambiente de paz dentro de nós e como podemos ser construtores da paz, cada dia, cada hora, cada minuto que vivemos. Porque, na verdade, sem essa paz conquistada sobre nós mesmos jamais conseguiremos ser construtores de paz no mundo.

A insurreição americana

Donald Trump passou todo o mandato a destilar ódios e a dividir o país, colocando uns americanos contra os outros. Como se isso não bastasse funcionou como uma bola de demolição num processo sistemático e orientado de destruição do sistema democrático.

Cuidar para que haja paz

Cuidar é um imperativo ético que envolve a pessoa toda. Exige relação fundamentada na empatia e numa atenção ao outro em todos os aspetos da sua condição de ser e de bem-estar global. Cuidar torna-se numa relação profundamente interpessoal. Para assim ser, tem de estar envolta em permanente e perfeito humanismo. Trata-se, por isso, de uma relação muito exigente.

“Natureza humana” e “condição humana” em tempos de pandemia

O conceito de natureza humana fez carreira ao longo da história da filosofia sendo usado durante séculos sem levantar problemas. A época moderna foi fértil em livros dedicados a esta temática que poderíamos incluir no rol das ideias geradoras de que nos fala a filósofa Susan Langer. Trata-se de conceitos fundadores que determinadas épocas elegem, tematizam e desenvolvem, mantendo-os inquestionáveis ao longo de um tempo mais ou menos longo.

Perdidos no monte errado

Pelo facto de os montes serem lugares elevados, mais perto do céu, sugeriam maior proximidade com Deus. Ainda hoje há quem vá orar para um monte, com esta mesma inspiração; todavia sabemos que Deus está em todo o lugar, nos montes e nos vales. Se não fosse assim as geografias planas, as terras baixas, as ilhas sem elevações ou os mares não inspiravam a oração e a aproximação a Deus.

Fanatismo

Diante das notícias sobre o atentado terrorista na catedral de Nice, volta a surgir a perplexidade diante de uma tão chocante manifestação de ódio e desumanidade praticada em nome de Deus e de uma religião. Como é isso possível? Será isso próprio de uma religião determinada, ou da religião em geral? Não deveriam as religiões servir para a elevação moral da humanidade e a construção da paz? Para responder a esta questão, pareceu-me de grande interesse um pequeno livro recentemente publicado, da autoria de Adrien Candiard, dominicano e professor do Instituto Dominicano de Estudos Orientais do Cairo: Du Fanatisme (Les Éditions du Cerf, 2020).

Alerta e Misericórdia – Falhas, Faltas, Fala

A política de acolhimento e integração nem sempre resulta. A burocracia instala-se, a perturbar as boas práticas. Em março, tempo de plena pandemia, por despacho do Governo foi regularizada a situação de imigrantes com processos pendentes. Através de uma declaração do SEF, podiam aceder ao Centro de Saúde. Mas essa declaração não funcionava. Era recusada pelo funcionário do Centro de Saúde, onde só é aceite aquele que tem documento de residência.

Eduardo Lourenço, pensar livre…

Uma das visitas mais fascinantes que fiz ao Museu do Prado foi na companhia de Eduardo Lourenço. Não me lembro de quanto tempo tivemos juntos, percorrendo as salas de um modo totalmente desprendido, esquecidos das horas e do tempo. Aconteceu como nos velhos contos medievais em que um minuto se torna mil anos, como com o monge que se distraiu a ver a paisagem e ao voltar já não conhecia os companheiros do convento, pois tinha passado um ror de tempo naquele minuto esquecido.

A arte de ouvir

Aprender a ouvir os outros pode ser uma das maiores lições da nossa vida. Não iremos apenas escutar e entregar aquilo que temos. Vamos também crescer e absorver o conhecimento de outrem, questionando as nossas escolhas e apontando para novos caminhos. Falta-nos esta bonita vontade de querermos subjugar o nosso ego à criação de felicidade alheia. E, quem sabe, até nos possa levar para mais perto daquilo que idealizamos como uma plena paz de espírito. Uma felicidade menos artificial.

Deus também é mulher

Na poesia otomana é frequente Deus aparecer na figura masculina e com atributos de beleza semelhantes ao de um adolescente. O historiador Selim Kuru explica que o género de Deus não seria definitivamente ou masculino ou feminino, já que as meninas e os meninos, até à puberdade, não se distinguem como tal; as semelhanças entre os dois sexos são tantas que essa diferença não se nota.

Embuste à la carte

A superstição campeia sobretudo em tempos de crise. Muitos dos grandes estadistas mundiais são e sempre foram sensíveis a este embuste, assim como artistas de topo e figuras públicas. O facto é que são gente, feitos da mesma massa que todos os humanos. Também sofrem ansiedades e receios, também são frágeis, independentemente da imagem pública que cultivam, também têm muita dificuldade em lidar com a incerteza.    

A minha sogra merece, as outras também

Não é por ser eu a escrever que elogio a minha sogra. É que ela, de facto, merece elogios e uma boa lembrança da minha parte. Tenho pena de não ter convivido muito mais tempo com ela. Digo isso repetidas vezes.

Somos continuadores das grandes perguntas

Para os meus cinco anos de grego já patinado, as traduções de Dimas Almeida é o que melhor representa o original. Ficámos a pensar que os dois mil anos passados não nos fazem mais inteligentes ou mais simples, mas sim continuadores das grandes perguntas e dos grandes interesses, com as mesmas tendências fundamentais positivas e negativas, embora sujeitos continuamente a novos condicionalismos. Até gostamos de usar expressões praticamente idênticas.

Um Natal na guerra – 24 Dezembro 1971

Nessa noite de 24 de dezembro de 1971, assisti, na minha vida, ao espetáculo mais deprimente e humanamente degradante que alguma vez imaginei. Quando o álcool se torna o único escape para o Homem esquecer o ambiente e as circunstâncias em que está mergulhado, desce ao mais baixo da sua condição. Foi a isso que assisti, na companhia da minha mulher que, contra todas as regras militares, me acompanhava no mato de Angola, em Cassamba, naquela noite de 24 de dezembro de 1971.

mas as crianças, Senhor…

O meu sogro contava que quando era pequenino e havia alarme aéreo na sua cidade, a família e os vizinhos corriam para a cave do prédio, e ali passavam boa parte das noites encostados uns aos outros a ouvir o ruído das bombas a cair e a explodir à sua volta. “A minha mãe dizia em tom decidido: a nós não vai acontecer nada!” – contava ele, com um sorriso – “e eu acreditava piamente, porque era a minha mãe, e o modo como o dizia não deixava margem para dúvidas.”

Uma receita religiosa q.b.

Do mesmo modo que os cinco dedos, embora unidos numa mesma mão, não são iguais, é preciso reconhecer que as religiões monoteístas, em particular o cristianismo e o islão, têm verdades, defendem doutrinas e sustentam-se em princípios irreconciliáveis entre si. E o ponto principal de discórdia é a afirmação cristã de que Deus se fez homem em Jesus – tão próprio da celebração desta época do ano – que a fé islâmica rejeita totalmente.

O Natal é inclusivo ou não é Natal

Normalmente tendemos a excluir os diferentes de nós, aqueles em que reconhecemos factores diferenciadores, como a cor da pele, a religião, as opções políticas, sociais ou sexuais, mas também os de usos e costumes distintos dos nossos. A dar vazão a essa tendência, e por esta ordem de ideias, teríamos que excluir então a esmagadora maioria da população mundial. É que semelhantes a nós há muitos poucos, se tivermos em conta um conjunto largo de critérios de exclusão.

Homens e as suas circunstâncias

O Homem é o Homem, e as suas circunstâncias. Estamos repletos de contradições e fragilidades. Essa é uma postura de humildade que importa reconhecer, não para nos calarmos e tornarmos seres formatados e desprovidos de sentido crítico. Antes, para assumir com franqueza as nossas posições e defendê-las. Silenciar é negar a singularidade humana. Negar humanidade e vivências com as quais todos poderão ter algo a aprender. Fugir ao contraditório destrói mais convicções do que as que protege.

Natal 2020: regresso da anormalidade

Enquanto isto, chegou-nos a notícia que divulgamos, sem motivo de lágrimas: o velho Simeão acaba de falecer na paz do Senhor, por não querer esperar pela vacina, depois de ter lido fake news segundo as quais os idosos ficariam, outra vez, para o fim. Antes de partir, deixou este último desejo: “Que todos vejam como eu vi a salvação, preparada para os povos, e nada volte à normalidade!”

O presépio

Na metáfora que Olga tece, o Presépio de Bardo é como uma carta que a humanidade dirige a Deus para lhe dizer quem somos e como vemos o mundo a partir de baixo. Santo Agostinho dizia que os Salmos eram cartas que o Senhor escrevia à humanidade para acender nela o desejo de tornar a casa. O conto de Olga Tokarczuk sobre o presépio é como uma carta que a humanidade escreve a Deus para que Ele não se esqueça deste vale de lágrimas.

Boas notícias do tempo que passa

Se carregarmos os nossos pesos muito tempo, mais tarde ou mais cedo não seremos capazes de continuar, porque a carga vai-se tornando cada vez mais pesada. É preciso deixar o copo e descansar um pouco antes de o segurar novamente. Temos de deixar, periodicamente, a carga de lado. Isto alivia-nos e torna-nos capazes de continuar. Esta é a forma de aproveitar a vida.

O Cristo do meu pai preferia ficar na sala…

Antes de abrirmos as terrinas, antes de virarmos as bocas dos pratos para o tecto, antes de baralharmos as facas e os garfos, a minha avó obrigava-nos a fechar os olhos e orar. A minha avó deixava a porta semiaberta durante a oração; depois do ámen encostava a porta. Cristo era tão humilde em nossa casa, entrava do pequeno espaço que a minha avó deixava entre o aro e a porta.

Libertar do esmagamento estrutural

As nossas estruturas são mais pesadas do que aquilo que Deus criou na natureza. É esta a conclusão de um artigo publicado na Nature. Enquanto há uma preocupação saudável com a criação de Deus, onde se procura escutar o clamor da Terra e o dos pobres que habitam na casa comum, pouco se tem pensado na co-criação com Deus e que é da nossa exclusiva responsabilidade.

Diferenças culturais

Stupeur et Tremblements é um livro de Amélie Nothomb que fala dos choques culturais entre japoneses e uma belga nascida no Japão que pensava que conhecia o país. O livro relata a sua carreira numa empresa: começou no posto mais baixo, e a partir daí foi sempre a descer. Gosto muito da Amélie Nothomb, e este é um dos seus livros que li com mais gosto.

Tratado de acolhimento: duas reflexões sobre o presépio

Os seguintes, foram uns magos do oriente e que vinham talvez de sítios diversos do mundo. Não se sabe muito mais que isto, pese embora haja muitas tradições sobre os reis magos. Sabemos que uma diz que um deles era negro. Domingos Sequeira, pintor português do século XIX, na sua Adoração dos Magos pinta-os às dezenas, vindos de todos os sítios do mundo orientados pela brilhante estrela de Belém que a todo o quadro dá uma intensa luz.

A alma de Eduardo Lourenço

Em entrevista realizada em 2006 Eduardo Lourenço afirmava: “O que define o Homem é o facto de ele ser uma alma”, querendo significar que a pessoa humana está muito para lá da mera corporeidade. O país tem prestado homenagem ao insigne pensador, em especial nas últimas semanas, devido ao seu desaparecimento, mas o facto é que estamos perante um pensador com alma.

Um Natal sem Herodes

Não vou falar do Natal da minha infância, quando tinha pais e avós. Refiro-me ao Natal de hoje em que essa geração já não existe e somos nós agora os pais e os avós. A família foi crescendo (ou, realisticamente falando, envelhecendo) e o grupo restrito aumentou, ficando cada vez maior. Transformados em avós e a geração abaixo em pais, passámos a ser uma quase multidão.

Um padre pela Libertação

Confesso que me sinto desconfortável a escrever esta prosa. Pensava fazê-lo mais tarde, quando estivesse mais liberto da emoção que me causou a morte do padre João Gonçalves, coordenador nacional da Pastoral Prisional católica. Mas, pensando melhor, decidi fazê-lo já, porque, em muitas circunstâncias, penso que é bom fazer brotar tudo o que nos grita a alma. Assim, somos nós próprios.

O papel da UE numa África cada vez mais dependente da China

Dezembro de 2019 parece que foi há muito tempo, não tivesse, entretanto, o mundo mudado por causa da covid-19. No entanto, remonta à fase inicial do mandato da Comissão Europeia, que ainda tem muitos anos para cumprir. Foi nesse mês que Ursula von der Leyen foi a Adis Abeba reunir-se com Moussa Faki, presidente da Comissão da União Africana. O objetivo fundamental foi o de se discutir uma parceria estratégica e a gestão migratória.

Advento: Vida vivida, noite e dia

Desde 15 de Março, às vésperas da nossa estreia em estados de emergência, morreram-me trinta e um, entre amigos e amigas, os próximos e aparentados, os que desde sempre conheci, os que foram importantes ao longo de tantas peripécias, acontecimentos, fases de crise ou crescimento. De quem guardo momentos, frases, gestos, jeitos, tons de voz. Minoria por covid. Maioria por doença maior, por súbito surto, síncope, mal de coração, esvaimento de cabeça. Por velhice, por cansaço ou demasiado viver.

Tropeçar com Eduardo Lourenço na palavra “Jesus”

Colocando as bem-aventuranças no início da atividade pública de Jesus, o evangelista Mateus talvez nos queira sugerir a construção da humanidade de Jesus no tempo e no espaço. A vida furtiva de Jesus talvez não seja tão anónima quanto isso. Lendo e meditando as bem-aventuranças talvez descubramos, afinal, em que ocupou Jesus os seus dias de ilustre desconhecido: a construir e forjar a sua alma.

“O meu amigo” de toda a gente

Como “o meu amigo P. João”, íamos almoçar frequentemente junto à ria ou ao pé do mar. E tudo era boa conversa. Aí não havia tabus para falar da morte e sobretudo do sofrimento; de sexualidade e sobretudo de equilibradas relações humanas; de religião e sobretudo da vida espiritual. Muitas vezes em desacordo, mas esses desacordos originavam novas conversas mais profundas.

Nagorno-Karabach

Em todo o caso, Nagorno-Karabakh tinha uma posição central no reino arménio quando, na passagem para o século V, Mesrop Mashtots instalou no já centenário mosteiro de Amaras a primeira escola da língua arménia que utilizava o alfabeto por ele criado. Foi portanto nessa região que, há mil e seiscentos anos, se deram os primeiros passos para escrever a Bíblia em arménio, outra peça fundamental do reforço da identidade arménia para se distinguir dos outros povos que coexistiam e se moviam sobre o mesmo espaço geográfico.  

Reaprender a ser pobre

Não se está aqui de maneira nenhuma a defender qualquer espécie de estoicismo em que se atinge a ataraxia ou empatia face às adversidades da vida, o conformismo perante a pobreza ou até mesmo o despreendimento total das riquezas. Uma coisa é ter necessidade de consumir para satisfazer as nossas necessidades mais elementares e básicas, outra é deixar-se conduzir pelo consumismo desenfreado, motor que sustenta o capitalismo selvagem em que estamos mergulhados. Querem-nos ensinar a ser ricos e prósperos, quando o que necessitamos realmente é reaprender a ser pobres.

O pecado cheira a sexo

De facto as religiões abraâmicas nunca souberam lidar de forma natural com a sexualidade humana. Na tradição cristã o pecado cheira a sexo. Parece que a escravatura, a exploração dos pobres pelos poderosos, o racismo, a xenofobia, a subjugação da mulher por uma organização patriarcal das sociedades, o roubo, as ofensas corporais, a violência doméstica, o genocídio, o comércio de armas de guerra, a fuga ao fisco, a pena de morte, o falso testemunho, a calúnia, a difamação, e tantos outros pecados não têm importância nenhuma quando comparados com as questões da sexualidade.

Entre a Terra e o Céu

Toda a realidade clama a glória de Deus – as pedras da calçada, a natureza inteira e todas as criaturas. Depois da vinda de Cristo, o reino de Deus está efetivamente próximo. Não se trata apenas de uma proximidade temporal (no entendimento de que, perante a eternidade, o tempo é nada). Trata-se, sim, de uma proximidade espacial – o Reino já está no meio de nós, está em nós.

Da Laudato Si’ à Economia de Francisco de Assis

O bispo de Roma, Papa Francisco, desde a exortação Alegria do Evangelho, passando por inúmeras intervenções, até às encíclicas Louvado Sejas e Todos Irmãos, do debate contínuo sobre sinodalidade, a Querida Amazónia e, agora, o encontro A Economia de Francesco, tem assumido situações de rotura perante aquilo a que estávamos habituados de letargia do entendimento do que é a Igreja nos tempos em que vivemos.

Fé e ciência: duas asas para um mesmo voo

No pensamento e no olhar que temos acerca do mundo importa superar alguns monolinguismos. A visão que se produz a partir de uma única ótica pode tornar-se verdadeiramente redutora e empobrecedora do espírito humano, chegando mesmo a limitar o nosso horizonte de conhecimento. Muitos desses monolinguismos tendem a alimentar narrativas conflituais ou mesmo antagónicas – como sejam, a título de exemplo, fé vs. razão; religião vs. ciência; transcendência vs. imanência.

Bahá’i e Cristo-Rei

A festa litúrgica de Cristo Rei corre o risco de alimentar um triunfalismo religioso, a dois passos do fanatismo, em vez de meditar no que ela significa. Ora o “reino de Deus” não é apresentado como conceito (nem os exegetas encontram dele uma definição): manifesta o optimismo do plano de Deus, que se vai realizando com o contributo de “todas as pessoas de boa vontade” (os destinatários da universalmente famosa encíclica Pacem in Terris, de João XXIII). Os conceitos não evitam a imprecisão e debilidade próprias da expressão humana.

A espiritualidade em tempo de pandemia

Quem conseguir ler profunda e espiritualmente este Tempo, descobrirá uma forma e um meio de transformação pessoal que o fará ser diferente, talvez cuidando mais a criação, o outro e a própria vida; quem viver este período na solidão, na incapacidade de reler o sentido da própria existência, poderá não ir além daquela atitude primária de quem volta à prepotências das agendas, à escravidão das reuniões, aos horários indisciplinados e velozes, à displicência com a família e à arrogância sobre o ambiente e a Criação.  

Espinhos

Se fosse para escolher, preferiam um Deus poderoso e autoritário, um Deus alheio à empatia, ou um Deus que se fez nascer na mais extrema pobreza, que conheceu o exílio para fugir à perseguição de um rei movido por ódio assassino, que criou inimigos entre os poderosos e os instalados porque estava sempre do lado dos excluídos e dos que sofrem, e que acabou por morrer depois de terríveis torturas? Um Deus exterior e superior a nós, ou um Deus que sabe bem o que custa a vida dos humanos, porque sofreu tudo isso na própria pele?

Hamelin e a relativização do mal

Se o diabo em pessoa surgisse bem vestido, com um discurso conservador, a relativizar a falta de ética social, a falta de amor e de cuidado pelo próximo, aliado aos poderosos, mas a marginalizar minorias e a apontar o dedo a determinados comportamentos relacionados com uma certa moral sexual, muitos cristãos o seguiriam como os ratos seguiram o flautista de Hamelin, hipnotizados, até se afogarem no rio. No conto dos irmãos Grimm, O Flautista de Hamelin, narra-se a estória de como aquela comunidade germânica se viu livre duma praga de ratos, no séc. XIII.  

Vidas que também importam

Sabemos que a justificação para a legalização do aborto eugénico é uma justificação “piedosa”: o aborto seria um ato de misericórdia que poupa às suas vítimas uma vida infeliz. Mesmo que isso fosse verdade, nunca justificaria que alguém se substituísse a essas vítimas para formular esse juízo. Mas o testemunho de muitas pessoas com o síndrome de Down, e de muitas famílias que as acolhem, revela que essas pessoas são felizes, apesar das suas limitações e da falta de apoios sociais que lhes seriam devidos.

O sonho de Mohamed Zakaria, morto por um camião quando fugia da polícia em Calais

O mundo chora mais uma morte de um refugiado, uma morte sem sentido, uma morte não necessária, apenas porque os países de acolhimento não garantem passagens seguras para a Europa e, neste caso, dentro da própria Europa.
Esta é a carta escrita pelos amigos de um jovem que partiu para Deus e que estão na mesma situação em que ele se encontrava: na fronteira em Calais (França), esperando a oportunidade de passar, através do Canal da Mancha (em barcos ou camiões), para o Reino Unido, para aí pedirem asilo.

Valha-me o bom samaritano

A idolatria da juventude leva os mais velhos a dizer coisas como “já não tenho idade para mais”. O referido palestrante ridiculariza esta desculpa. Eu vou tendo idade para fazer as coisas com mais experiência e conhecimento – e, portanto, com mais criatividade.
Aproveito ainda não ter lido a carta de Francisco Samaritanus bonus para exemplificar sentimentos e razões que podem nascer das referências e comentários nos meios de comunicação – como no 7MARGENS.

A Ilha da Verdade no Oceano da Desinformação

Quando vejo quanto tempo as pessoas dedicam aos seus ecrãs, dentro e fora de casa, mais ainda em tempo de pandemia onde andamos todos feitos zoomies, isto é, mortos-vivos de zoom em zoom, fico a pensar que não nos podemos queixar de não ter sido avisados. O que procuramos com todo este dinamismo digital? Que valor tem a conectividade permanente para uma vida plena e profunda? Sabemos ainda o que alimenta uma vida profunda?

O futuro será bom, se o presente o for

E, já agora, falando em mulheres e em livros, escrevo, também, numa altura em que me encontro a fazer um prefácio a uma antologia de textos literários de mulheres, juntamente com Ana Mafalda Leite. Eu e ela, bem como Ana Rita Santiago, ambas docentes de literaturas; a primeira em Portugal e a segunda no Brasil, temos trabalhos nos quais recenseámos a existência de mulheres escritoras em Moçambique (nascidas no país e lusodescendentes), das quais pouco se fala e escreve. Aproveito este espaço para divulgar os nomes dessas escritoras e mais adiante, neste texto, explicarei a razão da sua invocação. Colocarei em itálico, os nomes das que me consta não estarem entre nós.

Uma utopia do reino dos céus aqui na terra

Sendo a religião puritana uma religião assente na Palavra de Deus, a pregação e a leitura da Bíblia eram extremamente fundamentais para a sua fé. A fim de que todos pudessem ter acesso às escrituras, colocavam forte ênfase na alfabetização e educação. Como consequência, tudo o que não constasse nas Escrituras, como as decorações nas igrejas, orações escritas, vestes sacerdotais, uso do sinal da cruz, ritualismo instituído, eram de todo rejeitados.

52 ed Orbmevon

Assistimos hoje a uma versão açoriana de uma espécie de 25 de Novembro ao contrário (como no título). Se em 1975 a esquerda antidemocrática tentou tomar o poder pela força, agora é a direita antidemocrática a tentar fazê-lo encavalitada num PSD onde Sá Carneiro já teria muita dificuldade em rever-se.

Um justo chamado Angelo Roncalli

Angelo Roncalli teve um pontificado curto, menos de cinco anos, de 1958 a 1963. Devido à sua idade já avançada e estado de saúde frágil, no momento da sua eleição foi encarado como um Papa de transição. Foi, por isso, com grande surpresa que foi acolhida a notícia da convocação de um concílio ecuménico, o Concílio do Vaticano II, que viria a mudar a vida da Igreja, aproximando-a dos fiéis e reforçando a sua participação litúrgica.

Uma oportunidade para a renovação democrática

Se é importante sublinhar que as identidades pessoais e coletivas configuram convenções socialmente necessárias à convivência, elas constituem, antes de tudo, um desafio e uma tarefa quando reclamam por reconhecimento e justiça no espaço público. No entanto, se exploradas politicamente, dão lugar a expressões de fundamentalismos de vária ordem: muros que separam os “bons” dos “maus”, postos de trabalho para os de “dentro” e não para os de “fora”, entre outros fenómenos conhecidos.

Bater o coração com novas músicas de Abril

Sempre sonhei acordada: como seria se eu tivesse nascido e vivido antes do 25 de Abril? O que faria, que personagem era, quem seria eu dentro de um estado onde parte das minhas liberdades, direitos e garantias eram reduzidos ou inexistentes, se não tivesse a liberdade de conversar com quem eu queria, sobre o que queria? Ou ouvir qualquer tipo de música que me agrada e me faz pensar, ler os livros que bem entendo, dar a minha opinião acerca do que me rodeia?

Gonçalo – o jardineiro de Deus

Gonçalo Ribeiro Telles foi um católico inconformista e determinado. Subscreveu em 1959 e 1965 três importantes documentos de católicos em denúncia da ausência de liberdade, da censura, e da repressão, arcando com as consequências de uma tal ousadia. Os textos de 1959 intitulavam-se significativamente: “As relações entre a Igreja e o Estado e a liberdade dos católicos” e “Carta a Salazar sobre os serviços de repressão do regime”; ambos tinham como primeiros subscritores os Padres Abel Varzim e Adriano Botelho.

Ignorância útil

A disciplina de Cidadania e Desenvolvimento está nas escolas portuguesas desde 2018. No entanto, foi há cerca de dois meses que se levantou uma grande polémica em relação à obrigatoriedade da mesma, colocando em causa o papel do Estado na educação de matérias da responsabilidade educativa das famílias, tais como a Educação para os Direitos Humanos, a Educação Rodoviária, a Educação para a Igualdade de Género, a Educação Financeira, entre outras. 

Manuela Silva: palavra e coerência

O Centro de Reflexão Cristã (CRC), de Lisboa, celebra este ano o seu 45º aniversário. A assinalá-lo, e da forma mais significativa, o nº 53-54 (2019-2020) da revista Reflexão Cristã é inteiramente uma evocação da memória e do legado da saudosa Manuela Silva.

O Pacto de Mayflower

Há milénios que a utopia de um novo mundo está presente no imaginário dos povos. Desde a República de Platão, passando pela Terra Prometida “que mana leite e mel”, dos hebreus, pelas propostas humanistas de Erasmo de Roterdão, pela ilha de Thomas Moore (amigo de Erasmo) consagrada na sua obra Utopia (1516) e até ao Pacto de Mayflower (1620).

Querida Espanha, tranquilidad y serenidad!

Num mundo global, aberto, não-coercivo e cosmopolita, os alicerces de uma sociedade que se queira coesa não se fazem só com um passado social que se possa considerar comum. Não basta mencionar aqui e ali Vasco da Gama ou Cristóvão Colombo, Humberto Delgado ou Adolfo Suárez. As sociedades modernas sobrevivem baseando-se na confiança, num conjunto de relações entre as diferentes formas do Estado, as instituições independentes e os cidadãos.

Uma nova normalidade

Nestes tempos de confinamento somos em grande parte privados da convivência social. Mas a convivência com outro tipo de amigos não foi, felizmente, afectada – estão neste caso os escritores e os filósofos. Embora sempre fizessem parte integrante das nossas vidas, a sua presença intensificou-se nestes meses, levando-nos a viver com eles a situação de isolamento que nos foi imposta.

O Reino de Deus – dos Evangelhos às Escrituras Bahá’ís

Expressões como “Reino de Deus” e “Reino dos Céus” são recorrentes nos Evangelhos. Jesus usou dezenas de alusões, parábolas e ensinamentos para explicar essa realidade espiritual. Foi certamente a forma mais adequada que Ele encontrou para explicar o conceito à sua audiência, há cerca de 2000 anos.

Estende a tua mão ao pobre

É esse o lema para o IV Domingo Mundial do Pobres que neste domingo, 15, se assinala. Estou convencido de que não foi por mero ajustamento de calendário que o Papa Francisco marcou como último ato celebrativo do Ano Jubilar Extraordinário da Misericórdia um grande encontro com os pobres que responderam ao seu convite para se deslocarem a Roma, a fim de que ele pudesse estar com eles para ouvir as suas histórias de vida e, sobretudo, os abraçar.

Reaprender a conjugar o “Nós” – A importância de sermos Povo

De facto, muito facilmente caímos nos particularismos do Eu e esquecemos que, perante Deus, somos essencialmente Povo. É como Povo que o próprio Deus gosta de nos olhar, apesar de conhecer o coração de cada um de nós melhor do que nós mesmos. Mas é como “nós” e não como “eu”, que nos apresenta a atitude correta perante Ele.

Pandemia e Luta contra a Pobreza

Embora diferente das anteriores que até há pouco vivemos, esta crise tem, contudo, um padrão comum que é o de colocar à prova a robustez das democracias. Importa relembrar que as duas últimas crises pelas quais passámos – 11 setembro 2001 e crise financeira de 2008 – contribuíram para o enfraquecimento das democracias, nomeadamente no que diz respeito a restrições das liberdades e redução de direitos.

“Make White House Great Again”

Portanto, a cultura trumpista está para lá da política. É sobretudo uma questão de decência. Como alguém disse, Trump é o mestre da mentira e está infectado pela desonestidade. Negou sempre a gravidade da pandemia, levando a que, tendo os Estados Unidos 4% da população mundial, tenham contado 20% das vítimas mortais do globo por covid-19.

A pedagogia da aceitação

Era uma vez… Uma vida prevista, preparada para a evolução natural, também prevista; organizada para o presente e o futuro, também previsto; estruturada de acordo com os conhecimentos hiperdesenvolvidos sobre quase tudo, também previstos.

Vozes humanas que não escutamos e caminhos de esperança a percorrer

Entre os que falam sobre como recuperar da pandemia, aponta-se um objectivo apelativo: o regresso à normalidade. Mas esse é um objectivo errado: o normal está quebrado. O nosso objectivo antes deveria ser “construir melhor do que antes”. Há doze anos, a crise financeira abriu-nos uma rara oportunidade de mudança do capitalismo, que foi desperdiçada. Agora, outra crise nos apresenta outra oportunidade de renovação. Desta vez não devemos deitá-la para o lixo.”

Livros – Os universos paralelos

Sou uma adolescente muito reservada e, digamos, um bocadinho anti-social, mas se há algo que me ajuda a superar os meus medos, definir melhor a minha auto-estima, tornar-me uma pessoa forte, corajosa e independente, são os livros. Se algo que me mostra que há um resto de luz nos momentos escuros, que há pessoas lá para mim quando precisar, que há família sem ser de sangue, que há heróis que sofrem, que há muitos mais mundos onde posso viajar sem ser o planeta Terra, são os livros. Soa muito nerd? Soa, mas pode soar à vontade!

As igrejas e os novos paradigmas dos jovens com a religião

Somente um verdadeiro diálogo aberto, salutar e de proximidade entre as igrejas e as novas gerações, poderá estancar esse êxodo cada vez mais significativo de jovens que estão quebrando os seus laços com a Igreja, enquanto religião institucionalizada. Se esse diálogo for infrutífero, a vida espiritual destas novas gerações, encontrará significado noutras formas de religiosidade, muitas delas de cariz pessoal, individual, algo completamente estranho à unidade e comunhão que o Senhor da Igreja deseja que os seus filhos tenham consigo e uns com os outros.

Evangélico, o rendimento básico universal?

Na perspetiva socioeconómica, é particularmente oportuna, sobretudo em situações de crise, a parábola dos trabalhadores da vinha que auferiram salário igual (Mt. 20, 1-16), independentemente da duração do seu trabalho. Se considerarmos não só o proprietário e os trabalhadores da parábola, mas toda a economia, a sociedade e o Estado de um país, faz sentido relacionarmo-la com o “rendimento básico universal” (RBU) condigno para cada um dos habitantes.

À sombra das palavras (de novo)

Nestes tempos de aconselhado distanciamento físico tenho tido alguma dificuldade, como muitos de nós, de encontrar as palavras certas para dizer o que vivo e o que nos está a acontecer. A poesia ajuda-me a reencontrar-me e a dialogar com o incompreensível.

Adeptos de um deus menor

Querer defender a fé, ou o Deus da sua devoção, quando supostamente atacados é ridículo, porque a fé não se defende assim e porque se esse Deus Todo-Poderoso precisa de defensores é porque não será assim tão poderoso.

Fraternidade, justiça e perdão

Para quem, como eu, lida quotidianamente com a justiça criminal, o tema da relação entre a justiça e o perdão assume uma grande relevância. Tenho refletido e escrito sobre ele à luz do Evangelho e da doutrina social da Igreja. Um bom contributo para essa reflexão nos chega agora através da encíclica Fratelli Tutti.

“Bhelani khu nyumbani, namuguphedhe khu guhamba mandza”

Fui há dias a Inhambane, a chamada “terra da boa gente” – ganhou esse epíteto, no primeiro contacto com o povo português, a propósito de ser acolhedora. Ao chegar a essa província, recebi uma mensagem do editor do gala-gala, que publicou o meu último livro. Dizia ele: “Sara, a tua obra está quase pronta, já podemos pensar numa data para o lançamento.” Respondi-lhe que era uma grande bênção, chegar à casa dos meus avós, dos meus ancestrais, na verdade, dos que intercedem por mim junto a Deus e ter uma informação tão preciosa.

Covid-19 e Fiéis Defuntos

Tenho a experiência de vários membros de família, muito queridos, já falecidos. Vários grandes amigos foram também já chamados para Deus. Não sou, pois, insensível ou inexperiente face à partida para a casa do Pai de familiares ou entes queridos. Não tenho por hábito visitar os túmulos dos meus entes queridos nestes dois primeiros dias do mês de Novembro. Homenageio a sua memória em eucaristias, nos aniversários da sua partida para a vida eterna.

A redoma de cristal e a festa de todos os santos não canonizados

Na história da Branca de Neve, uma passagem havia que me impressionava singularmente: quando os Sete Anões encontravam a princesa caída por terra, um resto de maçã venenosa na boca. Tão linda continuava, que os Anões decidiram guardar o corpo numa redoma de cristal, para que pudessem olhar para ela e senti-la sempre no espaço familiar. Sonhava eu então que um dia faria assim quando a minha mãe morresse – ela também era muito linda e pequenina…

Um “suave milagre” de busca interior!

Hoje, aqueles que na sua fragilidade buscam um suave milagre, vivem isolados em apartamentos, lares ou residências. Sentem-se entrevados pelo peso da idade ou pelo contágio da indiferença. Esperam ansiosamente pela fraternidade de um gesto e pela hospitalidade de um afeto, de um qualquer “mendigo” que diariamente ouse aproximar-se para repartir o pão da esperança e da dignidade.

“Fratelli Tutti”: Corajoso apelo

Paul Ricoeur distingue nesse ponto a solidariedade e o cuidado ou caridade. Se a solidariedade é necessária, não pode reduzir-se a uma mera lógica assistencial. É preciso cuidar. Se as políticas de Segurança Social têm de se aperfeiçoar, a sociedade é chamada a organizar-se para o cuidado de quem está só ou está a ficar para trás.

Este país ainda não é para velhos

A pandemia só veio tornar evidente o abandono social dos mais velhos. Colocar um familiar num lar de idosos tornou-se potencialmente perigoso, por isso há que apostar num novo modelo de respostas sociais para os seniores.

Uma espiritualidade com ou sem Deus?

Sempre que o Homem procura ser o centro-de-si-mesmo, o individualismo e o relativismo crescem gerando o autoconsumo de si mesmo. Espiritualmente, há uma espiral autocentrada presente nos livros de autoajuda e desenvolvimento pessoal, que na bondade da intenção, não têm a capacidade de ajudar a sair de um ciclo vicioso egoísta e possessivo. No vazio cabem sempre muitas coisas, mas nenhuma se encaixa verdadeiramente.

… E as Cuidadoras?

Durante o confinamento reli um livro de que muito gosto, “Passagens” de Teolinda Gersão, que ganhou o Prémio Fernando Namora em 2015. Trata-se de uma obra escrita a várias vozes, tomando como ponto de partida uma senhora idosa (Srª D. Ana, ex-farmacêutica) que morre durante o sono no lar onde residia. Ao longo do livro várias “falas” se fazem ouvir à sua volta, enquanto repousa no caixão na capela do lar.

A pena de morte na visão de Francisco: clareza e inspiração

Em boa hora este documento. Custa acreditar que a Igreja Católica, na sua representação máxima, tenha demorado 20 séculos após o nascimento do fundador do cristianismo – que foi vítima de pena de morte – a tomar posição inequívoca e final sobre o tema. Outros antecessores falaram sobre este assunto, Francisco encerra-o.

Ter ou ‘Bem Viver’?

“Todos nós, seres humanos, nascemos nesta terra com a mesma dignidade (…). Se alguém não tem o necessário para viver com dignidade, é porque outrem se está a apropriar do que lhe é devido.” Na encíclica Fratelli Tutti (“Todos irmãos”), caída ao húmus do mundo no início do outono, o papa Francisco desfaz o estuque do grande pilar do capitalismo e da grande ilusão do ocidente: a propriedade privada. E propõe: e se à ideia de propriedade sobrepuséssemos a de solidariedade?

A encíclica “Fratelli Tutti” e o Alcorão

A fraternidade é um conceito ligado às ideias de liberdade e igualdade. A fraternidade indica que o homem fez uma opção consciente pela vida em sociedade e para tal estabelece com seus semelhantes uma relação de igualdade, visto que em essência não há nada que os diferencie e são como irmãos (fraternos). Por princípio, todos os seres humanos são iguais.

O esvaziamento dos direitos humanos

A segunda metade do século XX foi prodigiosa em avanços civilizacionais que estão consagrados em vários referenciais jurídicos internacionais. Com a aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 10 de Dezembro de 1948, a comunidade internacional assumiu o compromisso de dotar o Mundo com a segurança da observância de requisitos básicos a uma vida digna para todas as pessoas.

Dormir com o inimigo

O segmento evangélico americano pautou-se durante largas décadas por ensinar aos fiéis a integridade pessoal. A lógica era que o homem nascido de novo (born again) seria transformado à imagem de Cristo e viveria uma nova ética, sendo bom cidadão, bom profissional, parte duma família funcional, promotor da paz e cultivando o amor e o perdão para com o seu semelhante. Billy Graham foi o seu profeta maior, com uma postura de integridade e semeando uma mensagem de esperança num mundo do pós-guerra, devastado física e moralmente.

Eliminar a pobreza, sanar o tecido social

Voltou a haver pobreza em Portugal como não havia, diz-se, desde há 100 anos. Não sei se será bem assim, mas que há mais pobreza, há. Vê-se muito mais gente nas ruas a pedir ajuda, envergonhada, aviltada, desconfortável com a sua nova situação. Gente que, talvez até há menos de um ano, não esperava chegar ao ponto de se ver obrigada a ir para a rua pedir para comer. Frequentemente, gente de meia-idade ou bem mais velha.

Chorar em Fátima

Apeteceu-me dizer aos companheiros dos círculos ao lado que sou ateu, que me ensinem como é sentir o que eles sentem. Que importa? Senti o coração a abrir-se e descobrir que também sou uma árvore frondosa como o meu pai e a minha mãe desejaram que eu fosse.

O meio é a massagem

Na minha crónica anterior, citei o filósofo canadiano Marshal Mc Luhan, lembrando a afirmação the medium is the message (“o meio é a mensagem”), por ele usada em Understanding Media.[1] Editado em 1964, o livro foi um sucesso. Três anos mais tarde, associando-se ao desenhador Quentin Fiore, Mc Luhan publicou uma pequena brochura intitulada The Media is the Massage (“O Meio é a Massagem”)[2], uma representação gráfica e criativa das teses defendidas na obra de 64. O título insólito deveu-se a um erro do editor. Mas o filósofo resolveu mantê-lo…

Ninguém tem tempo

Entrei pela porta da secretaria do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Coimbra, onde trabalho, e na conversa com o pessoal administrativo veio à tona o tema da leitura, ao que diziam – “não tenho tempo para ler”. Mais tarde, em conversa com a senhora do quiosque onde a minha filha foi fazer o seu passe, voltei a ouvir – “antes conseguia fazer uma caminhada de duas horas no Choupal. Agora não tenho tempo.” Ninguém tem tempo, e todos têm razão, porque o tempo não se possui. Por isso, qual a raíz desta queixa?

Autoregulação ou caos

O campo protestante necessita urgentemente de se auto-regular sob pena de cair no caos, ou de amanhã alguém de fora o querer controlar, o que seria bem pior.

“Fratelli Tutti”, um grito de esperança

O pensamento do Papa Francisco consegue sempre surpreender-nos por ser mais luminoso ainda, pois sabe que é necessário um apelo forte que faça frente à escuridão mais densa que poderá chegar, se no caminho continuarmos a permitir a indiferença e os muros que separam, em vez de acolherem e integrarem.

A emoção da “Fratelli Tutti” em 2020, como da “Pacem in Terris” em 1963

Ao percorrer o texto da recente encíclica do Papa Francisco, Fratelli Tutti (assim denominada como sempre, por serem estas as primeiras palavras que iniciam o texto de Francisco, Todos Irmãos), não pude deixar de reviver a emoção e a memória com que, há 57 anos, acompanhei a publicação dessa outra encíclica, desse outro grande Papa que foi João XXIII, o Bom Papa João, hoje S. João XXIII: a encíclica Pacem in Terris. Fazer uma leitura conjunta destas duas encíclicas revela-se-me essencial.

“Fratelli tutti”: dois caminhos

1. O 7MARGENS já publicou alguns artigos valiosos que sumariam e comentam a encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco. Nesta breve reflexão, vou concentrar-me em dois caminhos possíveis para a respetiva sequência: um deles consiste na consagração; e o outro na ação.

“Coisificação” do Homem (ou ser consumido pelo Fogo)

Vamos falar do homem no Séc. XXI. Que ser é este? Não tenho a certeza de saber responder à pergunta. Encontro frequentemente alguém que tem acesso a tudo, para quem quase nada é impossível, mas com um volume de insatisfações que tanto o desgosta… São inúmeras as queixas que dele escutamos, embora possamos distinguir algumas mesmo muito frequentes

Um ano sem Manuela Silva

Faz neste dia 7 de outubro um ano que a Manuela Silva humanamente nos deixou, partindo para a Casa do Pai. Nós, cristãos, contrariamente aos ensinamentos de Jesus, teimamos em celebrar nestas datas a partida, a saudade, a ausência, olhando apenas para o vazio deixado entre nós pelos que partem. Somos “homens de pouca fé” (Mt, 8, 26) como Jesus no-lo refere diversas vezes no Evangelho. E assim consideramos que a morte física, como a conseguimos percecionar, nos leva os entes queridos, esquecendo as palavras de Jesus.

“À sombra das palavras”

Faz agora quase um ano pintei no meu atelier, durante cinco semanas quase sem parar, com duas outras artistas, os poemas da Sophia escolhidos para integrarem um Memorial evocativo do centenário do seu nascimento.

Não vale tudo

Algumas propostas e discussões atuais impõem que se reafirme que no combate à criminalidade não vale tudo. Ou seja: que os fins não justificam os meios, que há linhas vermelhas intransponíveis, que não se combate o crime com práticas que com ele se confundem, sob pena de esse combate perder autoridade moral. E é assim, mesmo em relação aos crimes que mais repugnância possam causar, como os crimes sexuais que vitimam crianças.

A trama invisível da cidadania e o valor de educar

“Em Ersília, para estabelecer as relações que governam a vida na cidade, os habitantes estendem fios entre as esquinas das casas, brancos ou pretos ou cinzentos ou pretos e brancos, conforme assinalem relações de parentesco, permuta, autoridade, representação. Quando os fios são tantos que já não se pode passar pelo meio deles, os habitantes vão-se embora: as casas são desmontadas; só restam os fios e os suportes dos fios.”

Fátima e “Avante”

Permitam-me duas ou três reflexões, como cristão católico, sobre a polémica instalada na sociedade portuguesa, relativamente aos acontecimentos na Quinta da Atalaia e na Cova da Iria.

Rituais pós-nascimento: “Ku xlomula mamani ni ku humisa mwana”

Nas culturas bantu do sul de Moçambique, especificamente na xironga e na xitswa, após o nascimento de um bebé, a mãe e a sua criança ficam, por algum tempo, interditados do convívio com a família alargada, por se considerar que os seus corpos não se encontram fortes o suficiente para conviver com agentes impuros, sejam do ambiente poluído de fora de casa, sejam os que com eles habitam, pelo facto de viverem entre o resguardo do lar e outras actividades que realizam fora de casa.

Os jovens do Torne na luta por “uma Igreja nova num Portugal novo”

Na década de sessenta do século passado, e até 1974, surgiu na paróquia de São João Evangelista (Vila Nova de Gaia), da Igreja Lusitana, Católica, Apostólica, Evangélica (IL), um grupo de jovens, que se intitulou Jovens do Torne – JT. No princípio englobado na “Liga do Esforço Cristão de Gaia”, foram prosseguindo um caminho ecuménico, alargado a todas as religiões e ateus.

Porque (não) falo de Aylan

A folha virtual aberta no ecrã do computador apresenta um branco que não é menos penoso nem menos frustrante que o branco níveo de uma folha de papel. A possibilidade de lhe diminuir a intensidade do brilho torna-a momentaneamente mais cinzenta, mas não resolve o drama: devo escrever?

Os sinos de bronze antigo

Fui encontrá-los numa aldeia do Minho interior. Tocavam Foi aos pastorinhos às meias horas, acrescentando o Avé de Fátima às horas cheias. Que maravilhosa experiência de comunidade! Aonde o som deles chegasse, toda a natureza, pessoas e animais, toda a movimentação e trabalho, tudo parecia embelezado e mais unido.

Não esquecer a memória

Não lembrei pessoalmente nestas páginas ainda a partida de Frei Mateus Cardoso Peres, O.P. (1933-2020), personalidade fascinante com uma rica obra de apostolado e de reflexão, e devo fazê-lo. Conheci-o bem e tenho pela sua vida e ação uma grande estima. O grupo de que fez parte dos “católicos inconformistas” integrou alguns dos meus grandes amigos, como António Alçada Baptista, Helena e Alberto Vaz da Silva e João Bénard da Costa.

Crer num Deus ferido

A fé tem de ser um ato de vontade e de resistência e não uma mera herança. O aparente silêncio de Deus desconcerta-nos e desafia-nos. Sob um prisma racional, há momentos em que parece não fazer o menor sentido continuar a acreditar. Tanto nas grandes “crises de fé” que possamos ter, mas também, e provavelmente com maior intensidade, nas pequenas e singelas desilusões da vida em que Deus parece ausentar-se.

Oremos em todo o tempo…

Com o título “Missa ‘virtual’ não substitui participação pessoal na Missa”, noticiou o Vatican News que, em carta aos presidentes das conferências episcopais, “o cardeal Roberth Sarah afirmou a necessidade de voltar à normalidade da vida cristã, nos locais onde a emergência sanitária provocada pela pandemia o permite: participar de uma missa pelos meios de comunicação não é equiparável à participação física na igreja”.

As finas flores do entulho

O campo religioso evangélico atravessa talvez a sua pior fase na história do mundo ocidental. Depois da prostituição com o poder político, os escândalos sucedem-se. Era de esperar.

Pecadores nas mãos de um Deus infinitamente amoroso

É sobejamente conhecido um famoso sermão que Jonathan Edwards pregou no dia 8 de Julho de 1741. O sermão tinha por tema “Pecadores nas mãos de um Deus irado” e estava em curso o chamado Primeiro Grande Avivamento pietista que atingiu a então colónia britânica de Nova Inglaterra em meados do século XVIII e que se espalhou pela civilização norte-americana ocidental.

Vicente – O Não Crente

O Vicente. Este seu nome é ele e não outro alguém, nestes dias da sua tão chorada recente morte. Pelos tantos testemunhos daqueles que com ele trabalharam e conviveram, o nome de Vicente Jorge Silva é unanimidade nacional, como Jornalista. Não descrevo o seu percurso, os grandes momentos da sua carreira, os seus múltiplos talentos. Mas lembro a sua presença, o seu pasmo, o seu entusiasmo, a sua indignação em face do espetáculo do mundo.

Pandemia e bioética

O combate à pandemia do novo coronavírus suscita uma reflexão sobre várias questões relativas à bioética. Desde logo, a do primado do valor da vida humana sobre considerações de outro tipo, como as de ordem económica.

Cristo, Gandhi e Mandela

Do mesmo modo como uma minoria ateia não pode impor à força a toda uma sociedade a sua forma de pensar, também nenhum sector religioso tem o direito de fazer o mesmo. A isto chama-se democracia.

A educação não é confinável!

Da noite para o dia, na sequência da pandemia, do confinamento obrigatório e do encerramento das escolas, estas e os professores foram capazes de responder eficazmente à nova situação, embora de modos muito diversos. Uns mais facilmente, outros com mais dificuldades. As atividades letivas puderam prosseguir, as famílias receberam a escola e os professores em suas casas e os alunos (a grande maioria) tiveram diariamente propostas de trabalho escolar (por vezes até demasiadas e desconexas).

Um sentido para a vida das pessoas (2)

O que podemos então esperar? Talvez não aquilo que virá, mas aquilo que já cá está. O Reino, escreveu São Lucas, “não vem de modo ostensivo. Ninguém poderá afirmar ‘Ei-lo aqui ou ali’, pois o reino de Deus está dentro de vós.” (Lc 18 20-21). O Reino – a plenitude ilimitada da liberdade, do amor, do conhecimento, da justiça, da verdade, da beleza. A expressão do infinito na finitude.

Contra todas as teocracias

Por princípio sou contra todas as formas de teocracia, incluindo as cristãs. Esses ideais estribam-se em equívocos teológicos, em erros de interpretação histórica ou, em muitos casos, em inconfessáveis aspirações de poder.

Breves provocações para o recomeço das aulas

A pandemia que temos vivido obriga-nos a um novo olhar sobre muitos hábitos que tínhamos como adquiridos. Um deles é o conjunto de actividades que acompanham o recomeço das aulas, envolvendo professores, alunos e pais na azáfama comum de planificar um novo ano lectivo. O que nos leva a revisitar a temática do que é (ou deveria ser) aprender e ensinar.

“Conversão das paróquias”: uma instrução redutora

Cada tempo, na sua especificidade, e o tempo todo, na sua generalidade, são um contínuo e constante desafio à sempre urgente necessidade de mudança de e na vida das pessoas. Por isso, e para responder a isso, a Igreja vai ajustando as velas aos ventos que vão soprando, aproveitando a variação das marés que vão surgindo e procurando o rumo que coincida com a vontade d’Aquele que a comanda.

Cuidar o futuro

A pandemia do coronavírus traz consigo não só um problema de saúde pública, mas também o agudizar dos fenómenos de fragilidade social. Olhando para os desafios com que a população idosa se tem confrontado durante a pandemia, é preciso refletir profundamente sobre os dados demográficos, a realidade do envelhecimento da população e a organização social.

Um sentido para a vida humana

Precisamos de uma escatologia que nos devolva a Esperança. Precisamos de acreditar que há um Horizonte para além de todos os horizontes, nesse ponto no infinito onde os paralelos se cruzam. Um Sentido que nos coloque no caminho de uma vida mais autêntica, luminosa, verdadeiramente significativa. A vida humana é opaca e vazia se nela não existe o encanto de uma Promessa.

Falemos de censura

De momento existem duas novas formas de censura que têm sido profusamente utilizadas, mesmo nos países de regime democrático. A primeira delas é o excesso de informação irrelevante. Segundo Yuval Noah Harari: “No passado, a censura funcionava através da interrupção do fluxo de informação. No século XXI essa censura funciona através do excesso de informações irrelevantes fornecidas às pessoas” (Homo Deus, Elsinore, 2017).

Podem, por favor, desligar o telemóvel?

A consciência dos três tempos do nosso tempo de que gosto de falar, responsabiliza-nos por aprender com o passado, para que ele, por deixar de ser pensado em excesso, não se transforme em depressão; aprender com o presente, para que ele, por deixar de ser vivido em turbilhão, não se transforme em stresse; e aprender com o futuro, para que ele, por também deixar de ser sentido como uma violenta catadupa de ameaças, não se transforme em ansiedade.

Lares de idosos perante omissões de fundo

Face à agitação provocada pelas infeções covid-19 e pelas respetivas mortes em lares de idosos, ou “estruturas residenciais para pessoas idosas”, torna-se imperiosa a assunção das nossas responsabilidades coletivas. Para não alongar o texto, limito-me, por ora, a elencar três omissões graves, que são fundamentais e comuns a outros problemas.

O regresso do tribalismo

Assim, as ideias da tribo manifestam-se sob o jugo terrível da negação da cultura, da democracia e da racionalidade. Não faltam por todo o lado os caudilhos a fazerem este trabalho manipulador das massas, para que comunguem destes ideais que alimentam os rebanhos acéfalos. Então a tribo fecha-se cada vez mais sobre os seus filiados que odeiam o outro, o ser diferente, a quem responsabilizam pelas desgraças que estão a surgir.

“Oh! Quem me dera ser como são as crianças!”

Estou convencida que foi essa marca cristã, a educação que eu assimilei ao longo da minha infância e adolescência que não me fez esquecer a figura de Jesus – continuando a ler sobre Ele, a partir dos 40 anos, com renovado interesse – e após labirintos e encruzilhadas, regressar, após longa jornada, a Casa, ao cristianismo. Não somos nós todos peregrinos? Não procura o Pastor a ovelha extraviada e deixa as noventa e nove no monte?

Teologia da prosperidade: uma aberração capitalista

A teologia da prosperidade é uma aberração capitalista. A ideia de que Deus tem casas com piscina, aviões particulares e outras mordomias para distribuir a granel é um insulto ao evangelho, que é centrado no Ser e não no Ter, essa tara dos nossos dias. É sobretudo um insulto aos pobres, os quais Jesus declarou que sempre existirão: “Porque os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes” (João 12:8).

Importância económica e social das IPSS

Com dados agora disponíveis para três exercícios consecutivos e para a mesma amostra de IPSS, confirma-se que, mais do que eventuais oscilações, há uma tendência que continua a ser negativa: se a percentagem de IPSS com resultados líquidos negativos era de 42,12% em 2016, no ano seguinte era de 39,82% mas em 2018 era de 44,10%.

Força e fé perante o medo e a pandemia

Na instituição em que trabalho, houve uma forte mobilização das equipas no sentido de se organizarem seguindo as orientações da Direção Geral da Saúde: fez-se o plano de contingência, prepararam-se as declarações de controlo de mobilidade para as deslocações ao serviço e houve também uma grande mobilização de apoio entre as chefias, psicólogos, médicos, enfermeiros, assistente social, terapeutas, auxiliares.

Pedro Casaldáliga: “… abrirei o coração cheio de nomes”

Partilho o pouco que conheci de Pedro Casaldáliga, nos anos que passei no Brasil. Guardo três linhas de memória: as vindas de Pedro ao nosso seminário em São Paulo, animando a Verbo Filmes na produção do filme Pé na Caminhada, e outros filmes; Pedro no programa ao vivo Roda Viva, durante duas horas, a 31/10/1988; Pedro relatando como foi a sua visita ad limina ao Vaticano, onde se sentiu humilhado.

Plano de recuperação… Também social?

Deste modo, corre-se o risco de persistir a subalternidade dos problemas e dinamismos sociais perante a força da economia. Talvez se atenuasse, ou infletisse, a subalternidade se fosse cumprida a Constituição da República no articulado relativo aos planos de desenvolvimento económico e social (artºs. 90º.-91º.); e, melhor ainda, se fosse promovido o desenvolvimento local, a partir da freguesia e do protagonismo de cada pessoa e instituição.

Esta crise das lideranças é dramática

Mesmo na velha Europa o que vemos são indivíduos muito pequeninos, em dívida para com a ética política, a moral pessoal e desprovidos de sentido de estado. A corrupção ronda estas figuras e contam-se pelos dedos das mãos as que conseguem manter uma postura decente. Temos ainda os grupos extremistas de direita e de esquerda que ameaçam os regimes democráticos, os quais por sua vez se vão deixando colapsar aos poucos por dentro.

Que filosofia pretendemos ensinar aos adolescentes?

Ensinar filosofia implica necessariamente filosofar, ou seja, não nos podemos limitar a transmitir, reconstituir e explicar o pensamento dos filósofos. Depois de um primeiro passo que é compreender as teorias e os problemas, interessa apropriarmo-nos deles, ou seja, trazê-los para a nossa vida, examinando-os, questionando-os ou deles nos demarcando com opiniões fundamentadas.

Infinito

Ser crente é acreditar que duas linhas paralelas se cruzam necessariamente no Infinito, e que esse ponto onde se cruzam é Deus. É acreditar que no fim, como no princípio de Tudo, há um ponto sem extensão nem duração, que é Deus. E que esse ponto está em toda a parte, inteiramente, absolutamente, sem estar todavia em parte nenhuma, pois ele não pode estar num sítio em detrimento de outro.

Casas. Duas memórias.

E o sacrário da casa, o quarto da minha avó, onde ela se refugiava e onde, aí, a minha mãe tinha absoluta primazia. Completo prazer, interação secreta e apaixonada entre ela e a mãe. Era a única filha – talvez por ser a mais velha, mas acho que não era só por isso – que tratava a mãe, pela doçura dessa expressão em português: “minha mãe”, “ó minha mãe”.

A dialéctica do racismo

Qualquer pessoa de boa-fé reconhece a existência de um racismo estrutural na sociedade portuguesa. Negá-lo é pretender negar uma evidência. Por que razão um homem branco de 70 anos, se falar com um outro homem branco, de 40 anos, o trata por você, mas se se dirigir a um negro da mesma idade já o trata por tu?

Pobreza, vergonha de todos nós

O que hoje é novo na nossa situação de pobreza é a falta de autonomia económica e o elevado número de novos casos no país. Quem não ouviu já referir na comunicação social que mesmo pessoas da classe média e, por vezes alta, se encontram a receber apoios do Banco Alimentar, à procura do pão nosso de cada dia para quem, de um momento para o outro, tudo faltou, pelas mais diversas razões das suas vidas?

Plano de recuperação sem recuperação do plano?

Os planos de desenvolvimento económico e social, previstos nos artºs. 90º.-91º. da Constituição da República, nunca se efetivaram, embora sejam aprovadas anualmente as grandes opções… do plano…  No I Governo constitucional, a prof. Manuela Silva, na qualidade de Secretária de Estado responsável  pelo planeamento, elaborou, com a sua equipa, um projeto de plano, mas não conseguiu a necessária aprovação.

Estranho Mundo

Chegou o Verão. Como todos os anos apetece ir de férias, descansar, parar, encontrar os que nem sempre estão perto, cruzar corações que se querem bem, quem sabe, até viajar.

O princípio da incerteza

O sector da saúde também está na expectativa, sem saber quando virá uma segunda vaga da pandemia ou se ela chegará mesmo. Os meios religiosos vão mantendo os serviços de forma condicional, mas sem saber por quanto tempo ou o que virá. No fundo, todos os sectores da economia e da sociedade estão pendentes do que vier a suceder nos tempos mais próximos, da banca aos seguros, da indústria à agricultura e pescas, da educação à saúde e às religiões, e em tudo quanto diz respeito às famílias e aos indivíduos.

Uma sinodalidade portuguesa?

José Ornelas, bispo de Setúbal e, agora, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), será um dos três bispos portugueses em maior consonância com a abertura do bispo de Roma, Francisco. Outros dois serão o de Leiria-Fátima, D. António Marto, e D. José Tolentino Mendonça, o que se poderá traduzir numa maior abertura da Igreja Católica Romana à sinodalidade que “não é inimiga, antes pelo contrário, da unidade”.

Vendo o presente e construindo o futuro

Nesta “estação de pandemia” parece estarmos em descensão, reconquistando, pouco a pouco, uma “nova normalidade”. Com prudência, para continuar a vigiar a extensão do vírus, mas afirmando e confiando na responsabilidade de cada um e de todos na gestão da sua saúde e da saúde da comunidade, sem discriminação pela idade e respeitando a autonomia pessoal, que não é outra senão a capacidade de cumprir com as próprias obrigações morais.

A União Europeia e a liberdade religiosa

Tomei conhecimento da ação do comissário europeu para a liberdade religiosa através do livro Enfim livre (editado em português pela Lucerna, com o apoio da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre), que relata a odisseia de Asia Bibi até à sua libertação. Essa ação é, por si só, reveladora da importância que pode ter esse cargo e chegaria para justificar a sua manutenção.

“Verdades” dos mitos: rituais de donzelar

Há mitos sobre rituais de iniciação, sobretudo no que se refere ao de passagem da adolescência à idade adulta. Um deles tem a ver com o facto de que o que se trata nessas cerimónias deverá ser guardado em segrego; o outro tem a ver com a ideia que se criou de que, no sul de Moçambique, não há esse tipo de eventos para as donzelas e que só no norte é que são realizados. Neste texto, falarei sobre o segundo mito acabado de apontar.

Das notícias de Bob Dylan aos heróis

Em tempos que já lá vão, quando um desgraçado trazia uma má notícia ao rei corria um sério risco de ser executado. Matar o mensageiro era uma forma de exorcizar o mal. Agora as coisas viraram do avesso e as pessoas assumiram uma postura colectiva de tipo masoquista, em que gostam de premiar quem lhe traga as piores notícias. Se não fosse assim não existiriam tablóides e jornalismo de sarjeta.

Alma e neurobiologia

Quem quer que se reconheça habitante de si mesmo e disso intua a evidência radical, não pode negar que a sua consciência seja algo mais do que o simples produto de uma mecânica estritamente biológica. É que existe a evidência fundamental, objetiva na subjetividade, de que uma interioridade existe. De que perceções percecionadas de um ponto de vista estritamente interior, subjetivo, existem. Isso é absolutamente incontornável.

Um tempo suspenso. Um espaço confinado

Ao falarmos de tempo e de espaço imediatamente nos lembramos dos muitos filósofos que escreveram sobre esta temática. De facto, dos pitagóricos aos nossos dias, o espaço, o tempo e as relações que entre si estabelecem, têm dado azo à produção de textos que se tornaram clássicos para todo o estudioso de filosofia. Com a presente pandemia a vivência do tempo e do espaço impôs-se-nos como objecto de reflexão.

A tábua do abade e a distância social

Contaram-me numa vila transmontana que, indo certo dia o arcebispo de Braga visitar a paróquia, quis inspeccionar a casa do senhor abade, onde este vivia com jovem mulher a quem chamava criada. O prelado – cujo nome desconheço, mas dava ares do arguto e bom São Frei Bertolameu dos Mártires – andou por todos os compartimentos do tugúrio sacerdotal.

Santa Sofia novamente mesquita

Ao cristianismo hodierno falta-lhe profundidade. Muitos cristãos instalaram-se na modernidade. Há necessidade de procurar novos desertos, como fizeram os monges durante a instalação do cristianismo na política do Império Romano (380). Por isso, muitos procuram outros caminhos que, no entanto, não encontram na Igreja-instituição.

E o que dizem os jovens?

É interessante verificar que este tempo tem tido reflexos profundos na maneira de viver dos nossos jovens, aumentando-lhes os normais receios do amanhã, numa fase da vida em que a incerteza é um fator de grande ansiedade.
Os jovens manifestam também a necessidade de ouvir vozes que lhes transmitam segurança e apontem caminhos de esperança no futuro, sem alarmismos, mas com clareza e verdade.

Covid ataca eu-tanásia e faz dela “cré”-tanásia?

Moral da história: a covid19 deixou bem à vista que a sociedade não se sabe preparar para a vida. Tem medo de sofrer, mas pouco ou nada se importa de fazer sofrer. Tem medo de morrer, mas não se importa de matar – aos outros e a si própria – mais ou menos violentamente. E utiliza outra modalidade de gerir a morte (a não confundir com a “cré-tanásia”) – a que podíamos chamar “crio-tanásia”: levar à “morte pelo frio” ou frieza nas relações humanas e nas estratégias de domínio e enriquecimento.

Da Amália à religião do Fado

Já se sabe que os cépticos acharão que a perspectiva religiosa do fado será um disparate, e os fanáticos da religião dirão o mesmo, mas por outras razões. Uns porque pretendem remeter a fé para o submundo da sociedade e outros porque temem a dessacralização da expressão do sagrado e se pensam proprietários privilegiados da fé cristã. Mas para o universo do fado nem uns nem outros contam lá muito.

Oração do silêncio

O cristianismo tem uma longuíssima experiência da oração silenciosa ou meditação ou contemplação ou oração de Presença ou do Coração que, no Ocidente, se foi esfumando até quase desaparecer. O Concílio Vaticano II exprimiu a importância desta oração nos leigos, mas não pegou muito. Agora, surgem livros sobre o assunto e há mais prática desta oração. Há um livro que achei muito interessante: Pequeno Tratado da Oração Silenciosa, de Jean-Marie Gueullette, OP (2016, Paulinas Editora).

A sustentável leveza do jugo de Jesus

É incontestável o facto de que cada um de nós experimenta, uns mais do que outros e de formas variadas, o peso da vida. E esse peso manifesta-se de múltiplas maneiras, seja a depressão e solidão, a tensão e a ansiedade, a angústia e medo, a dor e a hostilidade. Carregamos até, voluntariamente ou não, os pesos de outros.

Desafia-te a viver positiva(mente)!

Assim, viver positivamente deverá impulsionar-nos a transcender essa visão ontológica do ser humano que tende a acentuar mais aquilo que é negativo ou que não funciona, procurando antes focar o olhar naquilo que cada circunstância oferece como aprendizagem, caminho necessário à mudança e ao crescimento, assim como naquilo que no mundo e no ser humano há de melhor.

Re-cristianizar é preciso!

Muita gente pensa que se eliminarmos a religião da arena pública, também acabarão as noções éticas que (ainda) sustentam a nossa sociedade. Mas para essas pessoas a moral cristã é a mãe de todas as repressões. A sociedade utópica está na música de John Lennon. É preciso deixar de cultivar moralismos “medievais”. Sejamos livres. Sejamos livres para gritar e estrebuchar.

Do confinamento às Minas

Vestígios dos trilhos usados para o contrabando abundante nesta zona da raia. Algum complemento a um salário magro. Histórias de perigos, ousadia, dignidade, persistência e superação. Na aldeia de Santana das Cambas existe um Museu do Contrabando que soubemos estar encerrado.   
Curvo-me perante uma realidade que desconhecia, apenas intuía… Ao olhar para os mineiros envelhecidos e suas famílias passei a vê-los como heróis, príncipes daquela terra, figuras exemplares de cidadania e coragem.

A favor do argumento ontológico

A realidade é um extraordinário abismo de Ilimitado em todas as direções e dimensões. É isto o Absoluto. Não tendo na sua constituição nenhuma descontinuidade, nenhum vazio absoluto (pois nele o nada absoluto [ou Nada] não pode simplesmente ter lugar), o Absoluto é plenitude de Ser. A isto se chega pela simples consideração de que o Nada, precisamente por ser Nada, não existe nem pode existir, pelo que sobra “apenas” aquilo que existe de facto, que é Tudo.

Memórias do Levante

À ideia da raça superior sucedeu a ideia da cultura superior, quase tão maléfica como aquela. E escravizar os seres humanos “inferiores” deu lugar a desvalorizar ou mesmo destruir as culturas “inferiores”. O resultado é que, se ninguém ganhou com isso, a verdade é que a humanidade perdeu e muito

A imagem de Jesus ou a pedagogia do amor

Jesus era negro, mulato, mestiço, cor de tuaregue, certamente não era branco. Este é um facto que não devemos esquecer, apesar das imagens e iconografias tentarem apagar este dado.
Na verdade, todos os cristãos sentimos Jesus como nosso, todas as culturas sentem Cristo como seu e representam-no conforme as suas tradições e conforme a sua cor da pele.

De joelhos os grandes sistemas económicos

Mas – dizem –, se existem catástrofes na economia motivada por um vírus exponencial, a “mão humana” lá está para dar alento a esta tempestade. E essa tem um “confinamento” suave, porque quem sofre são os trabalhadores mais vulneráveis, os informais, os pobres, as mulheres, as pessoas de cor, os migrantes e os refugiados. A violência doméstica aumenta, os direitos humanos são atrofiados e a indústria privada farmacêutica e o seu sistema de patentes é orientada para lucros inconcebíveis, em que a defesa da dignidade das mulheres e dos homens é colocada em causa.

O poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente

Presumir a virtude do sujeito que detém o poder é, para além de naïf, algo injusto. Expor qualquer pessoa à possibilidade do poder sem limites (ainda que entendido como serviço) é deixá-la desamparada nas múltiplas decisões que tem de tomar com repercussões não só em si mesma, mas igualmente em terceiros. E também, obviamente, muito mais vulnerável para ceder a pressões, incluindo as da sua própria fragilidade.

Economista social ou socioeconomista?

Em 2014, a revista Povos e Culturas, da Universidade Católica Portuguesa, dedicou um número especial a “Os católicos e o 25 de Abril”. Entre os vários testemunhos figura um que intitulei: “25 de Abril: Católicos nas contingências do pleno emprego”. No artigo consideram-se especialmente o dr. João Pereira de Moura e outros profissionais dos organismos por ele dirigidos; o realce do “pleno emprego”, quantitativo e qualitativo, resulta do facto de este constituir um dos grandes objetivos que os unia.

O valor da vida não tem variações

Na verdade, o valor da vida humana não tem variações. Não é quantitativo (não se mede em anos ou de acordo com qualquer outro critério), é qualitativo. A dignidade da pessoa deriva do simples facto de ela ser membro da espécie humana, não de qualquer atributo ou capacidade que possa variar em grau ou que possa ser adquirido ou perder-se nalguma fase da existência. Depende do que ela é, não do que ela faz ou pode fazer.

Iniciativa Educação: Uma janela aberta à aprendizagem

Há uns anos – ainda era professora do ensino secundário –, uma pessoa amiga tinha duas filhas com personalidades muito diferentes. Foi chamada à escola do 1º ciclo do ensino básico. A professora disse-lhe que a filha mais nova não conseguira chegar aos objectivos propostos e que caberia a ela, mãe e responsável pela educanda, decidir se a filha deveria passar para o ano seguinte ou não.

Esperança de renovação

Em entrevista recente a um jornal o novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) disse claramente ao que vinha, sem rodeios, o que alimenta alguma esperança de renovação no catolicismo português.

Arte, literatura e renovação cristã

Se falo de um renovador da arte a partir de uma perspetiva cristã, devo recordar o exemplo de Graham Greene (que o arquiteto João de Almeida bem conhecia e admirava). E dou o exemplo de Monsignor Quixote (1982, tradução portuguesa: Europa-América, 1984), o relato de uma viagem à Espanha pós-franquista, num tempo de diálogo com o comunismo e de renovação do catolicismo pós-conciliar.

Comunhão na mão e reverência pelo divino

Comungar obrigatoriamente na mão obrigar-nos-á a cuidar mais da reverência interior em relação ao sacramento, a termos mais atenção ao gesto, à própria limpeza das mãos. Levar-nos-á talvez a fazer mais atos de reparação e de louvor, por aqueles (às vezes nós) mais desatentos ou rotinizados. Mas não fará de nós mais ou menos pecadores do que éramos comungando na boca.

A mula de Santo Inácio e a primeira pedra

Perante este vendaval “purificador” que deseja derrubar estátuas, obras de arte, filmes, livros, mas sobretudo pessoas, porque em determinado momento do seu passado se revelaram menos “puros”, cometeram erros ou foram apenas homens do seu tempo, tenho-me lembrado muito da narrativa do encontro de Cristo com a mulher adúltera, que tantos queriam apedrejar.

Que Igreja na Cidade?

Sempre vivi em cidades e entusiasma-me a vida citadina. Umas mais pequenas, outras mais cosmopolitas, metrópoles… cidades a habitar. Como pároco numa cidade, desde o início se foi percebendo a tensão entre território e pertença, entre centro e periferia, entre identidade e fronteiras. Há dois anos, organizámos as primeiras Jornadas interparoquiais de Pastoral da Cidade para dar luz a um caminho novo que se impõe.

Ler, imaginar, sobreviver

Para vos distrair um pouco do assunto que a toda a hora é notícia, e talvez vos divertir, ofereço este fragmento do romance As Intermitências da Morte, de José Saramago [cujos dez anos da morte passaram no dia 18]. Imaginem que a morte deixava de existir no nosso país. As circunstâncias e as circunstâncias dariam muito que falar. Melhor do que assistir a uma série da Netflix é ler este delicioso livro.    

Manuela Silva nasceu há 88 anos: solidariedade ativa e empenhada

Como os recursos são forçosamente limitados, neste movimento ascensional de produção de necessidades, vão ficando esquecidos os grupos ou povos que, num mesmo país ou no conjunto das nações, não alcançam níveis de poder aquisitivo correspondentes às exigências dos novos padrões. Por isso, a pobreza relativa (em alguns casos, a pobreza absoluta) tem aumentado. Esta a conclusão a que se chega com base na informação estatística disponível.
Há 42 anos já assim se exprimia Manuela Silva.

A religião e os outros

Os profissionais de saúde são dos sectores da população mais atingidos pela covid-19 em todo o mundo, quer pelo perigo de infecção quer pelas consequências do stresse. Mas há formas de combater essa vulnerabilidade emocional.

Ouvir a voz da solidão

Há dois anos, as minhas netas mais velhas iniciaram-se no estudo da filosofia, uma disciplina obrigatória no 10º e 11º anos de escolaridade. E uma delas ofereceu-me pelo Natal uma fotografia com a seguinte legenda: “A filosofia ensina-nos a ouvir a voz da solidão.” Achei curioso que uma miúda de dezasseis anos tivesse a intuição de que a solidão também tem voz e que o isolamento pode constituir uma experiência benéfica de autoconhecimento, algo que nos faz crescer e encarar o mundo de uma outra maneira.

A máscara e o jogo da sociabilidade

Pois é, os nossos sentidos detestam ser apressados, é preciso dar-lhes tempo. O que muitas vezes dizemos não ter. A memória, enamorada pelos sentidos, gosta de pormenores e não de vistas aéreas, exige-nos tempo. Byung-Chul Han, no seu livro A Sociedade do Cansaço, escreve: “Ao desaparecer a descontração, perde-se o ‘dom da escuta’ e desaparece a ‘comunidade capaz de escutar’.”

Programa de estabilização: mensagens implícitas

O Programa de Estabilização Económica e Financeira tem o alto mérito de procurar atender inúmeras carências em vários domínios, através de medidas de curto prazo com perspetivas de inserção e continuação com prazos mais alargados. Apesar disso, contém mensagens implícitas que justificam atenta ponderação. A luta pela subsistência e pela erradicação da pobreza está condenada à marginalização?

A Trindade como reflexo da proximidade de Deus

François Varillon, sj, terá questionado, durante uma conferência, o que mudaria na nossa vida se Deus fosse uma só pessoa em vez de três. A pergunta é extremamente pertinente. Será que a nossa fé seria a mesma? A relação interior que cada um tem com Deus seria igual? Será que nos relacionamos com Deus como nas suas três pessoas? Estas e outras perguntas ficam a ecoar em nós perante esta pergunta provocadora.

O refugiado não é apenas um migrante

Importa perceber que os refugiados são migrantes, mas as razões que os levam a deixar os seus países são bem diferentes e mais dolorosas que as da maioria dos migrantes. Estes, em regra geral, procuram melhorar as suas condições económicas. Os refugiados fogem a perseguições, prisões políticas, torturas, discriminações desumanas…

Uma história simples: os irmãos Ratzinger

A desconcertante e inesperada notícia da viagem a Munique de Bento XVI [quinta-feira, 18 de junho] para acompanhar os últimos momentos do seu irmão George, na sua premente urgência, é de uma comoção quase épica e, certamente, muito poética.

A favor do argumento ontológico – evidência do Absoluto

A convicção que tenho de que a existência ou as existências particulares implicam inevitavelmente uma Existência Primeira necessariamente existente (Absoluta, Infinita, Eterna) não resulta apenas de derivação lógica por regressão dos efeitos às causas, do múltiplo ao uno. Isso seria muito pouco e ficar-se-ia pelo meramente esquemático. É mais do que isso: é uma forma de argumento ontológico.

Eugénio de Andrade: Poeta esquecido?

Neste momento, quem passa por essa casa, sabemos que foi cedida, pela Câmara, à União das Autarquias de Aldoar, Foz, Nevogilde. Mas o conteúdo da tal cultura no pequeno Auditório Eugénio de Andrade, não dignifica muito a obra do Poeta.

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