E como se vive o Natal para lá das grades de uma prisão? Sendo um dos universos que a sociedade portuguesa teima em estigmatizar e em não querer ver e conhecer, o 7MARGENS convidou alguns reclusos a testemunhar como é viver o Natal na condição de reclusão. Recorrendo à intermediação de voluntários da pastoral prisional católica, recolhemos cinco curtos testemunhos nos estabelecimentos prisionais de Custóias (Porto) e de Bragança.
Durante esta semana do Natal, publicamos um testemunho por dia, que nos ajuda a perceber que nas prisões moram pessoas e não proscritos, que ali se sofre e se acredita, que ali se vive a gratidão e a reflexão consciente sobre passados de erros e frustrações e sobre futuros que se esperam diferentes – e melhores.
Boa noite.
Hoje, enquanto o mundo lá fora se veste de luzes e celebra o Natal, estou aqui entre muros.
Consequência das más escolhas e opções. De uma vida de extravagância, desgoverno e excessos, mas também perdas, desgostos e desilusões em que a cocaína tomou conta de mim e da minha vida. Onde a obsessão por mais e mais trouxe-me à cadeia. O tráfico, os esquemas, enfim, tudo isto para abafar e preencher o vazio.
Nesta altura já se tinha perdido aquele menino de calções que acordava com vontade de ir para a escola aprender coisas, ou aquele rapaz que na adolescência aparecia nas capas de revistas ou jornais.
Hoje, mesmo estando em reclusão, sou um homem livre por dentro, livre de pensamento.
A música e a escrita são o meu refúgio e o meu hobby, pois acredito piamente que a mudança é possível e como tal continuo a construir futuro, dignidade e sentido.
Prisão é prisão, onde tudo é frio, desde as grades, ao ferrolho da fechadura, das pesadas voltas na chave às paredes cinzentas, ao clima triste e pesado.

“Prisão é prisão, onde tudo é frio, desde as grades, ao ferrolho da fechadura”. Foto: Direitos reservados
Este é o meu quarto Natal na cadeia, limpo e sóbrio, o que me faz viver as coisas e a época com maior lucidez; por isso sinto-me nostálgico e saudoso.
Hoje o tema abordado na capela do Estabelecimento Prisional foi o Natal, o nascimento de Jesus, o que me trouxe imensos sentimentos e recordações. No entanto, sinto-me grato por ter a minha nova família: os visitadores/voluntários que me acompanham ao longo de todo o ano e em particular nesta época tão forte em que a família de sangue está ausente. Com um simples abraço e uma palavra amiga, conseguem aconchegar o meu coração. Na verdade, sou um privilegiado e só tenho mesmo que me sentir grato, por tudo o que tenho e pelo sítio onde me encontro.
O ditado é velho: “Há males que vêm por bem.” E eu acredito que esta reclusão foi uma oportunidade para me reencontrar comigo mesmo.
Neste momento, mesmo estando em reclusão, estou num centro de tratamento, chamado ULD – Unidade Livre de Drogas, dentro do Estabelecimento Prisional do Porto (Custóias), local onde me encontro há quatro anos. Sendo um dos responsáveis por esta unidade, a minha função, entre outras, é ajudar todos aqueles que pretendem ajuda aquando da sua entrada aqui no Estabelecimento Prisional. Sinto que ao fazê-lo estou a ajudar-me a mim mesmo também e sinto-me bem com isso.
Por isso, esta época natalícia passo-a atrás das grades, com um grupo de doze homens (reclusos) que lutam diariamente por um futuro diferente e melhor; mesmo sentindo a nostalgia e a saudade, consigo ver o lado positivo e sentir-me grato, porque não estou só!
O meu obrigado pelo convite de poder partilhar convosco um pouco de mim e da minha vida.
Desejo a todos os leitores um bom Natal e um Ano 2026 cheio de Saúde, Paz e sucessos.
Custóias, 20 de Dezembro de 2025
J.V.










