No Starbucks dos Restauradores não vemos Fernando Pessoa ajeitar os óculos, mas um rodopio de nações. Gente de todos os cantos, unidos pelo sabor do café industrial. Falta, porém, a bica numa chávena ligeiramente encardida, marca do uso.
Quem são estas pessoas que circulam de fones, alheias ao peso da história? Séculos de vidas já palmilharam esta calçada, que deixou de ser apenas portuguesa para ser do mundo inteiro. O Quinto Império cumpriu-se, mas não como potência espiritual: somos agora o império das agências de viagem, de um destino de catálogo — sem cicatrizes, sem autenticidade. Uma Lisboa de postal, estranhamente igual a tantas outras cidades padronizadas do velho continente.
Já não criamos como outrora, quando os poetas ainda cantavam a esperança do futuro. Tornámo-nos empregados de balcão, a servir cafés aguados a quem já não tem tempo para tomar uma bica como manda a lei.

“Mas talvez a vida urbana seja precisamente o contrário: uma sucessão de ruídos, desigualdades e caos. E, ainda assim, quem sabe se não é nesse caos que aprendemos a reconhecer o que é verdadeiramente belo e bom.” Foto © Daniel Zgombic
Um pedinte abre a porta do Starbucks, cartaz na mão. Seguro-lhe a porta. Ele devolve-me um sorriso pífio, mas os olhos emanam um brilho raro. Não me pediu dinheiro. Só queria que alguém lhe abrisse a porta. Bela metáfora: a esperança como presente, mais valiosa do que o vil metal.
Lisboa está inundada de pedintes. Encontrei uma antiga colega do secundário: “Excuse me, do you have any coins?”. “No”, respondi secamente. No instante seguinte, ergueu os olhos no centro de uma cara dilacerada pela “má vida” e pela dureza das ruas: “Estudaste na ESA?”. Respondi que sim. Enumerou antigos colegas e acrescentou: “Eu sou a Joana, mas com o cabelo mais curto”. Não quis dizer nada. Mas não era só o cabelo mais curto.
Fiquei com essa imagem na cabeça durante todo o dia. Como pode uma cidade tão imperiosa conviver com tanta desigualdade? São escolhas da vida, dirão alguns. Mas ninguém devia ter de escolher um caminho miserável. Lisboa parece uma empresa, e a sociedade um sistema antigo, como um jogo implacável para quem não se adapta às regras.
Depois desse dia, ficou a ecoar-me a lição de Platão em O Banquete, pela voz da sacerdotisa Diotima: “o amor é o desejo de possuir o bem para sempre”. Também eu gostaria que o bem e o belo fossem eternos. Mas talvez a vida urbana seja precisamente o contrário: uma sucessão de ruídos, desigualdades e caos. E, ainda assim, quem sabe se não é nesse caos que aprendemos a reconhecer o que é verdadeiramente belo e bom.
Pedro Castro Gomes, licenciado em Comunicação Social pela Universidade Católica Portuguesa, é natural de Lisboa e trabalha como Analista de Media.










